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AINDA O RIO DE JANEIRO

Escrevi ontem uma humílima homenagem aos 447 anos da minha mui amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, aqui. Alguns comentários me deixaram profundamente emocionado – todos deixando muito explícita a paixão que desperta, naquele que aqui vive ou que aqui chega, a cidade-mulher. E quero, hoje, nesta sexta-feira que se anuncia esplendorosa – há, no céu, como diria Luiz Carlos da Vila, um azul do próprio céu se admirar – debruçar-me um pouco mais nos encantos do Rio de Janeiro.

Eu costumo dizer, com alguma freqüência, que o sujeito que não nutre desmedido amor pela terra em que vive, pela terra em que nasceu, é um sujeito no mínimo estranho. Ocorre que esse amor é atávico – eu diria obrigatório, prova de caráter e de gratidão. Há, de fato, lugares tão inóspitos, tão hostis, tão anti-lugares, que exigir do residente ou do domiciliado esse sentimento representaria crueldade elevada à categoria de tortura.

Já o Rio de Janeiro, meus poucos mas fiéis leitores…, o Rio de Janeiro é um caso à parte. O Rio de Janeiro é – como dizer? – a pátria-mãe (escrevi mãe e lembrei-me das minhas sessões de psicanálise). Na mais ampla acepção da palavra: o Rio acolhe, recolhe, o Rio adota, o Rio encanta, o Rio dá de mamar, o Rio nina, faz dormir, o Rio é. Isso. O Rio é e isso basta. Vamos a algumas digressões (e me perdoem, desde já, os clichês inevitáveis).

Quantas vezes já se falou sobre o arroubo que causa chegar de avião nessa terra? Muitas. E serão sempre poucas. Quem pode cansar de avistar, de cima e de longe, o Corcovado de braços abertos sobre a Guanabara? As praias, o verde, a zona norte, o Maracanã, o Pão de Açúcar, o Cara de Cão, os Dois Irmãos? Desde o alto, como se descêssemos dos braços estendidos do pai em direção ao colo da mãe, a cidade nos promete um aconchego que só conhece quem passa por aqui. E é preciso, para que tenha ares de absoluta autenticidade – de precisão do início ao fim – o que estou a lhes dizer, que eu fale de mim – e assim você que me lê poderá dimensionar o amor e a paixão que me unem, de forma fusionada, à cidade do Rio de Janeiro.

Breve pausa, antes.

Escreveu, a Olga, nos comentários deixados ontem:

“Eu tenho tanto orgulho dela, Edu, que, quando fora do Rio, encho a boca pra dizer que sou carioca. Um orgulho besta mesmo, quase infantil. Sabe aquela historinha de “eu tento ser humilde, mas a cidade não deixa” …”

Rigorosa verdade (e acho graça dela ter se valido da expressão “quase infantil”, que me remete de primeira à mãe, que comparei à cidade). Não há carioca, vivo ou morto, que não tenha, nos bolsos, permanentemente, esse orgulho besta e essa sensação de que é impossível ser humilde diante da condição que temos todos os que vivemos aqui. Há, em todo carioca, vivo ou morto, esse sentimento agudo do pertencimento – e que se confunde a ponto de inebriar o carioca. Somos felizes porque vivemos aqui, porque nos sentimos donos de uma gleba no litoral, porque temos a impressão de que ajudamos a moldar nosso relevo, a erguer nossas montanhas, porque as ruas são nossas, as praças são nossas, as calçadas são nossas, e essa confusão de sentimentos entra em ebulição e o que evapora (que é o que respiramos, aspiramos) é justamente esse orgulho. Voltemos.

Vivo na Tijuca, na zona norte – minha terra, minha aldeia, meu pago. Aqui nasci, na Ordem Terceira da Penitência, na rua Conde de Bonfim, bem em frente ao morro do Borel. Desceram, meus pais, a Conde de Bonfim, e minha primeira taba foi na rua Barão de Mesquita, quase na esquina da São Francisco Xavier, na lateral do tradicionalíssimo Colégio Militar (onde fui batizado depois de ter sido circuncisado por um rabino, vão tomando nota, no oitavo dia). Dali, mudamo-nos para a São Francisco Xavier, número 90, primeiro no sexto andar e depois no segundo – em frente ao Orsina da Fonseca, quase em frente à Igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho, às margens do rio Trapicheiro (foi quando conheci Tarcisa, a mulher de seios de mármore). Meus países eram as vilas nas quais moraram meus avós – sempre na Tijuca. Mudamo-nos, anos depois, para a Professor Gabizo, entre a Morais e Silva e a General Canabarro, a poucos metros do Maracanã. Foi quando casei-me pela primeira vez e – horror dos horrores! – exilei-me na Lagoa. Dirão vocês:

– Mas na Lagoa?! A Lagoa é linda!

É. De fato é. Mas eu me senti, durante quase cinco anos, como um desterrado, um apátrida, um triste longe da pátria-mãe.

Mudei-me de novo – e de vez! – para a Tijuca. E vivo, na Tijuca, o Rio de Janeiro em estado bruto (vou lhes contar).

Estou cercado de botequins. Vou a pé ao Maracanã. Muitos de meus amigos são meus vizinhos, todos muito por perto. Faço a feira dos domingos também a pé. Estou, tanto de metrô quanto de ônibus, a pouco mais de 20 minutos da praia de Ipanema, da Barraca do Mineiro, entre a Farme de Amoedo e a Vinícius de Moraes. Estou a menos de 15 minutos do Centro da cidade, da livraria do meu coração, do meu escritório, estou a 45 minutos, uma hora no máximo!, da agradável região serrana (Petrópolis, Teresópolis, Itaipava, Pedro do Rio…), chegar na Estação das Barcas é um pulo, Niterói e Paquetá ficam logo ali. Em 20 minutos estou na Floresta da Tijuca, em Santa Tereza, em pouco mais de meia-hora chego no subúrbio, e ainda dou-me ao luxo de poder dizer que estou quase na esquina da Haddock Lobo com a Matoso, onde toda a confusão começou, como cantou Tim Maia – aqui.

Definitivamente, eu vivo no melhor lugar do mundo.

Até.

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RIO DE JANEIRO, 447 ANOS

Uma das primeiras coisas que fiz hoje cedo ao acordar foi ler o sempre imprescindível Histórias Brasileiras, desse brasileiro máximo, meu mano Luiz Antonio Simas. E com o texto Os mais velhos do Rio nosso ilustre professor – o Simas dá aulas impressionantes até quando dá um simples bom-dia – relembra o pega pra capar que foi a conquista das terras da Guanabara e a conseqüente fundação da cidade, que deu-se quando os portugueses, através de Mem de Sá (cuja ossada fica guardada na rua onde moro, na Igreja dos Capuchinhos), mandaram criar um arraial no sopé do Pão de Açúcar, em primeiro de março de 1565 (leiam aqui).

Faz hoje, portanto, 447 anos, a minha cidade.

Não tenho sequer uma mísera partícula do conhecimento que tem, da visão histórica da fundação e do desenvolvimento da cidade, o bravo tupinambá de olhos claros que é Luiz Antonio Simas, bugre indomado, hoje mais manso por conta do nascimento de meu afilhado-de-rua, o pequeno tupinambá Benjamin, que chegou ao mundo e a estas terras de São Sebastião do Rio de Janeiro 446 anos e 20 dias depois do marco de fundação de nossa aldeia. Mas quero lhes falar de meus encantos, de olhos cheios d´água, por essa cidade-mulher que me encanta e me assombra desde que nasci, 403 anos e 361 dias depois do marco de fundação da mesma aldeia que acolheu, anos depois, o menino Benjamin.

Sou – quem me lê sabe – um apaixonado pelo lugar em que vivo. Pela cidade de amor e ternura que tem mais doçura que uma ilusão, mais bela que o sorriso, maior que o paraíso, maior que a tentação, cidade notável, inimitável, maior e mais bela que outra qualquer, cidade sensível, irresistível, cidade do amor, cidade-mulher, e salve Noel Rosa e Vadico, autores dessa maravilha que ilustra este texto!

Cidade que apalpo e farejo, desde menino, com a sede e com a curiosidade do menino que pela primeira vez ancora no corpo da mulher amada. Cidade que faz da permanente subversão um modo de vida. Cidade das camisas abertas, peito ao vento, dos pés descalços, da Praça XV e das pedras pisadas do cais, do Maracanã (derrubem o Maracanã, remodelem o Maracanã quinhentas vezes e o Espírito do Maracanã permanecerá ali, enterrado como sapo de macumba – salve, Nelson Rodrigues!), do Clube Pau-Ferro e dos sambas do Irajá, de Madureira, do Mercadão, da Portela e do Império Serrano, de Oswaldo Cruz, do Cafofo da Surica, da ilha de Paquetá, do morro do Salgueiro, regado a cada chuva pra dar alento à zona norte, do bairro de Vila Isabel, do boulevard 28 de Setembro, da fábrica de tecidos, de suas feiras, seus mercados a céu aberto, da zona portuária, da Gamboa, da Praça Onze, dos morros que nos cercam, das muretas da Urca, do Dois Irmãos e do pôr-do-sol mais bonito do planeta, do velho Centro do Rio, da rua do Carmo, Uruguaiana, Ouvidor, pontes de safena pra tamanho amor, salve Aldir Blanc! Da Tijuca, minha aldeia, da floresta da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo, das calçadas cheias de gente, de muitas esquinas, muitos bares, muitas mesas nas ruas, da rua Bariri, de Olaria, do velho estádio de arquibancadas inimagináveis, geometricamente improvável, de Bangu, de Ramos, do Catumbi, do Cacique de Ramos e do Bafo da Onça, de São Cristóvão, da Quinta da Boa Vista, do glorioso Figueira de Melo, do bairro do Lins, onde viveram, durante uns anos, meus avós, suas vilas, suas casas, seus terreiros de macumba, do Grajaú, da Grajaú-Jacarepaguá, da Mesa do Imperador, da Vista Chinesa, de São Conrado, da Estrada Velha, do Alto da Boa Vista, da Barra da Tijuca (que vista de cima é belíssima, a antítese de seu chão anti-carioca), de seus paralelepípedos, do Morro da Conceição, da Pedra do Sal, da pedra do Arpoador, do costão do Leme, das praias do posto 1 ao Pontal, da Baía de Guanabara, e são tantos, meus poucos mas fiéis leitores, são tantos pontos de luz, são tantos encantos, tantos… que eu teria de passar sei lá eu quanto anos aqui, diante do monitor, lhes contando sobre os encantos dessa cidade-mulher que, à moda de uma mulher, tem segredos inescrutáveis.

Por isso, e por tudo, salve o poeta Paulo Emílio da Costa Leite que, quando compôs Lápis de Cor, fechou o samba com este verso: “Amor, eu queria te dar a Tijuca e o Rio de Janeiro”. Desejar o Rio de Janeiro pra alguém, eis aí a maior declaração de amor que pode haver.

Salve, São Sebastião do Rio de Janeiro. Salve!

Até.

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A ESPINHA DAS NOSSAS MONTANHAS

Não há uma única vez em que eu esteja assistindo ao pôr-do-sol e que eu não me lembre dos versos de Chico Buarque:

“O poente na espinha das tuas montanhas quase arromba a retina de quem vê”.

E mais recentemente, dos versos do Chico Bosco:

“Quando escurece e desce a lava
Sobre o morro Dois Irmãos
Brilha a montanha, cravejada
De uma estranha ilusão
No Corcovado, bóia o Cristo
Levitando contra o céu
Tudo é febril
Tudo quer ser
Tudo lateja

Todas as tardes, pouco antes
De se despedir o sol
O mar acende, prateado, quase glacial
Sou atraído pelo infinito, é doce, irmão, morrer no mar
Morrer no mar
Morrer no mar
Tenho vontade de esquecer de mim
E nesse instante me apagar
No branco sal do mar”

Pois estava eu, na quinta-feira da semana passada, já me preparando – corpo e alma – para o Carnaval, desde cedo, na praia de Ipanema, gozando dessa delícia que é a gazeta num dia útil de trabalho. Mas eu mereço, era o que eu repetia, de mim para mim, a todo tempo.

E eu me preparava para viver a minha primeira experiência de inversão do Carnaval de 2012. Eu queria assistir o ocaso do sol para que eu mesmo renascesse, reverdecesse, diante da espinha das montanhas desse Rio de Janeiro que – me perdoem a falta de modéstia… – não cansa de arrombar a retina de quem o vê de mais perto.

E o pôr-do-sol na praia de Ipanema é, dia após dia, um espetáculo único, específico, como uma impressão digital feita de nuvens, de cores, de sombra e de luz, impregnado pra sempre nos olhos das privilegiadas testemunhas diante do poente.

E nessa quinta-feira, como no verso-profecia do Chico Bosco, o mar prateou – quase glacial. O céu ganhou cores inimagináveis, que se reproduziam em mim, que iam do azul-mais-claro ao azul-mais-denso. Da nuvem mais branca, mais clara, à mais dourada, à mais escura, reprodução mágica do relevo de rocha das espinhas dilatadas boiando sobre o espelho do mar.

Deu-se ali, meus poucos mas fiéis leitores, o primeiro indício de que viria o milagre provocado pelo deus maldito que pousaria nas ruas da cidade em menos de 48 horas. Quando ouvi aquela voz, bem de perto, me dizendo um “obrigada” meio sem-jeito, como se fora eu o autor daquele espetáculo de mil cores, fiz força pra não dizer um “de nada” que me daria ares de insanidade e de soberba. Quase fui traído por conta da confusão e da profusão que se repetia em mim. O sol morria, diante de nós. E só eu sabia, só eu desconfiava, que ali, naquele começo de noite, eu recomeçava a nascer – ou percebia os movimentos que prenunciavam meu renascimento.

Até.

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O BÊBADO E A EQUILIBRISTA

Quando eu escrevi Uma noite na Tijuca, aqui, contando sobre a inacreditável tarde, a inacreditável noite que viveu-se, no dia 10 de setembro de 2007, no Estephanio´s Bar, durante as filmagens do filme Praça Saens Peña, de Vinícius Reis, exibi, também, um vídeo gravado naquela tarde, no qual o artista plástico Mello Menezes, acompanhado pelo violão certeiro de Tiago Prata (chamado de neto, naquela noite, por Aldir Blanc, está no texto!), interpreta de forma lancinante a belíssima Valsa do Maracanã, de Paulo Emílio e Aldir Blanc (é igualmente lancinante a interpretação do Prata, um craque).

Quero lhes contar, rapidamente, sobre a relação entre o Estephanio´s Bar e o Aldir.

O Estephanio´s, já lhes contei, ficava na esquina das ruas Ribeiro Guimarães e Artistas. O Aldir, que escreveu, inclusive, o belíssimo livro Vila Isabel – Inventário da Infância, passou grande parte de sua infância a poucos metros dali, na rua dos Artistas número 257, onde moravam seus avós Aguiar e Noêmia. Aquele bar era, portanto, de certa forma emblemático pra ele. E uma curiosidade: bares têm, quase todos, imagens de santos em seus balcões, em suas paredes, em seus altares pagãos. Lá, no Estephanio´s, tínhamos uma imagem gigantesca do Aldir Blanc, pairando sobre as cabeças dos freqüentadores. Talvez por isso o diretor do filme, Vinícius Reis, tenha escolhido o Estephanio´s para a gravação das imagens de cenas do filme que juntavam o ator Chico Diaz contracenando com o Aldir, no papel dele mesmo.

E o Aldir, se não era exatamente uma figura fácil entre os freqüentadores, até que foi muitas vezes – muitas! – ao Estephanio´s – tanto no antigo, na rua Visconde de Itamarati, como no da rua dos Artistas. Foi, cantou, tocou, varou noite, protagonizou muitas das mais bacanas noites naquele bar que, como lhes disse aqui, fez história na Tijuca. Foi até enredo do bloco do pedaço, o Segura pra não cair, cujas fotos disponibilizei aqui, e escreveu aquela que é a mais bela página da história do bloco: quando o enredo, no ano seguinte, em 2005, foi o João Bosco, Aldir desfilou e, à certa altura fez sinal e pediu silêncio à bateria. Chamou o violão do bloco, disse algo em seu ouvido, fez o mesmo com o João e os dois, para delírio absoluto dos milhares de presentes, cantaram juntos O Mestre-Sala dos Mares. Vamos voltar à noite do dia 10 de setembro de 2007.

Uma vez desmontado o set de filmagens, ficamos todos para a noite que se anunciava inesquecível.

O que quero lhes dizer, hoje, e lhe mostrar, é um tesouro. Ontem à noitinha a Gisela Camara, assistente do Vinícius Reis, avisou-me que tinha descoberto um vídeo muito especial, encontrado por acaso enquanto remexia em suas coisas, seus registros, seus materiais. E era, de fato, um tesouro.

O vídeo mostra Aldir Blanc cantando um de seus clássicos, O Bêbado e a Equilibrista, acompanhado, mais uma vez, pelo genial Tiago Prata, à direita do bardo tijucano, de vermelho. À direita do Prata, eu. À minha frente, à esquerda do Aldir, Mary Blanc, que dá uma força ao Aldir, travado pela emoção à certa altura da letra (notem que a voz falha quando canta-se o “irmão do Henfil”…). Vê-se Rodrigo Ferrari, já quase no final do filme, no canto à direita da tela. E a voz que emenda com o tema de Chaplin, terminada a música, é do grande Mello Menezes.

Meus agradecimentos públicos à Gisela e a Tainá, que fez o registro. Um momento, sem sombra de dúvida, pra sempre na minha melhor memória, e que agora divido com vocês, meus poucos mas fiéis leitores.

Até.

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ESTEPHANIO´S BAR – UMA HISTÓRIA

Contando, parece mentira.

Corria o ano de 1999 – e eu tinha acabado de reencontrar minha menina, como já tantas vezes lhes contei. Meu irmão, Fernando, e dois amigos à época – Paulo Barbosa e Marco Saldanha – decidiram comprar um bar (isso mesmo, um bar). Procura daqui, procura dali, deram de cara com o escondidíssimo Estephanio´s Bar, cujo nome era o nome do dono do ponto, naquele momento. Eu disse escondidíssimo e era escondido mesmo, o tal bar. Ficava na rua Visconde de Itamarati, entre a São Francisco Xavier e a avenida Maracanã, na Tijuca, e era minúsculo, ficava numa lojinha de rua com não mais do que quatro mesas e lugar pra meia-dúzia de pessoas, espremidas, no balcão, em pé. Negocia daqui, negocia dali, fecharam negócio, os três. Com menos de uma semana de funcionamento, pulou fora o Marco – não agüentou o tranco. Foi quando Fernando e Paulo me chamaram pra compôr – ah, as pompas de um advogado… – o quadro societário. Negocia daqui, negocia dali, ficaram os dois remanescentes com 45% cada um e eu com 10% das cotas. Eu, o único que não trabalharia no bar – foi o que acordamos -, teria uma função precípua: armar as rodas de samba que pretendíamos fazer ali, aos domingos. E, sendo possível, convocar gente pra fazer música, todos os dias, naquela minúscula calçada a que tínhamos direito (com direito a brigas constantes com o síndico do prédio, desde o primeiro dia).

Foram poucos meses naquele endereço. E por ali passaram – creiam, meus poucos mas fiéis leitores! -, para profundo orgulho nosso, e muitos deles diversas vezes (em ordem alfabética, para não ferir suscetibilidades), Aldir Blanc, Beth Carvalho, Delcio Carvalho, Dorina, Edmundo Souto,  João da Valsa, Moacyr Luz, Nelson Sargento, Pedro Amorim, Sombra, Sombrinha, Walter Alfaiate, Wilson Moreira… e fomos testemunhas de momentos que, se não foram filmados (como o troço pedia), foram fotografados e que estão muito bem guardados na memória e no coração de quem passou por ali. Houve noite em que Beth Carvalho tomou do violão e cantou pra gente ouvir (foi, salvo engano meu, a primeira vez que a Beth cantou Só dói quando eu Rio, de Moacyr Luz e Aldir Blanc, voz e violão, e bem lembro do assombro do Aldir ouvindo sua interpretação). Houve noite em que o síndico desceu, desesperado, já quase quatro da manhã, e foi convencido por Aldir Blanc a ficar entre nós, sem bronca, escolhendo o repertório.

Foi ali, e aqui falo de mim, por mim, que conheci aquela que hoje é minha irmã, minha companheira dos baixios e das festas da cumeeira, a Manguaça – e por conseqüência o André, seu irmão, e a Sonia, sua mãe. Foi pra lá que Dani levou aquela que era sua aluna à época, a Lu Guerreira, que por sua vez levou aquela que se tornaria, depois, gerente do bar, aquela que ao mesmo tempo em que nos ofereceu o fel, anos depois, deixou-nos como prêmio o João Vitor, apadrinhado pelo Fernando, meu irmão – ele que freqüentou o bar desde bebê, tornando-se nosso mascote.

Dali, quando o bar ficou pequeno demais – a rua ficava intransitável principalmente durante os finais de semana… – mudamos para a esquina da rua dos Artistas com a Ribeiro Guimarães, no primeiro trimestre do ano 2000. O Xodó da Bahia, depois de uma imensa obra (tocada pelo engenheiro Marcio Sertã, cliente de primeira hora do bar, cujo apelido passou a ser Sogrinho por conta da beleza da filha…), passou a ser o Estephanio´s Bar. E ali, meus poucos mas fiéis leitores, se já tínhamos feito história na Visconde de Itamarati, escrevemos, mesmo, uma das mais incríveis histórias da boêmia tijucana.

Não éramos donos atendendo a clientes: formamos, efetivamente, uma família, com todos os furdúncios de uma família biológica. Ali, durante pouco mais de seis anos, vimos, todos, namoros que viraram casamentos, casamentos desfeitos com requintes rodrigueanos de traições as mais canalhas, filhos nascerem, filhos crescerem, amizades começarem, amizades serem desfeitas com juras de morte, e demos forma a um dos mais bacanas blocos de carnaval da cidade, o Segura Pra Não Cair, que desfilou no primeiro ano homenageando Noel Rosa, no segundo com Beth Carvalho, no terceiro com Martinho da Vila, no quarto com Aldir Blanc e no quinto, e último (quando nos foi impossível segurar a onda de mais de 5 mil pessoas ao longo das ruas do entorno), com João Bosco. O bloco, que contou, durante os cinco desfiles, com o auxílio luxuoso da bateria da Unidos de Vila Isabel (com mestre Mug e mestre Mariozinho à frente), contou com a participação de todos os homenageados (incluindo Noel Rosa, que foi visto pairando sobre nós…) durante ensaios e desfiles.

Ali nasceu uma banda de rock (a EstephBand, hoje Suçuarana), ali o grupo O Roda, com Bianca Calcagni e Ana Costa à frente, fez roda de samba aos domingos durante anos (e pintaram no pedaço, além de todas as ilustres figuras que já tinham dado graça ao bar original, Carlinhos 7 Cordas, Darcy do Jongo [que esteve no Estephanio´s semanas antes de morrer…], o jornalista e escritor Fausto Wolff, o violonista Felipe Barros, o cantor e cavaquinista Gabriel Cavalcante, Jayme Vignoli, Marcelinho, o cantor e compositor Moyseis Marques, o saudoso Ovídio Brito, a cantora Simone, o violonista Tiago Prata, o cavaquinista Sivuquinha, o cantor e compositor Toninho Geraes, e muita gente que, com o tempo, eu vou tratando de incluir no rol).

Fernando e Paulo moravam a uma quadra do bar, na rua Dona Maria, e a casa ganhou ares de clube, sendo chamada de EstephHouse. Conta a lenda – real! – que durante mais de cinco anos a brasa da churrasqueira da casa jamais apagou. A casa, que tinha a peculiaridade de não ter chave, era aberta aos freqüentadores do bar, os mais chegados – e eram quase todos, os mais chegados.

À certa altura, a casa caiu. Por razões que evidentemente não vêm ao caso, desfez-se a sociedade. Morreu o bar (hoje, naquela esquina, há uma filial do Bar do Adão) e ficaram as histórias. Calhou de ser, o Paulo, fotógrafo amador – o que significa dizer que, durante todo esse tempo, ele fez milhares – milhares! – de fotografias, quase que diárias, de tudo o que se passava ali.

A morte da Dani – quem me lê, sabe – fez com que eu passasse a perseguir, quase que insanamente, todo e qualquer registro seu – fotográfico, principalmente. Razão pela qual pedi ao Paulo, quando disso me lembrei, todas as fotografias dos tempos de Estephanio´s. O que significa dizer que eu tenho, hoje, milhares de fotografias em papel (que serão digitalizadas) e em DVDs – centenas deles.

Aos poucos, estou disponibilizando todos esse material, que me é afetivamente muito importante, como sei que é e será importante para todos os que fizeram parte dessa história.

Aos poucos, aqui também, no Buteco, vou expôr parte desse material, contando as histórias que foram vividas naquela esquina, pra sempre eternizada na história da boêmia da zona norte, tão esquecida por aqueles que detêm as mídias formais nas mãos, e que só têm olhos pra zona sul da cidade. Como diz o samba de Moacyr e Aldir, “há quem não se importe mas a zona norte é feito cigana lendo a minha sorte… sempre que nos vemos ela diz o quanto eu sofri.”.

Até.

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SUICÍDIO NO BAR DO MARRECO

(texto de 04 de janeiro de 2011, é publicado apenas hoje em respeito à memória de José Roberto)

Quem me lê sabe: todos os dias, indo e vindo do trabalho, passo no bar do Marreco pra me inteirar das novidades. Buteco é um microcosmo fabuloso do mundo, hospital de almas na definição extremada de um fraterno amigo, ágora do povo mais simples, arena das tragédias humanas, confessionário pagão dos mais abjetos pecadores, onde o salaminho é a hóstia sagrada, o limão é a água-benta e a cerveja, ao lado da cachaça, cumpre o papel do vinho consagrado. É onde se reúne a multidão de fiéis, de andrajos, de solitários e de criminosos, de perversos, de santos encarnados, de gente comum – e é em busca disso tudo que subo, todos os dias, o degrau único que separa o território sagrado da calçada da Haddock Lobo.

Pois ontem, por volta das sete da noite, ancorei naquele balcão que tatuou em meu braço uma marca que não sai. E havia, ali, um único assunto boiando sobre as cabeças da assistência: o suicídio do Zé Roberto.

O Zé Roberto tinha entre 40 e 42 anos, era o que apostava o povo ali reunido. Bebia todos os dias, era um tremendo boa-praça e casado com a Maria Rita, com quem dividia um conjugado na rua Caruso, na mesmíssima esquina. Foi justo a Maria Rita que, por volta das cinco horas, no final daquela tarde, descera aos atropelos as escadas do pequeno prédio sem elevador. Avançara sobre o balcão, porto-seguro do morto de segunda a segunda, e brandia uns papéis nas mãos trêmulas, gritando palavras desconexas e não se dirigindo a ninguém especificamente:

– Quem é Leonor?! Quem é Leonor?! – gritava enquanto babava uma baba elástica e bovina, rodrigueana por óbvio, diante do olhar atônito da multidão.

Foi o Marreco – que saiu depressa de dentro do balcão – que conseguiu domar a viúva em desespero. Deu-lhe – o Jorge me contou em detalhes – um tapa no rosto e disse:

– Que Leonor, dona Maria Rita? O que aconteceu?

Sentou-se a viúva numa das banquetas de madeira – e ela estava com coriza por conta do choro convulsivo. Um qualquer ofereceu-lhe um guardanapo para assoar o nariz e ela, rispidamente, recusou, secando a coriza com a manga do casaquinho bege que vestia. Olhou em volta – tinha os olhos inchados – e não viu uma única mulher. Voltou a repetir, dessa vez mais baixo:

– Quem é Leonor?! Quem?

Seu Brasil, síndico informal da área, não perdeu a chance da piada, que soou mal:

– … e o beijo de uma mulata, chamada Leonor ou Dagmar! – cantando o samba de Bosco e Blanc.

Maria Rita foi seca:

– O Zé Roberto se matou.

Houve um burburinho impressionante, um alarido (apud Nelson Rodrigues, sempre!) de copos sobre o balcão de vidro, um temporal de “ohs” e “ahs”, e aquela chuva previsível de “como?” e “por que?”.

Ofereceram conhaque à recentíssima viúva e ela bebeu num só gole. Um ainda tentou ser mais gentil e perguntou se ela queria água com açúcar. Foi ríspida de novo:

– Mais conhaque.

E deu início ao relato:

– Cheguei do trabalho e encontrei o Zé Roberto vestido com a camisa do Corinthians deitado no chão da sala, em torno de uma poça de sangue…

– Do Corinthians?! – seu Brasil de novo, fazendo a justificável intervenção, afinal Zé Roberto era Flamengo doente.

– Do Corinthians… – os olhos pareciam vazados como os de um cego de nascença.

Prosseguiu:

– Papai era policial, eu fiquei com a arma que pertencia a ele… Nunca quis me desfazer, sabe? – fungou.

– Foi tiro? – disse o Jorge.

– No coração.

– Era mesmo um getulista! – ergueu um brinde, o seu Brasil.

A assistência passou um pito coletivo no velho. E ela continuou, sem largar o calhamaço de papel e chorando baixinho:

– Zé Roberto era brizolista, seu Brasil… Mas, enfim… Nunca brigamos… Nunca… – e caiu num choro de ópera.

Novamente dezenas de garçons espontâneos ofereceram conhaque, limão da casa, lencinho, e ela foi retomando a calma:

– Não havia razão pra ele fazer o que fez… – tornou a chorar aos soluços.

Fez-se respeitoso silêncio e ela continuou:

– Não me deu um sinal! Saiu pra trabalhar hoje, perguntei se ele queria que eu fizesse lasanha pro jantar… ele adora… adorava… – chorou mais forte de novo.

Olhava pros papéis, agora:

– Olhei nos bolsos da bermuda, olhei no bolso da camisa que ele usou pra ir trabalhar hoje, que estava sobre o sofá, nos documentos do táxi… Nada. Mas achei isso na gaveta do quarto de empregada onde ele guarda… guardava os badulaques dele…

Poucos conseguiram disfarçar o ímpeto de arrancar a carta das mãos de Maria Rita. Ela chamara a polícia antes de descer e a polícia havia acabado de chegar. Chamou o Jorge num canto e disse, baixinho:

– Jorge, tu era o melhor amigo do Zé. Quem é Leonor?

Zé a puxou pra fora do bar. Atravessou a rua e debaixo da marquise da farmácia, disse:

– Maria Rita, juro – fez o sinal com os dedos – que eu não sei quem é. O Zé andou falando de uns tempos pra cá de uma tal de Leonor, mesmo, mas dizia que não a conhecia pessoalmente, que a viu, um único dia, uma única vez, passando aqui na Haddock Lobo, vestida com a camisa do Corinthians… Não tenho como te ajudar… Por que?

– Como não conhecia? Como sabia o nome da mulher, sujeito?

– Estou te contando o que eu sei. Juro! – e repetiu o gesto plástico da jura.

Maria Rita – que além de tudo era cunhada do Jorge, casado com sua irmã mais velha – estendeu a carta:

– Achei essa carta, Jorginho… Nesse envelope, sem endereço… É pra tal da Leonor… Datada de dezembro, de dois meses atrás… Nem sobrenome tem… Não sei se quero mostrar isso pra polícia… Ficar com fama de… Não quero, Jorginho… Promete que dá cabo nisso?

Jorge, circunspecto e em tom de promessa solene:

– Prometo! – tomou a carta das mãos de Maria Rita.

Jorge deu, de certa forma, cabo da carta. Não mostrou pra ninguém no bar, inventou um troço qualquer pra assistência que acompanhava a pequena palestra sob a marquise da farmácia. Em bar é assim: a tragédia dura o tempo exato da presença dos envolvidos. Duas horas depois a polícia já tinha ido embora, o rabecão já transportara o defunto pro IML e só se falava em futebol quando eu cheguei.

Jorge me chamou num canto, contou-me o ocorrido à tarde e por fim me entregou a carta. E disse:

– Meu professor, você que é o contador das nossas histórias, vai gostar disso aqui. Depois você me conta tudo, viu?

Há coisas que não têm, mesmo, explicação. Não sei quem é a Leonor, só conhecia o Zé Roberto dos papos à toa no balcão do Marreco, e o Jorge – um sessentão que vai muito com a minha cara – teve uma grande idéia me entregando essa declaração de amor ligeiramente tosca, eis que sem endereço certo, muito bem escrita (eu tinha ligeiro preconceito com o Zé, a quem julgava um homem sem qualquer cultura) e bonita de doer. Vai que a tal da Leonor lê isso aqui?

“Leonor, Leonor, Leonor: escrevo três vezes teu nome em sinal do meu amor. Sou casado há quase quinze anos, Leonor (vou repetir demais seu nome, Leonor, é só o que tenho feito desde o dia em que eu a vi), e eu a vi há coisa de umas semanas no Rio-Brasília, o botequim do Jorge na Almirante Gavião, numa mesa grande com o que me pareceram ser seus pais, seu filho (e você é tão nova, Leonor!), seu irmão e alguns amigos, um deles conhecido meu do bar do Marreco, que fica perto da Almirante Gavião. Nunca perguntei sobre você, Leonor, acho que ele não vai muito comigo, nosso santo não cruza. Eu vou dar cabo da minha vida, Leonor, porque desde que eu a vi eu sofro, sabe, Leonor? Sofro porque eu sou taxista embora seja formado em Direito, sem nunca ter exercido a profissão por falta de determinação. Meu pai era taxista e a autonomia do carro foi tudo o que ele me deixou. Sendo taxista, e morando aqui no Rio, casado e sem filhos, bem mais velho que você, nunca vou conseguir casar-me contigo, Leonor, que é o que eu verdadeiramente queria. Você deve estar se perguntando o porquê disso, né, Leonor? Por que é que um sujeito que só a viu uma única vez na vida (e minha vida é sofrida, Leonor) tem essa determinação. Não saberia te dizer, viu, Leonor? Mas eu vou tentar. Minha mulher é dona de casa, Leonor, e não tivemos filhos. Minha mulher não me ama, eu acho, e eu acho a minha vida um tormento: é do táxi pro bar, do bar pra casa, de casa pro táxi e assim eu vou fingindo que vivo. Eu vi tanta luz nos teus olhos, Leonor, eu vi tanta vida no teu sorriso, eu vi tanta vida no sorriso de quem te cercava, Leonor, e eu não sou um sujeito capaz de me enganar, viu?, que eu vivi minhas melhores horas dos últimos anos naquele sábado em que te vi. Fiz uma coisa feia, sabe? Sentei-me na mesa mais próxima, fiquei bebendo e prestando atenção na conversa. Descobri que você mora em São Paulo, que tem um irmão, que seu filho não tem muita paciência pra ficar em bar, e descobri que você é Corinthians. Eu adoro futebol, Leonor, meu pai era Fluminense e ele me levou novinho pra ver aquele jogo da invasão corinthiana no Maracanã, em 74, eu era um menino ainda. Eu sou Flamengo mas desde aquele dia em que te vi eu decidi que vou morrer vestido de Corinthians, sabe? Eu sou devoto de São Jorge, e eu acho mesmo que o Corinthians é uma religião. Eu comprei a camisa do Corinthians e levei pra benzer na igreja de Quintino, Leonor, e pedi a São Jorge que me guardasse com ele quando eu morresse, sabe? Eu acredito que é errado a gente se matar, sabe, Leonor?, mas eu pedi a ele que me guardasse mesmo assim, e ele gosta demais de mim. São Jorge é guerreiro, é padroeiro do Corinthians e eu ouvi um dia, não lembro onde foi, que tem um lugar no céu só pra corinthiano, acho que foi numa resenha da Tupi, a rádio que eu ouço o dia inteiro no táxi. Fiz um pedido meio absurdo, Leonor, mas também é absurdo amor à primeira vista, não é o que dizem? Pedi a São Jorge que me guardasse com ele, só pra você me conhecer, daqui a muitos anos, muitos anos, Leonor, quando você estiver bem velhinha e morrer de morte natural, que eu não acho que ninguém deva se matar, acho muito feio alguém se matar, você não faria isso e eu não desejo que você morra de doença nenhuma, quero que você morra de velhice mesmo que é pra embelezar o mundo ainda por muito tempo. Quem tem a luz que você tem nos olhos nem pensa nisso, né? Daí eu acredito que eu encontre você no tal parque São Jorge que dizem haver no céu. Eu vou morrer vestido de Corinthians pra que me seja permitido estar ali, entre vocês, eu sei que vocês são uma nação, Leonor. Não quero que você se sinta minimamente culpada, Leonor, até porque essa carta nunca vai chegar às suas mãos. Mas quero que São Jorge me veja escrevendo, que minha mulher a encontre pra entender um pouco do meu gesto insano movido por amor e que meus amigos de bar me perdoem por estar vestindo a camisa do Corinthians, coisa que eles vão tomar como heresia. Heresia, Leonor, foi eu ter nascido tão depois de você e tão longe. Todo meu amor, José Roberto.”

Até.

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Arquivado em botequim, Rio de Janeiro

EMBALA EU

Nunca tive medo do invisível. Deve ser porque eu fui anunciado por um caboclo da mata, Tupinambá, que no dia 26 de abril de 69 apareceu ao lado da cama de meus pais e disse a papai, que acordou:

– Curumim chega amanhã.

Já lhes contei a história. Mamãe, quando soube da tal aparição – troço inédito até aquele momento – disse a ele:

– Fui ao médico no começo da semana! É pra maio, é pra maio!

Papai, que trabalhava como plantonista da Refinaria Duque de Caxias, ainda teimou de não ir trabalhar. Foi convencido a ir. Ao chegar lá, encontrou o chefe, esbaforido, logo na entrada:

– Volta, meu filho! Estourou a bolsa da sua mulher!

Passei a infância dizendo a meus pais que eu brincava com pequenos índios no meu quarto. Eles, já escolados, não me desdiziam. Não me lembro disso, por óbvio, eu era um meninote, mas deve ser por isso que não tenho medo do invisível.

Deve ser também porque, em passado não tão remoto, encontrei-me com um determinado médico, já falecido (chamem vocês do que quiserem, espírito, fantasma…), fazendo de cavalo um amigo vivo, é evidente, que me pediu um favor: ele queria que eu localizasse seu trabalho final do curso de Medicina, no final do século XIX, na Biblioteca Nacional, na Cinelândia. Queria que eu desse seu nome completo às pesquisadoras, a época da conclusão do curso, fizesse uma pesquisa, encomendasse a microfilmagem do trabalho e remetesse o material para um certo museu. Fiz tudo isso. Nada foi encontrado. Voltei ao médico. Expliquei o imbróglio. E ele foi, digamos, mais direto. Pediu-me que anotasse o que ele iria dizer. Tomei nota de diversos indicativos: o tal trabalho estava no porão da Biblioteca Nacional, próximo da pilastra tal, na estante tal, na prateleira tal. Voltei às mocinhas que, foi impossível não perceber, me olharam com ar de piedade e me prometeram tentar localizar o trabalho.

Menos de uma semana depois, recebi um telefonema e fui convocado à Biblioteca. O trabalho havia sido encontrado. Exatamente naquele lugar.

– O senhor se importa de nos dizer como sabia a localização exata deste trabalho? – já microfilmado nas mãos de uma delas.

– Não. Não, se as senhoras não me julgarem louco.

– Como?

– O autor do trabalho me deu essas coordenadas.

Elas me julgaram louco. Mas o quê importa? Deve ser por isso, também, que não tenho medo do invisível.

Tenho medo, entretanto, tenho muito medo – me pergunto quem não tem… – de me machucar. Isso faz de mim, quase sempre, um obediente.

Pois dia desses, diante do invisível de novo, recebi um recado que me foi dado em tom grave: “O que está na sua boca é seu escravo; saiu, é seu senhor.”.

Eu, um obediente – repito – já tratei de rearranjar minhas posturas. Não tenho medo do invisível, é fato concreto. Tenho por ele, sei bem a quem procurar, é um danado de um respeito. E esse respeito, somado ao medo, esse sim, olímpico, de me machucar, me faz ser, hoje, um sujeito disposto a pisar devagar.

“Vira os olhos grandes de cima de mim pras ondas do mar”, é o que tenho pedido quando peço colo, cantando, e peço que me embalem (aqui), todas as manhãs. Peço que me me seja dada a benção, que eu esteja livre dos inimigos, peço proteção, peço que me sejam guiados os passos, quase sempre trôpegos, por onde eu caminhar.

Peço por mim. E por quem eu amo.

Até.

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Arquivado em confissões, Rio de Janeiro