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CENAS TIJUCANAS

O tijucano é, por excelência, um fanático por seu pedaço de terra. Não vou aqui repetir aquele raciocínio modorrento que diz que o tijucano é o único, dentre todos os moradores de todos os bairros do Rio de Janeiro, que se denomina, se apresenta, se exalta, pelo nome do bairro. O que é fato inconteste é que o tijucano até enxerga vida além do túnel, mas uma vida que precisa ser vivida muito rapidamente e mesmo assim dentro de certas inflexíveis regras, e explico. O tijucano quer ir à praia; é evidente que ele precisa atravessar o túnel para sentar-se na areia diante do mar. Mas ele, sobretudo, só vai à praia no local onde há evidente concentração de tijucanos. E anseia, a cada mergulho, pela cervejinha no buteco ao lado de casa, depois da praia. Eu, por exemplo, a vida inteira, fui à praia em apenas dois lugares: quando eu namorava uma moça que morava na Barra, nos idos dos anos 80, ia à praia da Barra diante do “três e cem”, que é como era conhecido aquele trecho da areia em frente ao número 3.100 da avenida Sernambetiba, hoje avenida Lúcio Costa. Eu tomava o 233, ou o 234, na Tijuca, e subia o Alto da Boa Vista para encontrar exilados como eu – tijucanos, quase todos. Eu me sentia, confesso, num leprosário. As pessoas passavam – os novos-ricos da Barra, sobretudo – e nos olhavam com cara de nojo, que a Tijuca e seus moradores sempre sofreram hediondo preconceito por parte dos demais. Depois, quando passei a ir à Ipanema, fincava meus pés diante da barraca do Mineiro, o bom e doce Miguel, onde encontrava vizinhos, moradores do bairro, tijucanos – quase todos.

Tudo isso para lhes dizer que o tijucano é um radical. Essa segregação que sofremos desde o berço faz de nós uma espécie de exército da auto-salvação, como modus operandi necessário à preservação de nossa espécie. Somos radicais, e é sobre um radical – seu Brasil – que quero lhes falar hoje.

O seu Brasil, de quem já lhes falei algumas vezes, mora desde o final da década de 60 num prédio que fica na esquina da Haddock Lobo com a Caruso, que é a rua com a maior concentração por metro quadrado de construções art déco, o que nunca chamou a atenção da preconceituosa imprensa carioca. Em razão da geografia, o seu Brasil freqüenta o bar da esquina – hoje é o bar do Marreco – diariamente. E desde a década de 60. Homem de hábitos simples, grosso como poucos, não foram poucas as vezes que ouvi o seu Brasil esbravejando diante do balcão:

– Freqüento esse bar há mais de 50 anos. Nunca houve um dono tão ruim, tão estúpido, tão burro como esse Marreco! – e gritava isso com o polegar apontado em direção ao pobre-diabo.

O mais hilariante, após a agressão, sempre foi a reação dos demais cabeças-branca:

– O Brasil fala isso há mais de 50 anos, pra todos os donos dessa espelunca!

Vamos ao que quero lhes contar – envolvendo radicalismo.

Dia desses houve rodada do Brasileirão numa quarta-feira à noite. Antes de prosseguir, me permitam a construção do cenário.

O bar do Marreco tem duas televisões. Uma, grande, de 29 polegadas, que fica bem diante do balcão, no alto. Outra, pequena, de 14 polegadas, que fica nos fundos do bar, ao lado da entrada do banheiro. Sempre que há dois jogos envolvendo times cariocas, cada TV passa um jogo diferente. Já houve, ali, assembléias capazes de transformar a tribuna do Senado Federal em brincadeira de criança, sempre para decidir o método a ser empregado em dias de jogo.

– A TV maior passará o jogo do time que contar com o maior número de torcedores presentes no bar, contados 10 minutos antes da partida!

– A TV maior passará o jogo do time que melhor colocado estiver na tabela!

– A TV maior passará o jogo do time que contar com o maior número de torcedores presentes no bar, contados uma hora antes do apito inicial!

E o troço ganhava proporções de reunião do Conselho de Segurança da ONU. Nunca chegou-se à conclusão alguma, é essa a verdade. Mas é verdade, também, que é sempre o jogo do Flamengo que passa na TV maior. Ou porque é sempre a maior torcida presente, ou porque o Marreco é Flamengo, por aí.

Ocorre que, dia desses, lá estava o Brasil, diante do balcão, horas antes do jogo. Estava visivelmente de mau-humor. E deu de fazer a ameaça:

– Hoje vai passar o jogo do Vasco na TV maior e não se fala mais nisso. Eu venho nessa merda há mais de 50 anos, pô! Hoje eu não abro mão disso!

Houve vaia, apupo de auditório, o Marreco riu, o seu Brasil fechou a cara:

– Tô falando sério. Quem paga essa bosta de pacote da NET sou eu. Confessa aí, Marreco, safado! Hoje é o Vasco na TV grande!

O tempo foi passando, o bar foi enchendo, e deu-se o banzé. Minutos antes da partida o Marreco sintonizou a TV grande no jogo do Flamengo e pôs o jogo do Vasco pra passar na pequenina. O seu Brasil recebeu um Exu e saiu rodopiando pelo bar, cuspindo cachaça na direção da assistência. O Jair, rubro-negro, um poltrão olímpico, ainda fez o apelo:

– Marreco, troca aí. Só hoje…

Foi vaiado.

Os jogos rolando e seu Brasil fumando desbragadamente de olhos fechados, as mãos pra trás, dando consulta a quem recorria ao seu Tranca-Rua. Uma enfermeira do Salgado Filho, que sempre bate ponto no Marreco, deu a sentença:

– É seu Tranca-Rua, não tenho dúvida!

Veio o intervalo e seu Brasil, ainda incorporado, postou-se diante do balcão. Chamou o Marreco pra perto e soltou uma pesada baforada na fuça do caboclo. Bateu palma alto, as mãos em concha, aquele som seco pedindo silêncio. E mandou, na lata:

– Meu filho… Meu cavalo, o seu Brasil, nunca mais!, nunca mais!, tá ouvindo?, nunca mais põe os pés nesse terreiro! Nunca mais! – e era um grito de trovão, de dar medo.

Riscou no chão, com os pés no papel de pemba, seu ponto e gritou:

– Tá ouvindo, filho da puta?

O Marreco, branco como eu nunca vira, os olhos saltados pra fora como duas bolas de gude opacas, disse, trêmulo:

– Eu ponho o jogo do Vasco pra passar na maior, moço, no segundo tempo…

– Moço? Moço, não! Moço, não! – e deu de rir feito Exu-Caveira.

Seu Brasil, ainda no papel de cavalo, deu de rir e saiu dançando do bar, tomou a direção de casa e sumiu.

E é o seguinte, meus poucos mas fiéis leitores: isso já tem mais de dois meses. Seu Brasil passa por ali – caminho inevitável – todos os dias. Nem olha pra dentro do bar. Eu mesmo já vi o Marreco fazendo os mais patéticos apelos. Jurou comprar uma LCD gigantesca só pro velho, assinar o pacote da NET em HD, prometeu cerveja de graça durante seis meses, e nada de dobrar o bom Brasil que, é claro, cancelou o pagamento da mensalidade da NET – vivemos da vaquinha que fazemos entre os freqüentadores – e diz, pra quem quiser ouvir:

– Nunca mais ponho os pés naquele terreiro. Nunca mais!

Tijuca, meus caros, em estado bruto!

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O RIO, POR LUIZ ANTONIO SIMAS

Já que falei hoje, mais cedo, aqui, sobre o Rio de Janeiro, essa cidade absolutamente fora de série, decidi transcrever alguns trechos de uma recente entrevista que demos, eu e Luiz Antonio Simas, professor maiúsculo as 24h do dia, justamente sobre o Rio. É evidente que as transcrições são todas de falas do Simas, que estava, inclusive, emocionadíssimo nesse dia. Exaltou-se, falou alto, foi veemente quando expôs, de forma despudorada, sua paixão pela cidade em que vive.

“Quando eu falo pra alguém conhecer o Rio de Janeiro, a primeira coisa que eu digo é o seguinte: já é uma cidade interessante pra você conhecer, porque é uma cidade absolutamente improvável. Se você observa, por exemplo, a característica da geografia do Rio, aqui não era pra você ter cidade nenhuma! Porque isso aqui era pântano, era montanha, era alagadiço, era o mar invadindo tudo… Então pra você construir uma cidade aqui, você teve que furar morro pra fazer túnel, você teve que drenar pântano, então é uma cidade absolutamente inusitada. E eu acho que o Rio é a cidade mais sincera do Brasil. Por que? Por conta dessa geografia muito peculiar do Rio… a montanha, o mar… O Rio é uma cidade, por exemplo, que não tem aquela noção clássica de periferia. Quando você chega, por exemplo, a São Paulo, a Belo Horizonte, você tem um centro, você tem uma região que é habitada por uma classe média, por uma classe média-alta, e aí você vai lá pro inferno e lá no inferno você tem a periferia…. A periferia do Rio de Janeiro tá dentro da cidade! O Leblon, que é o bairro de IPTU mais caro, Ipanema, que tem IPTU mais caro… Só que Ipanema tá convivendo com o Pavão-Pavãozinho, o Leblon tá convivendo com o Vidigal, aqui na Tijuca a gente tá convivendo com o Borel, tá convivendo com a Formiga, tá convivendo com o morro do Salgueiro, a gente tá convivendo com o Turano, a gente tá convivendo com a Casa Branca… E isso deu ao Rio de Janeiro uma peculiaridade cultural absolutamente maravilhosa… Isso é muito sério! Quando o Noel Rosa morreu, que é um ícone da nossa cidade… o Zé Ramos da Mangueira fez um samba pro Noel Rosa! O Noel Rosa era o branco, o Noel Rosa era o estudante de Medicina, o Noel Rosa era o aluno do São Bento que subia o morro da Mangueira porque era do lado da Vila Isabel, onde ele morava, um bairro que tinha operário, que tinha classe média… Aí o Zé Ramos faz o samba quando o Noel morre, ele diz (cantando):Chegou a capital do samba / Dando boa noite com alegria / Viemos apresentar o que a Mangueira tem / Mocidade, samba e harmonia / Nossas baianas com seus colares e guias / Até parece que estou na Bahia”. Aí ele diz: “Da cidade alta da Mangueira / Avisto a Vila, sinto saudades de alguém…”. Sinto saudades de alguém! É o Noel! É do Noel! Ele tá lá do alto do morro da Mangueira, e da cidade alta da Mangueira ele enxerga Vila Isabel! Ele enxerga o bairro onde viveu o sujeito de classe média, o Noel Rosa…Que aí subiu o morro, e aí o morro desceu… Então isso deu ao Rio de Janeiro uma peculiaridade! A nossa cidade é uma cidade única! É uma cidade que misturou tudo, é uma cidade de cultura de fronteira, é uma cidade em que a periferia tá dentro dela, o Rio de Janeiro não é uma cidade covarde! Todas as críticas que fazem à minha cidade do Rio de Janeiro são críticas que me fazem cada vez mais gostar do Rio de Janeiro! Porque o Rio de Janeiro não esconde! O Rio de Janeiro é aquilo que ele é mesmo! Eu chamaria um sujeito pra conhecer o Rio de Janeiro, primeiro, pra conhecer uma cidade que é rigorosamente peculiar. Você não vai encontrar outra com essa característica que o Rio tem!

A formação do Rio é muito parecida com Salvador, com São Luis do Maranhão, com o Recife… Na verdade, foram os grandes portos de recebimento de escravos no Brasil… Se você considerar que a gente teve 388 anos de escravidão, quase 4 séculos, a cidade é essencialmente uma cidade de rua, uma cidade negra, que tem essa característica…Aqui, pro Rio, vieram muitos bantos, depois chegam os yorubás, e os saberes africanos tem uma característica peculiar que é a seguinte: a cultura, a vida, ela se passa muito no espaço da rua, no espaço do mercado, a casa é um detalhe! Então o Rio de Janeiro tem uma tradição que eu acho que herdou da África… como Salvador tem, como São Luis tem… como Havana, em Cuba, tem… Esse detalhe é interessante… é uma cidade de rua, é uma cidade de mercado, em que o encontro é no espaço público… De certa maneira, o espaço de civilização entre os africanos é o espaço público. A vida ali se passa na rua… Você chega à Nigéria, à Angola, ao Congo, a rua é o espaço de convívio. E o Rio é uma cidade de rua, as coisas acontecem na rua, é a cidade do mercado, da feira… o Rio é uma das quatro grandes cidades do Brasil que eu chamo de cidades que têm como patrono, Elegbara, Exu… a entidade que cuida da rua, da esquina… Daí a ligação com Salvador, que é conhecida como a Roma Negra…

Se você chegasse no Rio de Janeiro em 1910, você ia observar o seguinte: está surgindo o samba urbano, tal como o conhecemos hoje, como manifestação cultural de comunidades negras… quem faz samba em 1910 é o preto! É o cara que tá batendo tambor, são as macumbas na casa da Tia Ciata, tá rolando aquele babado entre os negros. E o futebol era praticado rigorosamente por branco. Então em 1910, é o branco joga bola e é o preto faz samba. Se você viaja um pouquinho no tempo e chega ao início dos anos 30, o grande ídolo do futebol no Rio de Janeiro é um preto, é Leônidas da Silva, e o grande sambista é um branco de classe média, o Noel Rosa. O Rio é a cidade que permitiu ao branco fazer samba e ao preto jogar bola! Os dois se conheceram, porque o Leônidas chegou a morar em Vila Isabel, o Noel era de 1910, o Leônidas de 1913… É uma circulação tensa e intensa…”

É por isso que eu sempre digo e agora repito: sou um sujeito de sorte por desfrutar do convívio com esse brasileiro máximo que é Luiz Antonio Simas!

Até.

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SALVE, O RIO DE JANEIRO!

“Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”. Foi como acordei hoje, com gosto de sangue na boca, com dores de corte na carne, com uma saudade indizível e determinado a (re)começar, minha sina, eu acho, desde 1969, e lá se vão mais de 42 anos de tropeços e de um compromisso permanente no sentido de me manter bem, animado, aprumado, feliz na medida do possível, que aos 42 anos não tenho mais a tola ilusão de que a felicidade é constante – não é. O ânimo, sim, e não quero, e não posso, e não vou perdê-lo. Sou, afinal e sobretudo, um homem que faz planos e fazer planos é manter-se vivo, na mais ampla acepção da palavra, e meu plano de hoje incluía mudança abrupta nos rumos da minha condução de vida no que diz respeito, precipuamente, à saúde. Foram muitos anos fumando, foram muitos anos bebendo de forma desregrada, foram muitas noites em claro, foram muitos os atropelos, os sustos, as dores, foram incontáveis também os colos que me chegaram, os melhores sustos, as melhores surpresas, os melhores amores. Sempre soube subverter as chamadas curvas descendentes e reverter isso era, como já lhes disse, meu plano de hoje.

Eu já estava caminhando, todas as manhãs, aqui mesmo na Tijuca. Ninguém mais tijucano que eu, mas não é exatamente, a Tijuca, o cenário ideal para o exercício das manhãs. Fui dormir decidido a pegar o carro bem cedo e atravessar o Rebouças para caminhar na Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos mais bonitos – se não o mais bonito! – pedaços da cidade.

E fui, confesso, durante os quase 90 minutos que levei pra dar uma volta inteira no espelho d´água, um sujeito em estado de graça diante da beleza estupenda que há de sobra na Cidade Maravilhosa.

Às 6h11min da manhã, depois de exatos 10min entre a Tijuca e a Lagoa, eu já estava com o carro estacionado na altura da Fonte da Saudade, quando não me contive: tive de fazer a primeira fotografia do dia. O Morro Dois Irmãos, a Pedra da Gávea, e essa intensa luz absurda que “quase arromba a retina de quem vê”.

Mais à frente, já na altura da Curva do Calombo, pouco depois da baia de treinamento do remo do Botafogo, outra visão estonteante: os mesmos morros, agora refletidos nas águas da Lagoa me davam a certeza da minha escolha, tão simples, tão ao alcance das minhas mãos, tantas vezes adiada…

Caminhando ainda mais, cheguei na altura do Corte do Cantagalo, próximo ao pier de onde saem os tradicionais pedalinhos. O sol dava sinais de que subiria, em poucos minutos, por trás do Corte,  e já eram outras as cores dos morros, dos prédios, já era outra a cor do espelho d´água, e eu ali já suava de forma abjeta. Caminhar ali, naquele ritmo, sem os sinais de trânsito que eu enfrentava na Tijuca, sem a necessidade de atravessar as ruas, parando apenas para ganhar fôlego, fotografar e beber água de côco, foi um prêmio que me permitirei usufruir de hoje em diante.

Estava eu na altura do Caiçaras, próximo ao Canal do Jardim de Alah, caminhando em direção à Fonte da Saudade, de costas para o Corte, quando percebi uma boa quantidade de pessoas – muita gente caminha na Lagoa, por óbvio! – fotografando algo por trás de mim.

Virei-me e era o sol, gigantesco, sem nuvens à sua frente, subindo por trás do Corte do Cantagalo.

Quase uma hora após o início da caminhada, parei pra beber uma água de côco em frente à Hípica, pouco depois do Clube Naval, paguei 3 reais num côco geladíssimo, chorei um bocado – sou incorrigível, pioro a olhos vistos… – e senti o sopro da satisfação por estar vivendo, mais uma vez (foram tantos, e tantos, e tantos…) um recomeço.

Ri de mim mesmo quando perguntei a ela, mentalmente (para evitar que o vendedor de côco me pusesse, com razão, na conta dos loucos), se eu estava cumprindo minha palavra, caminhando àquela hora, na Lagoa, em busca do melhor pra mim.

Uma hora e 24 minutos depois, cheguei ao ponto de partida.

Suando em bicas.

Cansado, mas feliz.

E sentindo-me um privilegiado por viver aqui, na cidade mais bonita do mundo.

Até.

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OS BOTEQUINS CARIOCAS

Dia desses eu estava ancorado no balcão do Rebouças, tremendo pé-sujo no Jardim Botânico, com meu compadre Leo Bochat. Contou-me o Leo o que me pareceu ser uma notícia alvissareira, embora nem ele mesmo soubesse confirmar a coisa: mas parece que o Poder Público, mais precisamente a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, está para organizar uma série de debates visando preservar, de verdade (e já explico o “de verdade”), essa verdadeira instituição brasileira, carioquíssima por natureza: o botequim. Eu disse “de verdade” porque essa mesma Prefeitura, há muitos anos, lançou o hoje controverso Guia Rio Botequim, legítimo quando nasceu e deformado ao longo dos anos. Explico, mais: com o passar do tempo, patrocinadores, investidores, homens de marketing (um dos maiores males do último século), em nome da preservação do botequim, passaram a destruir, sem dó nem piedade, o legítimo pé-sujo carioca em nome da modernidade e da adequação do espaço às exigências dos consumidores (que jamais freqüentaram botequins, diga-se de passagem). Arrisco dizer que tratar o botequim como espaço de consumo é o mesmo que tratar o futebol como entretenimento. Vai daí que começaram a pipocar discursos absolutamente impensáveis para o troço: um que se dizia amante dos botequins mais vagabundos passou a se preocupar mais com o limão do mictório do que com o limão da casa; outro, que se dizia um ferrenho bebedor de Brahma, de Antarctica, passou a exigir carta de cerveja nos butecos; outro, ainda, passou a exigir treinamento para os atendentes de balcão… e a coisa foi degringolando, o tal Guia Rio Botequim passou a ser um verdadeiro “vade-mécum de otário”, como diz meu mano Fernando Szegeri, e fomos vendo desaparecer, aos poucos, inúmeros botequins que eram verdadeiros patrimônios da cidade, a segunda casa do povo mais simples, mais humilde, que tem no botequim, como afirma o brasileiro máximo, Luiz Antonio Simas, seu espaço de discussão, de vivência, de convívio, de resistência.

O que parece ter movido o Poder Público para pretender organizar as tais discussões foi justamente esse susto, que pode ter sido tarde: não há mais a Casa Brasil, na Praça São Salvador, nem a Adeguinha, que ficava ao lado, ambas engolidas pela sanha do Belmonte, a grande rede que estuprou, primeiramente, no princípio de suas atividades nocivas e assassinas, o legítimo Belmonte, na Praia do Flamengo, para ali erguer a primeira de suas lojas (sim, são lojas), hoje espalhadas pela cidade, como metástase. Não há mais um sem fim de pés-sujos na Lapa, totalmente descaracterizada por mentiras em forma de bar, igualmente como metástase.

Resiste, entretanto, um ou outro estabelecimento. Resiste o Bar Brasil, na Mem de Sá, mas até quando? Resiste o Armazém Senado, mas até quando? Resiste o Bar Rebouças, mas até quando? Parece que nasceu daí a iniciativa da Prefeitura, que buscará meios efetivos para proteger esse grande patrimônio da cidade do Rio de Janeiro. E faço breve digressão, de novo, sobre esse portento que é o pé-sujo (há tempos não falo sobre o tema).

“Buteco é templo”, é frase lapidar e conhecida, de Aldir Blanc. É o “hospital das almas”, numa apaixonada e exagerada definição de Felipe Quintans, nosso Cereal. Essa instituição, carioca por natureza, está por aí, no Brasil inteiro, como porto seguro de gente que gosta de gente – não de pose. Estive em Campinas, por exemplo, no ano passado, e Bruno Ribeiro levou-me a seu pé-sujo preferido, e ali estava o Brasil em estado bruto, e ali senti-me em casa. Em São Paulo, há uns meses, Fernando Szegeri apresentou-me o bar da dona Lola (não sei o nome do bar, nem mesmo sei se há nome para o bar, e eis aí uma das características do genuíno pé-sujo), e ali também estava o Brasil a escorrer das paredes e do imenso balcão de mármore, cada vez mais uma raridade. Aqui no Rio, no meu pedaço, na minha Tijuca, são muitos os que resistem bravamente à modernidade – mas até quando?, eu me pergunto.

Só no meu pedaço, no meu entorno, há o Matosinho, o Rex, o Almara, o Gonzaguinha, o Trás-Os-Montes, o Marreco, o Estudantil, o Rio-Brasília, o Nova America, o Columbinha, o Céu na Terra, o Pink, o Buteco do America, o Bar do Chico. Espaço de convívio de gente comum, pais-de-santo, paus-de-arara, passistas, flagelados, pingentes, balconistas – salve, Aldir Blanc!, de novo e sempre -, manicures, motoristas e trocadores de ônibus, biscateiros, apontadores do jogo do bicho, andrajos, advogados, jornalistas, gente que não quer nada além de uma cerveja gelada, um tira-gosto honesto, de um balcão pra apoiar o cotovelo pra jogar conversa fora, ver o futebol e discutir política, mulher, religião e tantas outras questões capazes de, naquele ambiente, salvar o mundo.

Torço muito pra que dê certo a iniciativa da Prefeitura – a ser verdadeira a informação que me foi passada pelo Leo Boechat. O Rio de Janeiro, penhoradamente, agradece.

Até.  

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ARMAÇÃO DOS BÚZIOS

Estive, como anunciei aqui, no último final de semana, em Búzios, na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro, na mais que aprazível Armação dos Búzios, e ainda tive a oportunidade de ir à Arraial do Cabo e a Cabo Frio, cidades que compõem aquele pedaço absolutamente fabuloso do Rio de Janeiro, distante pouco mais de uma hora e meia da capital. Pedi emprestada a casa de uma amiga que fica praticamente nas areias de Geribá, e pra lá parti, no final da tarde de sexta-feira, na melhor das companhias em busca de três dias de sol e sossego – no que fui absolutamente feliz, objetivo mais que cumprido.

O engarrafamento monstro na Ponte Rio-Niterói não teve a capacidade de me tirar o humor, mote absoluto do final de semana. Chegar em Búzios, paraíso trazido à tona depois da famosa viagem de Brigitte Bardot, a primeira delas em 1962, foi ter a certeza de que eu viveria ali, naqueles dias, momentos que me fariam, uma vez mais, agradecer aos deuses pelos desenhos que dão forma à minha vida. Cantar, como me disse Orunmilá, através de meu mano Luiz Antonio Simas, essa é minha sina.

Pois eu cantei, ainda que apenas eu ouvisse, quando tomamos a direção da rua das Pedras para jantarmos. Rodamos ali, fomos parar na Orla Bardot, e depois de duas tentativas-fiasco (um restaurante japonês cujo sushiman estava de férias! e um outro no qual se apresentava um sujeito com voz [péssima] e violão [mal tocado]) fomos ao Sawasdee, fabuloso restaurante de comida tailandesa inaugurado em Búzios em 1997. Sensacional.

O sábado amanheceu mais-que-azul e tomamos a direção de Arraial do Cabo, na Prainha, uma das mais lindas praias da região. Mar calmo, águas entre o azul e o verde, e depois de algumas horas por ali tomamos a direção da Praia do Forte, em Cabo Frio, onde ficamos até o meio da tarde, quando voltamos a Búzios, para a praia da Ferradura que, se estava ligeiramente suja por conta de alguma corrente, também não foi capaz de me tirar o sorriso do rosto e a capacidade de cantar.

O anoitecer em Geribá deu-me a certeza de um domingo ainda mais bonito, e amanhecemos na ainda selvagem praia da Tartaruga, penúltimo destino antes de mais uma ida à praia de Geribá, diante de casa. Piscina, meu canto íntimo e particular pra Rainha do Mar – Odoya! – banho, e a volta pra casa premiada por um pôr-do-sol de cinema visto da Ponte Rio-Niterói.

Esse sou eu, meus poucos mas fiéis leitores, percorrendo os caminhos que aparentemente são tortuosos, doídos e generosos – sobretudo! – em busca da intensa luz que me foi anunciada e que não tem me faltado.

Se tem um passeio que eu recomendo – sempre, sempre, sempre! – é esse: o Rio de Janeiro, como se não bastasse a beleza da cidade, da capital, tem na Região dos Lagos um tesouro a ser permanentemente explorado.

Até.

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CENAS TIJUCANAS

Corria sei lá que domingo, não lembro nem a fórceps. Sei que era dia de Flamengo – e também não consigo me lembrar do adversário… – e dia também de jogo do Vasco, o que significa dizer que o Bar do Marreco, meu camarote preferido em nove dentre dez jogos, estava fervilhando de gente. O Marreco, um desses donos de botequim que parece ter sido criado pelo ficcionista, anunciou, pouco antes do começo do Brasileirão 2011:

– Rapaziada, assinei hoje o Net Congo! – que “combo” é palavra desconhecida do caboclo.

Eu havia cumprido o ritual de todos os domingos: havia ido à feira bem cedo, ao Mundial, ao Aconchego Carioca, marquei de almoçar no Rex com Felipinho e Leo Boechat e chegamos no bar pra ver o jogo faltando – o quê?! – menos de dez minutos pro começo da partida. Vamos ao cenário.

O bar tem uma TV de 29 polegadas que fica bem diante do balcão. No fundo, uma pequena, de 21 polegadas, que passa sempre um jogo diferente. Como Flamengo é Flamengo, o jogo do mais-querido passaria na TV maior, o do Vasco na TV dos fundos. Havia umas quarenta pessoas espremidas no recinto. Hino nacional sendo cantado na TV. Eu disse ao Marreco, já debruçado no balcão:

– Marreco! Empresta uma tomada pra carregar meu celular!

Sabe-se lá se antevendo a tragédia, disse o Marreco pro Boechat:

– O cara parece que não paga a conta de luz… vem todos os dias carregar esse celular aqui… – e não me respondeu. Passou por mim como uma flecha.

Determinado a carregar o telefone, que se esvaía, debrucei-me sobre o balcão e me deparei com um comovente emaranhado de fios diante de mim. Ao mesmo tempo em que disse – “Vou carregar aqui!” – encaixei o macho da tomada do carregador na fêmea de um dos benjamins espetados na tomada da parede (eu disse “um dos benjamins” porque eram uns 3 ou 4, um encaixado no outro, verdadeira armadilha à espera da tragédia incendiária). Faltavam menos de dois minutos pro começo do jogo, os times já se encontravam posicionados, a tensão pairava sobre as cabeças da assistência. No que espetei o carregador, deu-se a explosão. Não fui arremassado pra calçada porque fui escorado pelo Boechat. Subitamente, breu absoluto no bar. Silêncio. Não se ouvia as TVs, que desligaram. Não se ouvia o ronco do motor das geladeiras. Não se ouvia um pio vindo da assistência, assombrada diante do estrondo. O Leo, com as mãos na cabeça, sussurrou no meu ouvido:

– Não fosse a sua moral aqui e você estaria sendo linchado…

De fato era essa, a cena: eu estava cravado por mais de oitenta olhos que espumavam de ódio (a primeira foto abaixo não engana, eu e minha cara de “fiz-merda”, com o carregador ainda na mão!), mas ninguém foi capaz da agressão verbal. O Marreco me olhou com olhos de piedade. O Borracha, eletricista, na segunda foto abaixo, de camisa listrada, pediu calma do alto de seus mais de dois metros e passou a dar instruções ao próprio Marreco, desolado do lado de dentro do balcão, e ao Jair (ambos na mesma segunda foto), freqüentador honorário (o Jair está com a camisa do Flamengo), que pôs a mão na massa de fios derretidos.

O Borracha fez o possível e, é fato, em menos de cinco minutos as TVs estavam funcionando – com um adendo gravíssimo, entretanto: foi preciso fazer uma gambiarra (mais uma, diga-se) que obrigou o Marreco a manter a geladeira desligada para manter ligadas as TVs. Aí sim a cuíca começou a roncar:

– Ô, Marreco! A cerveja vai ficar quente, imbecil? – são doces, os freqüentadores do Marreco.

A tarde ainda reservava surpresas. Com menos de 15 minutos de jogo, a TV menor, a que passava o jogo do Vasco, do nada, aparentemente sozinha, passou a transmitir o insuportável programa do Fausto Silva. Foi quando caiu por terra o mito do pay-per-view do Marreco. Diante do justificado protesto da torcida cruzmaltina, apontando para um fio que rasgava o teto do bar, o Marreco disse, de olhos baixos:

– Essa TV é gato puxado da casa do seu Brasil…

Foi vaiado.

Um vascaíno foi pra calçada e gritou, olhando pra cima:

– Ô, Brasil! Põe no jogo do Vasco, porra!

O bom Brasil o atendeu. Palmas nos fundos do bar.

Veio o intervalo. E um grito:

– Desliga a TV e liga a geladeira! A cerveja está esquentando!

E assim foi feito.

Jogo terminado – o Flamengo venceu, o que fez com que os contratempos fossem absolutamente relevados -, ainda desceu o seu Brasil com duas panelas gigantescas, uma com camarão frito e outra com arroz de frutos do mar.

A título de curiosidade: a tomada do microondas, a tal que eu explodi, continua lá, do mesmo jeito, à espera da próxima tragédia.

Isso é Tijuca, meus poucos mas fiéis leitores.

Tijuca em estado bruto.

Até.

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CENAS TIJUCANAS

(publicado no Jornal do Brasil em agosto de 2008)

Meu compadre Leo Boechat, pai da pequena Helena, ela que é minha mais recente paixão derramada, é testemunha auditiva (e vocês entenderão mais à frente porque não digo “testemunha ocular”) do que vou lhes dizer, sem medo do erro: na Tijuca tudo se vê, tudo se sabe, e segredo é um troço que não existe. Um dia desses, há coisa de – o quê?! – uns dois anos, o maior conhecedor de cervejas estrangeiras que conheço, resolveu fazer um bonito com a então namorada, hoje sua mulher, justamente a mãe da pequena e doce Helena. Em um sábado pela manhã, fazia um tremendo sol, tomaram o metrô em Botafogo em direção à Tijuca, de mãos dadas – ele é um romântico. Leo prometera apresentar à namorada a mais fabulosa empada de camarão da paróquia. Notem bem que reside, em seu gesto, uma profunda, comovente e destemida declaração despudorada de amor. O Leo não pode nem sentir o cheiro de camarão que inicia, de pronto, um processo gravíssimo de edema agudo de glote, desses fatais. Mas vamos em frente. Saltaram na estação Afonso Pena, reconheceram o terreno – velhos, velhas, crianças, babás, vendedores de pipoca, algodão doce, o furdunço armado – e seguiram a pé pela rua de mesmo nome, Afonso Pena, rumo ao Salete. Vai daí que eu passava de carro pela Gonçalves Crespo, uma de suas perpendiculares, quando o avistei e, ato contínuo, telefonei pro Leo.

– O que faz você na minha terra? – disse eu depois do alô de praxe.

O Leo parecia uma piorra em busca de mim (eu a tudo assistia pelo retrovisor do carro).

– Onde você está? – ele disse com voz de quem não acreditava naquilo, olhando pra cima, em volta, sem êxito em sua procura.

– Na Tijuca tudo se vê, tudo se sabe… vais aonde?

E ele, depois de cochichar um “não acredito…” – que eu consegui ouvir – disse:

– Ao Salete.

– Ótimo! Ótima pedida! Siga em frente, mais 200 metros e você chega. Nessa mesma calçada. Seja bem chegado ao bairro. Um abraço! – e desliguei.

O Leo passou semanas querendo saber como aquilo se dera (e está sabendo apenas agora, lendo isso). Teve, contou-me depois a mãe da pequena Helena, um princípio do tal edema de glote com o susto que levou, susto que ele interpretou como uma invasão de privacidade, uma violação do seu sagrado direito de ir e vir, esses troços.

Mas isso não foi nada, não foi nada. Perto do que a Tijuca pode produzir em matéria de inviolabilidade da vida alheia, foi brincadeira de criança.

Contar-lhes-ei uma bem pior (ou melhor, é uma questão de ponto de visto e de ângulo de observação), que dá sólido sustento ao que eu lhes disse sobre a inexistência de segredo ou sigilo, na Tijuca. Na Tijuca, digo sem temer o equívoco, o simples e seminal olhar que anuncia a traição é princípio e prenúncio do furacão que devassará a vida dos futuros amantes, soprado pelas bocas linguarudas que são, convenhamos, uma tradição do bairro. Vamos aos fatos.

Bebia eu, há coisa de uns meses, no Bar do Marreco, espelunca comovente na esquina de Caruso com Haddock Lobo, na fabulosa companhia de Zé Sergio, numa de suas incursões tijucanas, egresso dos cafundós de Niterói. Aliás, eu, Zé Sergio e um amigo cujo nome preservarei em razão da natureza da coisa.

Falávamos sobre futebol, mulher, política, sobre a qualidade da comida que ali é servida, depois de preparada pelas mãos mágicas da Cátia, sobre a qualidade das moças que passavam, acompanhávamos atentos a movimentação do churrasco promovido pelo seu Brasil na calçada, quando nosso amigo, antecipando a despedida, disse batendo no relógio de pulso (ele é um antigo):

– Daqui a pouco tenho de ir. Faço um ano de namoro hoje, ela ficou de passar aqui pra me pegar… – e fez carinha de preocupado.

Não se passaram nem cinco minutos e chegou a moça, a quem não conhecíamos. Acenou do outro lado da rua e o malandro despediu-se, de fato. A moça, é preciso dizer para que a cena ganhe curvas e cores, era dessas de parar o trânsito e fazer o guarda engolir o apito. Dezenas de olhos seguiram os passos do casal caminhando pela calçada, na contramão do fluxo, depois que ela atravessou a rua ao encontro do namorado. Caminharam coisa de cinqüenta metros e, vupt!, sumiram. Seu Brasil anunciou abanando a brasa do carvão com um leque de papel:

– Entraram no Bariloche… Rapaz de sorte!

Uma senhora que bebia conhaque de pé no balcão deu seu parecer, coçando a cabeça com um palito:

– Feio pra diabo com um mulherão desses!

Dezenas de bocas gargalharam, a noite foi caindo, começou a ser servido o churrasco, Danilo desempenhando com maestria o papel de garçom, quando Zé Sergio, sacana que só ele, mandou a frase:

– Vamos mandar entregar uma garrafa de Sidra pro casal brindar à data!

Deu-se o reboliço. Em pouco tempo, a senhora do conhaque convocava os presentes para o rateio da garrafa. Recolhia o dinheiro de um, de outro, até que disse, entregando as notas e as moedas amealhadas pro Marreco:

– Já deu, já deu!

Foi quando o Zé fez cara de triste:

– Mas como vamos saber em quê quarto o casal está?

Eu, tijucano há várias encarnações, disse:

– Na Tijuca tudo se vê, na Tijuca tudo se sabe…

Seu Brasil sorriu, confirmando com a cabeça.

Liguei pro hotel:

– Boa tarde, minha senhora. Entrou aí, agora há pouco, um casal assim, assim, assado?

Ela confirmou.

– A senhora pode me dizer em que quarto eles estão?

Ela disse. Ela disse!

Chamei o Danilo, entreguei a ele a garrafa de Cereser, seu Brasil improvisou um balde de gelo com o material da faxina do bar, dei as devidas instruções ao nosso portador, o Zé pôs uma nota de cinco reais no bolso do cearense e lá se foi o caboclo.

Ele pintou de volta na área menos de dez minutos depois.

– E aí, e aí?! – o coro em uníssono.

– Ele mesmo atendeu a porta. De toalha.

Explosão no bar.

Uma hora e quinze depois, vem o casal abraçado pela rua. Atravessam antes de chegar na esquina. Ele embarca o avião no ônibus e vem em nossa direção, já sorrindo.

– Como é que vocês descobriram o número do nosso quarto, pô!?

Foi o Zé Sergio, já devidamente calibrado, que de pé, à imagem e semelhança de Dom Pedro no Grito do Ipiranga, disse para delírio da assistência:

– Na Tijuca, malandro, tudo se vê! Na Tijuca, tudo se sabe.

Tijuca, em estado bruto!

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