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LÊNIN VAI AO SAMBA

Vladimir Ilitch Lênin tomou o metrô logo cedo, na estação Cantagalo, depois do café da manhã servido na pérgula do Copacabana Palace. Desceu no Estácio e tomou a linha 2, disposto a ter contato com o povo, que disseram a ele, durante o champagne com ovas de esturjão que lhe foi oferecido à beira da piscina do hotel, que o povo estaria lá pros lados da Pavuna. Era sábado. Lênin saltou na estação Pavuna, achou tudo muito feio – fez boquinha de nojo quando pôs os pés nas calçadas da avenida Martin Luther King – e decidiu, menos de – o quê?! – 15, 20 minutos depois, tomar o rumo de volta. Minto. Foram 25 minutos. Lênin ficou profundamente emocionado quando deu de cara com um Lada vermelho, em estado lastimável, estacionado na frente de uma oficina mecânica ao lado de um botequim, onde bebeu, para aplacar a emoção, num só gole, uma dose de Balalaika, a melhor vodka à venda no lugar.

Quando embarcou de volta com intenção de ir à praia, em Copacabana, diante do hotel, não imaginou que fosse encontrar o vagão cheio. Dentro, um grupo de jovens (“estudantes”, ele pensou) distribuía um panfleto anunciando um evento na Praça XV com roda de samba na rua da Ouvidor. “Vou”, ele disse de si para si. E teve ainda mais certeza quando viu, entre os jovens, um senhor com admirável barriga, suspensórios, uma boina de lã, barbado como ele, ajudando na distribuição dos panfletos. Decidiu, ali, calado, pensando no sufoco que enfrentou na Sibéria (a boina de lã foi fundamental para que o arremesso ao passado fosse efetivado), que seguiria aquele animadíssimo grupo.

Saltaram todos na estação Carioca. Lênin encantou-se com os arranha-céus da avenida Rio Branco. Atravessou a avenida em obsequioso silêncio e achou curioso que aquele velho, velho como ele, fosse seguido por tantos jovens (não eram tantos assim, eram cinco).

Pararam todos numa praça. O velho – não ele, o outro, da boina de lã – foi saudado por um pequeno grupo (eram pouco mais de vinte) parado diante de uma caixa de som. Um rapaz mal vestido ligou o amplificador e estendeu o microfone em direção a ele, que foi anunciado como vereador. Lênin entendeu tudo. Era – ele, espertíssimo, sacou o troço todo em questão de segundos – um comício de um partido político. Só então tomou coragem e se dirigiu ao velho da boina de lã, no instante em que ia começar o discurso:

– Senhor, o que significa a sigla PSOL?

Sem reconhecer Lênin, o velho respondeu de mau humor e desferiu um safanão, de leve, no velho bolchevique.

Lênin, abismado com a descortesia do camarada (ele ia chamá-lo de camarada até que levou o safanão), abriu os braços, fez uma expressão-máscara de incompreendido e foi quando decepcionou-se agudamente. Ninguém ali, nenhum dos aguerridos partidários do PSOL o reconheceu. Ele então puxou do bolso do casaco o panfleto que recebera no metrô e seguiu o mapa em direção à rua do Ouvidor. Magoou-se de leve quando ouviu o velho da boina de lã muxoxar:

– Velho chato!

Lênin desceu a São José, entrou à esquerda na rua da Quitanda, desceu a Assembléia à direita e foi dar na Primeiro de Março. Admirou-se com a imponência da Assembléia Legislativa e lembrou de Moscou. Com medo de ser visto ou reconhecido daquele jeito, emocionado, enxugou as lágrimas de saudade que brotavam dos olhos com a manga do casaco e tomou a direção da Praça XV. Ainda seguindo o mapa, entrou pelo Arco do Teles e chegou, finalmente, à rua do Ouvidor.

Desde muito antes ele já ouvira o som do samba (pela primeira vez, diga-se a título de curiosidade). E não escondeu o susto com a rua cheia, tomada de gente bebendo cerveja e cantando. Encostou no balcão de um bar de esquina e pediu uma dose de vodka. Um único gole e o primeiro susto.

Lênin viu que uma mocinha o vira. Pela expressão da moça (sandália de couro cru, pulseirinhas de corda no tornozelo com pequenos búzios, saia de chita, blusinha branca e cabelos desgrenhados com lêndea), boquiaberta, ele disse para dentro:

– Fui reconhecido!

Acompanhou a moça com os olhos.

Deixou uma nota de cem dólares sobre o balcão, soltou um “fica com o troco” para o garçom e seguiu a mocinha. Encostou-se no portão da igreja Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores e viu quando ela cochichou alguma coisa no ouvido de um dos músicos da roda de samba (“que engraçado esse violão pequeno”), pensou olhando pro instrumento nas mãos do músico. Este, que tinha ares de dono da roda, deu um safanão na piolhenta mas virou-se em busca de alguma coisa.

– Está me procurando… – disse de si para si, esboçando um sorriso.

Seus olhos se cruzaram. O rapaz do cavaquinho cochichou alguma coisa no ouvido do rapaz do violão, que cochichou alguma coisa no ouvido do menino do pandeiro e deu-se a correr a notícia.

Lênin chegou a suar frio quando percebeu que quase todos os músicos usavam um bottom com sua imagem preso na camisa. Um deles, tocando reco-reco, vestia inclusive uma camisa preta onde se lia LÊNIN em vermelho, e ele foi, ali, um russo em estado de graça.

Em coisa de quinze minutos o terreiro grande ficou pequeno diante de tamanha balbúrdia. Até que veio o intervalo. E um músico pediu silêncio:

– Gente, gente, silêncio, silêncio…

Lênin se aprumou. Iria ser anunciado.

Continuou:

– É com imenso orgulho que recebemos aqui, hoje, na roda do Ouvidor…

Percebendo que havia conquistado a platéia, bebeu um gole da bebida (“uísque”, pensou Lênin) e depois do pigarro disse:

– Guilherme de Brito!

Lênin sentiu o peso do indicador do músico no peito, ainda que à distância. Todos os olhos em sua direção. Muito barulho. Muita confusão, e Lênin notou que os músicos discutiam.

Uma outra mocinha, que não aquela primeira, saiu de uma livraria com um CD:

– Assina pra mim, seu Guilherme…

Lênin já estava chorando de tristeza, recusando o autógrafo, quando a azêmola emendou:

– Como vai a dona Nena?

Lênin apurou os ouvidos em direção à mesa dos músicos:

– Um bosta, cara! Popular demais! Um Luiz Carlos da Vila branco e mais velho!

Outro, exaltado (justamente o que vestia a camisa com seu retrato):

– Não vamos cantar porra nenhuma! Vamos de Candeia, pô! Candeia!

O do tamborim:

– Isso! Isso! E Picolino! E Colombo!

Lênin foi vaiado. Unanimemente vaiado, como nunca. Nem quando foi expulso da Universidade de Kazan, em 1887, o velho bolchevique conhecera tamanha agressividade sonora.

Saiu, pé-ante-pé, tornou ao balcão do bar da esquina e pediu outra dose de vodka ao garçom. Virou de uma só vez, deixou mais cem dólares (“fica com o troco”, ele repetiu) e tomou o rumo do metrô cantarolando a Internacional sozinho, triste, cabisbaixo, completamente destruído.

Ao vê-lo dobrando a esquina, disse um dos músicos erguendo a garrafa de uísque:

– Salve o samba de raiz! Salve o samba puro!

Um outro, visivelmente embriagado, exibindo ferozmente o bottom, berrou:

– Salve a revolução! Salve Lênin! Salve Trotsky! Viva! Viva a Cristina! Viva!

Outro:

– Salve o PSOL! Salve o PSTU! Salve a Cristina! Viva! Viva!

Foram aplaudidíssimos, os trombeteiros.

Até.

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A ASSINATURA NO GESSO

Quando ele leu, durante o café da manhã tomado sem pressa por recomendação médica, folheando os jornais, a página do obituário e viu, ali, o nome daquela mulher, tomou um susto capaz de lhe fazer golfar o café com leite e engasgar, e tossir, e tossir mais forte, a ponto de fazer a mulher, com quem é casado há de mais de quarenta anos, sair do quarto enrolada num roupão, a toalha sobre a cabeça, preocupadíssima:

– O que houve, meu bem?!

Ele fez um gesto com a mão, estava de costas para a porta do corredor, e disse que não havia nada, que fora apenas um mal jeito ao engolir uma das fatias de torrada que eram sempre postas à mesa, religiosamente, às sete da manhã, pela empregada de muitos anos também.

A mulher foi até ele, pôs as duas mãos sobre o peito do marido, deu-lhe um beijo no alto da cabeça, um em cada lado do rosto, e disse apenas que voltaria para o quarto por conta de uma enxaqueca.

Ele fechou os olhos e lembrou-se dela, morta…

Deveria estar com o quê – pensou alto – uns 70 anos? Nunca mais a vira, desde a mudança de sua família daquele prédio na Tijuca, na rua Campos Sales, diante da pracinha. Nunca mais a vira mas também nunca mais a esquecera.

Ele, com doze anos de idade, tinha vertigens quando a via passar pelo jardim da portaria do prédio, do alto de seus dezoito anos – seis anos que faziam uma tremenda diferença naquele momento da vida – vestindo a saia plissada de normalista, as coxas morenas com a penugem dourada visível, grossas, uma batata de perna alvíssima graças às meias 3/4 do uniforme, a blusa branca estufada pelos seios em flor com bicos insistentemente presentes e proeminentes, e aquela pasta permanentemente colada ao corpo, que ela levava abraçada.

Jamais, e como ele se ressentia disso, ela lhe lançara um único olhar. A esperavam diante do portão, de segunda a sexta-feira, quatro colegas de Instituto de Educação, e iam as cinco, a pé, em direção às aulas, deixando o menino ali, com a sede do pecado lhe secando a boca e contando as horas para que pudesse acompanhar a chegada da mulher que lhe tirava o sono.

Houve um dia – um dos que marcariam para sempre sua memória e sua vida – em que ela chegou, por volta das cinco da tarde, amparada por duas colegas e por uma mulher que, soube depois, era uma das inspetoras do colégio. Estava com a perna direita engessada, do tornozelo até a altura do joelho. Condoeu-se com aquela cena e reparou que havia várias assinaturas no gesso, e não se conteve quando ela passou por ele:

– Está precisando de ajuda, Manoela?

Ela, que jamais o olhara, virou o rosto para o menino sentado num dos bancos do pátio interno do prédio – e esse girar do rosto levou, para ele, uma eternidade… – e disse, docemente e com um sorriso que a tornava ainda mais bonita:

– Não, obrigada, Artur, muito gentil da sua parte. Muito obrigada! – e seguiu em direção ao elevador.

Como ela sabia seu nome? – eis a pergunta que se fazia enquanto punha as mãos na boca para impedir o salto do coração, sensação efetiva que experimentava. Fantasiava com isso, com essa besteira, quem não haveria de saber o nome do menino que nascera ali, naquele prédio?

O começo da noite, ao deitar-se, como tantas outras – essa mais que as outras, é verdade -, foi dedicada a ataques de onanismo, depois do ataque priáprico que sofrera quando ouviu seu nome ser pronunciado por aquela boca que ele tanto queria para si.

E foi o dia seguinte que entrou, definitivamente, para a história de sua vida. Lá estava ele, esperando a condução para o colégio, quando Manoela abriu a porta do elevador amparada pela mãe. Sentou-se ali, no banco à sua frente. Sorriu pra ele. Lhe deu bom dia. A mãe de Manoela lhe perguntou por seus pais, e ele não respondeu nada que não fosse um aceno com a cabeça, vidrado que estava na mulher com quem dormira, de certo modo.

Ele nem sabe de onde veio a idéia, o ímpeto, mas ele tomou coragem e disse:

– Manoela, posso assinar no gesso também?!

Ela, luminosa, já esticando a perna e ajeitando a saia, disse:

– Claro! Você tem caneta?

E ele já abria, afoito, o estojo em busca de uma esferográfica. Escolheu a de cor preta e foi, sôfrego, em direção a ela.

Ele ajoelhou-se diante de Manoela. Manoela pousou seu pé direito, de chinelo, sobre sua coxa esquerda. Ele pôs a mão esquerda por baixo do gesso, afagou o gesso como se afagasse as pernas da moça, os olhos mal disfarçavam que buscavam, tensos e úmidos, a parte interna das coxas morenas e douradas de Manoela que – é de propósito!, ele pensou – abria, de leve, as pernas, para que o menino visse o que mais queria. O menino Artur suava, respirava como um asmático em plena crise, sentia tremer a mão que segurava a caneta, até que pousou a ponta da caneta sobre o gesso:

– Posso?! – ele tentava ganhar tempo.

– Pode o quê? – pareceu a ele que ela estava gostando daquilo.

– Assinar meu nome.

– Claro! Assine, sim…

Ele continuava a fazer carinho sobre o gesso, como se gesso não houvesse, arriscou um toque, mesmo de leve, sob a coxa da mulher que alucinava seus sonhos de menino, e olhava fixamente para seus olhos que expressavam uma certa satisfação enquanto mantinha a caneta pousada num certo ponto em branco do curativo. Escreveu seu nome, pôs a data, e ela puxou-o pelas mãos, deu-lhe um beijo em cada lado do rosto, agradeceu, e ele mal pode acreditar quando teve a visão dos seios empinados de Manoela sob a blusa alvíssima do colégio quando recebia os beijos de olhos semi-cerrados, que se abriram num instante! A mãe da menina nem estava mais ali, havia ido conversar com uma vizinha no banco em frente, quando ele notou que ela sorria um sorriso que ele conhecia só de ouvir falar, de malícia, de sensualidade, de prazer, e continuou sem acreditar, já ardendo em febre, quando ela pousou suas duas mãos suadas sobre suas coxas, dizendo em seu ouvido, depois de uma mordida de leve no lóbulo esquerdo:

– Artur, seu safado…

Nunca mais houve nada parecido entre eles.

Mas aquela cena foi recorrente durante toda a juventude de Artur, à noite, principalmente, e recorrente de novo, quando seus olhos cansados deram com o nome dela num anúncio retangular do jornal daquele dia.

Uma semana depois era o nome dele, Artur, que aparecia na mesmíssima sessão de obituário, do mesmíssimo jornal.

Tivera um ataque de coração, fulminante, antes mesmo que a mulher acordasse ou que a empregada tivesse chegado da rua com o cachorro do casal.

Até.

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CANÇÃO DA MANHàFELIZ

“De repente em minha vida
já tão fria e sem desejos
estes festejos
esta emoção…”

(Haroldo Barbosa e Luiz Reis)

Eu sentia-me exatamente assim. Semi-morto. Um autômato. Quase um vegetal. Há exatos cinco anos. E o simples fato dessa memória da data, o simples uso da palavra “exatos” para contar os anos e pontuar a dor de meia década é capaz de deixar bem nítido o tamanho do rasgo na minha alma ou no que um dia pude chamar de alma (pude, não… no que um dia chamaram de alma por mim).

A dor do abandono deve doer. Eu digo deve doer porque o que me vitimou não foi abandono. Foi nem sei dizer o quê. Aquela vaca confessa numa manhã de sábado de carnaval que está saindo de casa e justo por causa daquele a quem eu considerava um grande amigo. “Vamos pra Paris”, foi só o que ela disse já de pé no centro da sala, duas malas enormes a seu lado, e nem um beijo, nem um abraço, nada.

E pior que isso.

Nem sinal de nada. Foi assim, de uma hora pra outra. Claro que de uma hora pra outra segundo a minha visão. “Estamos juntos há seis anos”, isso foi dito assim, fria e pausadamente, para responder meu monocórdio “desde quando?”.

Mas ontem, sei lá o que me deu, depois de exatos cinco anos (uso o exato de novo e percebo a cicatriz fechando), contratei a Leila (escolhi pelo nome, o mesmo), a quem encontrei numa dessas agências de acompanhantes (que é como as putas se denominam pela internet). Minha única exigência: dormir comigo.

Paguei o triplo do valor que me fora dito pela telefonista, educadíssima (como estão refinados os puteiros, os bordéis, os lupanares). “Dormindo fica mais caro”.

Não me importava.

Eu queria acordar dizendo “Leila, bom dia” novamente.

Mas ao acordar, vendo a Leila ali, dezoito anos (isso foi o que ela me disse, não tem mais de dezesseis), em posição fetal, nua, os pezinhos enroscados, uma manhã luminosa arrebentando a veneziana e frisando de luz o colchão, senti uma emoção que já desconhecia.

Os quarenta anos que nos separavam não tinham a menor importância.

E enquanto fotografava Leila, com um nó na garganta, um calor no peito e um tremor indisfarçável nas mãos, notei que só estava dizendo “exatos cinco anos” porque não havia me permitido, minimamente que fosse, uma oportunidade mínima de um esboço de emoção.

Quando eu disse a ela, assim que fez a primeira preguiça, “Vou tirá-la dessa vida, minha querida…”, ela gargalhou, perguntou por torradas e café bem forte. Acendeu um cigarro e disse brincando com a fumaça:

– Todos dizem isso.

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A PROFESSORINHA

“Que saudade da professorinha
Que me ensinou o bêabá…”

(Ataulfo Alves)

(foto de Paulo Barbosa)

Luísa. Professora de Língua Portuguesa. A conheci no balcão do Bar Getúlio, no Catete, numa terça-feira sem qualquer compromisso que não comigo mesmo: sentar à mesa às sete, ver o movimento nas calçadas, beber até umas nove e voltar pra casa.

Não voltei às nove porque a Luísa sentou-se à mesa. O bar lotado e eu sozinho com uma cadeira vazia à minha frente. Ela sorriu. Perguntou se podia sentar-se. Eu nem respondi. Assenti com a cabeça, ofereci a ela um cigarro que foi recusado e começamos a conversar pelo viés mais banal. “Qual seu nome?”, “Mora por aqui?”, “Faz o quê?” e eu ri demais quando ela disse Luísa com “s”, professora de língua portuguesa.

Há mais de 20 anos eu tive uma professora de português, Luísa também, também com “s”.

Ela riu de volta.

Baixinha, olhos puxados, cabelos curtos num corte antigo, gordinha mas que me deixou com um tesão absurdo ainda dentro do bar, Luísa foi gentil quando disse “eu pago a conta, faço questão, minhas férias começam hoje”.

Meu tesão dobrou por conta disso. Senti-me ali o aluno de novo. A tia pagando a conta.

Não sei exatamente como a coisa se deu, mas quando o garçom trouxe o troco naquela carteira de couro já estávamos nos beijando e eu beijei mal de propósito. Queria ser o aprendiz.

Luísa – pareceu-me – sacou o jogo e convidou-me pra um Frangelico em sua casa. Tomamos o táxi.

– Praia de Botafogo, por favor… – ela disse sentada no banco traseiro, a meu lado, alisando minha coxa acintosamente.

Pagou o táxi e subimos pelo elevador. Eu, representando, fiquei olhando pros meus próprios pés fingindo timidez e de soslaio percebi Luísa retocando a maquiagem diante do espelho.

Saltamos no nono andar. Luísa remexeu a bolsa, sacou da chave, abriu a porta e me disse “entra, meu bem…” com uma doçura estonteante.

Pediu licença e eu fiquei de pé, diante da janela, observando o movimento dos carros àquela hora. Perdi a noção do tempo hipnotizado pelo traçado vermelho e branco dos faróis e lanternas dos carros naquela noite de chuva quando escutei o “psiu” e virei-me.

Luísa nua.

– Me bate, meu bem – e estava chorando.

– Hein?

– Vem aqui, vem…

Cheguei mais perto.

Luísa tomou-me pelas mãos. Pôs minha mão direita em sua face esquerda e disse:

– Bate… com força…

Bati.

– Mais! Mais! Me machuca, querido!

Fiquei confuso, fiquei tonto, estava de novo com cinco anos de idade e a Tia Luísa, de Português, queria apanhar, e a Luísa, do Bar Getúlio, implorava por um espancamento que não estava nos meus planos. Não lembro de nada. Apenas que a Luísa, diante da minha impotência, abriu uma garrafa de Frangelico, que era, afinal, o que estava no roteiro.

Mas eu tô sempre lá.

Uma vez por semana, praticamente.

A cada dia me chama de um nome.

Seus alunos, imagino.

E eu tomei gosto. Valho-me das mãos, do cinto, de pequenos chicotes que ela coleciona, de uma colher de pau, tenho sempre que deixar uma marca em seu corpo. Só assim, me disse a Luísa, ela é feliz.

– O bêabá do prazer, meu bem, não tem regra, sabe?

Luísa – creio que isso é importante para compreendê-la – paga sempre o meu táxi quando volto pra casa.

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CALOURO

O sujeito entrou no buteco falando no celular (cantando, aliás): Se alguém perguntar por mim… Diz que eu fui por aí… Levando um violão debaixo do braço…

E desligou.

Ninguém o conhecia na área.

Nem seu Osório, o mais velho de todos, uma espécie de pajé etílico, nem o Bule, nem o Quincas, tampouco o Amorim. Osório ainda espichou o nariz em direção ao Vidal que fez que “não” com a cabeça. Novo na área.

Encostou no balcão e apontou pra garrafa de cerveja à frente do Amorim, cantando pro Zezinho, o garçom:

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa….

E gargalhou.

Zezinho, mau humorado como de costume, foi ao freezer e entregou ao cara a garrafa já aberta e um copo americano.

Osório puxou conversa:

– Boa tarde, amigo!

O cara não interrompeu o gole, dado de uma vez só, nem respondeu. Apenas sorriu. E emendou, afinadíssimo: A sorrir, eu pretendo levar, a vida… Pois chorando, eu vi a mocidade… perdida!

– Ô cara estranho! – sussurrou o Bule.

– Só canta! – disse seu Osório.

Tocou o celular do camarada. Ele atendeu. Ficou ouvindo durante quase um minuto. Encheu o peito de ar e mandou: Nunca… Nem que o mundo caia sobre mim… Nem se Deus mandar, nem mesmo assim, as pazes contigo… eu farei…

E desligou pigarreando.

Seu Osório estava apostando que o sábado seria divertido. Aquela tremenda peça dentro do buteco era sinal de boas histórias. Remexeu a cabeça em busca de um assunto e, pronto!, sacou do assunto de praxe:

– Torces pra que time, amigo?

Flamengo joga amanhã eu vou pra lá… vai haver mais um baile no Maracanã…

E puxou da carteira lançando um santinho, São Judas Tadeu, sobre o balcão.

Ficou assim a tarde inteira, desfilando pérolas da música brasileira.

Antes de ir embora fez um aceno e Osório perguntou:

– Ô, calouro! – neguinho riu. – Amanhã, pouco antes do jogo, vamos fazer um churrasco no buteco ali na outra esquina. Aparece!

Se fizer bom tempo amanhã… Se fizer bom tempo amanhã… Eu vou…

E foi saindo de fininho.

Até.

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DESABAFO DE UM EX-AMIGO

Excepcionalmente eu não cumprirei com a palavra empenhada. Fiquei de prosseguir contando sobre a aventura amorosa passageira entre Dedeco e Valéria Cristina mas não farei isso, ao menos hoje.

Recebi pungente email de um homem que se declarou “um ex-amigo do Dedeco”. Felipe Millem é seu nome. Tudo toma corpo e cores de verdade maiores justamente porque não sei quem é. Não o conheço. Mas é de um tom tão pungente, é de uma minúcia tão capaz de comover o leitor, que entendi por bem reproduzir o email na íntegra. O título do email era justamente o título de hoje, “Desabafo de um ex-amigo”. Vejam que tristes as sendas que o Dedeco percorre.

“A cada história do Dedeco que vou tomando conhecimento, minha repulsa por este ser abjeto vai atingindo patamares estratosféricos.

É triste constatar o nível de torpeza que alcançou sua alma distorcida.

Mais triste ainda é lembrar que este sujeito já foi, um dia, uma pessoa de bem, temente a Deus e que sabia de cor a cartilha da saudosa “Tradição, Família e Propriedade”.

Lembro-me de nosso tempo no glorioso Colégio Militar. Dedeco (ainda atendendo pelo seu nome André Menezes), era um aluno brilhante, arrancava os mais sinceros elogios dos professores e oficiais, o que, contudo, despertava a ira de seus colegas de turma. Esses, incapazes de alcançá-lo no seu intelecto (à época, voltado para o Bem), passaram a achincalhá-lo constantemente na hora do recreio, fazendo comentários jocosos sobre sua obesidade e de seu já iniciante processo de erosão capilar. Com isso, aquele André Menezes foi se retraindo, cheio de mágoas, tornando-se uma pessoa reclusa e rancorosa, mas ainda com alguma bondade restante em seu coração ferido.

Certa vez, em um ano que especificamente não me recordo, eu não estava indo muito bem em matemática, pra falar a verdade, minhas notas em exatas sempre foram de um monocromático vermelho capaz de irritar os olhos de quem abria meu boletim, pois nunca fui bem com números. André Menezes, com uma compaixão franciscana, talvez também por eu ser o único da sala a não zombar de sua forma roliça, ofereceu-se para a árdua tarefa de tentar me ensinar porque raios eu tinha que aprender a fazer operações matemáticas com letras e não com números.

Em um sábado de manhã, André Menezes aceitou o desafio hercúleo de tentar mostrar o caminho da sabedoria para um intelecto rudimentar (o meu). Também foi um desafio para o André desbravar seu pequeno universo, consistente na Tijuca e Vila Isabel, para tomar o rumo da radial oeste em direção ao bairro pobre da Piedade, no qual eu residia.

Depois de algumas horas de ensinamento, finalmente consegui entender que o “x” em uma equação era somente um número comum, usando uma fantasia de letra e o objetivo daquela maldita matéria era descobrir a “identidade secreta do número” (termo encontrado pelo André para me fazer entender, eis que tinha consciência de minha curta sabedoria, assim como minha predileção por gibis de super-heróis).

Chegada a hora do almoço, minha santa mãe perguntou-nos se o André Menezes iria almoçar conosco, eu prontamente disse que sim, pois a única forma que a minha mente tosca encontrou de agradecer ao sábio gordinho era, lógico, oferecer-lhe uma lauta refeição.

Para tanto, o André Menezes pediu para ligar para a santa mãe dele, para avisar que “iria almoçar na casa dos outros”, tendo ela aceitado com velada alegria, pois, naquele sábado, o maior bife servido em um almoço, finalmente, seria o dela.

Sentamo-nos à mesa então. Meu pai sempre à cabeceira, de onde comandava a família com mão de ferro, sob a rígida moral de família mineira, de um lado eu e o André e do outro minha santa mãe e minha irmã.

Súbito, meu pai proferiu um brado retumbante: “Hoje, temos à mesa um novo coleguinha para cear conosco, quem fará as preces?” Meu pai disse esta frase já olhando para mim, esperando que eu tomasse a iniciativa e me oferecesse para fazer as orações, no que permaneci em um silêncio de velório, pois jamais tinha conduzido uma prece na família, uma vez que, assim como com números, nunca fui muito bem com palavras.

André Menezes, do alto de sua percepção Sherlockiana, conseguiu entender aquela situação constrangedora e, imediatamente, começou a entoar, de improviso, uma prece em louvor a Nossa Senhora.

As palavras proferidas por André Menezes foram de uma fé tão contundente que conseguiram extrair pesarosas lágrimas até dos olhos de meu pai, secos como o sertão, eis que criado com a máxima mineira de que “homem não chora”.

Após aquela prece maravilhosa, ceamos cheios de alegria em nossos corações suburbanos, elevados em nossa fé no Senhor.

Taí Edu, um relato de quem conheceu o André Menezes, ser humano íntegro, antes de assumir o alter ego deste vilão Dedeco, tão retratado em suas colunas.

Rogo a Deus todos os dias, para novamente tocar sua alma perdida, para que ele volte a ser aquele gorducho, de moral ilibada, que se confessava e comungava como todo bom Cristão deve fazer, espalhando a palavra do Senhor por onde passava e não a luxúria e a vilania, o que certamente o conduzirá para o açoite inclemente da espada de fogo do Todo-Poderoso.

Felipe Millem é um Valente da Fé.”

Até.

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DEDECO E VALÉRIA CRISTINA

A pedidos, prossigo a história de ontem do Dedeco.

Mandei aflito email para o escrivão de polícia que me mandou a foto do Dedeco sendo abatido por um porrete de proporções olímpicas e o mesmo, gentilíssimo (e ele é da polícia, vejam isso!), enviou-me email com riqueza de detalhes. Contou-me que por mera curiosidade e por obrigações advindas das investigações que foram iniciadas com relação ao registro da ocorrência de agressão que o Dedeco cometeu, ficou sabendo de muita coisa. Grampos clandestinos, campana, e o romance de Dedeco e Valéria Cristina, curto mais intenso, foi devassado. Estamos, é bom lembrar, em 2002.

Valéria Cristina foi à Delegacia Policial e obteve, depois de passar R$50,00 pro escrivão de plantão dentro de um papelucho dobrado, o telefone do Dedeco. Diante da evidente ligação que Valéria Cristina faria pro Dedeco, o talo escrivão acionou o departamento competente da DP e foi feito, em poucos dias, o grampo na linha telefônica do embusteiro.

Primeira ligação gravada:

“Alô?”

“André?”

“Isso. Quem fala?”

“Valéria Cristina…”

(som vindo de Valéria Cristina soltando fumaça do cigarro)

“Quem?”

“Valéria Cristina… namorada do cara com quem você se meteu numa briga anteon…”

“Oi, amor…”

(Dedeco tosse)

“Vocêzinho tá melhor?… Ele te bateu tanto…”

(voz de choro de Valéria Cristina)

“Mais ou menos… Um pouco dolorido ainda…”

“Quero vê-lo. Posso ir até sua casa? Você mora só?”

“Moro, gata. Moro. Venha sim…”

“Vou levar band-aid, gazes, água boricada, mercúrio cromo, um tubinho de Satya… tá?”

“Gata (pigarro) posso lhe pedir um favor?”

“Dois, André…”

“Então vou pedir três…”

“Peça, querido…”

“Traga um pacote de Carlton, uma cartela de camisinha e um tubinho de KY. Anota aí o endereço.”

(a gravação é interrompida aqui)

Vejam bem, acompanhem bem, como é fino, como é baixo, sujo, como é sem luz esse André.

Prometo amanhã seguir no mesmo caminho. Conto-lhes mais.

Até.

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