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DECLARAÇÃO DE VOTO

Como faço há sei lá quantos anos e quantas eleições, venho ao balcão virtual do buteco a pouco menos de 72 horas das eleições de domingo, quando o Brasil vai às urnas para eleger prefeitos e vereadores, para declarar, de coração na boca e peito aberto, meu voto. Porque ir ás urnas, o que faço desde 1989 (quando dei meu primeiro voto a Leonel de Moura Brizola para Presidente da República), me comove feito o diabo. Saio de casa armado com meu título de eleitor e choro, confesso, incorrigível que sou, diante da urna (hoje eletrônica e menos comovente). Em 89, bem lembro, eu era o único (o único!) aluno da minha turma de Direito, na PUC-RJ, que votava no Brizola. Os colegas se dividiam entre Lula e Roberto Freire (que coisa, o passar do tempo…), em casa eu ouvia as maiores barbaridades – “como votar num agitador, num caudilho, num velho como Brizola?”. Hoje, ironia das ironias, vejo Brizola (já morto) sendo adulado por muitos dos que me apontavam o dedo em reprimenda naquele distante 1989, lá se vão 27 anos.

Em 1982, ainda com 13 anos de idade, assisti, estupefato, aquele homem passar por cima de tudo e de todos e vencer as eleições para o Governo do Estado. Quatro anos depois, 1986, deixamos de eleger Darcy Ribeiro como sucessor de Brizola graças a uma série de alianças que acabaram por levar Moreira Franco (e com ele deu-se a derrocada dos projetos do CIEPs) à vitória. Não votei, tinha ainda 17 anos, mas fiz campanha com o mesmo ardor com que me envolvo a cada eleição. Brizola retornaria ao Governo do Estado em 1991 (eleito em 1990, com meu voto). Feito o intróito, vamos ao que quero lhes dizer.

Estamos às vésperas das eleições para a Prefeitura do Rio de Janeiro e para a Câmara de Vereadores da cidade.

As candidaturas estão aí, postas, estão postas à mesa as propostas de cada candidatura (embora sejam poucas as que verdadeiramente tenham apresentado propostas ao eleitorado), temos pesquisas que apontam uma batalha voto a voto pela vaga no segundo turno contra o inconcebível Bispo Crivella e temos os programas de governo (quantos eleitores se deram ao trabalho de lê-los?) registrados no TRE. E um debate hoje à noite que promete ser um divisor de águas para o eleitor indeciso e mesmo para os que cogitam o voto útil para favorecer A ou B.

Sou, quem me lê e me acompanha sabe, um entusiasta das realizações do Governo Eduardo Paes. Não há um só eleitor esclarecido que não reconheça (ainda que não externe [mais] seu reconhecimento) os avanços maiúsculos na área da Cultura, por exemplo. Jamais a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro contemplou tantos nas mais diversas áreas da cidade, jamais fomentou-se tanto a Cultura, multifacetada, distribuindo-se, sem qualquer preconceito, verbas públicas, ou através de incentivos fiscais, para tanta gente que pode fazer, ao longo de 8 anos, seus sonhos tornarem-se realidade. É impossível não reconhecer os avanços na área da Educação (foram construídas mais de 300 escolas que se preparam para o turno único, ideal de Leonel Brizola). Avanços evidentes na mobilidade urbana (os BRTs, os VLTs, as vias expressas, os túneis que encurtaram caminhos), avanços incomensuráveis quando o assunto foi devolver a cidade aos cariocas: eu, dentro do hiperbolismo que me caracteriza, cheguei a dizer que só a derrubada da Perimetral (e os benefícios na região da Praça XV, da Praça Mauá, a criação da Orla Conde) seria capaz de elevar o nome do Eduardo Paes ao mais alto patamar dos Prefeitos do Rio de Janeiro. Derrubada que, diga-se, exigiu coragem do prefeito: um imenso percentual de cariocas era contra a derrubada do monstrengo por conta dos efeitos que a incrível obra geraria na cidade, principalmente no trânsito. Houve avanços na área da Saúde, inegáveis. Com os cofres cheios por conta dos repasses e aportes de dinheiro por parte do Governo Federal, pode-se realizar as Olimpíadas contra tudo e contra todos que, mau-humor sempre no bolso, torceram pelo fiasco dos Jogos Olímpicos. Oxigenada pelo vento que varreu mais forte a cidade depois das inúmeras obras, a cidade viveu dias de festa como talvez nem o mais otimista poderia supor.

Por tudo o que foi feito, e por acreditar na continuidade das políticas de Eduardo Paes é que meu voto vai, sem medo do erro, para aquele que, desde o primeiro minuto, foi o grande gestor das idéias do prefeito eleito e reeleito com acachapante votação. Meu voto será do Pedro Paulo, que ainda tem como vice uma mulher de fibra como Cidinha Campos.

Não foi fácil abrir o voto como abri desde que postas em campo as candidaturas. Centenas de dedos, muitos deles covardes, apontaram na minha direção. Alivia-me a consciência, entretanto, saber que nenhum desses dedos apontava erros na administração do Eduardo Paes capazes de me convencer a mudar o voto (claro que houve problemas, mas estou pra ter notícia de um único governo impecável do princípio ao fim). Os tais dedos faziam (e fazem) sempre menção a um episódio privado envolvendo o Pedro Paulo que, franca e sinceramente, dizem respeito apenas à esfera privada de sua vida e devem ser tratados pela Justiça que, diga-se, arquivou o inquérito que apurava o episódio. O que quero, e o que sempre quis diante do desafio de votar, é discutir propostas, enfrentar os programas apresentados, decidir, íntima e solitariamente, quem será o melhor para governar a cidade onde nasci, onde vivo e onde pretendo morrer.

Quantos homens (quantos!) vieram me abordar com o mesmo argumento covarde (que passou a ser ainda mais covarde depois do arquivamento das denúncias pelo STF), quantos se arvoraram a julgar mulheres que, como eu, optaram pelo nome do Pedro Paulo, deixando de perceber, muitos deles, o quão violentos também são no dia-a-dia, física ou psicologicamente? Muitos.

Outro argumento comum: Pedro Paulo é golpista porque votou pela abertura do processo de impedimento de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. Refuto tal argumento e o mesmo não abala minha convicção quanto ao voto. O processo correu todo no Senado Federal e foi no Senado Federal que o impedimento foi votado e aprovado. Não é novidade para ninguém que considerei e considero que houve um golpe – mas este se deu no âmbito do Senado Federal (e foi contrário ao impedimento, um dos mais aguerridos defensores de Dilma Rousseff, o senador Roberto Requião, do mesmo PMDB do Pedro Paulo). Acho que ele deveria ter ido a Brasília votar como votou? Não. Mas não estou, agora, escolhendo um deputado, estou elegendo um prefeito – cargos distintos com atribuições bastante distintas.

Como muito bem disse meu camarada Cláudio Renato, “prefeito serve para cuidar das escolas e postos de saúde da cidade, tapar os buracos nas ruas e praças, gerir os transportes públicos, iluminar os caminhos para inibir assaltos e ataques aos cidadãos. Prefeito nenhum vai mudar o mundo, derrubar o sistema capitalista, acabar com o racismo e outros preconceitos, promover a cura do câncer.”.

Com meus botões, sem levar adiante o debate com os fanáticos que me apontavam o dedo, pensei: foi um odioso golpe contra o Rio de Janeiro a eleição do Moreira Franco em detrimento da candidatura de Darcy Ribeiro (e que chance perdemos de tê-lo, gênio que era, à frente do Governo do Estado!), e lá estava, ao lado do Gato Angorá, o PCdoB de Jandira Feghali; o ovo da serpente do golpe nasceu nas chamadas “marchas de junho de 2013”, e lá estavam os inadmissíveis atos comandados pelos Black Blocs que, com seus métodos condenáveis e adulados à larga por Marcelo Freixo, culminaram com a morte do cinegrafista Santiago Andrade; golpe houve também em 1964 e até hoje Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro (outro candidato) festejam o trágico 31 de março de 64 como se fosse festa, homenageando figuras desprezíveis como Brilhante Ustra e outros monstros; golpe houve contra seus eleitores quando Alessandro Molon abandonou o PT para juntar-se à Rede de Marina Silva sem devolver o mandato, que não lhe pertencia. Enfim… Se seguirmos por essa linha – que não me interessa, repito – o debate não tem mais fim.

Por fim, aos que argumentam me apontando o dedo dizendo que há apenas três candidaturas de esquerda (Alessandro Molon, Jandira Feghali e Marcelo Freixo), digo: o Governo Eduardo Paes, como nenhum outro governo no Rio de Janeiro, na cidade – ressalto -, construiu mais de 300 escolas, mais de 100 Clínicas da Família, centenas de km de vias que reduziram o tempo de viagem dos menos afortunados, construiu e reconstruiu praças, olhou, como nenhum outro, para as zonas norte e oeste da cidade, e possibilitou que a Cultura chegasse (e com dinheiro!) a grotões que jamais viram um único centavo do Poder Público. Um Governo definitivamente à esquerda.

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Meu voto é de olho no presente e no futuro. E não vejo futuro melhor pra cidade que não nas mãos da gestão que Pedro Paulo há de comandar, como comandou, como Secretário de Governo de Eduardo Paes.

Por isso, no domingo, eu chego junto sem medo de errar.

Até.

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A SEGUNDA MORTE DE JAIME GOLD

Maio de 2015. O médico Jaime Gold é assassinado, a facadas, na Lagoa Rodrigo de Freitas, e uma comoção toma conta da sociedade, notadamente daquela gente que, afortunada, mora no entorno do espelho d´água mais famoso da cidade do Rio de Janeiro. O Secretário de Segurança do Governo do Estado dá, naquela ocasião, uma das mais infelizes declarações sobre a situação e eu, humílimo do meu canto, publico aqui Jaime Gold, mais uma vítima de outras vítimas (aqui).

Hoje, 08 de julho de 2016, um ano e dois meses depois, tomei conhecimento de um fato repugnante – ligado à morte de Jaime Gold – graças à leitura dessa matéria (aqui) do jornalista e escritor, meu camarada, botafoguense, Fernando Molica. Tomo a liberdade de transcrever trechos da referida matéria:

“Pressionado por moradores da Lagoa, Heitor Wegmann, subprefeito da Zona Sul, mandou a Comlurb, a um mês do início das Olimpíadas, retirar da grade e da mureta que ficam na altura da Curva do Calombo cartazes contra a violência que estampavam nomes de vítimas que não foram mortas no bairro.

Segundo a subprefeitura, os autores da reivindicação aceitaram manter no local apenas uma bicicleta e um cartaz que homenageiam o médico Jaime Gold, morador de Ipanema que, em maio do ano passado, morreu depois de ser esfaqueado quando pedalava por aquele trecho da ciclovia.

As referências às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade e do estado foram removidas pelos garis na noite de segunda-feira.

Feitos com cartolina preta, 71 cartazes traziam nomes de crianças vítimas de balas perdidas e de policiais mortos enquanto trabalhavam. Algumas outras placas, que também foram retiradas, estampavam estatísticas oficiais de violência.

(…)

O responsável pela ONG afirmou ainda que a instituição não abrirá mão de expor dados sobre a violência em algum ponto da cidade. “É preciso constranger o poder público”, ressaltou.

Não sei como me referir “aos autores da reinvindicação aceitaram manter no local apenas uma bicicleta e um cartaz que homenageiam o médico Jaime Gold (…).”. Nem o quê dizer sobre isso: “As referências às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade e do estado foram removidos (…)”.

Sei que, no dia em que foram retiradas as homenagens “às pessoas que foram assassinadas em outros locais da cidade” – notem que manteve-se a homenagem ao médico Jaime Gold, os outros mortos não têm nome – o pobre Jaime Gold morreu de novo.

E a escória que reinvidicou tamanho absurdo parece não ter aprendido nada, rigorosamente nada, absolutamente nada, com a morte de seu vizinho. Vou repetir o que escrevi em maio de 2015.

“Os meninos que esfaquearam o médico não o fizeram por causa de uma simples bicicleta – façam-me o favor! Eles estavam ali, vá saber, com a arma (que mata, como matou) que usam para se defender de suas próprias rotinas e de seus destinos desgraçados e sem horizonte. Cravaram a faca no médico como se cravassem a faca numa bananeira. Como se cravassem a faca na sociedade que tudo lhes nega. Como se cravassem a faca na polícia que os aterroriza desde o dia em que nasceram. Como se cravassem a faca no seu próprio peito, vazio de afeto, de esperança, de perspectiva.”

E se morreu de novo Jaime Gold, morreram também, de certo modo, os que reinvindicaram essa ignomínia atendida pelo subprefeito da zona sul, Heitor Wegmann. Ou deveriam ter morrido: de vergonha, de nojo de si mesmos, de constrangimento.

Torço, quieto, para que a reação venha à altura (ou para que o subprefeito tenha um mínimo de senso de lucidez e reveja seu gesto) e que sejam recolocados ali, diante dos olhos-cegos dos que se acham mais e melhores, cada um dos cartazes arrancados homenageando gente que também teve a vida arrancada do mesmo modo banal que matou, pela primeira vez, Jaime Gold. E que cada um desses cartazes corte, como faca, o coração sem sangue dessa gente que sequer de gente merece ser chamada.

Até.

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RESSACA CÍVICA – E UM BEIJO PRO JEAN WYLLYS

Acordei hoje com um travo na garganta, um desmedido aperto no coração, uma tristeza sem tamanho por conta do triste espetáculo protagonizado ontem em Brasília e televisionado para todo o Brasil. Triste espetáculo, diga-se, mais do que previsível. Graças a acordos que envolvem nem sei quem (agências americanas com interesse nas riquezas brasileiras, políticos inescrupulosos, banqueiros e industriais brasileiros, elementos do Poder Judiciário e do Ministério Público, vá saber…), assistimos, ao longo de muitos meses, mais precisamente desde a reeleição da Presidenta Dilma Rousseff, um sem fim de operações muito bem estruturadas – coisa de gênios do marketing, reconheço – com o único fim de enfiar na cabeça do povo (desinformado, despolitizado, facilmente manipulado) que o PT é o partido mais corrupto da História do Brasil. Vem, é verdade, de mais longe a tal operação: começou com o chamado “mensalão” e uma perseguição insana a políticos filiados ao Partido dos Trabalhadores. Foram sendo minadas, uma a uma, as lideranças que embasavam a política dos Governos Lula: José Dirceu, Luiz Gushiken, José Genoíno entre outros. Como se não bastasse veio o “petrolão” e o massacre (midiático, inclusive) não cessou. Lula se reelegeu. E elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff, a primeira mulher Presidenta da República do Brasil – uma mulher íntegra contra a qual jamais pesou qualquer malfeito. Uma mulher, diga-se, que quando nomeou Graça Foster para presidir a Petrobras deu a ela uma função principal: acabar com a rataria na estatal.

E a guerra insana seguiu seu curso (ou seu roteiro, como penso). Um Juiz Federal da cidade de Curitiba, no Paraná, deu de dar início ao espetáculo da “lavajato”. A impressionante simetria entre as ações do Juiz, da Polícia Federal, dos meios de comunicação (capitaneados, como sempre, pela Rede Globo), funcionando como numa engrenagem perfeita, os rios de dinheiro que foram sendo injetados pela FIESP e outros bichos em movimentos apartidários que surgiram do nada (filhotes dos tais movimentos de junho de 2013, que culminaram na eleição do Congresso Nacional mais conservador de todos os tempos), tudo isso foi minando, de maneira absolutamente maquiavélica, o segundo mandato de Dilma Rousseff. Vazamentos ilegais de trechos de delações premiadas (jornalistas em quem confio me garantem que havia fila de jornalistas no gabinete de determinado Ministro do STF em busca desses vazamentos), grampos ilegais (incluindo o telefone da Presidência da República) que a Rede Globo transmitia sem qualquer pudor, a abertura do processo de impeachment tocado por um corrupto como Eduardo Cunha e chegamos ao dia de ontem.

O que se viu ontem, em Brasília, foi um retrato do Brasil de hoje. Os 513 Deputados Federais que compõem, repito, a mais conservadora e reacionária Câmara dos Deputados, exibiram ao Brasil e ao mundo a baixeza, a pequenez, a desfaçatez e a sordidez que saiu das urnas, em 2014, fruto – repito – dos inconseqüentes protestos pelo Brasil afora tocados por gente sem qualquer liderança partidária “contra tudo isso que está aí”.

mulher chorando

A imagem dessa mulher de vermelho, chorando após a vitória de Eduardo Cunha e de Michel Temer, o mais podre vice-presidente que o mundo já viu (desconheço outro que, investido do cargo, tenta atentado tanto contra qualquer Presidente da República, conspirando à luz do dia de forma tão abjeta) é a imagem do que eu tinha na alma quando acordei, ainda enojado e acometido de uma ressaca cívica que, se me entristece demais no dia de hoje, não será capaz de me fazer desistir da luta em prol do que acredito. Salvou-me, na manhã de hoje, a minha Morena. O olhar que trocamos e as mãos dadas em silêncio foram e são o meu conforto, o meu esteio, a minha cidadela.

Vou me poupar – e a vocês, que me lêem – de tecer qualquer comentário sobre “a” ou “b”, uma vez que foram muitos os Deputados Federais que me enojaram ontem com suas posturas, com seus discursos, com suas bravatas.

Quero lhes dizer apenas uma coisa: diante do que fez o cada vez mais inconcebível Jair Bolsonaro, que ao proferir seu voto rendeu homenagens ao homem que torturou Dilma Rousseff e outros tantos nos anos de chumbo no Brasil, ao homem que morreu carregando nas costas entre 60 e 80 assassinatos nos porões da ditadura, quem me representou naquela Sessão foi o Deputado Federal Jean Wyllys que escarrou, sem dó nem piedade, na cara de um sujeito que, se fôssemos mais sérios e contássemos com um Ministério Público e uma Justiça mais eficazes, sairia preso da Câmara dos Deputados.

“Não vai ter golpe e vai ter luta”, cantou o Brasil inteiro nas últimas semanas. Espero que a luta não tenha sido apenas verso pra tornar mais bonito o canto. Há de haver luta. É preciso que haja luta. E é imperioso que ela comece já.

Até.

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UMA SAUDADE E UMA ESPERANÇA

Eu não achei, franca e sinceramente, que fosse viver o que vivo hoje, o que vivemos hoje no Brasil. Desde meninote, à minha moda, interessei-me por política. Em 1982, com apenas 12, 13 anos de idade, fascinei-me, na exata acepção que a palavra fascínio tem pra um menino, com a figura de Leonel de Moura Brizola. Dentro de casa, entre os leques das mais-velhas, maços de Hollywood da minha avó e de Minister do meu avô, tios e tias que hoje são só saudade, eu já era olhado com certa dó: “Brizola é o demônio, meu filho!”“Um agitador!”, era sempre por aí o que eu ouvia daqueles lacerdistas, admiradores da Sandra Cavalcante. Mas eu brilhava os olhos quando via e ouvia o Brizola falar. Escapava pra Cinelândia, escondido, pra juntar-me aos que me diziam mais à alma quando o assunto era política: velhos e velhas de lenço vermelho no pescoço, a Juventude do PDT à qual não me filiei por medo, sim, por medo, e eu voltava pra casa sempre ainda mais admirado com aquele homem que começou a campanha com 1% e a venceu contra tudo e contra todos, inclusive o golpe da Proconsult que Moreira Franco (esse mesmo que hoje agita o golpe) e Roberto Marinho tentaram implementar para tirar a vitória colossal de Brizola (entenda aqui o que fizeram com Brizola em 1982).

Engajei-me a fundo na campanha para a eleição de Darcy Ribeiro, que Brizola tentou fazer sucessor. Fomos derrotados.

Ingressei na Faculdade de Direito em 1987 e vivi, na PUC-RJ, período riquíssimo: a Constituição Federal estava sendo gestada, meus professores eram todos de esquerda, e vivi, no ambiente universitário, a primeira eleição direta para Presidente do Brasil desde a ditadura, que iniciou-se em 1964. Eu era, meus poucos mais fiéis leitores, o único eleitor do Brizola da turma, que se dividia entre Lula e (pasmem) Roberto Freire – havia, claro, eleitores de direita mas que eram minoria. E apenas um de meus professores, o hoje Juiz Federal Firly Nascimento (e então Defensor Público), também era eleitor do velho Brizola.

Em 1989 dei meu primeiro voto pra valer nele, Leonel de moura Brizola. Perdemos por pouco.

E a tristeza também durou pouco: elegi Brizola Governador do Rio de Janeiro em 1990, Estado que o elegeu, consagradamente, duas vezes!

Em 92, durante o processo de impeachment de Fernando Collor, não juntei-me aos cara-pintadas: ouvi a voz do mais sábio que alertava: “A nossa posição… quando eu digo minha, eu digo nossa, porque nós elaboramos uma posição partidária. Até aqui, cada um de nós emite as suas opiniões, somos um partido democrático; eu, como mais velho, emito as minhas, mas elaboramos a nossa posição. Nós tratamos de condenar certas atitudes, certos procedimentos, porque entendemos que um clima de histeria é inconveniente para as próprias investigações, para se fazer justiça. Nós já vimos episódios semelhantes, nunca deram bons resultados. Condenamos esses excessos, às vezes a falta de isenção e principalmente os que procuravam colocar a carreta diante dos bois, [aqueles que] antes de investigar, antes de conhecer exaustivamente os fatos, recomendavam logo o impeachment, inclusive fazendo vistas grossas para as outras áreas de corrupção gravíssimas que existem no país e que no fundo estão disputando a sua continuidade no poder ou a sua ida para o poder.”

Em 1994, fiz campanha ainda mais apaixonado: o vice de Brizola era Darcy Ribeiro, e até hoje me emociono só de pensar na possibilidade que deixamos de viver, tendo Brizola como Presidente e Darcy como vice.

Em 1998 também votei em Brizola, mas como vice de Lula – embora pensasse, na época, que deveria ser o contrário. Mas foi só mais um gesto de grandeza desse que foi o maior homem público que o Brasil conheceu.

Em 16 de setembro de 2000 fiz um troço que me fez aproximar-me verdadeiramente do saudoso Brizola. Na cara da Rede Globo, na tela da Rede Globo, durante campanha para a Prefeitura do Rio de Janeiro gritei seu nome, ao vivo, para desespero do Roberto Talma, que dirigia o programa (aqui conto tudo).

Se não posso dizer que desfrutamos de intenso convívio ou mesmo de amizade, encho o peito de orgulho porque estivemos juntos muitas vezes (sempre a convite dele) e em todas as vezes – todas! – em algum momento ele me chamava à uma roda de amigos e correligionários. E dizia:

– Eduardo! Conte aquele teu episódio colossal na Rede Globo!

A foto abaixo foi tirada na casa do Martinho da Vila, nosso último encontro. Éramos poucos: eu, minha mulher à época, Martinho da Vila e Cléo, Martnália e Analimar, Paulinho da Aba, Beth Carvalho, Lupi, Brizola e seus dois netos, Leonel Brizola e Brizola Neto, o Carlito. Martinho e Cléo ofereceram um jantar ao Brizola porque o sonho da Cléo, gaúcha como ele, era não apenas conhecer Brizola, mas vê-lo assinar a Carta Testamento de Getúlio Vargas que ela pretendia emoldurar e pôr na parede. Foi uma noite de nunca mais esquecer.

Made with Repix (http://repix.it)

Brizola estava à vontade. Comeu (serviu-se picanha), bebeu vinho, cantou quando formou-se a roda de samba (a memória me trai e não me recordo dos demais músicos, além do Paulinho da Aba), contou histórias impressionantes, falou do suicídio de Getúlio Vargas, sobre a Cadeia da Legalidade, de suas campanhas, de sua infância, marejou os olhos quando falou dos CIEPs… e pediu pra cantar quando estava indo embora, alta madrugada:

“Felicidade, vou me embora e a saudade no meu peito ainda mora e é por isso que eu gosto lá de fora onde sei que a falsidade não vigora…”

Não houve quem não chorasse.

Como choro agora – faço a confissão.

Sinto muita saudade do meu eterno e saudoso Governador Leonel de Moura Brizola nesse momento sombrio que atravessamos.

E muita esperança.

De mãos dadas com a mulher com quem divido mais que a vida – sonhos, projetos, um futuro – espero o domingo com esse travo no peito.

Até.

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JAIME GOLD, MAIS UMA VÍTIMA DE OUTRAS VÍTIMAS

Ontem foi mais um dia de embrulhar o estômago de gente como eu que, apesar de hoje militar na advocacia privada, defendendo meu pão diariamente, matando um leão por dia sozinho, já atuou ou ainda atua na área dos Direitos Humanos que, vira-e-mexe, um idiota diz tratar-se de “direitos humanos para humanos direitos”, numa visão reducionista, burra, preconceituosa e desprovida de qualquer lógica.

Antes de entrar no assunto que me traz hoje de volta ao balcão do Buteco, depois de mais de um mês afastado, quero lhes contar uma história rigorosamente verdadeira e que trago à tona, depois de muitos anos, não querendo com isso fazer proselitismo, não querendo sugerir o mesmo a ninguém mas querendo apenas começar minhas digressões sobre o assassinato do médico Jaime Gold no entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões postais da zona sul da cidade do Rio, com essa história para fazer uma melhor reflexão.

Corria o ano de 1994. Eu estava, de carro, na esquina das ruas Barão da Torre com Joana Angélica, com o vidro aberto, quando senti algo me espetar e me ferir na altura do lado esquerdo do pescoço. Um virar de olhos num átimo de segundo e vi uma menina, negra, não mais do que 12, 13 anos de idade, com um caco de vidro na mão me pedindo a carteira e o relógio. Eu, talvez premido pela recentíssima atuação na área de Direitos Humanos (eu trabalhara, durante anos, na Fundação Bento Rubião e fora ativíssimo na formulação das propostas que renderam o Estatuto da Criança e do Adolescente), movido, sabe-se lá, por uma dessas lufadas de esperança que insistem em nos fazer crer no afeto acima de tudo, disse à menina:

– Você troca meu relógio e minha carteira por uma pizza, um beijo e um abraço? – estávamos quase em frente à pizzaria Itahy.

Eu vi: a menina soltou o caco de vidro no chão e deu de chorar dizendo que sim.

Pedi a ela que me esperasse, estacionei o carro logo ali em frente na praça Nossa Senhora da Paz, fui até ela, tomei-lhe a mão mirrada entre as minhas e fomos pra pizzaria.

A menina, Rita, comeu duas pizzas inteiras. Tinha olhos de medo e de fome. Cobrou-me, depois que paguei nossa conta, o abraço e o beijo que eu prometera e que eu lhe dei tão ou mais emocionado que ela. Dei a ela meu telefone – e ela voltou a me ligar mais duas vezes, sempre pra comermos a mesma pizza na mesma Itahy – deixei-a em casa e foi meu irmão Fernando Szegeri o primeiro a saber dessa história que lhe contei aos prantos pelo telefone.

Volto ao tema.

O médico Jaime Gold foi assaltado enquanto pedalava na Lagoa e, desafortunadamente, esfaqueado e morto por dois menores de idade – é o que tem apregoado a imprensa e a polícia.

No momento em que o Brasil, por obra e graça do Congresso Nacional mais conservador desde a década de 60, discute a redução da maioridade penal – um absurdo por todas as razões – é preciso, de novo – e só quem militou ou milita na área dos Direitos Humanos sabe o quanto é penoso defender os mais básicos princípios que deveriam nortear a humanidade  – fazer emergir a discussão sobre a questão da violência urbana sem o calor que cega e mutila a razão.

Atenção para o inacreditável depoimento do Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro: “É mais do que lamentável. É inadmissível o que aconteceu ontem na Lagoa, um lugar querido por todos os cariocas. Um lugar frequentado pela população do Rio e estrangeira. Por todos os turistas que vem ao Rio. Cenas dessa natureza não podem se repetir. É um cartão-postal e não podemos assumir de maneira alguma que essas ações aconteçam, muito embora a gente entenda as dificuldades que as polícias têm de trabalhar”.”.

É preciso que alguém diga a esse sujeito, que tem lá seus méritos (afinal estamos diante de números que apontam para o menor número de homicídios no Estado do Rio de Janeiro desde 1994) que é inadmissível o que aconteceu ontem na Lagoa como é inadmissível o que acontece, dia após dia, nos morros e nas favelas cariocas (que a imprensa deu de, há anos, chamar de “comunidades” com o único intuito de embelezar o que é feio porque é degradante e indigno). José Mariano Beltrame, com essa declaração, defende mais o cartão postal do que as vidas humanas envolvidas no imbróglio: a do médico, que morreu, e a dos meninos que morrem um pouco a cada dia desde que nasceram.

É preciso que alguém diga a esse sujeito que esses meninos e meninas de rua, essas crianças e adolescentes, que receberam durante o Governo de Leonel de Moura Brizola aquilo que seguramente seria a solução – educação em tempo integral, projeto que Moreira Franco e seu Secretário de Educação, Carlos Alberto Menezes Direito, enterraram para sempre sob os aplausos da classe média e da elite carioca – recebem, desde o nascimento, facadas atrás de facadas da sociedade e dos governos.

É preciso dizer que sim, que é válido, legítimo e compreensível o choro da família que perde um pai – como Jaime Gold, por exemplo. Mas é preciso saber que para aqueles meninos as palavras “família” e “pai”, muitas vezes não significam nada. Porque eles não tiveram família, não tiveram um pai, não tiveram acesso a nada capaz de fazer deles cidadãos na mais ampla acepção da palavra.

É preciso saber – procurem conversar com um desses meninos que ficam como pedintes nos sinais da cidade – que um fechar de vidros do carro sob o manto do medo, um olhar de ódio, um olhar de repugnância, tudo isso são facadas na alma dessas crianças.

E o que temos aí, hoje, nas matérias que cobrem o episódio, são barbaridades como essa, publicadas pelo jornal O Globo, um dos mais ferrenhos jornais na defesa da redução da maioridade penal: “Como diziam os mais antigos, ele [Jaime Gold] não era deste mundo”. E querem saber por que o jornal chegou a essa conclusão? Porque Jaime Gold cumprimentava o porteiro de seu prédio e educou seus filhos mesmo depois de divorciado! Patético é pouco pra definir isso.

Os meninos que esfaquearam o médico não o fizeram por causa de uma simples bicicleta – façam-me o favor! Eles estavam ali, vá saber, com a arma (que mata, como matou) que usam para se defender de suas próprias rotinas e de seus destinos desgraçados e sem horizonte. Cravaram a faca no médico como se cravassem a faca numa bananeira. Como se cravassem a faca na sociedade que tudo lhes nega. Como se cravassem a faca na polícia que os aterroriza desde o dia em que nasceram. Como se cravassem a faca no seu próprio peito, vazio de afeto, de esperança, de perspectiva.

Só a educação salva – e isso, que soa como um clichê para os que não se sensibilizam diante da desigualdade e da pobreza, é a única saída.

A única.

Até.

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ALDIR BLANC – DECLARAÇÃO DE APOIO

Em 1979, quando o Brasil já enfrentava, há mais de 15 anos, os horrores da ditadura, Elis Regina cravou no imaginário popular, para todo o sempre, uma obra-prima que viria a ser considerada, anos depois, o Hino da Anistia. Era O bêbado e a equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc. Aldir, genial como sempre, dizia saber “que uma dor assim, pungente, não há de ser inutilmente.”.

Em 2010, quando a eleição presidencial estava para ser decidida no segundo turno entre Dilma Rousseff e José Serra – e quando Marina Silva e o PSOL mantiveram-se covardemente neutros – tive a honra de expôr, aqui no Buteco do Edu, a declaração de voto do bardo da Muda, meu amigo, um de meus orixás vivos, Aldir Blanc – aqui.

Agora, às vésperas do segundo turno entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, outra vez entre o PT e o PSDB, exatos 4 anos e um dia depois, é com bastante emoção e orgulho que exibo, em primeira mão, a declaração de apoio de Aldir Blanc à reeleição de Dilma Rousseff.

E que essa declaração corra a grande rede para que o Brasil tome conhecimento da posição tomada – e não poderia ser diferente – por um dos maiores artistas populares do Brasil. Obrigado, Aldir! Saravá!

declaração de apoio de aldir a dilma

Até.

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BRIZOLA, JULGADO MORTO PELA VEJA EM 68

Em 12/07/2013 o Diário do centro do mundo publicou matéria de Kiko Nogueira – aqui – dando conta da descoberta que fiz sobre o processo, movido pelo Ministério Público, movido contra uma funcionária da Receita Federal que teria dado sumiço no processo que apurava e cobrava mais de 600 milhões de reais em impostos sonegados pela GLOBOPAR, empresa-camarilha que envolve a Rede Globo de Televisão, que deveria ser julgada por crime contínuo de lesa-pátria desde sua fundação.

No dia seguinte, 13/07/2013, o Diário do centro do mundo publicou texto que publiquei, originariamente, aqui, no próprio Buteco do Edu, que atingiu, no dia 12/07, sexta-feira, por conta das incontáveis replicadas que o texto do Kiko Nogueira ganhou web afora, seu recorde de visitas num só dia.

Este texto do dia 13/07 – Contra a Globo? Tudo! – fez com que eu recebesse centenas de e-mails de gente de todos os cantos do Brasil manifestando seu sentimento de profunda admiração e respeito por Leonel de Moura Brizola, meu eterno e saudoso Governador do Estado do Rio de Janeiro. Os 30 comentários deixados no blog dando bem a conta da importância que Brizola teve para o Brasil e para os brasileiros, e dão bem a dimensão do mito em que se transformou quando nos deixou (se bem que, a bem da verdade, Brizola mitificou-se em vida!). E isso – faço a confissão pública – me deu vontade de expôr, um pouco mais, o nome de Leonel Brizola. Mais que isso: de mostrar o quanto Brizola foi perseguido, vilipendiado, vítima de campanhas difamatórias, sórdidas, de uma implacável campanha que visou, sem sucesso, apagar seu nome da História do Brasil – ou de marcá-lo como um fracassado, adjetivo que é a antítese da síntese de sua trajetória.

Daí lembrei que em 20/09/2010 publiquei As capas da revista Veja, aqui. Em 23/09/2010, publiquei Veja contra Brizola em 1982, aqui. E em 27/09/2010, no último texto dessa pequena trilogia exibindo a vilania da revista Veja contra Leonel Brizola, publiquei Mais previsões da Veja contra Brizola, aqui.

A edição é de 23 de outubro de 1968. O editor, Victor Civita, morto em 1990, anuncia a matéria da página 14, tomem nota:

“Nossos repórteres trabalharam durante tôda a semana para mostrar o ‘terrorismo’ brasileiro, que vem crescendo – e tanto nos preocupa.”

E quem é destaque na tal matéria?

Ele, claro, Leonel de Moura Brizola.

Em destaque, Leonel Brizola é apresentado como “o terror que vem de fora tem a forma da intriga”.

E vejam o que disse, a até hoje inconcebível revista Veja, sobre Leonel Brizola. Alguns pontos:

“Depois de ter a sua falência decretada em suas duas primeiras vidas (como líder popular no Brasil e revolucionário no exílio), deixa o tempo passar, buscando uma oportunidade de viver pela terceira vez.”

“Hoje sua mensagem é pouco mais que nada.”

“Brizola político morreu, cassado pela Revolução; Brizola revolucionário parece ter se suicidado.”

Abaixo, a imagem da página 18 da edição de 23/10/1968 da Veja. Clicando sobre a imagem, você poderá lê-la com mais nitidez.

veja de 23 de outubro de 1968

Brizola morreu quase 40 anos depois da decretação de sua morte política por essa revista, que nem fazendo previsão presta, fazendo política – o que jamais deixou de fazer! – e deixando um legado para o Brasil e para os brasileiros que jamais será esquecido.

Até.

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