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ENTREVISTA – BETH CARVALHO

No dia 27 de julho de 2010, numa terça-feira, uma semana depois de uma visita minha à Beth Carvalho, que recupera-se, em casa, e de vento em popa!, de uma cirurgia realizada há uns meses, estive com meu mano Luiz Antonio Simas“o maior conhecedor de samba de enredo do mundo!”, foi assim que a madrinha o saudou – em seu apartamento, em São Conrado, na zona sul do Rio de Janeiro, para mais um entrevistão do BUTECO. Ficamos lá, precisamente, das oito da noite às duas da manhã.

Eu, confesso – e confesso de novo, já disse isso aqui “n” vezes -, sou suspeitíssimo pra falar de Beth Carvalho. Como se não bastasse a admiração que tenho, herdada de meu velho pai, pela grande artista que ela é, tenho o privilégio de desfrutar de sua amizade, podendo atestar, com mais de 15 anos de convívio, que Beth Carvalho é uma brasileira máxima. Generosa, apresentou-me a Leonel Brizola, num encontro a três, no Hotel Glória, no Rio de Janeiro, no início dos anos 90. Em 2007, levou-me pra conhecer Hugo Chavez, na Assembléia Legislativa, escrevendo (mais) uma página marcante da minha vida, já que passamos aquele dia, 18 de janeiro de 2007, inteirinho juntos, na rua do Ouvidor, mais precisamente na FOLHA SECA, a livraria do meu coração, vejam aqui (e vejam que curioso, na companhia de Moacyr Luz e Tiago Prata).

Pude atestar, ao longo desse tempo, que a mesma generosidade que ela tem por força da profissão (indo beber na fonte, desobrindo talentos, estendendo a mão a quem a comove) ela tem com os amigos. Ela sempre divide o pão, como contou emocionada durante a conversa registrada em mais de duas horas de gravação. Contou sobre sua infância, sobre suas influências e referências, sobre suas paixões, sobre política, e sua faceta política é das que mais me comove. Engajada sem ser patrulheira, envolvida até a raiz dos cabelos sem segundas intenções, esteve sempre – sempre! – ao lado do povo brasileiro. E se eu sou suspeito, insuspeitada é a opinião de outro brasileiro máximo, Fernando Szegeri: “(…) não acho Beth Carvalho somente uma grande artista. É uma figura de elevada importância na cultura brasileira das últimas 4 décadas, pelos autores que ela gravou, pelos intérpretes que incentivou e/ou descobriu. E pelas suas atitudes políticas também, (…), brizolista de 4 costados e firme em questões pontuais, por exemplo recente, na polêmica da numeração dos discos, enquanto os caetanosvelosos da vida tomaram partido da indústria multinacional. (…) quem diz que Beth não gosta de butiquim, de subúrbio, de pagode, sinceramente, não viu o que eu vi, nem uma, nem duas, nem cinqüenta vezes só. Esta defesa eu vou fazer, em nome do que eu vi nesses últimos vinte e cinco anos, toda vez que o nome de Beth Carvalho vier à tona.”.

Se até Luiz Antonio Simas, outro grande brasileiro, conhecedor profundo da música brasileira, espantou-se e encantou-se com as revelações feitas pela Beth ao longo da entrevista, você também, que me lê, haverá de ficar surpreso e emocionado.

E você perceberá, também, que não houve pauta, que não houve sensacionalismo, e que não houve sequer sombra de intenção de provocar a fera – ingredientes que, vira-e-mexe, são incluídos nas fraquíssimas entrevistas que são (quando são) publicadas nas revistas e nos jornalões, mais a serviço das assessorias de impresa e dos releases do que da informação que interessa.

Nossa (minha e do Simas) única intenção – e isso está presente, modéstia à parte, nas outras cinco entrevistas já feitas e publicadas pelo BUTECO – foi deixar a entrevistada fechar os olhos imaginariamente, puxar pela memória, trazer suas reminiscências à tona, abrir o coração e derramar sua história pra contarmos tudo por aqui.

Acho, franca e sinceramente, que conseguimos. Com vocês, Beth Carvalho!

Eduardo Goldenberg: Hoje é 27 de julho, nove e cinqüenta da noite, estamos aqui, eu e Luiz Antonio Simas, pra entrevistar Beth Carvalho. Como a gente sempre começa, Beth, fala, do seu jeito, o nome dos seus pais, onde você nasceu, as reminiscências da sua infância…

Beth Carvalho: O nome do meu pai, João Francisco Leal de Carvalho, minha mãe, Maria Nair Santos Leal de Carvalho, e eu nasci na cidade maravilhosa do Rio de Janeiro, no dia 5 de maio de 1946. Nessa ocasião meus pais moravam no Catete, na Bento Lisboa, 10. Esse prédio existe até hoje. É um prédio todo de pedra, todo de pedra, não fica velho nunca, resistente! Mas eu nasci na Pró-Matre, que fica na Gamboa. E meu pai, desde pequenininha, falava “você nasceu na Gamboa!”, e eu achava aquilo tão bonitinho… a palavra ”Gamboa”! E eu incorporei essa história… Qualquer pessoa que me perguntasse onde eu nasci, eu falava, “eu nasci na Gamboa!”. E isso ficou! E isso depois, bem mais tarde, em 72, quando eu fui fazer o disco “Pra Seu Governo” que eu pedi pro Mário Lago escrever a contracapa, ele me perguntou, “você nasceu aonde?”, eu falei, “eu nasci na Gamboa!” (ri). Aí ele disse, “ah, você nasceu no berço do samba” e tal, então ficou essa coisa… O Martinho da Vila fez um samba em minha homenagem, que é o “Enamorada do Sambão”… que ele fala (cantando) “Gamboa, Gamboa, Gamboa mas nem sempre estou na boa”, que eu também falava esse negócio de Gamboa pra ele, mas na verdade eu nasci no Catete, onde o Cartola nasceu também… (ri muito)

EG: E como foi sua infância?

BC: Minha infância foi maravilhosa, eu tive uma infância de rainha, tive tudo, tive velocípede, tive patins, tive balé (ri), tive natação, tive brincadeira na rua… Eu morei muito tempo na Urca… E a Urca era, ainda é um bairro muito…

Luiz Antonio Simas: Clima de interior…

BC: É impressionante! Pra criança não tem melhor! Então eu tive essa infância de praia, a praia da Urca não era poluída, tive infância de balé, como eu te falei, eu amava balé clássico… inclusive fui primeira bailarina na minha academia, eu tinha todo o jeito pra isso… Aos 13 anos eu engordei um pouco, veio o negócio de violão, de bossa-nova, e eu parti pra tentar o banquinho e o violão…

EG: Treze anos?

BC: Mais ou menos, por aí! Eu dei uma engordadinha, balé você tem que ser esquelética, e eu era esquelética! Pequenininha, não, mas depois eu ganhei corpo de bailarina mesmo! Eu não podia ver um poste que eu fazia barra, entendeu?! Eu era apaixonada, eu era rata do Teatro Municipal, minha mãe gostava muito… Mas também, ao mesmo tempo, eu era apaixonada por Carnaval…

EG: Desde pequena?

BC: Desde pequenininha! Minha mãe também! Minha mãe não era uma mulher de ficar saindo pra lá e pra cá mas Carnaval… ela era apaixonada! E ela me levava pra Cinelândia… Então eu via aqueles palhaços fazendo brincadeira com criança, eu me lembro disso… Tinha um XI e outro XI, juntos faziam XIXI! (rindo) Acho que tem isso até hoje, né? E aí as escolas de samba… Eu comecei a ver escola de samba eu tinha o quê?, uns 7, 8 anos de idade… E eu elegi a Mangueira pro meu coração, vai explicar! Não entendo!

EG: Sem influência de ninguém?

BC: Sem nada! Minha mãe não tinha uma escola, ela gostava de ver. Ela alugava um caixote, que era muito comum isso acontecer, a gente alugava um caixote pra ficar mais alto, que nem arquibancada tinha. E aí a gente assistia as escolas dessa maneira, Portela, Mangueira, Salgueiro, Império, não lembro… Eu lembro da Mangueira! Me marcou acho que pelas cores, pelas baianas… Porta-Bandeira e Mestre-Sala que eu sou apaixonada pela dança, né? Não deixa de ser um pouco clássica, né? Eu fiquei apaixonada pela Mangueira, então eu falava pra todo mundo que eu era Mangueira! Desde pequena, mesmo. E o baile do Teatro Municipal que era o que tinha, e era maravilhoso, baile infantil, era lindo, e os bailes de clube… Todos os clubes do Rio de Janeiro tinham um baile… Montanha, Tijuca Tênis Club, o Iate Clube, o Caiçaras, eu ia a todos. Chegou uma época que eu tinha o quê?, uns 14 anos, eu acho… Eu me mudava pra Tijuca! Eu tenho um lado tijucano forte…

EG (interrompendo): Ótimo!

(risos)

BC: … e isso por que? Minha avó morava lá, e meus primos que eu amo de paixão, Antônio Carlos, Luiz Roberto, Júlio Cesar, e minha tia Gardênia que já faleceu e meu tio Valdir… eles eram muito festeiros, muito festeiros!

EG: Você lembra a rua?

BC: Ernani Cotrim, uma rua sem saída, paralela à Maria Amália! Então a Tijuca… pra você ter uma idéia… Eu sempre morei na zona sul, morei na Urca, morei em Botafogo, morei em Ipanema… Eu acho que eu já estava em Ipanema nessa época. Agora… férias?! Eu ia pra Tijuca, dormia no quarto de empregada, numa beliche, eu dormia em cima, com aquele calor danado, com aquele morro atrás da gente, pedra pura, né? Eu ficava lá porque o Carnaval começava antes na Tijuca! Tinha quarenta bailes pré-carnavalescos!

LAS: Nos clubes?

BC: Nos clubes. No America… tinha muito bale no America. Eu, quando comecei a crescer, ia no infantil e no juvenil! E também brinquei muito no Botafogo… Eu freqüentei muito o Botafogo no Carnaval. Acho que era só no Carnaval que a gente ia lá. E o Carnaval era muito delicioso porque era na varanda, pras crianças era gostoso, tinha vento, eu me lembro que a minha mãe comentava, “ai, como é agradável aqui!”. Tinha orquestra, cara! Era coisa boa, entendeu? Os músicos eram da pesada, entendeu?! No Teatro Municipal tinha duas orquestras! Quando acabava uma, vinha outra. Wilson das Neves era um deles, que tava lá! Viu? Já desde aquela época, eu ficava ligada na orquestra, nos cantores, nos músicos… Eu tinha uma relação ali, sabe? Enfim… Carnaval… Eu aprendia cerca de setenta músicas por ano… Porque eu ouvia a Rádio Nacional direto, César de Alencar… Eu ficava o dia inteiro ouvindo aquilo… E a gente aprendia, naqueles programas, as músicas do ano, as de Carnaval. E todos os cantores tinham o que gravar no Carnaval. Nora Nei, Jorge Goulart…

LAS: Eles faziam música pra Carnaval!

BC: Sim! Eles viveram até morrer, disso! É o direito autoral mais forte do Brasil, é o direito autoral do Carnaval. Eu sei porque “Vou Festejar” segura a onda de todo mundo. Tinha que ser comigo o “Vou Festejar”, não podia ser com outra pessoa!

EG: Vamos voltar um pouquinho…

BC: Já falei muito! (risos)

EG: Com treze anos você largou o balé e foi pro violão… Foi seu primeiro contato com o instrumento?

BC: Eu tocando, sim. Mas teve o piano antes! Estudei um pouquinho, cheguei a dar uma audição e tal, mas não segui. Meu negócio era o balé!

EG: E o que é que os seus pais ouviam em casa?

BC: Meu pai e minha mãe tinham um bom gosto impressionante! Meu pai amava Dorival Caymmi, amava Noel Rosa, minha mãe ouvia muita música clássica, música erudita, ópera, ela adorava. Mas ela gostava também de cantores populares. Meu pai era mais ligado nesse negócio de compositor… Adorava Aracy de Almeida, chegou a ser amigo de Aracy, muito amigo da Elizeth Cardoso e do Sílvio Caldas. Sílvio Caldas era nossa paixão em casa. E a paixão da minha mãe era o Orlando Silva. Então aprendi isso tudo, pequena…

LAS: E as primeiras cantoras que você tem como referência são essas duas, Aracy e Elizeth?

BC: Talvez tenham sido. Mais a Aracy, viu?! Não sei te dizer. Eu sei que eu tenho tudo a ver com a Aracy de Almeida! (rindo) A mulher que vai pros botequins, a mulher que…

LAS: … rompe barreiras…

BC: É, meio isso… um pouco Chiquinha Gonzaga… tem muito a ver com esse espírito… Não sei exatamente se foi, mas acredito que sim. Eu era muito pequena…

EG: Então você foi estudar violão com treze anos?

BC: Fui estudar violão porque meu pai, pra variar… Meu pai era funcionário da Alfândega, conferente da Alfândega. Era bacharel em Direito mas não exerceu a profissão. Exerceu essa, que deu uma condição financeira boa pra gente. Não éramos ricos mas vivíamos legal. Meu pai foi pra Santos mas vinha todo final de semana. Ele adorava as filhas dele, minha mãe… Ele chegou com um disco e disse, “filha, escuta esse violão!”. Eu botei e me apaixonei. Era o João Gilberto. Me apaixonei por aquilo. Mas eu já tinha a Rádio Nacional em mim, Blecaute era o meu ídolo! Eu amava o Blecaute! O sonho da minha vida era tirar uma foto com o General da Banda. E eu tirei! (cantando) “Chegou o General da Banda ê, ê…”. E o destino é incrível, né? Não é que teve um música na minha banda, durante um tempo, que era neto do Blecaute!?

EG: Eu vou mandar pra você um fabuloso, genial e hilariante texto do Luiz Antonio Simas sobre o enterro do Blecaute!

BC: Ah, é?

LAS: Essa história é verdade! O Blecaute morreu e o camarada muito emocionado, tomou um porre, e foi homenagear o Blecaute mas foi pro cemitério errado. Entrou numa capela, achou um absurdo aquele silêncio todo e começou a cantar “Chegou o General da Banda ê, ê…” e todo mundo acompanhou!

(Beth ri muito)

BC: Então, fui encontrar o neto do Blecaute em São Paulo, em São Mateus! Não é demais? Aí o João Gilberto adentrou no meu mundo que já era muito rico musicalmente, porque eu tinha a Rádio Nacional, as cantoras populares, eu amava todas elas, Nora Nei, Emilinha, Marlene… Eu sou uma cantora de auditório! E eu tenho orgulho disso! Eu aprendi com elas, isso. Eu entro no palco, amiga da platéia! Dando amor pra platéia.

LAS: Não é aquela história de muita cantora que se diz tímida, que não gosta nem de ver a platéia…

BC: Dou meu coração pra platéia, entendeu? Isso eu via nas cantoras de auditório. E isso eu peguei. Talvez seja isso que me dê a popularidade que eu tenho. Eu não sei o que é que é vaia, por exemplo!

EG: O João Gilberto…

BC: O João foi uma mudança na cabeça de Deus e o mundo, né? Harmonia… Uma coisa da elite, da zona sul… O canto era um canto da zona sul do Rio de Janeiro… Corcovado, Arpoador, praia, garota de Ipanema, que tinha a ver com uma realidade minha. Eu também era isso… Mas eu sei o que é morar em Ipanema, sei o que é morar em Ipanema, sei o que é morar na Urca, mas sei também o que é a Tijuca, sei o que é o subúrbio. Minha mãe, quando eu era pequena, tinha amigas no subúrbio. Então eu pegava o trem com ela e ia pra Vicente de Carvalho e Padre Miguel. Eu ia pra lá sempre. Adorava aquele negócio de subúrbio, completamente diferente da nossa realidade mas que me fascinava também. Eu gostava daquilo. Desde cedo eu convivi com todas essas realidades… Como conhecia, também, todos os apartamentos da Vieira Souto… eu acho que eu conheço todos! Porque eu comecei a aprender a tocar violão pra valer, tocava legal, e hoje isso quebra o meu galho, eu tenho uma relação com músico maravilhosa porque eu sei o que é harmonia, posso discutir com músico, com maestro… Mas naquela época eu tocava legal, sabe? Me contaram, anos depois, que o Edu Lobo uma vez teria falado, “ela tem um violão masculino”… (rindo) Eu agradava muito nas festas. Eu sabia muito o repertório. Mas eu cantava, já nessas festas, eu cantava João, Tom Jobim, Nelson Cavaquinho, Cartola, cantava uns negócios que eu sabia do Salgueiro porque eu ia, com aqueles meus primos, todo domingo ao Salgueiro. O Salgueiro foi a primeira escola que se abriu pra classe média, e era no morro!

EG: Calça Larga?

BC: Calça Larga! Naquela rua que sobe, a General Roca… por ali. Lá em cima do morro. Então eu ia pro morro e eu dizia no pé! Com 13, 14 anos. Eu dizia no pé porque eu via as cabrochas sambando, eu aprendi olhando… Lógico que eu nunca fui uma cabrocha mas eu aprendi a sambar, o que era uma coisa muita rara na minha época! Eu nunca vi! Então eu cantava uns sambas de lá. Eu freqüentava também o Bafo da Onça, que era no Minerva, era época do Oswaldo Nunes, eu ia pra lá, ficava ouvindo aqueles sambas, um samba mais lindo que o outro… (cantando) “Quero ser feliz / Construir um lar / Mas o destino não quis / Quero ter alguém / Que me compreenda bem / E que me faça um dia feliz / Teremos crianças / Seremos carinhosos / Nas horas de alegria e da dor / Eu hei de ser um chefe de família exemplar / Amor, amor, amor / Não tem razão / Quem assim diz / Que o malandro não casa / Que o malandro não é feliz!” Quando tocava isso eu ficava emocionada, até chorava! Eu tinha uma coisa com o samba… E na zona sul, nem pensar… Na zona norte tinha mais! E eu comecei a freqüentar escola de samba com uma turma muito mais velha que eu. Quando eu mudei pra Ipanema, um dos meus vizinhos era um médico que era amigo do Albino Pinheiro. Inclusive a Banda de Ipanema surgiu ali naquele lugar. Eles bolaram a Banda de Ipanema, eles, o Ferdy Carneiro, e eu, claro, já querendo sair na Banda! Carnaval era comigo mesmo! Samba enredo também eu adorava, aprendia aqueles sambas compridões…

LAS: Essa época é anterior ao disco!

BC: Nossa, eu adorava saber aqueles sambas! Aí eu comecei a sair com essa turma, porque eles iam pra Mangueira. Estava pra ser inaugurada a nova quadra que Sabino Barroso e José Leal fizeram pra Mangueira.

LAS: O Leal, do Digão!

BC: É, da livraria da Ouvidor… E a Mangueira ficou linda. Eu conheci antes e depois. E a gente ia todo sábado… Eu me lembro que eu ia pra ver o Jurandir cantar! Eu era apaixonada pelo Jurandir cantando! (suspira e canta) “Minha companheira foi embora / Solidão veio comigo morar!”. Nossa, eu adorava isso! Eu vi a Leci Brandão chegar na Mangueira cantando (cantando) “Quero sim / Mais um pouquinho de inspiração”, lindo, isso. E ela foi pra ala de compositores da Mangueira… Então esse mundo aí era um mundo muito meu e dessas pessoas bem mais velhas que eu… Passei a freqüentar a praia que eles freqüentavam, porque a gente tinha a ver, a conversa tinha a ver… Nesse meio tempo eu conheci o Edmundo, arquiteto, a gente namorou, ele também tinha relação com essas pessoas, depois ficamos noivos, aí ele fez “Andança”, bom… aí já fui pra frente! É uma misturada a minha vida em termos de informação! (rindo) Zicartola eu ia muito, mas ia mais no Teatro Opinião quando surgiu a peça, que deu nome ao teatro. Você sabe que o teatro chamava Teatro de Arena e virou Teatro Opinião por causa da peça, pra você ter uma idéia do que foi aquele musical… Vocês chegaram a ver?

EG: Não…

BC: Você não tem idéia do que foi aquilo!

LAS: Tem uns registros em disco, mas só uma parte…

BC: Olha, o coração da gente vinha aqui! (põe a mão na garganta) A Nara… a Nara fez uma revolução. Ela era a musa da bossa-nova, aquela coisa de apartamento, de uísque, de frente pro mar, aquela coisa bem elitista e ela vai… (cantando) “Carcará, pega, mata e come!”. João do Vale! Aí vem com Zé Keti, né?, vem com Nelson Cavaquinho, Oduvaldo Viana Filho fazendo a peça… Foi uma revolução que ela fez, maravilhosa, e que tinha tudo a ver com o que eu também gostava, e muito, até mais, e eu acho que fui ver umas quinze vezes… Depois a Nara traz a Bethânia! Você não tem idéia do que foi a Bethânia, cara, quando ela chegou cantando, inacreditável!, arrepiava todos os cabelos. (canta) “Carcará, pega, mata e come!”. E ela falava… e eu cantava nas casas “Carcará”, “Subdesenvolvido”, já fazendo protesto! Eu já fazia protesto nessas casas de rico. (rindo) Ela falava um texto de teor político e muito emocionante, e voltava cantando… eu tenho o compacto!

LAS: Ela falava da fome…

BC: Nossa Senhora! Muito lindo aquilo, meu Deus do céu, eu chorava, muito aplauso! Foi uma coisa. Tanto que é o único teatro que tem o nome de uma peça, que eu saiba, né?

LAS: É verdade!

BC: Então depois virou Teatro Opinião. E tinha as rodas de samba às segundas-feiras… Eu já conhecia alguns sambistas, outros eu não conhecia… aquelas maravilhas… um elenco fixo… Nelson Cavaquinho, Cartola, Clementina e Xangô!

LAS: Dona Ivone Lara…

BC: Não… dona Ivone é bem depois! E eu passei a ir toda segunda-feira, aí saía dali e ia pra Adega Pérola, que tinha uns petiscos maravilhosos…

EG: Ainda tem!

Dona Ivone Lara e Beth Carvalho, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

BC: Era uma loucura… Mas eu já tô falando muito…

EG: Tá nada! Fala mais!

BC: (rindo) É que eu vou lá pro passado, volto pro presente…

LAS: O que fica de interessante nisso é o seguinte, e você vê isso em pouquíssimos músicos, cantoras e cantores brasileiros… É a questão da informação… Você tem muita informação, né? A Aracy tinha isso, o Noel tinha isso, você tem muito isso! Você transita, como eles, numa certa zona de fronteira!

BC: Verdade! Noel subiu o morro de Mangueira, fez samba com Cartola… o Sergio Cabral me chama de Túnel Rebouças! (rindo muito). Uma coisa também que eu queria falar… a parte latina! Eu tinha e tenho latinidade! E falta ainda muito no Brasil…

LAS: Verdade…

BC: E ganhei isso por causa da minha irmã, Vânia, 7 anos mais velha que eu. A Vânia, Vânia Santos Leal de Carvalho, cantava, e canta até hoje, muito bem, principalmente músicas espanholas porque ela estudou num colégio de freiras espanholas, lá no São Marcelo. Eram freiras espanholas, ela pegou aquela cultura… Essa coisa hispano, latina, eu peguei desde criança…

EG: Mais um ingrediente no seu caldeirão, né?

BC: Muito forte! Quando surgiu o Lucho Gatica, chileno, que é um dos maiores cantores do mundo pra mim, cantor de bolero, arrebatou. Minha irmã era alucinada por ele, e você sabe que irmã mais velha influencia… Quem, na minha idade, sabia quem era Lucho Gatica? (rindo) Ninguém! E a gente continuou ouvindo coisas espanholas, cubanas, veio a revolução cubana, Che Guevara, Fidel… essa coisa toda que nos encantou enormemente… “Guantanamera”… a Nara cantava “Guantanamera” no Opinião! Por isso eu tenho esse sonho de gravar um disco cantando as músicas revolucionárias da América Latina, porque eu sempre me liguei nisso, Mercedes Sosa, Pablo Milanéz, Silvio Rodriguez, Los Chalchaleros, é uma maravilha! A Rosita Gonzales, que cantava praticamente só em espanhol!

EG: Vamos voltar pro trilho!?

BC: Eu viajo muito, né? Vamos lá!

LAS: Estamos no início dos anos 60…

BC: Foram muito ricos…

LAS: Estamos no pré-golpe…

BC: Meu pai era um homem de esquerda. Sempre nos informou sobre a posição dele, e eu sempre segui ele. Papai tinha o retrato e o busto do Getúlio Vargas, papai falava muito do Leonel Brizola, do Prestes… Papai foi cassado porque pensava dessa maneira, passamos um sufoco por causa disso… Mas ele pegou o número do processo dele, jogou no bicho e vivemos um ano com esse dinheiro! (rindo) Meu pai jogava no bicho, sempre!

Leonel Brizola e Beth Carvalho, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

EG: Quando é que você decide que vai ser cantora?

BC: Não decidi! Eu adorava cantar, ia pra todo que era lugar cantando… e veja bem… eu passei a ser a queridinha dos compositores… A gente tinha uma turma que já era… Veja… Eu freqüentava a casa do Tom… Eu namorava um cara que era amigo do Tom e eu ia pra lá fazer vocal. Adorava isso! Vocal era comigo mesmo. Já fazia no colégio! Freqüentava a casa do Marcos Valle, tinha umas reuniões musicais, muito boas… Mas nós já éramos os filhos desses caras… Filhos é exagero! Mas eu tinha uma turma que era Edmundo Souto, Paulinho Tapajós, Arthur Verocai, Danilo Caymmi, Arnoldo Medeiros, Tibério Gaspar, Antonio Adolfo… a gente saía em bando! E nessa época eu já ganhava dinheiro tocando violão! E quando eu era convidada pra fazer um show, eu levava uns dez comigo e entrava pela porta da frente! Foi quando começaram os festivais… Ah, o Luiz Claudio, que toca com o Chico Buarque, também era da nossa turma! Eles começaram a fazer música. E como eu sabia cantar as músicas deles, eu passei a ser a cantora deles. Eu tenho milhões de fitas gravadas na casa de um cara chamado Karan, que se está vivo, espero que sim!, ele tem um material riquíssimo não só da gente, mas de todo mundo! Ele gravava em fita de rolo, qualidade total. Foi lá que eu conheci o Milton Nascimento, isso já em 67. Milton na fila esperando pra gravar “Morro Velho”, “Maria, Minha Fé” e “Travessia”. Foi quando eu vi que estava diante de um gênio, mas isso é outra história… O que aconteceu, então, pra eu virar cantora profissional? Eu cantava em tudo o que era lugar. Mas eu ia muito no apartamento do Raul Alvarenga Porto, maravilhoso, câmera da extinta TV Rio. Ele me adorava. Um dia ele disse, “Beth, eu vou botar você no programa do Flávio Cavalcante”, o Flávio que tinha o maior programa da época da TV brasileira em termos de audiência… Acho que era parente, tio dele. Eu fui a uma festa no apartamento do Flávio e cantei, cantei as coisas todas, cantei “Subdesenvolvido”, e ele era lacerdista! Provocando ele! Mas ele amou, me adorou, e pronto! Me botou no programa dele. Pra você ter idéia, eu não tinha nem roupa, roupa de festa, quem me emprestou a roupa foi a mãe do Raul.

EG: Isso foi em que ano?

BC: 64 pra 65, por aí. Aí eu cantei uma música que o Menescal tinha acabado de fazer pra mim, chamada “Por Quem Morreu de Amor” e “Namorinho”, que era do meu namorado! Athayde e Mário de Castro! (rindo) Já cantei música inédita e música de compositor novo! Eu me acompanhando no violão. Quem me assistiu foi Humberto Reis, que era jurado do Flávio Cavalcante, e o Paulo Rocco, que era diretor-artístico da RCA. Assistiram, adoraram, comentaram com o Vica Giffoni, que era da nossa turma também, um compositor que vivia mais em São Paulo e ele disse “Bom, pela descrição só pode ser a Beth! Mulher, tocando violão, de perna grossa, e cantando bossa-nova, é ela”, aí não sei qual dos dois me ligou e me convidou pra gravar na RCA! Foi assim! Eu tive uma orquestra de cordas, imensa, um estúdio imenso, arranjos do Eumir Deodato – porque a gente fazia muito vocal, o Athayde, que eu namorava, tinha um conjunto, o Quarteto 004, e o Eumir fazia os arranjos – e o Menescal no violão. Eu tive os caras, né? O Eumir era um cara não entendido no Brasil de tão moderno que ele era, ele ia lá na frente. O disco tocou muito na JB, que era uma rádio bem elitista, a música do disco era mais elitista. Ah, tem uma história boa!

EG: Conta!

BC: Nessa época eu ia fazer um show que eu não fiz! Um show que foi feito pela Leny Andrade e pelo Peri Ribeiro! O Ronaldo Bôscoli me chamou pra fazer esse show. Eu não tinha experiência nenhuma, não era minha jogada… Mas ele queria que eu fizesse, eu era nova, era um trio, baixo, piano e bateria. Eu falei que não ia fazer. Era no Porão 73, no começo de Copacabana! E foi a melhor coisa que eu fiz… E eu adorei aquele show, que acabou sendo com a Leny. Muito tempo depois a Leny me contou. O Bôscoli foi à casa dela, ela preta de praia, e ele, (imitando) “Leny, vamos fazer um show que estréia depois de amanhã!”. Mas ela tinha experiência, já, né? Era da noite, ótima cantora, arrebentou, e acho que foi o primeiro disco gravado ao vivo aqui. Depois o show viajou, foi pro México, eles ficaram uns 3 anos morando lá! Recebi convite também pra cantar com o Sérgio Mendes, pra morar no Estados Unidos, e eu “ah, não, nem pensar!”. Eu tinha horror ao sistema imperialista americano desde cedo! Claro que eu gosto muito da boa música americana, é sensacional, mas enfim…

LAS: E você acha que fez muito bem de não ter feito esse show?

BC: É, eu tô querendo justificar porque é que eu gravei “Por Quem Morrer de Amor”, porque o Menescal tinha feito essa música pra eu cantar nesse show! E quando eu fui gravar o disco, gravei. Mas eu achei ótimo não ter feito esse show, nem ido pros Estados Unidos, se não eu não teria tido essa carreira que eu tive, não é verdade?

LAS: Verdade.

BC: Ah! Quando eu falei do Sílvio Caldas, da Elizeth e da Aracy, eu esqueci de dizer que eu fazia aniversário junto com o meu pai. E meu pai era amigo de pescaria do Sílvio Caldas, e o Sílvio Caldas deixou de fazer um show pra poder ir no aniversário do meu pai, e conseqüentemente eu peguei o jabá! Essa barbada! Eu me lembro que eu tinha 5 anos de idade e me lembro que o Sílvio Caldas, brasileiro do jeito que era, falou, “Nós não vamos cantar parabéns pra você nessa data querida, porque isso é uma versão! Vamos cantar o nacional”. E ele cantou o nacional (cantando) “Parabéns a você, parabéns / Toda felicidade / Muitos anos de vida, também / E sempre a nossa amizade”. Eu tinha 5 anos…

LAS: O que eu acho interessante destacar, Beth, é que existe, para algumas pessoas, a visão e a sensação de que você teria subitamente descoberto o samba, e a gente repara que não, que você já cantava samba nos seus shows, antes mesmo dos festivais…

BC: Em 66 eu fiz “A Hora e a Vez do Samba” no Teatro Jovem. Tudo era no Teatro Jovem, impressionante… Eu toquei piano nesse Teatro Jovem, eu dancei balé nesse Teatro Jovem, porque minhas aulas eram na União das Operárias da Jesus que fica ali, as feiras de samba, as feiras de música, todas foram feitas lá, que o Kleber Santos organizava, reivindicar coisas, sempre na luta pelo melhor da carreira artística das pessoas, eu já estava nesses movimentos… Fui fazer “A Hora e a Vez do Samba” lá. Era Nelson Sargento, Noca da Portela… (pensando)… Trio ABC da Portela! Colombo, Picolino e Noca! Isso em 66! Acho que tinha o Nelson Sargento também… Eram essas pessoas, que eu amava de paixão… Eu cantava sambas, claro, cantava Martinho da Vila, cantava “Iaiá do Cais Dourado”, foi lá que o Martinho me conheceu (rindo). Já ficamos um pouco amigos desde ali. Depois eu fiz “Sexta-Feira é Dia de Samba”, no Teatro Jovem, tinha Rildo Hora, tinha Antonio Houaiss, tinha o Nelson Sargento… ai, não lembro! Mas era samba, era essa coisa de resistência, o pessoal do protesto… E depois eu vi, no Teatro Jovem, um show que pra mim foi determinante, o show “Rosa de Ouro”. Ah não, mas antes disso eu fiz um show, “Arena Clube de Arte”, que era num teatro pra 50 pessoas, na Barata Ribeiro. Eu, Grande Otelo, Milton Morais, um grande ator, Sargentelli e mais o Nelson Sargento, Anescarzinho, Picolino e Zé Keti. O show era o seguinte… o Sargentelli enchia a minha bola, me adorava, eu era aquela menininha que sabia tudo de música, de todo jeito, de todo tipo, e aí ele falava pra platéia, “Pede aí um samba do Ismael Silva, do Noel Rosa, o que é que vocês querem ouvir?”, o show era isso, olha que loucura! Essa era a minha parte. O Zé Keti estava lançando “Máscara Negra”. O Grande Otelo fazia aquelas coisas dele, misturando poesia, e o Milton e o Sargentelli contavam histórias… ele que era sobrinho do Lamartine Babo, contava mais do samba. A gente saía de lá, ia pra Fiorentina e dividia uma pizza pra nós, e cada um comia um pedaço! Miséria total mas uma alegria absoluta, entendeu? (rindo) Essa história do samba culminou quando eu vi uma coisa que eu não acreditei, que foi a Clementina de Jesus. Quando a Clementina apareceu naquele palco do “Rosa de Ouro” eu falei “eu sou isso aí!”. Sabe o que é entender a Clementina?! Não é qualquer um que entende, não! Aquilo baixou em mim, sabe? Tanto que eu dedico meu primeiro disco de samba à Clementina e à Elizeth. Fui ver umas 15 vezes também! O show lançava Paulinho da Viola, lançava Os Quatro Crioulos, lançava Clementina e trazia de volta nossa Aracy Côrtes. Direção do Hermínio Bello, no Teatro Jovem também! A Clementina… eu sei imitar a Clementina… de tanto que eu a amei… Ela tinha as mãos enormes, as unhas compridas, fazia assim com as mãos (imita, imita cantando) “Benguelê, benguelê, benguelê oh mamãe Simba, benguelê”. Depois ficou comum, sabe? Mas não era. Não era nada comum! Era totalmente diferente! Vieram os festivais… Eu cantei, em 66, um samba urbano, tipo Chico Buarque… Ah! Ah!

EG: O quê foi?!

BC: Quando surgiu o Chico Buarque eu me apaixonei de verde, amarelo, azul e branco! E antes disso, quando surgiu o Baden, eu também me apaixonei! Meu violão deixou de ser João pra ser Baden! Mais negra, mais afro. João Gilberto, Baden, veio o Chico, e antes o Tom Jobim, que esse é sagrado. E mais o Nelson Cavaquinho, o Cartola, eu amava os dois mas tenho uma identidade maior com o Nelson… Onde eu estava, hein?!

EG: Nos festivais, Beth!

(rindo)

BC: Ah, o samba urbano. O samba chamava “Berenice” e eu o cantei no festival “O Brasil Canta no Rio”, da TV Excelsior. Em 67 veio o “Festival Universário” da TV Tupi. O Adonis Karan era o diretor do festival e me convidou pra cantar uma música chamada “Meu Tamborim”.

EG: O Karan daquelas gravações?

BC: Não! Era parente! Achava que era a minha cara, por conta do samba e tal. Era do César Costa Filho e do Ronaldo Monteiro de Souza. O arranjo do Ivan Paulo, e a música ficou em terceiro lugar… Aí veio 68. O que a gente tinha pra mostrar eras nos festivais, né, bicho? Veja bem… eu já tinha gravado meu compacto, em 65, tocou, mas era uma coisa mais elitista, como eu disse. Eu sempre gostei de ir pro povo, sabe? Eu sempre tive uma alma popular. Eu cantava bossa-nova como samba, eu gostei da bossa-nova porque era um braço do samba! E em 68, lembra das fitinhas que eu te falei?

LAS: Sim…

BC: Eu tinha 40 músicas pra escolher. Inclusive música minha. Mas escolhi cantar “Andança”. Chamamos os Golden Boys e foi aquele impacto. “Andança” só perdeu pra Geraldo Vandré, com aquele hino, e pra “Sabiá”… que eu chorei junto, sabe? Injusta, aquela vaia… Quando eu ouvi, nos ensaios, falei pro Edmundo que ela ia ganhar. Mas “Andança” pegou no primeiro “me leva amor…”, e não é uma música fácil, nem uma letra fácil… Estamos em 68 e o samba está aqui dentro de mim, batucando… Aí surgiu um movimento, em 67, chamado “Música Nossa”, liderado pelo Roberto Menescal. Era ali, onde era o Carinhoso, tinha um teatro. Toda semana tinha música. Eu cantava “Viola Enluarada”, que era inédita, e “Contraste”, do Edmundo Souto e do Arnoldo Medeiros. Um dia o Menescal avisou pra gente que as gravadoras iam lá pra ver os músicos e escolher seus cantores e cantoras, seus artistas. E assim eu fui pra Odeon. Aí eles gravaram “Berenice”, “Meu Tamborim” e “Andança” no estúdio. Vai sair tudo agora de novo! Aí em 69 é que saiu meu primeiro LP, onde eu já tô ali… tem uma faixa do Carlos Elias da Portela, sambas do Baden, “Andança”, lógico, músicas do Paulinho, do Edmundo, Arnoldo, Milton Nascimento, que é “Sentinela”, e ele toca o violão, a gravação é com ele, e eu chamei o César Camargo Mariano, que era do Trio 3D, que eu achava muito bom por causa do suingue. Meu primeiro LP foi com o César Camargo Mariano com o trio. Eu já tinha visto ele tocar com o Simonal, numa boate em São Paulo, eu acho, não lembro bem. É um disco que mostra uma cantora com algumas facetas mas mais pro samba, porque tem Baden, tem Paulo Cesar Pinheiro, tem Marcos Valle, tem Carlos Elias da Portela… Tem Vinícius… E assim foi.

LAS: E era um momento em que o samba estava explodindo mesmo, né? Se você pegar o samba enredo, por exemplo, a Mangueira, cantando Monteiro Lobato, foi um pouquinho antes… em 67!

BC: Olha só! Eu gravei um samba enredo da Mangueira num disco só com cantores e cantoras, não puxadores de samba. Foi quando comecei a desfilar na Mangueira, em 1970… Eu sei que eu estava nessa, festival, festival, festival… Aí eu disse pro meu diretor e disse “Olha, ouvi um samba maravilhoso, quero gravar, quero gravar um disco só de samba”, e fui vetada. Aí eu pedi meu boné na Odeon e fui embora! Eu já estava com um material enorme, já estava nas andanças, já estava na pesquisa, entendeu? “Minha Companheira”, por exemplo, era uma música inédita. Músicas do Nelson Cavaquinho… Pedi meu boné, pedi a rescisão do contrato e o Manolo Carmero, tinha aberto uma gravadora pequena, chamada Tapecar, uma gravadora pequena, na avenida Brasil, um cubículo. E a minha prima, Tânia Carvalho, jornalista, era amiga da esposa do Manolo e me disse que ele estava querendo conversar comigo. Aí ele foi na minha casa e eu assinei o melhor contrato do mundo! Pra você ter uma idéia eu tinha direito a 9 passagens por ano pra Europa! Aí eu virei uma forte vendedora na Tapecar. Gravei o meu primeiro disco só de samba, o “Canto Por um Novo Dia” – olha o recado, olha o nome! – porque o samba sempre teve essa conotação política, não só musical, sempre foi uma bandeira da esquerda mesmo! O samba sempre foi uma coisa da esquerda, meu Deus! A direita quis fazer o samba ser da direita, mas ele nunca foi! Sempre teve os sambas de protesto, que eu adorava, que só o povo sabe falar mesmo, né?

EG: E esse disco você grava com autonomia absoluta?

BC: Total! Eu botei todo mundo na Quinta da Boa Vista de manhã, Nelson Cavaquinho, Paulo Cesar Pinheiro, Gisa Nogueira, Mário Lago, todo mundo que tá no disco estava na Quinta da Boa Vista na foto! Um milagre, né, esse povo de manhã!

LAS: Tem música do Mário Lago…

BC: Tem, ele volta pro disco assim, com “Salve a Preguiça, meu Pai”. Que era uma coisa velada, né, mas era um recado pros caras… Venha me buscar, mas eu vou de colo pra não me cansar!

LAS: Tem Martinho, tem Nelson (cantando) “Quando eu piso em folhas secas…”… Beth, você lembra o ano em que você conheceu o Nelson?.

Nelson Cavaquinho e Beth Carvalho, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

BC: Eu acho que eu conheci o Nelson… (pensando) … esse filme do Leon Hirszman, de 69, eu não sei se eu vi antes ou depois… Eu conheci o Nelson, de vê-lo, no Teatro Opinião! Mas eu não tinha coragem de me aproximar dele, porque ele tinha os olhos esbugalhados quando bebia (imitando), ele gostava um pouco de beber, né? (rindo), eu achava que ele podia ser meio agressivo, ficava meio assim. Eu não era conhecida, eu estava começando minha carreira, né? Sabe como é, né? Até que um dia eu fui com Edmundo, minha irmã, uma turma, pro bar que ele freqüentava na Lapa, acho que Ouro Verde, um bar de esquina, botequim mesmo, de balcão, e nos fundos tinha umas mesas e cadeiras. Eu fui e aí encontrei o Nelson. Aí sentei do lado dele (rindo). Sabe aquela apaixonada? Aí eu comecei a cantarolar com ele, baixinho, e ele me olhava, sabe? Cantou uma música do Nelson pra ele, ganhou o coração dele, era assim, uma criança, sabe? Aí ficou meu amigo, sabe? Aí era Natal lá em casa, aniversário dele lá em casa, criou até ciúme… O Albino dizia “Pô, não agüento mais esse Nelson Cavaquinho com essa Beth Carvalho!”, era puro ciúme! O Albino Pinheiro veio me confessar isso uns dez anos depois. Eu ri muito com ele. Engraçado, né? A gente não imagina isso. E aí, pronto. Eu já era apaixonada pela obra do Nelson, vendo ele, entendendo ele… Lembra o que eu falei da Clementina? O Nelson também não era fácil de entender. O Nelson, cantando com aquele violão, ou ama ou odeia. Não tem meio-termo. E eu amava. E eu ficava sendo aquela menina andando com o Nelson, eu já tinha carro, já era famosa, deixava ele na Praça Tiradentes… Aí ele me deu “Folhas Secas” de presente, me deu o cavaquinho dele de presente e ele me adorava! Eu adorava ele e ele me adorava.

EG: Quantos anos de amizade?

BC: Ah… desde 71…

EG: Você consegue lembrar de alguma história épica do Nelson que você ainda não tenha contado?

BC: Não, não… (pensando) Olha, eu nunca vi ninguém tocar violão com a capa! Tinha hora que o sono era tanto, que ele tocava com a capa, com o violão encapado! Ah, e na capa daquele violão ele colocava coisa que até Deus duvida… Botava peixe e voltava três dias depois do peixe comprado, porque ele parava no botequim, emburacava… Quem sabe mais dessas histórias é o Sergio Cabral, um pesquisador nato! Eu fiz um show com o Sergio Cabral e o João Nogueira, no João Caetano, com o Joel do Bandolim, o Sergio contava histórias todos os dias, todos os dias eu ria! Eu lembro dessa coisa do peixe na capa do violão… Ah, e quando ele foi gravar comigo puseram o fone nele, né? E ele (imitando): “Eu não sou aviador pra usar isso aqui, não?”. Fizemos vários Seis e Meia juntos, Pixinguinhas… e ele não bebia!

LAS: É mesmo, é?

BC: A maior prova de amor dele! Tinha vezes que eu dizia “Nelson, bebe uma cerveja, você tá muito velho e tá chato”, porque ele é que ficava tomando conta de mim, sabe? (imitando) “Já vai pra farra, é?”. E ele ficava no hall do hotel, tão bonitinho, todo penteado com aquele pente que ele adorava, cheiroso, de roupa branca, com aquele lenço rosa saindo assim, às quatro horas da tarde ele já ia pra lá, pronto! E ele tinha essa coisa também: tinha meses que ele ficava sem beber nada… Mas de repente caía dentro e… ia direto!

LAS: Você lembra exatamente quando vem o Cacique?

BC: Eu fiquei muito enturmada com todos esses compositores, não só Nelson e Cartola. Cartola foi em 74, quando eu fui na casa dele e ele me mostrou “As Rosas Não Falam”, “O Mundo é um Moinho”, só música boa. Mas antes disso, eu já tinha relação lá de trás com Noca da Portela, Picolino, Zé Keti, essa turma que eu já falei, e mais outros, né?, que isso não para… Silas de Oliveira ia na minha casa… Eu resolvi digitalizar tudo o que eu tenho aqui em casa, sabe?, bicho, tenho coisas do arco da velha… tem fita do Silas de Oliveira, tem fita do Zeca Pagodinho no comecinho, tem Arlindo, tem Sombrinha, tem do Cartola, tem do Nelson, conversas com o Nelson, é uma coisa que eu tenho que botar num blog, criar uma ONG, um museu, uma fundação…

LAS: É raríssimo…

BC: Quem?

LAS: O Silas, é raríssimo!

BC: Eu tenho ele cantando, aqui! Entendeu? Porque eu sempre dei atenção ao compositor, sempre. Sempre tive a maior reverência… Eu gravava tudo…

EG: Olha, Beth, deixa eu contar uma coisa. Eu, quando te conheci, há uns 15 anos, eu era até chato seguindo você pra tudo o que é canto…

BC: (rindo)

EG: … e via você sempre sacando alguma coisa da bolsa, um gravador, uma câmera, registrando tudo, tudo! Pesquisadora mesmo!

LAS: Chega a ser curioso, Beth, porque o cantor ou a cantora podia ter identificação com uma escola, só que você tem essa identificação com a Mangueira mas é impressionante como gravava tudo, da Velha Guarda da Portela, por exemplo…

BC: Claro! A que mais gravou! Tenho uma placa, inclusive, que a Surica fez falando sobre isso… Só na avenida é que tem a disputa! Não tem essa história só de Mangueira. Eu gravei Mangueira, Portela, Salgueiro… Meu sucesso popularzão mesmo foi do Gracia do Salgueiro! Eu quero saber da música! É boa? Eu gostei? Eu gravo, depois vou saber de onde é. Claro que hoje eu tenho critério… Tem muito samba falando da Mangueira… mas é original, é bom? Vou gravar. Samba de amor, pra variar os temas, amor, Mangueira, Cacique, política, partido-alto…

LAS: Você falou de política… você lembra de seu primeiro contato maior com o Brizola?

BC: Ah, na volta dele. Pouco tempo depois. Porque quando ele voltou, minha música, do Noca, era o hino da campanha do PMDB! Olha a minha situação! Eu com Brizola no coração sem poder virar Brizola ali! Mas acabou sendo bom… Depois o próprio Miro Teixeira reconheceu a vitória do Brizola!

EG: E seu primeiro envolvimento com política?

BC: Lula, Sindicato dos Metalúrgicos. Mas isso política nacional, né? Política mesmo, sempre! Sempre discuti contrato, fui da Sombrás, sempre batalhei pela numeração dos discos, eu, Chico, Gonzaguinha… Pena que essa vitória veio num momento em que o disco perdeu força… Mas foi importante. E acho que valeu, porque foi o primeiro país no mundo a ter disco numerado. Agora… luta por contratos, reuniões com a classe artística, sempre, sempre. A gente tinha uma luta, né?

LAS: E o Lula?

Lula e Beth Carvalho no comício das Diretas Já, no Rio de Janeiro, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

BC: Ele era do sindicato dos metalúrgicos e eu já era um sucesso forte em 1978, já tinha o “Vou Festejar”, do Cacique – que é uma história à parte – e então eu fui cantar lá com o Fundo de Quintal. Tudo de graça! E quando o Lula fez a primeira pra presidência, em 89, apareciam essas imagens. Não tinha PT, não tinha nem PT, ainda! Foi em 78. O Lula foi a grande figura que apareceu, né?

EG: Beth, uma das coisas que é sabida a seu respeito, e não é à toa a história da madrinha, que tem a ver com sua postura de ir aos lugares, de gravar tudo…

BC: … de valorizar nas entrevistas, de colocá-los nos meus vídeos, nos meus discos… Eu sempre dividi meu pão! Eu sempre dividi! Podia ficar sozinha, mas não. Botava a Velha Guarda, mostrava o Argemiro, o Casquinha… sempre…

EG: E o Cacique, por que é uma história à parte?

BC: À parte, eu digo, porque eu já era um sucesso muito forte. Meus discos estavam no auge de vendagem, eu era uma grande vendedora de disco, a Clara também, a Alcione também, o Martinho também, a gente vendia essa quantidade louca, já saía com disco de ouro, depois disco de platina… hoje é um deboche, com 25 mil já ganha… Nós éramos o trio ABC, Alcione, Beth e Clara! Então… aí o Alcir Portela, do Vasco, que era meu companheiro de samba… (pensando)… Eu tinha uma turma, nessa época, que era do Clube do Samba, eu, João Nogueira, Paulo Cesar Pinheiro, Nelson Cavaquinho… todo dia! Nós éramos o quarteto da morte! Saíamos todo dia! Chegávamos no Sereia de Ipanema, por exemplo, os caras queriam morrer, sabiam que a gente só ia sair de lá às oito da manhã! Aí o Alcir, que era um cara que saía comigo, a gente ia a uns sambas no subúrbio, e ele era muito amigo do João Nogueira também, em 77, me disse, “vou te levar num lugar que você vai gostar”. E eu falei, “vamos nessa, onde é?”, e ele disse, “No Cacique de Ramos”. Meu coração já bateu por outra razão! Porque quando eu estava naquele negócio de carnaval, que eu sempre tive, o Cacique e o Bafo eram os dois blocos mais fortes, sendo que eu freqüentava o Bafo mas eu achava o Cacique mais interessante no desfile, porque tinha um negócio de tacape, tinha uma roupa de índio e tinha aquele samba (cantando) “Nesse carnaval não quero mais saber, ê, ê, de brincar com você”. Eu gostava muito desse samba e de um samba da Chiquita, irmã do Sereno, ela que já morreu, uma grande mulher, uma mulher que cantava um samba diferente de todo mundo, eu tenho a Chiquita filmada…

EG: Tem?

BC: Tenho, mas tenho que limpar essas fitas todas… A Chiquita tinha uma música, e eu tenho um caderno com a letra da Chiquita (cantando) “Querem me derrubar / Aí meu Deus, o que será?/ Uso arco e flecha / Mas em ninguém vou atirar / Entrego à proteção divina/ Só ela é que pode me parar/ É verdade sim o que ouço dizer / É verdade sim o que ouço falar / Visto, um saiote de penas / Uso também um lindo cocar/ Meu nome é Cacique de Ramos / Sou vacinada e batizada o que é que há!”. Eu achava demais, e era briga mesmo, esse “querem me derrubar” era pro Bafo! Mas aí eu cheguei no Cacique, e conheci a Chiquita, e vi uma rapaziada, o maior suingue… suingue pra mim é fundamental… Fazendo um som diferente no samba, sem perder a raiz do samba, cantando uns sambas bonitos, eu pensei, “o quê é isso, cara?”. E instrumentos nunca vistos antes. Repique de mão que o Ubiranyr criou, Sereno com aquele tantã daquela maneira tocando, o Neoci também, e o banjo com o Almir Guineto. Banjo era usado, mas de outro jeito, na época do Pixinguinha… O banjo é um instrumento africano. Sabe o que é fascinada? Eu fiquei fascinada! Eu encontrei o meu lar, meu lugar! Era a segunda vez que eles se reuniam… E por que o Alcir me chamou? Porque sabia que eu era famosa e tal… mas eu não pensei nisso, eu fui pra me divertir, pura e simplesmente! E fiquei me divertindo um ano! Eu não pensei em nada disso, sabe? Com o tempo é que a coisa foi amadurecendo, a coisa foi ficando forte em mim… até que o botei no disco, foi em 78, no disco “Pé no Chão”. É o registro, com eles, do novo som do samba. Gostem ou não, é o novo som do samba. Com muito suingue. E com muita negritude! O samba tava ficando meio esbranquiçado, entendeu? A bossa-nova fez muito isso, ficou só o tamborim… E eles vieram com batuque de mão, de tribo, tribal (batucando), repique de mão, tantã, o banjo era mais percussivo do que qualquer outra coisa… Eram os caras do Cacique de Ramos, entendeu? O Almir era do Salgueiro mas tinha uma relação lá… O Cacique em baixa, o bloco decadente… e eles com vontade de cantar os sambas deles que eles não tinham onde cantar, sabe? Porque as escolas de samba foram perdendo sua função… que era a de mostrar os sambas dos caras, pô! Os caras cantavam, então, seus sambas. E o Cacique de Ramos, eu chamo de Sierra Maestra do Pagode! O pagode é uma palavra que eu adoro, infelizmente deturpada, não fui eu que criei, o Paulinho da Viola já cantava “domingo, lá na casa do Vavá / Teve um tremendo pagode que você não pode imaginar”… Pagode é uma palavra simpática e virou um tormento depois dessas deturpações! Mas pagode é a forma íntima do sambista chamar o samba, pagode é a festa, tanto que existe pagode no nordeste também, no forró. Olha… pra vocês terem uma idéia, eu pensei em mudar pra Ramos! (rindo) Eu só vinha em casa pra dormir! E o que é que tinha no Cacique? De tarde tinha futebol de salão, por isso o Alcir era ligado, o Neoci, muito amigo do Edson, que foi meu marido depois, eles se conheceram jogando no juvenil do Bonsucesso, Paulo Cesar Caju, o Jairzinho…

LAS: O Alcir chegou a montar uma comissão de frente na Imperatriz só com esse pessoal do futebol…

BC: Exatamente! Era a turma que freqüentava o Cacique de Ramos! Então era uma delícia… Não tinha nada, mas tinha tudo! Digo nada, assim… não tinha um petisco, não tinha um guaraná, não tinha uma água, só tinha cerveja, eu que não gosto de cerveja, eu tinha que levar tudo… A mesa que eles usavam era a coisa mais tosca (rindo)… tinha que ter guardado aquela mesa, a mesa que eles usavam, é histórica! Cheia de farpas, os copos caíam! (rindo muito) Mesa velha mesmo! E era um paraíso mesmo… Eu ia pra lá e ficava tão feliz… sabe? (visivelmente emocionada) Ficava debaixo daquela tamarineira que foi abençoada pela mãe do Bira, que era mãe-de-santo, feita pela Mãe Menininha do Gantois, tinha um fundamento ali… Eu sei que quando eu resolvi botar isso no estúdio, eu cheguei pro Rildo, que era meu produtor na época, e disse “Rildo, eu conheci uma turma e eu quero gravar com esses caras”. O Rildo ainda disse, “olha, Beth, isso é muito bom ao vivo, aí chega no estúdio e não dá a mesma coisa…”. E eu disse, “Eu garanto!”. Eu tinha certeza absoluta! Tem maior precisão maior que o Ubiranyr naquele repique de mão? Não tem! Aí o Rildo foi lá, e não contente com isso, fizemos um bate-bola, que depois virou moda nas gravadoras! A gente, antes de gravar pra fazer, fazia o bate-bola. Cerca de 40 músicas, todas com a harmonia escrita, e a rapaziada metia a mão, entendeu? Aí… (emocionada)… a verdade… a verdade… Eu tava fazendo aquilo com um conhecimento de causa tão grande… que não podia dar errado… Eu não imaginava que fosse dar o que deu não, entendeu?, mas não podia dar errado… Ali estava todo muito com muita gana! Eles não tinham espaço! E eles tinham paixão por aquilo! Era mistura de bloco, com a composição, com a novidade, tudo junto, e eu dando força, moral… aí arrebentou o “Vou Festejar”, o disco todo, né? Várias faixas daquele disco…

EG: Tem um clipe gravado lá, belíssimo…

BC: É, então… Eu fiz tudo lá! A capa lá, a contracapa é lá, o encarte é lá e eu dediquei ao Cartola, esse disco, e fiquei ajoelhada aos pés de São Sebastião do Rio de Janeiro, que tem um altar lá no Cacique. Totalmente entregue! Eu não disse que eu quis morar em Ramos! (rindo)

Jorge Aragão, Beth Carvalho, Bira e Ubirany, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

LAS: Imagina, morar na Uranos!

BC: Ah, Simas, eu sou muito apaixonada…

EG: Beth… fala um pouco do Cartola…

BC: O Cartola teve, digamos assim, três lançamentos… Quando começou, fazendo música com o Francisco Alves, depois o ostracismo, quando o Sérgio Porto encontrou o Cartola lavando carro, depois ele teve um boom, depois veio a Jovem Guarda, foi ruim pro samba, e depois ele só foi voltar mesmo depois que eu gravei “As Rosas não Falam”… Foi quando ele pode ter uma carreira de discos, a RCA contratou ele…

Cartola e Beth Carvalho no Carinhoso, no Rio de Janeiro, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

LAS: Verdade…

BC: E quando eu gravei o “Folhas Secas”, em 72, a RCA contratou o Nelson, e o Nelson pode ter seus discos na RCA, que era uma grande gravadora! O Nelson já tinha um disco de depoimentos, ele cantava, um disco maravilhoso… Mas disco dele cantando, tocando, foi na RCA…

LAS: Beth, eu acho que a gente tem cantoras que colocam a obra a serviço delas, sabe? Você, não, você se coloca, na sua trajetória, a serviço da obra do compositor. E esse, pra mim, é o mérito maior de uma cantora. Você entender o que o compositor está querendo, o que é a obra está querendo, e não colocar a obra a seu serviço…

BC: Puxa… muito obrigada… Eu recebo muito isso dos compositores, sabe? Eles todos dizem isso, sabe? “Agora, sim, a minha música tá aí…”. Quando eu gravo…

EG: Quem te chamou de madrinha pela primeira vez?

BC: Ah, isso agora já virou até vulgar, mas não é!

EG: É que os detratores de plantão, que tem, né?, eles usam muito isso…

BC: Ah, tem!

EG: Mas você lembra quem foi que manifestou gratidão, assim, dessa forma carinhosa?

BC: Não lembro… Eu acho que foi o Fundo de Quintal, por causa do “Vou Festejar”… Eu acho… Sabe o que aconteceu? A música estourou de um jeito, do Oiapoque ao Chuí, sabe?, que o bloco, que estava decadente, subir de novo. Saíram 5 mil pessoas nesse ano, no Cacique! Demorou umas 5 horas, o desfile! E eu lá. Aí eu virei madrinha do Cacique de Ramos, do bloco. Aí quando o grupo Fundo de Quintal, que já tinha esse nome e era amador, entrou numa gravadora, eu me tornei madrinha do Fundo de Quintal. Eu ofereci eles pra RCA e a RCA não quis. Aí eu liguei pro Durval Ferreira, tinha saído da RCA, era diretor da RCA, meu amigo dos tempos da bossa-nova, e ele ficou encantado… Eu falei, “Durval, sabe aquele povo que gravou comigo?”, “Claro que eu sei, aquele grupo que tocou contigo?”, “Pois é, eles querem gravar um disco!”, e ele, “Pode mandar!”, era na RGE. Saiu o primeiro disco do Fundo de Quintal, eu escrevi a contracapa, contei a nossa história, a história da tamarineira, um texto grande, hoje no CD só tem a frase final! (rindo) E tem um beijo meu, no final, de batom mesmo, sabe? E o disco estourou, mais na periferia, mas estourou, foi muito bem. Era Jorge Aragão, Almir Guineto, aquela turma. Depois saem os dois e entram Arlindo e Sombrinha. É como eu digo sempre… o grupo Fundo de Quintal é uma filosofia, não é só um grupo de samba. É muito difícil, num grupo, saírem duas pessoas talentosas e depois entrarem mais duas talentosas, né?

Beth Carvalho e diversos amigos, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

LAS: Verdade…

BC: Eles conseguiram isso… Eles seguram a onda até hoje… Enchem quadra, o público quer… Acho que começou assim, desse jeito… Ah, e o primeiro contrato deles eu li e mexi! Aumentei o percentual deles, de 5% pra 7% (rindo) Eu sempre me meti além, sabe? A minha relação com as pessoas sempre é mais profunda, nunca é superficial. Conheço você (dirigindo-se ao Simas) há pouco tempo, mas já é profunda a nossa relação, não é? Não fica no superficial. Então, o Fundo de Quintal eu peguei como uma coisa muito linda, muito diferente… Eles tiveram dificuldade pra gravar, eu chamei eles pra fazer o Pixinguinha, eu já nem podia mais fazer o Pixinguinha, fiz por causa deles, juro por Deus… Eu tinha um namorado, na época, que tinha uma gráfica, e ele tirou a foto dos caras, fez a gráfica do segundo disco, e saiu, já com Sombrinha e Arlindo… E por aí foi… Voaram sozinhos… Eu acho que eles começaram a me chamar de madrinha do Cacique, depois de madrinha do Fundo de Quintal… Depois do Arlindo, do Sombrinha, do Luiz Carlos da Vila…

EG: E do Zeca, né?

BC: Mas é que eu cheguei no Cacique em 67… Em 84 eu tomei conhecimento dele ali, com aquela sacola da Sendas, com um cavaquinho, ele magro, parecia um palito… E pra chegar na roda… É como ele mesmo disse hoje… Tinha a turma que ficava sentada, a diretoria absoluta. Tinha a primeira fila que ficava em volta, o que já era um status, depois outras, depois outras. Um dia eu vi o Zeca versando… Fiquei encantada. O Almir Guineto versava maravilhosamente e ele ali, segurando a onda. Aí ele pediu pra cantar um samba e mandou o “Camarão que Dorme a Onda Leva”… (rindo), o título já é bom demais… Eu falei pra ele, na hora, “Eu vou gravar isso e quero você lá comigo, cantando!”. Coisas da vida. Eu saquei ele algo mais, entendeu? Gravei com ele. Aí ele foi pro estúdio gravar, eu lembro que tinha um microfone de ouro e eu disse “Aí, hein, Zeca, você vai cantar num microfone de ouro!” (rindo muito)

Beth Carvalho e Zeca Pagodinho, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

EG: Mas até hoje você recebe muita coisa pra gravar, né? Por exemplo… sei que você está escolhendo repertório pro disco novo… Quantas você recebeu?

BC: Ah, mais de 400 músicas. Mais até, sabe? Agora com esse negócio de e-mail, vem até por e-mail! É mais simples… Antes tinha que fazer uma fitinha… Era sempre mais difícil…

EG: E você ouve tudo?

BC: Ah, ouço! Tudo! Mas a gente de cara já sabe se a coisa é boa, sabe como é, né?

EG: Sei, sei! Tem uma história boa sobre isso de “coisa boa” com você…

BC: Qual?

EG: Quando você ouviu a primeira vez o “Saudades da Guanabara”…

BC: (rindo muito)

EG: Você matou de cara que era uma coisa boa mas…

BC: Isso foi em 84. Matei de cara! Melodia linda…

EG: Conta!

BC: Sabe a Célia, aquela cantora paulista? Ela vinha pro Rio pra fazer show no Arcos da Lapa e ela ficava hospedada lá na minha casa. Um dia ela me pediu pra ensaiar lá em casa. Na hora do ensaio, quem era o violonista? Moacyr Luz. Ensaiou com ela e quando acabou o ensaio ficamos no comes e bebes, e ele mostrou umas coisas dele… Gostei da primeira, gostei da segunda, várias outras, e uma tal de “Saudades da Guanabara”, que eu não gostei da letra… (rindo) Eu falei pra ele… “Você é um compositor!”, porque tem isso, né? É preciso um número “x” pra você saber que o cara é bom. E aí, cinco anos depois, em 89, eu já amiga do Moacyr, freqüentava aquelas reuniões musicais excelentes que ele promovia, Paulinho Pinheiro, Aldir Blanc…

EG: Fátima Guedes…

BC: … Sueli Costa, Claudio Cartier, Itamara Koorax, e eu já tinha fechado meu disco de 89. Mas aí, numa dessas reuniões, eu falei, “Moacyr, você tem um samba que você me mostrou em 84, ´Saudades da Guanabara´, lindo, mas eu não gostei da letra…”, eu já tinha intimidade pra isso, né? Sugeri a ele o Paulinho Pinheiro, o Aldir… Eu sei que ele me ligou, depois, e cantou “Eu sei que o meu peito é uma lona armada…”, putz! Aí virou o nome do disco, a capa foi concebida por causa desse samba, peguei o chapéu do Moacyr, tirei a foto com ele… (rindo)

LAS: Já que estamos em 89… Foi o ano que o Botafogo quebrou o jejum!

EG: Vou sair pra fumar!

BC: (rindo) Campeão! Nesse disco eu canto “Esse é o Botafogo que eu gosto…”.

LAS: A sua família era de botafoguenses?

BC: Toda! Meu pai era botafoguense, minha mãe era botafoguense. Meu pai remou pelo Botafogo quando era jovem, eu freqüentei o Botafogo quando era criança, nos bales infantis, e eu só ouvia falar de Botafogo na minha casa, não tinha como ser outra coisa. E eu tenho muito orgulho de ser Botafogo!

LAS: E tem muita gente do samba que é Botafogo…

BC: Tem, Vasco também… Foi minha paixão de criança também. E em 89 o Elias da Silva me mostrou esse samba, e eu chamei só botafoguense pra gravar, até o Edil Pinheiro gravou o côro, até a Sonja, aquela menina…

Beth Carvalho e amigos botafoguenses gravando seu disco de 1989, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

EG: A gandula, meu Deus…

BC: Na gravação teve até bolo do Botafogo!

LAS: Tem um vídeo, na internet, tem você, Emilinha Borba, no Maracanã, nesse jogo…

BC: Tem, é? Eu estava com uma bandeirinha de papel, do Botafogo, que a Luana fez pra mim… Supersticiosa como toda botafoguense…

LAS: Posso fazer uma pergunta de ordem sentimental?

BC: Pode, claro!

LAS: Fugindo um pouco disso, mas eu me lembrei, e é interessante… Eu sou filho de pernambucana, minha mãe é pernambucana, meu avô era pernambucano, e eles gostavam muito de você, e a primeira referência que eu tive de você, engraçado isso, não foi com samba…

BC: Foi com o frevo!

LAS: Isso…

BC: Evocação no. 1… e que eu ouvia quando era criança, foi música de carnaval no Rio de Janeiro, e eu achava incrível eu saber essa letra, lindíssima, difícil… Depois eu conheci o Nelson Ferreira, ele me deu os discos dele autografados! (imitando o frevo) Sabe… eu tive uma professora fundamental, cunhada do Villa-Lobos, e eu aprendi teoria musical, fiz parte do canto orfeônico… Cantei em igreja…

EG: Fala pra nós, agora, sobre política… Você se aproximar do Fidel, do Brizola… E fala, se você puder, né?, se isso de alguma maneira prejudicou você em certo momento na sua vida… Já que você é muito ligada às esquerdas…

BC: Mas eu vou morrer assim, não tem jeito, não vou mudar! Agora, por exemplo, temos um Presidente que é o mais próximo daquilo que a gente quer, e que encontrou um país muito estraçalhado pelos governos anteriores, e o Lula está fazendo uma série de coisas que me agradam no sentido da melhoria do povo brasileiro… Ainda falta muito, a gente sabe disso… Mas ele está conseguindo muita coisa. E eu vou sempre estar desse lado, sempre!

EG: E o Fidel, Beth?

BC: Ah, o Fidel… Olha… a gente era apaixonado pela revolução cubana, totalmente a favor… Era uma coisa absurda o domínio americano dentro daquela ilha, prostituindo as meninas de 10, 11 anos, e querendo tomar conta da América Latina, do mundo inteiro. E aí, por influência do meu pai, da minha mãe, a gente torceu muito pra tudo dar certo na revolução… E deu! E deu! Dizer que não deu certo é brincadeira… porque com todo o bloqueio norte-americano a gente consegue ter um país que não tem um analfabeto, e aquela história… e aquela frase linda… todo dia tem uma criança dormindo na rua, nenhuma delas é cubana! E é isso. Isso define tudo. É verdade. Eu fui lá e constatei. Bem depois da revolução. Não tem analfabeto, ninguém sem sapato, ninguém sem dente, não tem criança na rua, e criança na rua é uma coisa que me mata!

EG: Mas como você conheceu o Comandante, Beth!?

Beth Carvalho, Fidel Castro e amigos, em Cuba, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

(rindo)

BC: Olha… o Comandante sabe de tudo. Sabe quem é quem em cada lugar do mundo. Ele não vai convidar, pra lá, quem é contra a revolução… E ele tá certo, chamar só quem tem a ver com a causa! O que vai fazer lá alguém que é de direita, né? Ficar pichando? E ele me chamou por isso… Em 77… Festival de Varadero, fui com meus músicos…

EG: Antes do Brasil reatar relações diplomáticas com Cuba…

BC: Antes, antes… E aí, a grande Lázara…

LAS: … mulher do Santiago Alvarez, o cineasta…

BC: Isso… Hoje viúva… ele é considerado o maior documentarista da América Latina… Aquela mulher, tradutora do Fidel no mundo inteiro… quando eu fui à Cuba pela segunda vez, pegava a Luana por aqui (no colo)… (rindo)… Conheci Lázara naquela época, em 77, e somos amigas inseparáveis até hoje… Amo a Lázara, uma mulher negra, linda, maravilhosa, sempre com uma flor na cabeça… esse é o espírito cubano… Eu fiquei encantada com Cuba. Pra começar, o cara que carrega sua mala é um poeta, te dá um banho em qualquer assunto… Sabe… quem vai à Cuba tem que saber que o turismo é o povo! É linda, praias lindas, mas é o povo que te encanta, um povo solidário… Eu acho muita graça quando vejo campanha para sermos solidários com Cuba… Não! Vamos ser solidários contra esse bloqueio… Mas Cuba dá aula de solidariedade pro mundo, sabe?! Eles são capazes de mandar médicos pros Estados Unidos, pra população pobre dos Estados Unidos, que tem mas que os americanos escondem… Mas eu só fui conhecer o Fidel, pessoalmente, na minha segunda visita à ilha. Porque a gente nunca sabe se vai ou não conhecer, né? Mas dessa vez eu fui como convidada de honra, sem fazer show. Foram vários artistas… e Fidel nos recebeu, de repente… Sofremos uma revista muito simples… bebemos mojito… Anos depois o Fidel veio ao Brasil e eu fui escolhida pra entregar a ele o título de Cidadão Carioca, na UERJ!

Beth Carvalho entregando o título de Cidadão Carioca para Fidel Castro, na UERJ, no Rio de Janeiro, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

EG: Pra acabar… Eu acho que a primeira vez que eu te vi chorando, de dor, foi…

BC: … com aquele lance da Mangueira…

EG: … isso. Tem algo que tenha te ferido tanto, uma mágoa, na carreira?

BC: Não, sabe? Nada me magoou mais que aquele lance da Mangueira. Mas como qualquer profissão, a profissão de cantar é difícil. Tem o palco, vaidades… é complicado. Eu lamento, apenas, que eu tenha deixado de ser pura, sabe? Eu tenho o coração aberto até hoje, mas eu já tive mais. Eu tenho saudade do tempo em que eu não tinha esse… esse aprendizado, sabe? É bom por um lado mas por outro a gente sofre… E se você é politizado, sofre mais ainda…

EG: E um puta orgulho que você tem?

BC: Ser mãe, em primeiro lugar. E de ser brasileira, de ser brasileira, eu amo esse país. De ter sido enredo de uma escola de samba… Unidos do Cabuçu, 1984. De ter cantado no Carnegie Hall, eu acho importante, no Maracanãzinho, em 78, eu novinha, e ter dado conta daquele recado… ai, muita coisa…

Beth Carvalho desfilando pela Unidos do Cabuçu em 1984, foto do acervo pessoal de Beth Carvalho

EG: Gostou?

BC: Adorei! Mas faltou falar dos discos, né? (rindo)

LAS: Muita coisa… Beth, e o jongo? Uma das primeiras gravações que eu me lembro foi com você…

BC: Ah, é como eu te falei… Ali eu também fui fundo. Como eu te falei eu não faço nada superficial. Eu me encantei com a Vovó Maria Joana, eu passei a freqüentar o jongo da Serrinha, a aprender a dança, eu me envolvi com aquelas pessoas, eu ia pra lá almoçar, eu não sei fazer diferente. E deu um resultado que eu considero muito bom! Fizemos direito, com o som direito.

EG: O que é que você está ouvindo hoje?

BC: Muita coisa… Ah, Mariene de Castro… que também é minha afilhada (rindo muito), afilhada baiana. Querida, muito querida… Está na Universal agora, é uma grande representante da Bahia, do samba, brasileiríssima, linda…

EG: Acabou, né? Meia-noite e quarenta, já!

Não deixem de ler os outros cinco entrevistões do BUTECO, em ordem alfabética: Aldir Blanc (aqui), Fausto Wolff (aqui), João Bosco (aqui), Moacyr Luz (aqui) e Wilson Moreira (aqui).

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A ENTREVISTA COM A BETH CARVALHO

Preciso lhes contar uma coisa antes de publicar, provavelmente amanhã, a sensacional entrevista que fizemos com Beth Carvalho na semana passada, a sexta que será publicada no Buteco (as demais estão no menu, à direita de quem lê). Não sem antes lhes pedir desculpas pela ausência dos últimos dias. Trabalho em excesso, umas mini-férias que me permiti e o trabalho hercúleo que é a transcrição de uma entrevista desse porte. Tenho muita pena de perceber que hoje as entrevistas não existem mais, salvo raríssimas – e cada vez mais raríssimas – exceções. O que há hoje são as “coletivas”, um release distribuído à imprensa pelas assessorias, e o que temos são entrevistas modorrentas mais com cara de outdoor do que de entrevista. Não por outra razão estivemos, eu e Luiz Antonio Simas, na casa da Beth, na noite da terça-feira passada, de onde voltamos com exatos 144 minutos e 06 segundos de conversa registrados. Mas vamos ao que quero lhes contar.

Eu havia estado lá, uma semana antes, para cumprir uma promessa feita a um de meus afilhados, o cracaço Henrique Blom, doido pra conhecer a Beth pessoalmente. Ficamos lá – o quê? – umas 3, 4 horas de conversa, ouvimos os sambas que estão sendo selecionados para seu próximo disco, rimos muito, até que eu disse:

– Ô, Beth, e quando é que você vai me conceder um entrevistão?

E ela, generosa como sempre, mandou de voleio:

– Ué. Semana que vem!

E marcamos.

A entrevista, como já lhes disse, foi ouro puro, e mais vocês saberão provavelmente amanhã, quando eu a publicar. Ocorre que houve um contratempo danado e uma surpresa que hoje quase me matou. Vamos lá.

Fui fazer a entrevista com um Panasonic RR-US395, digital. Antes de começar, brinquei:

– Eu preferia um gravador de fita-cassete, não confio nesses troços…

A Beth, antenadíssima, deu-me um passa-fora de mãe… Mas o fato é que no dia seguinte, na quarta-feira, espetei o bicho no computador e… … … nada de arquivos gravados! Nada! Bateu o desespero absoluto. Liguei pra ela que, como esperado, ficou também desolada. Havia, porém, uma espécie de salvação. A entrevista foi também gravada em DVD, só que por conta dessas intempéries tecnológicas, foi cortada em determinado momento… Ou seja, a saída seria transcrever o material gravado em vídeo para, então, refazermos a entrevista noutra data. Transcrever a entrevista seria, inclusive, uma de minhas tarefas durante as mini-férias. Passei a quarta, a quinta, a sexta, o final de semana, completamente triste com isso… Mas eis que deu-se o milagre. Na segunda-feira li, de cabo a rabo, o manual do bichinho. E recuperei os três arquivos, na íntegra: o primeiro com 44min e 02seg, o segundo com 56min e 49seg e o terceiro com 41min e 35 de papo. Delírio!

Pedi à Beth, depois de dar a ela a monumental notícia, ontem pela manhã, que ela me mandasse algumas fotografias de seu acervo pessoal para ilustrar o entrevistão. E ela – não é demais repetir, generosa como sempre! – mandou-me hoje alguns tesouros muito bacanas que eu vou expôr amanhã, dividindo essa beleza com vocês. É que ela, além de seu próximo disco, está se dedicando a organizar o impressionante acervo que tem em casa, de fitas, discos, gravações em vídeo (algumas raríssimas, vejam amanhã!), documentos e fotografias. E ela – foi aí que quase me matou – mandou-me dois tesouros que interessam – confesso – apenas a mim, mas que quero dividir com vocês também.

Já lhes contei, em certa ocasião, que no ano de 2002, fui jantar com minha menina, a convite da Beth, na casa do Martinho da Vila, em noite dedicada ao meu eterno e saudoso governador, Leonel de Moura Brizola. Éramos poucos – e a noite foi intensa! Martinho da Vila e Cléo – sua mulher -, eu, minha menina, Beth Carvalho e Leonel Brizola. E só! Depois do jantar pintaram Mart´nália e Analimar, com uns músicos, para uma roda de samba assim, em petit comité. Comemos muito bem, bebemos muuuuuito bem (não me esqueço do Brizola bebendo vinho tinto com muita sede!!!), cantamos muito e eu ainda tive o privilégio de ver o Brizola pedindo aos músicos que o acomapanhassem numa de suas canções preferidas, que ele cantou de pé e com os olhos marejados (que se multiplicaram pela sala): Felicidade, de Lupicínio Rodrigues.

Um fotógrafo, contratado pelo Martinho e pela Cléo, fez os registros. Passei anos – mais precisamente 8 anos!!!!! – atrás de pistas dessas fotos. A Cléo jurava que tinha me dado; o fotógrafo, Fernando, se eu não me engano, jurava que tinha dado tudo a Cléo e mandado as minhas pelo correio (!), a Beth dizia que não lembrava de ter recebido foto alguma… e ficou nisso.

Até que hoje, anunciadas por um carinhosíssimo texto com gosto de muito dengo, me chegaram as duas fotos abaixo, localizadas na montanha de fotografias que a Beth mantém em seu apartamento. Na primeira, eu e Beth com o velho caudilho. E na segunda, eu e minha menina abraçados ao grande Leonel! E confiem em mim: vem coisa muito boa por aí, com a entrevista!

Eduardo Goldenberg, Leonel Brizola e Beth Carvalho, 2002

Eduardo Goldenberg, Leonel Brizola e Dani Pureza, 2002

Até.

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ENTREVISTA – ANDRÉ PERECMANIS

Quem me conhece minimamente sabe que uma das minhas frases de bolso é:

– Não gosto de advogados.

Trata-se, é evidente, de uma redonda brincadeira. Mais que uma brincadeira, é uma crítica a uma classe, a qual pertenço, que parece não ter noção de seu papel fundamental na sociedade, como capacitador (da) e elemento indispensável (à) justiça.

Sempre me senti (e ainda me sinto) peixe fora d´água ao lado de advogados que, mais que a justiça, buscam pose e status.

Há as exceções, é claro. E muitas. Valendo-me de meu espaço, presto homenagem a três colegas meus que honram o diploma que obtiveram e que fazem da advocacia um verdadeiro sacerdócio capaz de lhes dar o sustento com honestidade e a consciência tranquila do dever cumprido, dia após dia, sem contradições no que diz respeito ao modo de pensar e ao modo de agir profissionalmente. São eles Marcus Gramegna, o Marcão, Rodrigo Sousa (ainda estudando, e graças ao PROUNI (!!!), e no qual aposto minhas fichas) e André Perecmanis. E é sobre o André que quero lhes falar no dia de hoje.

Conheço o André há um bom número de anos. Identificamo-nos, de cara. Fomos descobrindo, ao longo do tempo, inúmeras afinidades que estreitaram, na medida permitida pela correria de nossas vidas, nosso relacionamento.

Criminalista competentíssimo, graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro tendo colado grau em janeiro de 2001 (e eu em 1992…, notem como sou uma múmia ao lado dele), começou como estagiário na área de Advocacia Criminal no Escritório Arthur Lavigne Advogados Associados em 1997. Em janeiro de 2001, foi contratado como advogado pelo mesmo escritório, do qual veio a se tornar sócio em 2006.

Desde 2007 é Professor Substituto de Prática Jurídica (área penal) da Faculdade Nacional de Direito (UFRJ), aprovado em primeiro lugar. E desde 2008 é Professor Auxiliar de Prática Jurídica (área penal) da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

É, acima de tudo, um grande homem. Um homem de bem.

Pensei em publicar uma pequena entrevista com o André movido por uma sucessão de fatos curiosos. Sai na imprensa uma notícia sobre o resultado do julgamento de um crime de clamor público e meu telefone não para. O STF mandar soltar um ou outro preso e minha caixa de emails fica cheia. Dia desses, almoçando comigo, o Vidal apontou-me o indicador no nariz, aos gritos:

– Que beleza, hein!? Absolveram o assassino e você continua achando a Justiça ótima, né?

Como não trabalho na área criminal e como confio absolutamente no André, que lhes apresento virtualmente hoje, propus a ele esse pequeno bate-papo, que foi também virtual. Enviei-lhe as perguntas por email, sem pressa, e ele, gentil como sempre, em menos de 24h devolveu-me tudo devidamente respondido.

Com vocês, André Perecmanis, a quem agradeço, publicamente, a atenção e o carinho costumeiros:

EG: é sabido que os assuntos relacionados ao direito criminal, e parece-me que especialmente os que envolvem o direito processual penal, mexem demais com a opinião pública. Mais que isso, mexem com as pessoas individualmente, que passam a expressar suas opiniões sem o necessário conhecimento técnico, fazendo com que, as mais das vezes, a Justiça seja alvo de críticas, o Direito seja alvo de críticas, os Juízes, Desembargadores e Ministros sejam alvo de críticas – quase sempre infundadas pois emitidas no calor da paixão que cega. Diante disso, gostaria de saber o que você pensa sobre isso, sobre esse envolvimento entre as leis penais e o cidadão comum. Até que ponto, André, a sensação de injustiça e de impunidade é compreensível?

AP: acho absolutamente compreensível, até mesmo porque corresponde à realidade. As investigações são lentas e muitas vezes ineficazes. Os processos, demorados em demasia. A resposta judicial, quando vem, se dá muito tempo após o crime. Discordo frontalmente, entretanto, das causas e das soluções que a opinião pública apresenta. Não concordo com a idéia de que o excesso de direitos dos acusados seja a causa da impunidade. Tais direitos, ao revés, são a garantia de um julgamento justo, segundo o qual o acusado somente possa ser condenado com base em provas concretas. Quanto a isso, não posso conceber a idéia de diminuir direitos dos acusados, mas sim de fazer com que tais direitos sejam aplicados igualmente para todos, independentemente da condição social, econômica, da crença religiosa, da etnia, enfim, de caracteres pessoais. Não concordo com a idéia de que os processos são muito demorados porque o acusado tem direito a muitos recursos. O que faz com que os processos demorem anos para chegar ao fim é a escassez de juízes, em número muito inferior ao necessário para julgar tantos casos. Não concordo com a idéia de que pouco se condena porque a Justiça é complacente com os acusados. Se o acusado não é condenado é porque prova a sua inocência ou porque as investigações feitas pela polícia são ineficazes. E assim o são porque os policiais são mal preparados, mal aparelhados e, principalmente, muito mal pagos. Além disso, o código de processo penal não confere ao acusado o direito de se defender nas investigações policiais, só vindo a permitir-lhe a assistência jurídica efetiva na ação judicial. Se o acusado pudesse se defender adequadamente ao longo da investigação prévia, talvez muitos processos pudessem ser evitados, diminuindo-se a sobrecarga no Judiciário e permitindo-se uma justiça mais rápida e eficaz. Não concordo com a idéia de que mais punição, em especial com a privação da liberdade, vá reduzir a criminalidade ou a impunidade. Acho mesmo que isso é fácil de se demonstrar. Por acaso a criminalidade e a impunidade diminuíram com a criação da lei de crimes hediondos? Por acaso a criminalidade e a impunidade diminuíram com o endurecimento da legislação de trânsito? Creio que a resposta negativa seja evidente.

EG: valendo-me desses casos rumorosos que abalam a opinião pública, muitas vezes manipulada por uma imprensa sensacionalista, diga-me o que você pensa sobre a decisão que absolveu o policial envolvido na morte daquela criança na rua Uruguai, na Tijuca, baleada durante uma abordagem equivocada por parte da polícia.

AP: sinceramente não me sinto confortável em opinar sobre um caso em relação ao qual não vi as provas. A experiência que venho tendo em minha carreira me mostra que as informações constantes dos jornais muitas vezes não apresentam um quadro exato do que consta no processo. De todo modo, do que pude ler a respeito do caso, ao menos em tese a decisão dos jurados me pareceu bastante equivocada. Se realmente não tiver sido efetuado disparo algum em direção aos policiais, como dizer que eles atuaram no estrito cumprimento do dever legal? Acho válido chamar a atenção para um dado que foi divulgado. Se bem entendi, os policiais teriam afirmado que pensaram tratar-se de ladrões de carro e, por isso, dispararam aquela enormidade de tiros. Ora, quer dizer que se fossem efetivamente ladrões a conduta correta seria o extermínio? De qualquer forma, o despreparo dos policiais é flagrante e certamente deve ser analisado com o cuidado necessário. Por fim, reitero que não li o processo e não sei o que efetivamente foi produzido como prova.

EG: e sobre a decisão tomada pelo STF (por sete votos a quatro), e considerada histórica, que determinou que um réu pode recorrer em liberdade caso não tenha sido condenado em última instância…

AP: a decisão é irretocável e nada mais faz do que dar cumprimento efetivo a um dos princípios mais importantes previstos em nossa Constituição, qual seja, o princípio da presunção de inocência. De acordo com o referido princípio, aplicável a todos os cidadãos, independente da gravidade do crime atribuído, ninguém pode ser tratado como culpado antes de ser condenado definitivamente. A razão de ser do aludido princípio consiste no fato de que enquanto houver recurso pendente de julgamento, a condenação poderá ser revista. Justamente por esse motivo não se pode permitir que alguém que ainda pode vir a ser absolvido seja obrigado a cumprir pena. Importante destacar, ainda, que mesmo réus confessos podem vir a ser absolvidos. Cito um exemplo: um indivíduo confessa ter matado outra pessoa. Esse fato, por si só, não significa que tenha ele cometido o crime de homicídio. Se, por exemplo, o assassinato tiver sido a única forma possível do acusado proteger a sua integridade física de uma ameaça real e iminente à qual mão tenha dado causa, estará agindo em legítima defesa e o próprio Código Penal impedirá a sua condenação.

EG: você acha que procede o sentimento comum de que a Justiça é uma para pobres e outra para ricos?

AP: em parte, sim. Todavia, creio ser importante destacar alguns aspectos a esse respeito. Em primeiro lugar, é de se esclarecer que pessoas mais pobres dificilmente têm acesso a bons advogados, que possam dedicar a atenção e o cuidado necessários à defesa. Infelizmente, a defensoria pública, apesar de contar com excelentes profissionais, trabalha em condições ruins, muito aquém daquelas que poderiam ser consideradas adequadas. Tal fato reflete uma decisão política bastante clara. Outro dado que me parece relevante é o de que os crimes que o Código Penal define como patrimoniais, como furto e roubo, possuem natureza eminentemente social, sendo praticados eminentemente por pessoas mais desfavorecidas economicamente. Tais crimes, por sua própria natureza, são cometidos nas ruas, avenidas, em locais públicos e, portanto, mais facilmente investigáveis pela polícia. Por sua vez, os vulgarmente denominados crimes financeiros, praticados eminentemente por pessoas de condição sócio-econômica mais favorecida, são, via de regra, cometidos dentro de salas fechadas, gabinetes e por meio de complicadas operações financeiras, sendo, assim, de investigação muito mais difícil. Por essas razões, é indiscutível que o índice de condenações de pessoas mais pobres é muito superior ao de condenações de pessoas mais favorecidas economicamente.

EG: outra opinião comum que se ouve diz que não há mais jeito de combater a criminalidade e o crescimento vertiginoso da violência. Você concorda com isso?

AP: não. Certamente não há como combater criminalidade por meio de endurecimento de penas e redução de direitos. Isso só aumentará as injustiças, os erros judiciários e contribuirá para o embrutecimento ainda maior do tecido social. Creio que o melhor a ser feito é a implementação de políticas sociais efetivas, reduzindo-se os fatores que propiciam o surgimento da criminalidade. Se um adolescente souber que estudando, poderá ter uma vida digna, visibilidade social, respeito de seus concidadãos e acesso a bens de consumo que lhe são apresentados diariamente pelos mais diversos meios de comunicação, será que vai optar por uma vida marginal, perigosa e indiscutivelmente curta? Outra medida que me parece interessante e já vem sendo, ainda que de maneira muito tímida, implementada, é a adoção de programas de reinserção social de egressos do sistema penitenciário. Afinal, se o condenado sabe que, após ser afastado da sociedade e cumprir a sua pena, estará para sempre estigmatizado e com as portas do mercado fechadas, que opção terá?

EG: eu sou radicalmente contra a pena de morte, apontada por grande parte da população como medida necessária ao combate à violência, uma das mais crassas incongruências. Sei que você também é contra a pena de morte. Diga-me por quê.

AP: a esse respeito, creio ser importante estabelecer algumas premissas. Inicialmente, entendo estar estatisticamente comprovado que a pena de morte não reduz criminalidade. Dessa forma, o motivo de uma eventual implementação da pena capital seria a crença de que determinados criminosos mereceriam morrer. Todavia, um dos maiores equívocos que se pode cometer é achar-se que somente aqueles delinqüentes que supostamente merecessem a morte seriam executados. Qualquer sistema judiciário é composto por seres humanos, dotados de emoções, conceitos, preconceitos, vaidades, defeitos, e, portanto, passíveis de erros. Se considerarmos que os crimes que dariam ensejo à pena de morte seriam justamente aqueles reputados mais graves, hediondos e que maior repulsa social causassem, parece-me claro que a pressão pública (natural, é bom que se diga) para o encontro de um culpado aumentaria consideravelmente a chance de um erro judiciário. Além disso, é bastante comum o juiz, sendo um cidadão como qualquer outro, se deixar levar pela gravidade da acusação feita e não conseguir analisar com o distanciamento necessário se tal imputação está baseada em provas efetivamente concretas. Assim, por estar convencido de que nenhum sistema é infalível e, ainda, por acreditar que a execução de dezenas de criminosos jamais justificaria a morte de um inocente que fosse, é que sou terminantemente contra a adoção da pena de morte. Aspectos como o embrutecimento oficial do tecido social com a implantação da pena capital só vêm demonstrar de forma ainda mais evidente quão nociva seria a implementação da pena de morte.

EG: qual a participação da corrupção (em todos os níveis) nesse processo de brutal descrença na Justiça Criminal?

AP: é difícil mensurar, mas certamente uma participação relevante. Como ainda predomina um forte sentimento corporativista em nossas instituições, a ausência de investigações sérias para apurar desvios de conduta acaba fazendo com que paire sobre determinados agentes públicos uma perigosa, e muitas vezes falsa, presunção de culpabilidade, o que causa enorme prejuízo ao sistema judiciário como um todo. Isso porque, pairando a idéia de que o sistema é corrupto, qualquer absolvição acaba sendo vista não como fruto da prova da inocência do acusado, mas da corrupção ou da troca de favores envolvendo os agentes envolvidos no julgamento.

EG: quais as medidas mais urgentes a serem tomadas pelos legisladores a fim de que haja maior eficácia por parte do Estado no combate à impunidade?

AP: sinceramente, não visualizo nenhuma medida legislativa verdadeiramente eficaz que seja de rápida implementação. No plano legislativo, creio que a alteração do Código de Processo Penal para garantir aos acusados o direito à ampla defesa no inquérito policial poderia evitar a instauração de processos desnecessários, diminuindo a sobrecarga dos juízes e permitindo julgamentos mais rápidos e precisos. O combate à impunidade e à criminalidade, no entanto, está longe de ser simples e passará sempre pela implementação de medidas sociais efetivas que importem em distribuição de renda e melhoria das condições de vida das parcelas mais carentes de nossa sociedade. No que se refere especificamente à investigação criminal, entendo que sem a reformulação geral nas polícias, com o incremento, por um lado, das condições de trabalho, como melhoria nos salários, no aparelhamento e no desenvolvimento de técnicas investigativas, e a instalação, por outro, de órgãos verdadeiramente independentes destinados à fiscalização das atividades policiais e apuração de eventuais desvios de conduta, não se poderá cogitar da redução na criminalidade. Creio que cargos vinculados às ouvidorias e corregedorias deveriam ser separados da estrutura comum das polícias, de modo a evitar o desenvolvimento de relações promíscuas entre investigadores e investigados.

EG: está correndo a internet uma carta supostamente escrita por uma mãe, que teve seu filho assassinado, endereçada à mãe do assassino. O título da carta é “DIREITOS HUMANOS SÃO PARA HUMANOS DIREITOS”, outra incongruência aguda. Você pode me dizer o que pensa desse sentimento, a meu ver incompreensível, de que advogados e organizações não-governamentais só se preocupam com os criminosos e nunca com as vítimas?

AP: acredito que haja dois aspectos importantes nessa questão. Em primeiro lugar, a idéia de que haveria humanos direitos e humanos errados. Comportamentos desviantes não são simples de se analisar pois podem ter diversas causas concomitantes, mas certamente aqueles que os praticam não são necessariamente “humanos errados”. O simples fato de se realizar uma conduta que a lei define como crime, por si só, não diz tanto a respeito da índole do cidadão. Cito o exemplo da abolitio criminis. Diz-se ter ocorrido abolitio criminis quando uma conduta que a lei reputada criminosa deixa de ser assim considerada por uma lei posterior, tendo como conseqüência imediata a extinção de todos os processos e penas instaurados por aquela conduta. Ou seja, a própria sociedade, por meio de seus representantes eleitos, reconheceu que aquela conduta não deveria ter sido criminalizada. Assim, o simples fato de um cidadão realizar uma conduta que, em determinado momento histórico, a lei considerada como crime, não pode dar ensejo à sua classificação como “humano errado”. Outro aspecto importante é a idéia equivocada de que organizações de direitos humanos e advogados somente levantam a voz em favor de quem é acusado da prática de um crime. Essa idéia nasce, infelizmente, da ignorância com relação à atuação de tais agentes. Cito como exemplo a comissão de direitos humanos da OAB/RJ, da qual fui delegado. Há todo mês uma sessão aberta ao público denominada “OAB DE PORTAS ABERTAS”, em que vítimas da violência levam ao conhecimento da comissão suas vivências pessoais e recebem o apoio jurídico necessário. Na realidade, a atuação de organismos não governamentais e advogados acaba possuindo destaque maior em defesa de acusados por uma única razão, qual seja, a violação aos direitos humanos de qualquer cidadão é sempre grave, mas assume especial relevância quando quem pratica tal violação é o próprio Estado, por meio de seus agentes públicos, pagos justamente para impor e fazer respeitar as leis.

EG: você pode contar, sem dar nomes, evidentemente, qual foi o caso em que você atuou e que lhe rendeu a mais grata sensação de partícipe efetivo para que a Justiça fosse feita? O caso em que a sensação de dever cumprido foi completa…

AP: é realmente difícil citar um caso específico. Em todas as ocasiões em que tive a oportunidade de atender pessoas pobres, desassistidas, abandonadas pela sociedade à própria sorte, e, de alguma forma, consegui obter uma solução adequada, tive a sensação de participar ativamente do processo de fornecimento da justiça. Mas creio que um bom exemplo desse sentimento se deu quando atendi gratuitamente, a pedido de uma ONG de defesa dos direitos da mulher, uma jovem muito pobre, que não tinha familiares no Rio de Janeiro, morava em um trailer com um filho pequeno, trabalhava mais de doze horas por dia e estava sendo acusada da prática de homicídio duplamente qualificado, crime considerado hediondo e cuja pena máxima poderia chegar a 30 anos de prisão. Segundo me foi relatado, a jovem, grávida do segundo filho, sem saber quem seria o pai, desesperada, já no sexto mês de gravidez, decidiu tentar realizar o aborto por meio da introdução em sua vagina de uma pílula de Cytotec (remédio abortivo). Imediatamente, a jovem começou a sentir-se mal e foi levada ao hospital. Ao realizar o exame de toque, a médica descobriu a pílula que havia sido inserida e, tomada de fúria, deixou a jovem no soro sem atendimento e chamou a polícia. Antes da chegada da polícia, a jovem sentiu vontade de ir ao banheiro e, ao lá chegar, sentiu o movimento de expulsão da criança, que acabou caindo na privada. Completamente desorientada e ensangüentada, a jovem clamou por ajuda. A médica, então, chegou ao local, pegou a criança e, aos gritos, inventando que a jovem teria dado a descarga, acusou-a de assassina. Pouco após chegou a policia e algemou a jovem ao pé da cama. Na manhã seguinte, a jovem foi levada à delegacia, onde se lavrou o auto de prisão em flagrante por infanticídio (homicídio praticado pela mãe sob influência do estado puerperal). Comunicado o flagrante ao Ministério Público, a Promotora de Justiça (que posteriormente soubemos estava grávida), fez uma acusação formal muito mais grave contra a jovem, na qual lhe atribuiu o crime de homicídio duplamente qualificado, ao argumento de que a acusada teria jogado a criança na privada e dado a descarga. A defensoria pública já havia pedido a liberdade provisória da jovem e o juiz havia negado, sob a alegação de que por se tratar de crime hediondo, a lei proibiria tal beneficio. Logo na primeira semana, consegui convencer o juiz a reconsiderar a sua decisão e a conceder a liberdade à jovem. Ao longo do processo, consegui demonstrar, inclusive com a retratação da médica, que a jovem jamais jogara a criança na privada e, menos ainda, dera descarga. Assim, o promotor de justiça que veio a assumir o caso pediu a desclassificação da acusação para o crime de aborto e a suspensão do processo por dois anos mediante condições, benefício previsto na lei. O juiz concordou com o pedido, suspendeu o processo e, ao final do prazo, tendo a jovem cumprido todas as condições estabelecidas, o caso foi arquivado, mantendo-se a sua primariedade e seus bons antecedentes. Creio que esse caso ilustra bem uma hipótese em que tive a oportunidade de contribuir para evitar uma terrível e irreparável injustiça contra uma jovem muito pobre e desacostumada a ter alguém falando em sua defesa.

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ENTREVISTA – JOÃO BOSCO

Foi numa quarta-feira, 17 de janeiro, por volta das quatro da tarde. Chegamos ao Bar do Pires, na Marquês de São Vicente, na Gávea, eu, Simas, Rodrigo Ferrari (o Folha Seca) e Leo Boechat. Época de férias, e o bar, que fica bem em frente ao portão da PUC, estava quase que reservado só pra nós. O objetivo?

Entrevistar João Bosco, que mora ali pertinho.

O João chegou minutos depois, conforme o combinado, e com o violão em punho. Prenúncio de uma grande tarde.

Sentou-se, o João, pediu uma água, e o Rodrigo Folha Seca tirou da mochila uma garrafa de Red Label fechada. Abriu a garrafa e disse ao João:

– Posso jogar a tampa fora?

O João riu.

Riu e disse que não.

Só que depois de horas contando histórias surpreendentes, algumas muitas delas contadas pela primeira vez, histórias de sua infância em Ponte Nova, de sua adolescência em Ouro Preto, histórias sobre seus parceiros, seus amigos, sua família, depois de muito violão – e o bar embasbacado assistindo àquela cena incomum – e de muita emoção, não havia uma única gota de uísque na garrafa.

O que fez com que o João, pouco antes de se despedir, dissesse:

– Não se deve confiar em memórias desfiadas dentro de um bar…

O prenúncio foi preciso: foi uma grande tarde. Com vocês, a entrevista.

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

Rodrigo Ferrari: Então, estamos aqui, 17 de janeiro de 2007, no Bar do Pires, na Gávea, com João Bosco… Vamos começar a entrevista perguntando seu nome, o nome de seus pais e a rua em que você nasceu…

João Bosco: Bom… Meu nome é João Bosco de Freitas Mucci. Eu sou o sexto filho de Daniel Mucci, libanês, casado com uma mineira… libanês já falecido!… e … morreu no dia anterior da morte, também, de Vinicius de Moraes… Eu me lembro… acompanhando meu pai até o cemitério… e no trajeto alguém me disse que o Vinicius de Moraes tinha falecido… E casado com uma mineira, de uma cidade também perto de Ponte Nova chamada Barra Longa, Maria Auxiliadora de Freitas Mucci. Eu digo que eu sou o sexto filho homem porque numa família aonde o chefe da família, vamos assim dizer, é libanês, é árabe, teve cinco filhas mulheres, ele já era um árabe completamente desacreditado na praça… (todo mundo ri)… Porque vocês sabem que na cultura do árabe a mulher tem uma importância relativa… Quer dizer… O homem tem a sua importância e a mulher vem a seguir, é uma sociedade que mantém ainda, um pouco, dessas leis prioritárias… E então quando eu nasci foi um motivo de muita celebração, de muita alegria, de muitos presentes. Minha mãe conta que a minha casa ficou repleta de amigos e principalmente das pessoas libanesas e afins, que moravam em Ponte Nova, cuja colônia árabe era… até hoje… não sei por quê… era muito expressiva. A cidade era toda demarcada por lojas, negócios, bancos com nome das pessoas que compunham essa colônia árabe, joalherias, enfim… Todo aquele comércio que faz parte da tradição desse mundo dos negócios árabes. E então foi um dia muito especial o meu nascimento, por causa disso… Meu pai voltou a erguer a cabeça, a andar empinado, com um certo orgulho porque tinha produzido um filho homem! Teve que esperar e amargar muito por isso!

RF: Que dia foi?

JB: Isso foi no dia 13 de julho de 1946. O meu pai era goleiro, um talento do coração!, e ajudava meu avô nos negócios por obrigação. Mas eles falam que meu pai – e eu só vi o meu pai jogando no gol naqueles jogos de veteranos… – … mas eles dizem que meu pai realmente foi um grande goleiro, e a cidade toda comenta isso, existem diplomas e medalhas conferidas a ele pela sua habilidade no gol… E o que eu me lembro de meu pai, já jogando com os veteranos, era que ele tinha os dedos das mãos todos tortos, todos quebrados e os dentes foram todos quebrados também pelas chuteiras dos atacantes… E meu pai foi um goleiro muito disputado… Ele jogou a vida toda, praticamente, no Pontenovense Futebol Clube, que na época tinha um time excelente, cujas cores eram vermelho e branco, e depois também teve que passar uma temporada em Juiz de Fora, estudando por obrigação do meu avô, aonde ele jogou aonde ele estudava, no time, mas teve convite pra jogar nos melhores times de Juiz de Fora como Tupi etc e foi amigo de grandes goleiros no Rio de Janeiro, principalmente Castilho, que era goleiro do Fluminense, e que era amigo dele, e meu pai era um tricolor fanático, né?, doente… E talvez isso explique porque é que eu comecei torcendo pro Flamengo… Mas o meu pai contava que jogava muito com os times do Rio de Janeiro e eu cheguei a ver muitos times do Rio de Janeiro, ainda criança, jogando em Ponte Nova, os principais times do Rio de Janeiro na época, que eram muitos… não era só Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo… Mas havia o América, eu vi Pompéia jogar, havia Olaria, havia Canto do Rio que eram times excelentes, né? São Cristóvão… e que faziam campanhas belíssimas… Bangu… Eu vi Zózimo jogar também em Ponte Nova… Então eu tenho uma lembrança, assim, da minha infância aonde a presença da colônia árabe é muito grande e também dos grandes times cariocas e de seus jogadores não menos famosos! Isso é uma coisa que tem um destaque na minha formação de infância!

RF: Quando você nasceu seu pai tinha quantos anos?

JB: Eu nasci em 46… Meu pai tava no auge de sua carreira, jogando bola… Meu pai morreu com cerca de 65 anos… E já se vão aí da data da morte dele… 25 anos… Mais um pouco… 30… Eu tive cinco irmãs, mas lá em casa é mais ou menos de dois em dois… Entendeu? De dois em dois anos… Meu pai era muito regular nessa questão da prole! (todo mundo ri) Se você vem numa escala descendente, começando com a irmã mais velha, você vai me pegar com 60 anos, mas ela deve ter 70, 71, a outra tem 69, a outra 67…

Simas: Uma escadinha!

JB: É… Uma escadinha… Mas eu falo isso porque o Aldir, por exemplo, ele não viu o meu pai jogar. Mas ele sentiu o meu pai jogar, que é a coisa do poeta… E o Aldir tinha uma ligação muito forte com o meu pai, uma coisa que não dá pra explicar – e nem precisa! Nós fizemos uma canção, uma vez, quando ficamos muito tempo sem nos ver, mas ainda trabalhando juntos, me lembro que ele fez uma canção – à distância – aonde ele fala do meu pai, é uma canção dedicada ao meu pai, e nessa canção ele fala do meu pai, das peculiaridades do meu pai, daquilo que ele conheceu intimamente do meu pai e aonde ele cita, inclusive, as suas proezas como goleiro… Meu pai devia ter contado histórias pra ele… Mas a ligação do Aldir com meu pai é uma coisa muito impressionante… Eu tenho uma foto do meu pai, em casa… Uma foto dessas grandes, tipo 18 por 24, uma moldura, mas ela fica na estante, entre os livros, e pra você se deparar com ela você tem que saber que ela está ali pra você olhar pra ela. Essa estante está num ambiente aonde você normalmente é atraído por outros quadros, por outras coisas que compõem, os objetos desse lugar… Mas eu me lembro de uma noite, o Aldir na minha casa, já recentemente, um ano atrás, uma coisa assim… A gente já tinha bebido todas, a gente tava realmente já… eu colocando música pra gente ouvir no som… E de repente ele se depara com a foto do meu pai, e eu do lado dele senti esse momento e ele se comoveu, entende? Aquilo foi uma coisa muito emocionante… E somente duas pessoas viram aquilo, né? Eu e ele! Eu e o Aldir! E meu pai, com certeza, deve ter sentido isso… Mas essa ligação dele, do Aldir, com o meu pai, nos torna muito mais do que parceiros, nos torna praticamente pessoas da mesma família, quer dizer, a gente já era mais do que isso antes, entendeu? Mas esse é um dado que eu acho que é importante…

Eduardo Goldenberg: Essa canção foi gravada?

JB: Essa canção foi gravada por mim e pelo João Donato, no songbook do Donato. Essa canção foi uma coisa impressionante! Eu tava na casa do João Donato, que é uma pessoa maravilhosa, um compositor admirável e de uma simplicidade muito grande não só naquilo que faz mas no trato com as outras pessoas, no caráter, entende? É um sujeito muito gracioso, muito dado, sabe? E eu tinha passado um dia e uma noite com o Donato e a gente tava lá tomando aqueles birinights, aquelas maluquices do Donato, que ele gosta e eu acompanho, e na hora em que eu fui embora… A gente tava fazendo músicas juntos! Aí na hora de ir embora ele foi me levar até a porta e na hora de despedir ele cantou duas frases de uma melodia como quem se despede de alguém com carinho, né? Um músico despedindo do outro, dizendo boa-noite, né?! E ele me cantou duas melodias de uma frase, ele fez… (João cantarola)… Eu fui embora e aquilo me saltou, tinha alguma coisa ali naquelas duas frases tão simples, ditas de uma maneira tão amistosa, tão amorosa, sabe? Um tempo depois eu peguei no violão e desenvolvi isso aí… E acabei fazendo uma música… E essa música eu mostrei pro Donato, e ele adorou! E ele disse: “Temos que colocar uma letra”. E eu já não via o Aldir já há muito tempo… Mas eu falei: “Tem algum empecilho pro Aldir fazer essa letra?”, e ele: “Claro que não! Eu adoro o Aldir”. Daí eu mandei a música pro Aldir. Aí ele fez…

EG: E você já tinha composto pensando no teu pai?

JB: Não! Absolutamente… (pensando) Meu pai sempre dizia uma frase que era “enquanto Deus me der vida e saúde…” e aí ele completava a frase… “eu vou ao seu casamento”…

RF: Era um bordão!

JB: Era um bordão! Só que toda vez que eu fui a missa com o meu pai ele nunca entrou na igreja!!!!! (todo mundo ri muito) Ele sempre ficava do lado de fora, ali, porque a igreja dava pra uma praça, então ele não entrava e ficava ali e ficava com os amigos conversando…

Leo Boechat: Mas ele era libanês e tinha outra religião?

JB: Não! Meu pai era libanês católico. Mas no título! E essas coisas eu aprendi cada vez mais com ele… Porque essa coisa da religião é uma coisa que tá dentro de você, não é uma coisa que tá no templo… Tá dentro! Eu acho que vontade e fé se misturam muito! Tem um livro do João Ubaldo Ribeiro, que é um escritor por quem eu tenho uma admiração profunda e eu tenho muito orgulho de ser muito amigo dele, aonde ele diz: “A vontade pode”. E isso é uma frase que se você for pensar, ela tem uma importância muito grande. A vontade pode. Quem quer, consegue! O que é a fé? A fé é uma vontade litúrgica! A fé é uma vontade! Quando você acredita numa coisa você parte pra cima daquilo, seja com um instrumento, seja com uma bola nos pés, seja com a caneta, com a máquina fotográfica, seja com uma régua de cálculo, com uma máquina de somar, qualquer coisa! E meu pai dizia sempre isso… Ele tinha uma vontade de estar junto das pessoas o maior tempo possível… Mas com respeito… “Enquanto Ele (frisando) me conceder!” Mas acontece que eu nunca vi ele rezando e nunca vi ele entrar na igreja. A gente ficava do lado de fora conversando, ele com os motoristas de táxi, com os amigos, ele gostava de um baralho também, ficavam falando do jogo do dia anterior…

S: Mas não era muito apegado a essa coisa material?

JB: Não, ele não tinha apego nenhum! Meu pai nunca pensou no dia seguinte. Nunca pensou no dia seguinte. Nunca. Toda vez que ele descia em Ouro Preto de ônibus, aonde eu estudava, eu me encontrava com ele no ponto de ônibus no trajeto em frente à escola, ele saltava ali, eu ficava ali com ele, às vezes tinha uma banca de um quitandeiro aonde ele vendia coisas, inclusive laranja! E ele às vezes descascava as laranjas, chupava duas ou três laranjas, batia um papo, pegava o ônibus seguinte e ia embora!!!!! E isso era o nosso encontro. O Aldir inclusive fala disso na letra. Na verdade o Aldir é o melhor contador de histórias que eu já conheci na minha vida. Uma mesma história que eu tenha vivido com ele, eu vou contar pra você e ela não vai ter a menor graça. Mas quando ele conta, é a mesma história, é uma coisa muito espirituosa, muito engraçada, você se diverte ouvindo porque ele é um grande narrador de histórias… Então essa letra está recheada de informações que eu passei pra ele… E ele coloca isso tudo lá, mas daquele jeito, como o grande contador de histórias que ele é.

EG: Mas volta aí pro Donato… Você perguntou se podia mandar a letra pro Aldir…

JB: Então! Aí eu mandei a música pro Aldir sem falar nada…

RF: Sem nem pensar em nada?

JB: Nada! E o Aldir então mandou essa letra…

EG: Chama como a canção?

JB: Chama “Nossas últimas viagens”, e fala da última vez que o Aldir foi a Ponte Nova, viu o meu pai… Meu pai já falecido… Então ele fala das últimas viagens dele a Minas e do meu pai aqui pra Terra!

EG: Foi composta quando?

JB: Ah… Eu não tenho essa memória, mas tem muitos anos… No songbook do Donato eu gravei com ele. Ele toca piano, eu toco violão e canto. E no meu songbook, produzido pelo Almir Chediak, quem canta isso é o Dominguinhos. E o Dominguinhos abre essa música dizendo da emoção que ele teve de cantar essa canção e diz assim: “O que eu queria na minha vida e não fiz, era uma música pro meu pai como vocês fizeram…”.

RF: O título foi o Aldir que deu?

JB: Foi. Foi composta numa época em que a gente se via muito pouco. Mesmo a gente à distância, a gente nunca deixou de ser irmão, porque nós falávamos de uma pessoa que ambos tínhamos um carinho muito grande…

EG: Vamos voltar pra sua infância. Você consegue dizer quando foi seu primeiro contato com música? Ou a primeira vez em que você teve certeza de que era isso que você iria fazer?

JB: Não. Na verdade eu sempre estive junto da música. Eu nunca pensei nisso… Porque pensar nisso implicaria em você ter um projeto de vida profissional com a música. E eu nunca tive isso. E naquela época não existia isso! Não existia a profissão de músico! Você dizia pra alguém aquela célebre frase: “Eu faço música”. E esse alguém: “E você trabalha em quê?”. Então a minha irmã era pianista. A minha mãe era violinista. A minha avó era bandolinista.

EG: Então se fazia música na sua casa?

JB: Se fazia muita música… Tinha sarau… Minha irmã era muito boa pianista…

EG: Tinha piano também na sua casa?

JB: Tinha… Isso é um detalhe que é impressionante… Toda casa tinha piano. Esse negócio da dificuldade de ter piano, isso é uma coisa dos tempos modernos, da economia recente… Na minha história, em Ponte Nova, que é uma cidade topograficamente cheia de subidas e descidas, como Ouro Preto, eu me lembro de subir e descer ruas com as crianças estudando escalas de piano, principalmente as moças. Fazia parte da educação a aula de piano. E não era uma pessoa de classe média, classe média alta! Qualquer casa tinha um piano! Na minha casa tinha piano! Nós éramos de uma família relativamente pobre, meu pai a essa altura da minha infância já tava deixando os negócios e mexendo com seguro de vida, ele era securitário, e minha mãe era professora de escola primária. Nós éramos dez irmãos, e nós vestíamos, comíamos e morávamos, entendeu? E na minha casa tinha piano!

EG: Depois de você vieram mais quatro filhos?

JB: É, mais quatro… Eram dez filhos! Mas deixa eu contar uma coisa… A minha irmã tava sempre envolvida com outros cantores, músicos, ela às vezes tocava no conjunto da cidade, aonde havia um crooner, e ela cantava também! Ela chegou a cantar muito bem, inclusive. Então na minha casa tinha sempre alguém ensaiando com ela no piano, eu criança já. Uma das coisas que eu mais me recordo dela tocando piano não era bem o piano, mas era um anel que ela tinha de uma pedra, tipo uma ametista, que ficava folgada na armação do metal, e ela ficava balançando. E à medida que ela tocava aquilo produzia um som, um ritmo, com os dedos. A pedra chocando com o metal dava um som, e aquilo me chamava muito a atenção. Engraçado, isso. Mas eu cresci no meio dessa audição diversificada. Vinha gente de música popular, vinha seresteiro e eu, garoto, também tinha os meus amigos de rua e eu acredito que eu vim misturado com a música, numa diversidade muito grande.

entrevista João Bosco, 17 de janeiro de 2007

S: Alguém na família tocava violão?

JB: Não. A minha irmã é que ganhou um violão, que foi esse violão que sobrou pra mim. Ela comprou esse violão… Era todo esverdeado, aqueles violões que você compra em loja que você compra bacalhau, peça de roupa (todo mundo ri), língua de sogra, e o violão fica pendurado no teto amarrado com um barbante… Então ela comprou esse violão e ela acabou percebendo que esse violão ficava muito tempo comigo. Aí ela fez de conta que não sentia mais falta do violão e o violão acabou ficando em tempo integral comigo… Foi aí que eu comecei a tocar…

EG: Que idade você tinha aí?

JB: Eu devia ter 10 pra 11 anos… Mas a minha vida musical, no princípio, era muito heterogênea, sabe? Eu tinha uns amigos, jovens como eu, que gostavam do início do que tava acontecendo na música da juventude, e eu tinha um amigo meu que tinha uma discoteca do Elvis Presley, imensa, e a gente ficava ouvindo os discos do Elvis Presley… E você pode até achar engraçado… Mas você sabe que eu sou flamenguista por causa do Elvis Presley, né? Eu comecei a torcer pro Flamengo por causa do Dida, que tinha um topete muito parecido com o do Elvis. Quando eu vi a figurinha do Dida…

S: E o Dida… alagoano!

JB: … eu falei… O Elvis joga no Flamengo!!!!!

(todos rolando de rir)

JB: Vou torcer pra esse time! Só depois é que eu fui saber que o Dida era alagoano… Fiquei vendo o Dida escondido na Gávea, sem querer perturbar o cara, só vendo o cara de longe… Porque esse cara é o início, pra mim, de tudo… O fato de eu torcer pro Flamengo vem daí! Vem do topete dele… Que é um topete de Elvis Presley! Elvis joga no Flamengo! Era essa a sensação!

EG: Bela história, hein!

S: Magnífica!

LB: Melhor que Elvis não morreu é Elvis jogava no Flamengo!

JB: Aí eu comecei a misturar Dilermando Reis com Elvis Presley, misturava isso com Noel, com Caymmi… Meu pai, naquela época, fazia umas viagens ao Rio pra comprar material pra loja do meu avô. Então ele vinha comprar os tecidos, uma coisa assim. Mas ele, goleiro de futebol – e futebol tem uma relação com a música popular muito forte, inabalável – , eu acho que ele vinha aqui pra Lapa… Ele nunca me falou isso… Mas onde é que ele aprendia a cantar aquelas músicas que ele cantava e que eu às vezes acompanhava no violão ainda garoto? Ele cantava muito samba do Noel. Onde é que ele aprendia? Eu nunca vi ele ouvir rádio em casa… Eu acho que quando ele vinha ao Rio, ele ficava aqui…

S: Escapava pra velha Lapa…

JB: Então a minha formação musical era muito solta, livre, diversa, e não havia um critério. Pelo menos não havia um critério cultural. Ninguém baixava uma norma pra dizer o que prestava e o que não prestava. Na verdade essa norma era ditada pelo meu sentimento, por aquilo que meu coração mandava! Então eu acho que dentro dessa mistura toda, na audição, e eu dou muito valor a isso, há essa maneira solta de estar ligado à música… Por exemplo, é muito difícil você dizer, numa música feito “Tiro de Misericórdia” que ali não tem um pouco de… Por exemplo… essas coisas que vêm porque querem… independente da sua vontade… porque a música tem muito isso… vem porque quer! Né? E você não controla isso. E é muito difícil você especificar determinadas influências, ou pelo menos aonde é que elas estão. Mas eu acho que é muito difícil em certas músicas, por exemplo, que eu andei fazendo, dizer “aqui não tem o Little Richards”… Eu acho importante isso…

RF: Tinha vitrola na sua casa em Ponte Nova?

JB: Tinha rádio, no início… E depois, duas irmãs mais velhas, que eram muito ligadas em música… A minha irmã pianista, que é viva até hoje, que é a mais velha, e que tem um coral lá em Ponte Nova, o coral aonde a minha mãe inclusive participa, e uma outra irmã, já falecida, que também gostava muito de música… Elas começaram a trabalhar na Receita Federal, tinham um salário bom, então permitiu que elas comprassem uma vitrola pa casa… Eu achava, inclusive, naquelas vitrolas, que o instrumento – e eu só fui saber isso muito tempo depois – baixo elétrico só existia nas vitrolas “high fidelity”, e não no rádio! Eu achava que quem tocava aquele instrumento era a vitrola! Porque o baixo ele precisava de uma estrutura pra se expressar! Como o rádio era uma coisa pequena, tinha ondas que não permitiam uma tradução com fidelidade do que se registrava, eu achava que o baixo só existia nas grandes vitrolas! Então eu, quando ia ouvir música na casa dos outros, que eu via que a vitrola era pequenininha, daquele tipo que você tira a tampa, aí eu dizia “não quero, essa vitrola não toca baixo”… Isso era muito engraçado, cara! Eu só fui descobrir que o baixo era um instrumento mesmo muito tempo depois! Muito engraçado. E eu tive uma vitrola dessa de tampa… Em Ouro Preto era a minha vitrola. E eu sofria muito. Porque eu já tinha a consciência de que o baixo existia, mas que eu tinha que imaginá-lo, ali era impossível ouvir…

RF: Você não começou com acordeon, não?

JB: Não… Minha irmã ticava acordeon… E tinha muito professor de acordeon… Mas é que o violão tinha foto, tinha pose, se fazia mais publicidade…

EG: E depois do violão verde… o segundo… você comprou?

JB: Não… O segundo era um violão que eu tinha na república em Ouro Preto, na Sinagoga, que quando eu entrei pra essa república esse violão já existia lá há muito tempo, e eles não davam a menor bola pra esse violão… Esse violão, inclusive, tinha uma marca de ferro elétrico no verso, porque neguinho botava o ferro ali… Daí eu peguei esse violão pra mim…

LB: Em Ouro Preto você já tocava violão legal?

JB: Em Ouro Preto realmente eu comecei a tocar violão.

EG: Aí você tinha o quê? 18 anos?

JB: Eu fui pra lá em 62, tinha 16…

LB: Mas você já tocava bem?

JB: Eu tocava em Ponte Nova, parei de tocar, fui pra Ouro Preto e lá o violão ressurgiu. Mas aí ressurgiu intensamente, eu comecei a conviver com os músicos da escola, com os colegas…

RF: Você fazia qual engenharia?

JB: Civil.

EG: E você começou a compor lá em Ouro Preto?

JB: Comecei a compor lá sem perceber que estava compondo…

EG: Pegava o violão e…

JB: … e ficava tocando música dos outros… Que é o que eu faço até hoje! Eu nunca pego o violão pra compor, eu pego o violão pra tocar música de alguém. Às vezes eu cismo com músicas… Ontem quando eu falei com você eu cismei com “Tudo se Transformou”… Porque eu sempre que toco “Chega de Saudade”, quando chego naquela parte (cantando) “mas se ela voltar, se ela voltar que coisa linda, que coisa louca, pois há menos peixinhos a nadar no mar do que os beijinhos que eu darei na sua boca…”, eu sempre me lembro do Paulinho da Viola… E isso há muito tempo! Eu sou canceriano, sou mineiro, sou preguiçoso… Eu demoro, demoro a pegar. Aliás, escuta isso! Eu até dei um computador pra minha mãe um dia desses… Não me deixa não voltar ao assunto!

RF: Tá!

JB: Mas eu dei um computador pra ela – ela queria aprender!, minha mãe já está com 90 anos, e isso deve ter uns 5 anos… – achei que seria bom pra ela, aprendendo ou não. Aí um dia eu ligo pra ela e digo assim “Mamãe, e aí?”. Aí falamos de uma série de coisas, e tal… E eu digo assim: “E o computador?”. “Ah! Tá aqui, meu filho… De vez em quando ele pega, de vez em quando ele não pega…”. (todo mundo ri muito) Eu fiquei com aquilo na cabeça… Aí eu conversei com alguém e contei “Falei com minha mãe, rapaz, sobre o computador, e ela diz que tem dia que ele pega, tem dia que ele não pega… você não acha isso interessante, em se tratando de computador, uma coisa de ponta, de tecnologia, pegar e não pegar?”. E o cara “Não, João, mas faz sentido! Antigamente o rádio pegava e não pegava!”… Eu tava falando sobre…

EG: Paulinho da Viola!

S: “Tudo se Transformou”…

JB: Então sempre que eu toco esse samba, me vem o Paulinho, de quem eu tenho a honra de ser amigo pra caramba e durante muitos anos eu fui meio até que cambono, uma espécie de assistente (Simas ri) do Paulinho, porque eu carregava aquela cesta de chuteira, pro futebol… Eu ficava à beira do campo e dizia “Olha, você tem que cair mais pra direita… desse jeito você não vai receber bola, não… você tem que voltar”… Eu dava instruções pra ele… Imagina você! E ele tinha um Fusca… E quando acabava o futebol a gente ficava naquele sopão que tinha lá no Portelão, tomava a sopa, tomava aquela cerveja… e quase todo sábado era isso aí. E agora, recentemente, eu disse pô “pára de ficar pensando nisso e vai ver o que é que é”… Aí eu fui pegar o “Tudo se Transformou”… Então tá lá… (cantando) “Violão até um dia quando houver mais alegria eu procuro por você, cansei de derramar inutilmente em tuas cordas as desilusões deste meu viver, ela declarou…”… A segunda parte de “Chega de Saudade” passa por ali! Você vê como é que é engraçado isso… Na verdade a música pra mim é uma espécie de carretel de linha, porque você vai puxando e uma coisa vem depois da outra… Ou seja… Depois de um, vem dois, vem três, vem quatro, vem cinco, vem seis… Não adianta pular pro oito, que antes do oito tem sete… Entendeu? Não tem essa de escutar isso! Eu não escuto isso! Eu escuto uma coisa que me leva à outra e que me leva à outra e que me leva à outra!!! Eu acho que “Tudo se Transformou” dialoga com “Chega de Saudade”, o Paulinho estabelece um diálogo com Vinícius e Tom, pois se um samba diz “ela declarou recentemente que ao meu lado não tem mais prazer” o outro diz “vai minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser”…

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

LB: Pensando assim foi que você misturou Noel Rosa com Beatles?

JB: Exatamente! Fita Amarela com Eleanor Rigby…

LB: Ou como fez com o Expresso 2222, do Gil, com a música do ET!

JB: Já misturei Bethoven com Tico-Tico no Fubá! (cantarola) Aí entra no choro… (cantarola)… Pô! Tico-Tico e Bethoven! E não é gratuito! Existiu mesmo… É uma coisa feita que chama a outra… Não sei por que cargas d´água, mas eu acho que música é um pouco assim… Fazendo um corte, rapidinho, eu li uma série de entrevistas do Chico Buarque pra esse show recente, onde ele fala isso! Que o roteiro do show foi construído com uma música puxando a outra! Eu acho que na verdade todo roteiro, todo repertório, toda a maneira de se fazer música vem de uma coisa puxando a outra! É assim que eu penso. Então não existe, formalmente, um critério pra se educar musicalmente. Não! É uma coisa puxando a outra!

EG: Mas vamos voltar lá pra Ouro Preto. Você falou que começou a compor sem saber que estava compondo… Era por isso? Você ficava tocando música dos outros e de repente tava compondo?

JB: É porque quando eu procurei o Vinicius de Moraes em 67…

EG: Você que o procurou? Ele tava lá?

JB: Eu que procurei, ele ia sempre lá. Eu entrei pra escola em 67. Por isso é que eu digo que eu perdi um ano, junto com o nosso amigo Gilberto… Porque eu saí em 72. Na verdade o meu curso de engenharia, que era de cinco anos durou seis! E eu devo esse primeiro ano que eu perdi na escola – eu perdi por freqüência! – eu devo ao Vinicius. E é uma dívida que eu não vou conseguir pagar! Foi o ano em que eu mais aprendi na vida! Foi ano que eu não fui à escola! Eu procurei o Vinicius na pousada aonde ele ficava hospedado, “Pouso do Chico Rei”. E comigo foi o rapaz que era meu colega de república e que tocava no quarteto vocal que eu tinha chamado “Quarteto de Ouro Preto”, aonde nós já tocávamos música popular brasileira e eu fazia os arranjos vocais sem conhecer nada de música, uma nota de música… Aliás não conhecia e não conheço. E peço desculpas publicamente por isso, porque isso não é nenhuma vantagem! Isso é um complexo que eu tenho… Não aprendi música, não consegui aprender música porque meu saco estourou! Eu devia, ao invés de estar estudando engenharia, eu devia estar estudando música! Por isso é que eu acho que as escolas têm que ter nos seus currículos educação musical! Porque se o sujeito revela ali o talento dele, ou a sina de ser músico, é dali que ele parte. Como eu não tive isso, eu fui estudar engenharia. Não reclamo também! Porque na engenharia também eu vi coisas muito bacanas e que estão muito ligadas à música, principalmente através dos gregos, dos filósofos, dos matemáticos e que estão dentro da engenharia, porque a maioria dos cálculos, dos matemáticos, desses enunciados, foram feitos por gente biruta igual qualquer tipo de músico louco que tem por aí, tudo feito na base da inspiração, da intuição. Mas me diga uma coisa… Como é que um garoto, de Minas Gerais, com seus 21 anos, bate na porta do Vinícius do Moraes – que era tudo no Brasil, Vinicius reinventava a letra da música brasileira (e eu digo reinventava porque eu acho que quem inventou a letra na música brasileira foi Noel Rosa e depois o Vinícius a reinventou, mas o Noel encabeçando, na década de 30!) – então como é que você bate na porta de um cara desses pra mostrar música, sendo que ele se chama Vinicius de Moraes? E por que o Vinícius de Moraes? Porque Vinícius de Moraes era o cara que escrevia poesias muito parecidas com a pessoa dele. Toda a poética de Vinícius, toda a generosidade que você encontra na poesia de Vinícius, toda a vontade de fazer amigos, de encontrar o amor… tava nele! Ele era aquilo! Então eu bati na porta procurando um cara que eu tinha certeza que ia me receber de braços abertos…

EG: E foi o que ele fez?

JB: Foi o que ele fez! De braços abertos e com uma garrafa de uísque. E ele disse: “Você faz o quê?”. E eu disse “Entrei pra escola esse ano…”… “Ah, é?…”, e eu com o violão do lado… “Eu tenho um quarteto vocal, esse rapaz aqui toca comigo…”, o nome dessa rapaz é Paulo César Pavanelli – quase Carpegiani mas não é!!!! (todo mundo ri muito). Só pra lembrar que 81 foi o ano que não terminou para os outros times! E o Vinícius: “Ah, você tem um coral? O que é que vocês tocam?”. Eu disse e ele disse “Mas esse repertório é muito bom…”, e inclusive tinha coisas dele. “Toca alguma coisa aí!”… Aí eu toquei um samba que eu tinha feito… “Pô, mas esse samba é bom, toca outro…”. Eu fui e toquei outro. “Pô, mas esse também é bom… toca outro!”. Aí eu vi que tinha acabado. Eu era um compositor de dois sambas! Eu nunca estive atento ao lance de compor, eu tava tocando a música de todo mundo… só depois vinha a minha…

EG: E essas duas deram samba?

JB: Essas duas deram samba! Uma ele letrou, que foi o “Samba do Pouso”, a primeira, que tá gravada no songbook dele, eu gravei com “Os Cariocas”…

EG: Foi a primeira música que você fez na vida?

JB: A primeira música que eu fiz na vida…

S: E foi ele que se dispôs a letrar?

JB: Naquela hora!

EG: Dentro do quarto?

JB: Ali! Na pousada! Meu primeiro parceiro… O segundo quem letrou foi um cara que eu conheci aqui no Rio de Janeiro, chamado Torquato Neto. Porque eu venho ao Rio, nas férias, e porque aí o Vinícius resolve me adotar!, e eu via o meu nome pipocando naquelas notinhas… O Vinícius dava notas sobre mim nos jornais, no “Jornal do Brasil”… E havia o “Correio da Manhã”, e outros jornais, “O Globo”, e o Vinícius sempre falando de mim. Isso era uma coisa que eu não vou conseguir nunca devolver ao Vinícius… (visivelmente emocionado)… entendeu? Toda a generosidade que ele deu, não só a mim, mas como a muitas pessoas do meu tempo, e acho que extensivamente ao público do Brasil que, pô… que tem por ele… e não sou eu que digo isso… que tem a experiência que esse público tem de reencontrá-lo através de especiais, de filmes biográficos e tudo, e revelarem a sua admiração por uma pessoa tão bonita e tão maravilhosa feito o Vinícius. Mas ele resolveu me adotar… E ele e o pintor Carlos Scliar, que é meu padrinho de casamento…

RF: Que tinha casa lá, né? (em Ouro Preto)

JB: Tinha casa lá e eu freqüentava muito a casa…

RF: Casa maravilhosa…

JB: Exatamente… aquele chalé… que era do Scliar e do pintor Ivan Marquetti, que faleceu há pouco tempo e foi grande amigo meu esse tempo todo da minha vida, um grande amigo, um grande pintor. E o Vinícius adorava o Ivan, tinha um carinho muito grande pelo Ivan. Mas os dois começaram a me convidar pra passar as férias escolares, da escola de Minas, no Rio! Então na época de julho e na época que vai de fevereiro a fevereiro, eu passava no Rio de Janeiro. Numa dessas que eu vim, entre janeiro e fevereiro… eu vou te dizer até a época… foi a época que o Chico Buarque lançou um disco aonde ele tem uma foto segurando um violão na Lagoa… E que tem a música “Realejo”… (disco de 1967, “Chico Buarque de Hollanda)

LB: Preta a capa?

JB: Preta! Eu vou te dizer porque é que eu me lembro desse disco… Quando eu estava na casa do Torquato, o Chico ligou pra ele naquela madrugada. E conversaram sobre música. Aí o Torquato faz uma menção a esse disco, que tava ouvindo, que tava curtindo o disco, e esse disco nunca mais me saiu da cabeça e por dois motivos… O Chico ser o que é, compositor maravilhoso, genial e único e o Torquato por ser um pensador, e poeta, e representante de um pensamento que é singular e que é fundamental inclusive no Tropicalismo. Eu fui parar na casa do Torquato por causa de um sujeito que morava em Niterói, e que mora até hoje, chamado Chico Enói e que ninguém sabe quem é, ninguém conhece, que não conseguiu impor o seu repertório, a sua obra. Ele mora em Niterói até hoje, e não conseguiu mostrar o seu trabalho, mas que tinha e tem talento para estar aí, hoje, fazendo a sua música… Que a música tem muito disso, a poesia tem disso, a literatura tem disso…

RF: Oportunidade, né?

JB: Enfim… ele não teve oportunidade. Mas quem me levou ao Torquato foi o Chico Enói. Portanto nesse samba nós temos parceria… Eu e o Chico Enói. Aquela parceria que a gente entra porque a gente é amigo… aquela parceria de antigamente!

S: Tem que entrar!

JB: Tem que entrar… É a parceria que eu mais sinto falta! Porque é a parceria que vai a qualquer lugar, a qualquer hora…

RF: Como o Donato foi teu parceiro por causa daquelas frases no dia da despedida de vocês…

JB: Exatamente! Né? Se não fosse aquele negócio aquela música não existiria… O Chico Enói, se não me leva à casa do Torquato, eu não teria ido, eu não teria feito um samba com ele chamado “Fique Sabendo”…

EG: Que foi o segundo samba que você mostrou pro Vinícius…

JB: Não. O segundo samba que eu mostrei pro Vinícius, e que ele letrou, chama-se “Rosa dos Ventos”. O Torquato letrou esse samba naquela noite… Agora eu vou te dizer… Naquela noite quem é que estava na casa do Torquato? O telefonema do Chico Buarque, que não é pouca coisa e eu presenciei… (Rodrigo ri) Um pianista de São Paulo, que é um gênio, chamado Laércio de Freitas, conhecido pela alcunha de “Tio”, tenho a honra de ser amigo do Laércio… Sempre que eu vou a São Paulo nos encontramos, e todo show meu em São Paulo ele vai, e quando eu estou em São Paulo, aonde quer que ele esteja tocando eu vou assistir… Estava um sujeito chamado Jards Anet da Silva mais conhecido…

RF: Macalé!

JB: … como Macalé… Deitado num canapé… (todo mundo ri)… Devia ter tomado uns birinights, tava ali sonhando com os anjos, tirou uma soneca… Conheci o Macalé dormindo! Não é qualquer pessoa que é apresentada a uma outra dormindo! Eu conheci o Macalé dormindo, tive esse prazer… E um músico, numa mesa, que estava com um terno marrom, mas um marrom muito especial, mais pro brown do que pro marrom, marrom cheio de guéri-guéri, uma camisa rosa, uma gravata verde, uma meia rosa, um sapato clássico marrom, um anel muito bonito nos dedos… Esse sujeito era conhecido como Ismael Silva! (Simas gargalha)

EG: Que noite!

JB: Estávamos numa mesa como essa aqui… Conversando… Eu acho que a mulher do Torquato tinha um parentesco com o Ismael que eu não vou dizer a vocês porque eu não me lembro mais! Mas tem um parentesco com o Ismael. E foi essa a noite que eu passei na casa do Torquato Neto, na Ladeira dos Tabajaras! Que eu nem sabia o que era o Rio de Janeiro, mas toda vez que eu vejo Tabajaras… Pode ser num filme de Hollywood, pode ser no Casseta e Planeta, pra mim… Tabajaras vem essa turma toda junto!

EG: E você foi parar lá por conta desse amigo de Niterói?

RF: 1967, né?

JB: 67 pra 68… Final de 68…

EG: E quando você e Vinícius fizeram “Rosa dos Ventos”?

JB: Fiz em outra época em que ele foi pra Ouro Preto…

EG: Volta lá pro encontro com o Vinícius lá em Ouro Preto , o primeiro samba…

JB: Então… Ele letrou o samba, eu voltei pra república com o Paulinho Pavanelli…

EG: E você louco, né?

JB: Já bêbado e ali, naquele dia, eu tive uma certeza na vida… A minha vida ia ser música… Ali! Naquele dia! Naquela noite!

EG: Você lembra o dia exato, João?

JB: Não… não lembro…

EG: Mês?

JB: Abril, maio… O inverno tava se anunciando… Eram noites um pouquinho mais frescas, mais frias… ainda não era inverno… abril, maio… de 67! Ali, naquele dia, eu descobri que meu negócio era música. E aí eu comecei a ouvir música diferente. Eu comecei a olhar pra música não mais como aquele sujeito que não se programa, que não tem vínculo, que não tem responsabilidade com a música, eu comecei a olhar música diferente. Então eu comecei a ouvir música e já queria saber quem era, quando foi gravada, quem é que cantou, que tom que estava, eu comecei a olhar música com outro propósito! Acho que a partir dali eu virei compositor, virei músico! E coincidentemente parei de ir à escola! Então… Perdi o ano! Repeti o ano… Mas o Vinícius, outras vezes, me aconselhou: “João, que é isso? Vai à escola! Não vai pro Rio agora não… Vai fazer o quê no Rio? Tá aqui com seus amigos, numa cidade maravilhosa…”.

RF: Você tocou naquele teatro municipal de Ouro Preto?

JB: Várias vezes! Várias vezes… E vi o Vinícius lá várias vezes… Com o Toquinho, se apresentando lá, com a Marília Medalha… Eu conheci o Victor Assis Brasil…

RF: Quantos músicos do Rio iam se apresentar lá?

JB: Olha… eu conheci Victor Assis Brasil lá. Na noite em que eu conheci o Victor eu até me aproximei dele, eu já tava envolvido com música lá… Aí eu disse pra ele… “Um dia, no Rio de Janeiro, eu vou te procurar e te convidar pra você fazer alguma coisa…” e ele… “Pô, com o maior prazer!”… E ele nem sabia o que eu fazia! E no disco “Linha de Passe” eu cumpri a minha promessa! E ele também! Ela toca comigo uma canção chamada “Mara”, minha e do Aldir… Ele toca, só eu e ele… O solo é dele, o contracanto é dele… Isso em 78. Você vê que a minha promessa se cumpriu! E a dele também!

S: E então você seguiu o que Vinicius tinha proposto e só veio pro Rio depois de se formar?

JB: Só vim depois de 72. Mas vinha todas as férias, mas só mesmo depois de formado é que eu vim… Rapaz… Eu não colei grau!!!!!

S: É mesmo? Terminou o curso e…

JB: Eu terminei o curso… Na verdade eu colei grau mas não busquei diploma! É isso! Eu colei grau no dia 4, vim pro Rio no dia 6 e casei no dia 9! Na verdade eu casei oficialmente no Rio, no dia 9, eu colei grau no dia 4, vim pro Rio no dia 6, e casei aqui oficialmente com um Juiz e pronto… Não voltei mais! Não busquei nada, não fui pra república, não busquei meus livros, meus cadernos…

RF: Sua foto tá lá!

JB: Eu sei! Eu sei! Eu tinha uma mala muito especial com as minhas coisas… Então eu busquei essa mala, ficava debaixo da minha cama, como todo bom mineiro, onde guardam os tesouros… O Scliar foi meu padrinho aqui…

RF: E a sua mulher é de lá?

JB: A Angela nasceu no Rio e foi criada em Ponte Nova. A família da mãe era carioca, e a própria mãe era cantora lírica.

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

RF: E quando você veio pro Rio foi morar aonde?

JB: Eu fui morar na Pacheco Leão… Trouxe os móveis de Minas, de Ouro Preto… Quem fez os meus móveis foi um carpinteiro de Ouro Preto… Com o primeiro adiantamento que eu recebi da RCA Victor quando eu assinei o contrato. Então com esse dinheiro eu comprei os móveis que eu precisava e vivi com esse dinheiro um ano aqui no Rio de Janeiro enquanto eu não tinha trabalho.

LB: E o encontro com o Aldir?

JB: Meu encontro com o Aldir foi mais ou menos no final de 69. No final de 69 eu conheci um sujeito de Petrópolis, chamado Pedro Lourenço Gomes. O conheci em Ouro Preto porque ele era amigo de um amigo meu de Ponte Nova, chamado Roberto Lopes, que gostava de cantar e que cantava de uma forma muito peculiar, muito macia, muito cool, e eu me lembro que uma das canções que ele cantava – e fazia isso muito bem! – era uma canção do Johnny Alf. “Ah, somente um dia longe dos teus olhos…” (cantando) Ele cantava isso muito bonito. E o Roberto era amigo desse Pedro Lourenço, de Petrópolis. E eu o conheci em Ouro Preto junto com o Roberto, e ele me viu tocando e já fazendo aquelas coisas, em 69, eu já fazia umas músicas meio malucas, tipo “Agnus Sei”, essas coisas… Aí ele disse assim: “Rapaz eu tenho um amigo meu lá no Rio que quando ouvir essas músicas… eu não sei, cara, eu acho que ele vai botar umas letras que você vai gostar aí…”, e eu falei “É?” e ele “É! Inclusive ele é um amigo com quem eu toda segunda-feira estudo com ele, nós lemos livros juntos e estudamos filosofia e psicanálise, um rapaz chamado Aldir Blanc”, e eu “Legal… fala pra ele…”. Aí eu fiquei pensando naquele nome, já tinha ouvido aquele nome em algum lugar… Aí fuçando a minha memória, que naquela época funcionava muito bem (ri), eu me lembrei dos festivais universitários! Lá na escola de Minas havia um jornal chamado “O Martelo” e eu escrevia sobre música, e eu já tinha falado dele mas não falado religiosamente, sabe?, mas já tinha passado por aquele nome. Aí um belo dia em tô em Ouro Preto e me liga o Pedro e me diz “Nós vamos praí”… E eu disse “Nós quem?” e ele “Eu, Aldir, o Paulo Emílio, o Eduardo Andrade”… que era percussionista, fotógrafo, tocava com o Gonzaguinha e trabalhou muito tempo na TV Manchete. “Quando é que vocês chegam?”, “Depois de amanhã”. Aí eu passo na casa do Ivan Marquetti, que é a casa que o Scliar tinha com ele… A empregada disse “Seu Ivan viajou…”, “Pô, mas o Ivan não falou nada…”. Aí eu encontro um amigo nosso, estudante, que disse… “É… o bicho tá pegando aí…” E era o negócio da ditadura! “Os caras em Belo Horizonte estão atrás de algumas pessoas, o Ivan tá na lista, fulano tá, mas se eu fosse você eu dava um pinote, porque vocês estão sempre juntos…”… Aí eu lembrei da comitiva que vinha do Rio! Aí deixei uns amigos avisados em Ouro Preto. “Vou me mandar”, “Pra onde?”, “Pra casa de mamãe!”. Eu era um garoto, um jovem, a maldade era do mesmo tamanho da inocência, daí fui pra casa de mamãe, se alguém quisesse me achar era só ir pra casa de mamãe porque eu tava lá! Aí deixei, em Ouro Preto, o pessoal avisado que eu ia pra casa de mamãe. Depois eu perguntei pro pessoal da república se eles já tinham chegado em Ouro Preto e eles já tinham chegado e estavam indo pra Ponte Nova. Daí eles foram pra minha casa em Ponte Nova. Foi a primeira vez que eu encontrei o Aldir! E nesse dia minha mãe fez aquela macarronada né?, que dá pra vinte pessoas, foi quando eu fiquei conhecendo o Aldir, que já tinha levado um gravador, o Pedro tava presente e ficou “toca aquela, toca aquela!” e eu toquei o “Agnus Sei”, o “Bala com Bala” e o “Angra” que não tinham letra. Aí o Aldir botou no gravador as três e levou. E começou a me escrever do Rio de Janeiro e a gente se correspondia por cartas e ele me falando dos livros todos que eram na verdade dicas que ele me passava de literatura sem querer dizer “leia isso”, ele dizia “olha, eu li isso…” e aí citava as passagens e eu comecei a procurar os livros pra estar junto dele, pra entender o que ele queria me dizer… Foram as três primeiras músicas: “Agnus Sei”, “Bala com Bala” e “Angra”. Isso foi no princípio de 70.

EG: João… e de quando foi aquele disco de bolso do Pasquim?

JB: 72. Nós já tínhamos trinta música nessa época! Porque aí eu comecei a mandar as fitas pra ele, 70, 71, e ele mandava as letras…

EG: Então a parceria se estabeleceu assim mesmo?

JB: É! Fita pra cá e letra pra lá!

LB: Quando voltou o resultado das primeiras letras, qual foi sua reação pra essas três primeiras músicas?

JB: Cara, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a sonoridade das letras…

EG: As músicas já tinham nome?

RF: Você que deu o nome?

JB: Não! Não! Ele deu os nomes! “Agnus Sei” vinha assim… “Ê andá pa Catarandá que Deus tudo vê…” (cantando)… Aí eu dizia… “Gente! Era mais ou menos o que eu fazia tocando!!!!”… Então o sujeito já tava dentro da sonoridade, não era só em letrar, ocupar os espaços da melodia, ele olhava dentro e sentia o seu ritmo, o que você pensava quando tocava aquilo… Entendeu? Isso foi a coisa que mais me impressionou… Você vê a letra de “Bala com Bala”… “A sala cala / E o jornal prepara / Quem está na sala / Com pipoca e bala…” (cantando)… Tudo lá… pó-pó-pó… O ritmo! Tudo era rítmico… Mas o Aldir é um letrista extraordinário também em função do ritmo que ele tem também… Porque o Aldir foi o primeiro percussionista aqui no Rio de Janeiro! Tocava tumbadora comigo! Primeiro nós tínhamos um duo, eu e ele. Depois uma banda. E ele tocava percussão. E vou lhe dizer uma coisa que ninguém desconfia! No primeiro show que nós fizemos aqui no Rio, no Colégio São José, eu toquei duas músicas do Ray Charles e o Aldir na tumbadora!!!! Eram “Tell me the truth” e “I´ve got a woman”. Fazia parte do nosso roteiro!

LB: Excelente!

JB: (rindo muito) Primeiro show, no Colégio São José! Que o nosso baterista… Não tem lá uma escadaria?

EG: Tem!

JB: Então! O nosso baterista desceu aquela escadaria de Fusca… Eu não sei como é que ele faz, mas ele tomou um porre tão grande que ele errou o caminho e desceu as escadarias do São José de carro! Foi aí que nós entendemos a primeira piração de músico que a gente viu explícita! O nosso batera desceu as escadas de carro!

RF: Isso foi quando, João?

JB: Isso em 73, 74 no máximo. Não passava disso aí… Mais pra 73. E em 73 eu gravei meu primeiro longplay pela RCA Victor cujos arranjos são do Luizinho Eça e do Rogério Duprat aonde tem o “Bala com Bala”.

LB: A Elis gravou você em 72, né?

JB: Ela grava “Bala com Bala”…

EG: Como é que vocês chegam na Elis?

JB: Elis tava ensaiando um show no Teatro da Praia e o Ziraldo me ligou e disse “Olha, a Elis tá no Teatro da Praia ensaiando um show, por que é que você não vai lá mostrar umas coisas pra ela?” O Ziraldo já conhecia muita coisa da gente em função do disco de bolso… Aí eu fui. Peguei o violão e fui. Essas coisas da vontade, da fé. Entrei no Teatro e ela tava no palco. Quem tava começando o trabalho com ela ali era o César Camargo Mariano, era o primeiro trabalho dele com ela. E iria começar ali naquele show. Ele falava muito pouco, mas de uma musicalidade extraordinária… Cheguei no palco e o Ziraldo já tinha ligado pra Elis. Ela disse “Você que é o cara lá de Minas?”, e eu falei “Sou…”, e ela “Ih, eu adoro Minas Gerais, tô em estado de graça com Minas Gerais!”… Isso porque ela tinha gravado Milton, “Canção do Sal”, que nos remete à Salinas, nossas grandes cachaças… Aí eu fiquei mais à vontade. Aí ela falou “Toca aí…”, e o César parado no piano. Peguei o violão e saí tocando umas coisas que eu realmente não me lembro mais o que era, mas quando chegou no “Bala com Bala” ela disse “César, essa aí a gente bota no show na segunda-feira!”. O show ia estrear na segunda-feira! Não era de quinta a domingo, não! Era de segunda a domingo! “Essa eu vou botar no show de segunda-feira”… Aí ela disse “As outras, nós vamos gravar!”… Aí eu botei no gravador dela “Caça à Raposa”, “Caçador de Esmeraldas”, “Comadre” e o “Agnus Sei” que ela já conhecia e botei “O Mestre Sala dos Mares”. No disco seguinte ele vem com quatro! Ela gravou quatro músicas nossas e quatro músicas do Gil sendo que essa do Gil – “Amor até o Fim” – ele não gravou até hoje! E eu ouvi essa música pela primeira vez quando o Gil foi mostrar pro Vinicius na casa que ele morava aqui na Gávea, já em 73… Eu tô na casa do Vinicius e ele oferecendo uma festa pro Astor Piazzolla, nos convidou – a mim e ao Aldir, Flávio Rangel, Egberto Gismonti, Chico Buarque – e nós estávamos ali, naquela pequena casa que o Vinícius morava, na Gávea, e no meio da festa o Vinícius disse “Joãozinho, toca pra eles…”, aí eu peguei no violão e fiz o “Agnus Sei”, fiz o “Bala com Bala”, fiz o “Angra”, fiz o “Amon Rá e o Cavalo de Tróia”, fiz o “Cabaré”, um monte de coisa e ficou todo mundo, né?, o Flávio Rangel, o Egberto, querendo saber de onde aquele garoto vinha… Ficou falando do Aldir… Cada um pegando prum lado, né? O Flávio, dramaturgo, um sujeito do teatro, pegando pelo lado da palavra… Aí toca a campainha e o Vinícius fala “Espera um minutinho…”, vai, volta e diz “Joãozinho, você quer vir aqui fora comigo?”, eu fui e quando cheguei lá fora, no alpendre, quem é que estava lá? Gilberto Gil! Com um violãozinho na mão, de jaqueta jeans, e fala assim “Gil, esse é um estudante lá de Ouro Preto que tá vindo aqui pro Rio, gravou recentemente lá no disco do Pasquim…”, aí o Gil reconheceu e tal, e o Vinícius pediu “Gil, mostra esse samba aí, que você me mostrou, inédito…”, aí o Gil cantou “Amor Até o Fim”… (cantando) “Amor / Não tem que se acabar / Eu quero / E sei que vou chegar / Até o fim / Eu vou te amar / Até que a vida em mim resolva se acabar…”. Foi a primeira vez que eu vi o Gil pessoalmente, que eu já conhecia o Gil de repertório que quem me mostrou foi o Baden Powell, mas não pra mim, mas na casa do Scliar, o Baden, numa dessas idas a Ouro Preto, falou “Eu queria mostrar pra vocês um cara lá da Bahia…”, e aí botou a fita cassete pra rodar no gravador e veio tudo! “Procissão”… Tudo! Isso antes do Gil ser o Gil… Então quando eu conheci o Gil pessoalmente pra mim foi uma coisa! Eu já conhecia aquele cara, já era fã daquele cara, e aquele cara ali, me cantando um samba novo, inédito… Tanto que só agora, recentemente, há uns 5, 6, 7 anos atrás fomos fazer um show nesse Claro Hall que não tinha esse nome… Era o Metropolitan! Fomos fazer um show pra UNIMED e a UNIMED pediu Gilberto Gil e João Bosco. O Gil me perguntou “O que é que você quer fazer?” e eu pedi que fizéssemos “Amor Até o Fim”!!!!! Ele curtiu o arranjo pra caramba e eu lembrei a ele o episódio na casa do Vinícius…

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

LB: Mas João… Você já vem de uma turma que chega depois do Gil, do Caetano, do Milton, Paulinho da Viola, já nos anos 70…

JB: Mas na verdade a gente conhecia essas pessoas! Não me pergunte como, mas alguém mostrava o que o outro fazia… Como o Baden mostrou o Gil que eu nunca tinha ouvido… Chegava uma outra pessoa e mostrava um outra cara desses, sabe? Fantásticos, maravilhosos, e que não época estavam começando carreira. Então a gente conhecia. Eu, por exemplo, quem me apresentou Milton Nascimento foi um compositor chamado Nelson Ângelo, que é meu amigo desde a minha juventude…

EG: Mineiro de Belo Horizonte!

JB: É, com amigos e parentes lá em Ponte Nova! Aquela música “Fazenda” foi feita pros tios que moram em Ponte Nova, na fazenda! Entendeu? Então o Nelson Ângelo, que é um compositor que eu acho assim, admirável, fantástico, gênio, maravilhoso – e também é desses compositores que não tiveram ainda, né?, o Brasil ainda não fez por merecer a obra dessa gente!, entendeu? – foi quem me apresentou o Milton. Quando eu conheci o Milton, o Milton Nascimento, que a gente chamava naquela época de Bituca, tocava num restaurante na Rua da Bahia! E quando nós fomos visitar o Milton, que o Nelsinho me apresentou o Milton, nós tivemos que esperar o intervalo pra ele parar de tocar e a gente falar com ele na porta, porque a gente não podia entrar! Que era um restaurante! A gente não podia entrar! Não era teatro! Não era night club! Era um restaurante onde as pessoas comiam e ele tocava naquele espaçozinho ali, e você não podia entrar! Você mandava o maitre avisar o cara, o cara acabava o set dele e vinha lá fora! Foi assim que eu conheci o Milton!

S: Quer dizer, João, as pessoas se comunicavam muito mais, né?

JB: Eu acho que é isso aí! É o negócio da comunicação… Hoje você tem toda uma tecnologia do seu lado e morre de solidão, tá entendendo?

S: E como surgiu, nesse meio todo aí, uma influência muita grande pra você, que é a Clementina? Como é que ela chega na tua vida?

JB: Eu já tinha encontrado os negros em Ponte Nova. Eu fui criado por uma senhora que tinha todas as marcas, todas as características dos negros oriundos da África. Então ela tinha um jeito de falar as inflexões, tinha os rituais, as maneiras de se comunicar com os santos, através das plantas, através das ervas… Então essa pessoa nos criou a todos na minha família. Ela morreu agora com 102 anos, morreu no ano passado. E eu fui a Ponte Nova agora visitar o túmulo dela, e o portão do cemitério, às quatro e cinco tava fechado! Aí eu não pude entrar. Aí tinha um velório do lado, numa casa funerária, eu entrei e falei que queria entrar no cemitério e uma senhora me disse que o cemitério fecha às quatro. Aí eu perguntei “O cemitério fecha às quatro pra quem?” (todos riem) Eu ia viajar no dia seguinte, então eu fiquei falando com ela do lado de cá do portão, mas nos comunicamos! Nos comunicamos! De maneira que os africanos eu já havia visto em Ponte Nova, e lá em Ponte Nova havia muitas usinas de açúcar, pra ser preciso eram sete. E todas as usinas de açúcar eram provenientes da plantação da cana, por isso os alambiques. Ponte Nova também foi uma grande produtora de cachaça e isso qualquer cachaceiro que se preza sabe, que em Ponte Nova se produziu muito boas cachaças nos anos sessenta… Então aquela cultura dos canaviais era dos africanos, dos operários, dos trabalhadores braçais, que tinha uma relação com a cultura do povo, que a cana vem dessa cultura… E eles tinham as congadas… E todos os domingos eles saíam pela cidade batucando e cantando e eu seguia aquela gente, que eu achava aquilo maravilhoso, eu era atraído por aquilo. Então eu já tinha um vínculo, tanto que você pega um samba feito “Bala com Bala” e ele é feito em Minas, ainda sem eu conhecer o Rio de Janeiro, nem a música negra. Mas eu já sabia disso por ouvido. Mas quem me apresentou a Clementina foi Hermínio Bello de Carvalho que quando me ouviu tocando me disse “Minha mãe tem que te ver!”… Aí eu tomei um susto! Imaginei aquela senhora, com aquele tricô já, cansada, e ainda pensei “Eu vou matar essa senhora de susto, com esses gritos, esses troços…”. Mas, não. “Minha mãe” era a Clementina. Foi aí que em 76, já no LP “Galos de Briga” ele diz “Vocês vão inaugurar o Projeto Seis e Meia no Rio de Janeiro”. E foi o primeiro “Seis e Meia”… Clementina e eu… E eu tenho uma fita que me foi dada de presente agora que é uma fita recuperada e gravada na época, eu e Clementina cantando “O Ronco da Cuíca”. Foi com ela que eu aprendi que, de fato, em função da música africana, que a palavra importa, porém a sonoridade tem a mesma importância. A Clementina cantava o “Benguelê”, que é música do Pixinguinha, cujo título remete à Angola, cidade de Benguela – é Benguela, ê!, Benguela, ê, Benguelê, Benguelê, que é um banzo que se tem quando se vem do lugar… -, mas a letra me foi dada pelo Nei Lopes, e na época eu pedi pelo amor de Deus ao Nei pra me explicar aquilo, pra eu saber o que é que eu tava cantando! Ele escreveu e muitas palavras não correspondiam ao que a Clementina cantava… Ou seja, a Clementina já adaptava a sonoridade dela à palavra. Não correspondia à letra! Então, o que é bonito na língua africana, e acho que na língua portuguesa – que pra mim já é a língua brasileira, já passou de português! – é que ela é dinâmica, ela não pára, não cria limo. A letra e o som que Clementina emitia não é mais o que está escrito no papel! Aí é que eu achei bacana, porque isso vinha muito de encontro ao que eu sentia na música. Pelo fato, inclusive, de ouvir música estrangeira sem falar a língua e repetir a língua a seu modo! Você não falava inglês, nem francês, nem espanhol, mas você falava a sua língua que era aquilo que você entendia quando ouvia. Você ouvia aquilo, e falava aquilo! Aí vem aquele conjunto de rock, que eu tinha, chamado “X GARE”… Só muito tempo depois eu fui entender que era um rock que eu ouvia que era “She´s got it”!!!!! Isso é a Clementina, e a língua dinâmica que não cria limo e que vai se desenvolvendo, se moldando…

S: João… Você fez isso na sua versão de “Jambalaya”, né?

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

JB: Isso é o som que eu ouvia! Exatamente! Você deu um exemplo que pra mim é perfeito! Eu nunca gravei essa música, que foi gravada pelo pessoal do Boca Livre…

LB: Você não gravou?

JB: Não! E na verdade o título que eu botei nessa música era “Jambalaya, chureia, faz casa e prega botão”. Porque em Minas o verbo chulear virou chureia! Ofício de costureira. Eu ouvia isso! (canta “João Balaio”).

LB: A partir de certo ponto, você e o Aldir passam a ter, nos anos 70, várias referência ao candomblé… O que foi isso? Vocês se envolveram realmente com isso?

JB: Olha… o Aldir se envolveu tanto com essa literatura, com essa religiosidade dele, que eu cheguei na Bahia uma vez e um cara disse pra mim… “Amigo de ala, aqui, nos dedos, se conta quem sabe da existência deles…”. Na Bahia, que é uma África no Brasil! Amigo de ala! O cara foi fundo. Por que é que ele foi fundo nisso? Eu acho que só a religiosidade de um sujeito meio ateu, feito o Aldir, explica. Porque a música da gente vinha nessa pegada!

LB: Mas você embarcava?

JB: Eu embarcava, mas eu embarcava muito na intuição. Eu confesso pra você que a única sabedoria que eu tenho na minha vida é a intuitiva, a intuição, quando você sente que é por ali. Mas você não leu, não estudou aquilo. Você apenas sente que é por ali. Então eu ia, eu apontava pra ali. Agora, eu tive um cara que não só veio comigo, como diz assim: “Deixa que eu venho aqui abrir a picada”, entendeu? Porque ele veio escrevendo… Fizemos “Tiro de Misericórdia”, “Escadas da Penha”, “O Ronco da Cuíca”, “Boca de Sapo” e eu sentia aquilo tudo, entendeu? Eu te confesso que fui a um pai-de-santo uma vez pra saber onde é que tava metido. O cara jogou, deu três passos pra trás e disse: “É o seguinte, cara, tá liberado!” (todo mundo riu). Foi o melhor médico que eu fui na minha vida foi esse! Médico igual a esse não tem! O cara que joga o negócio e diz pra você “não precisa voltar, tá liberado”… Aí eu fiquei nessa onda…

EG: João… conta uma coisa… Fala do Paulo Emílio…

JB: Isso era um santo, um anjo torto, embora um galã…

EG: João, eu vi o Paulo Emílio uma vez, eu era muito moleque, e ele ia num bar na Rua do Bispo, na Tijuca, o “Caras & Bocas”, acho que você foi algumas vezes lá…

JB: Fui! Lógico!

EG: Vocês começaram a compor ali?

JB: Na verdade o Paulo Emílio, quando eu conheci o Aldir, foi a primeira pessoa que o Aldir me apresentou. Eles tinham uma afinidade muito grande. O Aldir tinha uma preocupação com o Paulo Emílio que era mais do que irmão. E o Paulo Emílio tinha uma admiração pelo Aldir, que ele não escondia isso… Ele falava claramente, falava pra mim isso… Quando nós, eu e o Aldir, fizemos uma música chamada “Denúncia vazia”, que a Nana Caymmi gravou, e eu não havia gravado ainda, eu tava no estúdio da Odeon e a Nana entrou com aquele jeito dela “Seu filho da puta, seu merda, você não fez nenhuma música pra mim…”… “Tem essa aqui”, e ela disse “Porra, eu quero gravar essa merda agora!” (todo mundo ri) Aí o Toninho Horta tava no estúdio, o Luiz Alves, e eles na hora, comigo, fizemos a gravação antológica. A Nana fala dessa gravação toda vez. O Paulo Emílio fez um relato sobre essa letra do Aldir que eu nunca mais vou esquecer na minha vida. Defendendo que toda aquela letra trazia em si uma novidade naquele momento, um frescor dentro da letra de música. O Paulo Emílio e o Aldir tinham essa relação. E pra te falar a verdade o “Tiro de Misericórdia”, quando eu e o Aldir por questões de santos e times de futebol andamos meio, assim, atravessados um com o outro, quem pulou pra cá pra defender a parceria foi o Paulo Emílio. Foi ele que dirigiu o show “Tiro de Misericórdia”, foi ele que viajou comigo pelo Brasil, foi ele que escreveu o programa do show…

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

EG: E o Marco Aurélio, João?

JB: O Marco Aurélio era o enviado! Do Aldir e meu! Do Aldir pra mim e de mim pro Aldir! Eu cansei de brigar com o Aldir com o Marco! O Aldir nem sabia! Eu brigava com o Aldir… Eu achava que era o Aldir… O Marco incorporava tanto o Aldir quando ele estava comigo… Quando eu falava com o Marco, que eu queria dizer as coisas pro Aldir que eu não conseguia, eu dizia pro Marco! (rindo) Ele é que matava no peito! Aí ele chegava lá no Aldir e mandava tudo… A primeira vez que eu e o Aldir nos vimos, muitos anos depois sem nos falarmos assim… ao vivo… o motivo foi o Marco Aurélio… Eu li no jornal um dia antes o anúncio fúnebre da morte do Marco Aurélio… (emocionado) E eu não consegui resolver isso… Ninguém foi capaz de me ligar pra me dar essa notícia… Aí, coincidentemente, nesse dia, eu vou assistir o show dos cartunistas, Chico Caruso, Veríssimo, Aroeira, e o Aldir está lá. Quando o Aldir vem passando, e passa por mim, ele pára e nós dizemos um para o outro a mesma coisa: “Pô… e o Marco Aurélio?”… Simultâneo. Você vê que não interessava o fato da gente estar esse tempo todo sem se falar. A nossa relação continuava inabalável. É como se tivéssemos nos visto no dia anterior. Isso não contava. Mas a primeira coisa que nós nos cobramos juntos, foi o Marco Aurélio. Eu disse… “Pô, bicho, eu soube ontem pelo jornal…” e ele “Isso é um absurdo…” e começamos a conversar…

EG: O Marco você conheceu através do Aldir?

JB: Bem no princípio… Junto com o Mello Menezes… Paulo Emílio foi muito amigo do meu pai também. Ele ia muito à Ponte Nova, meu pai adorava ele… E Paulo Emílio foi um poeta por definição! Aquele poeta do Fernando Pessoa! Ele era o cara! Ele fingia que a dor que ele sentia era a dor que realmente ele sentia!

S: Com ele você fez o quê?

JB: “Nação”, “Coisa Feita”, “Linha de Passe” – a primeira parte é dele!

S: A primeira parte é dele, é?

JB: E só tinha aquela! Começou eu e Paulo Emílio… Aí encontramos o Aldir um dia, mostramos pra ele o samba que se chamava “Made in Brasil” e o Aldir entrou com “Cana e cafuné / Fandango e cassulê / Sereno e pé no chão / Bala, candomblé…”… Ele foi sentando o cacete! Mas aí ele mudou o título. Negócio do Aldir, né? E tem também “Cobra Criada”, né? Elis gravou em Montreux!

EG: Como ninguém!

JB: “Cobra Criada”… “Sudoeste”… “Coisa Feita”… (canta) “Sou bem mulher…”…

EG: João… me diz uma coisa agora… Como é que é a história de compor com seu filho? Quem propôs isso? A que horas isso aconteceu?

JB: Não… Isso ninguém propõe, não… O Chico morava ainda na minha casa. Eu tava tocando uns troços e ele desceu de noite, de madrugada. E ele disse “Eu tenho ouvido você tocar essas coisas aí…”… Ele já escrevia, já tinha publicado um livro… E como o Aldir, era baterista. O Aldir foi baterista e depois percussionista, cujo apelido era Zumbala.

EG: Do Aldir?

JB: É… Zumbala… Todo cara que gosta de letrar e que é percussionista, meu amigo, sai de baixo! Eu trabalhei com gente que não faz noção do que é que é isso! Quando sua música tem muita sílaba, se o sujeito não for percussionista, ele não consegue, ele não entra! E o Chico, vou te falar, ele é afilhado do Aldir. O Aldir é padrinho de nascimento! Lá na certidão tá lá… Padrinho: Aldir Blanc!

EG: E você é padrinho da Mariana, né?

JB: Sou! O Chico é afilhado do Aldir. É canhoto, como o Aldir. E o Aldir, desde o princípio, tem uma espécie de orgulho… É como se fosse filho. Como se ele tivesse parte nisso, né? É um orgulho de família, não é orgulho de admirar apenas… Ele tá preocupado aonde é que o cara vai, com quem ele anda, o que ele bebe… “Ele tá bebendo o quê, João?”, sabe? Então é barra pesada. Ontem eu falei com ele horas… Comecei no telefone sem-fio, acabei no celular, tudo acabando a bateria… (todo mundo ri) Nenhum telefone não resiste a um diálogo com o Aldir! Não acaba nunca! Você acha que acabou e vem outro! Mas o negócio do Chico foi isso… Ele chegou de madrugada… E quando eu comecei a ouvir o que ele sabia do meu trabalho com os meus parceiros, principalmente com o Aldir, quando eu comecei a ouvir os comentários dele, as análises dele, eu disse “esse cara não é bobo!”. Pensei assim… Vou experimentar… Vou dar uma de Vinícius de Moraes. Aí fizemos o “Enquanto Espero” (cantarola). Aí fizemos “Das Mil e Uma Aldeias”… O disco inteiro! Tem recado do Aldir na minha secretária eletrônica, assim: “Jão…” – ele me chama de Jão, elimina o “o” e começa no “ão” – “… eu li o artigo dele na Cult… é foda!”. E desliga. Ele comenta! É só isso o recado! Só isso. Vou te falar, cara… Eu tô lá em casa um dia, três horas da manhã… Eu, tocando, parei de tocar, fui pra janela na frente da casa, tô vendo ali os Dois Irmãos, a rua, o silêncio, e eu olho e tem um tamanduá na porta da minha casa! Dentro da minha casa! Encostado no muro… Um tamanduá. Eu falei, porra, já tô começando a ver tamanduá… Toca o telefone, eu vendo o tamanduá, e a secretária eletrônica acionou e eu ouço o Aldir: “Jão, tá tocando violão ou tá vendo tamanduá?”. (todo mundo ri muito) Tô te falando! Pergunte a ele! Aí eu liguei de volta! “Tem um tamanduá aqui!!!!!” E eu vou te explicar por quê ele falou isso… Eu tinha visto um ouriço, um porco-espinho na minha casa há uns meses. Eu vi o porco-espinho na garagem, subindo no muro, e falei pro Aldir “Pô, o porco-espinho tinha uma bunda desse tamanho…” e ele ficou me sacaneando com isso, porco-espinho, a bunda do porco-espinho, com os espinhos… E quando ele me ligou nesse dia, eu acho que ele queria falar do porco-espinho. Errou no bicho mas acertou na milhar! Ele não acreditou! É que o Aldir quando bebe, de noite, sozinho, ele liga pra uns dois ou três, e eu sou sempre um dos dois ou três, sempre…

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

LB: João… Tem uma coisa, que vocês faziam, que eu não vejo ninguém fazendo hoje em dia… do cafajeste…

JB: Do “Latin Lover”, né?

LB: Cadê isso, João? Não tem mais isso?

JB: Ninguém apara o bigode, mais, como antigamente, deve ser isso…

LB: Você acha que é porque isso é datado?

JB: Não! Não é datado! São personagens que se comportavam dessa maneira, e aí eles foram ilustrados… Mas hoje em dia você passa aqui, nos dias de semana, nos dias de aula, e isso aqui fica lotado de estudantes e não se têm mais essa relação, nenhum deles tem o bigodinho, ninguém tem o topetinho, ninguém é cafajeste… Ou não é cafajeste nesse sentido… Mas eu acho que isso são detalhes de personagens que quando se compõem esses personagens, eles vêm muito da fantasia do poeta, né? A música ela é mais abstrata. Ela é menos explícita. Ela pode induzir, pode estar tudo ali. Mas eu encontrei um cara que foi meu tradutor! O Aldir sabia de quantos band-aids era feita aquela melodia. Isso é um negócio de parceria, né?

LB: Quantos anos de carreira, João?

JB: Eu me considero no início de 72. “Siri Recheado…” Eu fiz aquele samba e eu tinha um Corcel 76. Aliás eu sei a data do nascimento do meu filho por causa desse Corcel. Eu tenho um Corcel em 76, portanto meu filho nasceu em 76! Igual ao Chico que diz que entra em forma pra jogar pelada e não o contrário, que eu acho genial, e daí eu digo que eu tive um Corcel em 76, daí o meu filho nasceu nesse mesmo ano, senão eu não saberia. Eu fui pra um carnaval na Rio Branco e no trajeto me veio um samba, eu cantando dirigindo… E era o “Siri Recheado e o Cacete”!!!!!

EG: João, ontem eu pus no blog a imagem do roteiro do “Seis e Meia” de 86… Eu tava lá!

JB: Lançamento do disco “Cabeça de Nêgo”… Nesse show eu canto um samba do bôto cor-de-rosa do Costeau, que eu adorava esse samba, e que há muito tempo eu não pego nesse samba e todo dia eu falo pra mim que eu tenho que pegar no samba… Igual ao Paulinho da Viola que eu demorei três anos pra pegar… É coisa de mineiro! Negócio de mineiro, mineiro tem essa preguiça construtiva… Então eu tenho que esperar o momento adequado…

EG: E João, o que é que você está fazendo agora, janeiro de 2007?

JB: Eu tenho uma porrada de músicas prontas, e eu tô tentando fazer um disco com essas coisas inéditas, coisas minhas com o Aldir, coisas com o Chico, tem coisas com o Nei Lopes… Eu musiquei um texto do Nei… que ele vai curtir muito! Que é a história de um trombonista que é o rei do jongo mas que adora jazz. O Nei, pra mim, é um cara muito esperto… Porque ele fez essa letra acho que pensando em mim mesmo… Porque um cara que é jongueiro e gosta de jazz, né?

S: Já que eu sou imperiano, quero te fazer uma pergunta. Você gravou o Silas de Oliveira… Por que o Império?

JB: Quem me levou pro Flamengo foi o Elvis e o Dida, quem me levou pro Império foi o Silas! Quando eu ouvi aqueles discos das grandes escolas de samba do Rio de Janeiro, quando eu ouvi o disco do Império, e ouvi as músicas de Silas de Oliveira eu pirei! Eu pirei com o Silas de Oliveira! Eu queria tocar aquilo toda hora… Aí eu fui pro Império. Quem produziu esses discos foi o Pelão… Só tinha Mangueira, Império, Salgueiro, Portela, esses quatro que o Pelão produziu. Aí veio a Sony e fez das dez melhores escolas. Mas quando eu ouvi esse disco que o Pelão produziu do Império eu pirei com o Silas de Oliveira. Aí comecei a tocar Silas de Oliveira, comecei a procurar as coisas do Silas de Oliveira, aí eu fui pro Império. A comecei a subir a Serrinha. Aí fiquei amigo dos imperianos, aí fiquei amigo de Tia Ira, comecei a freqüentar as lajes onde se faziam os churrascos, comecei a fazer música com os caras, aí pintou uma ligação muito grande com o Império, mas através do Silas. E o Silas continua sendo, pra mim, o grande compositor de sambas de enredo de todos os tempos. Eu acho que aquela gravação de “Heróis da Liberdade” uma gravação muito feliz…

S: Bonita…

JB: Eu gosto daquela gravação… Depois do Pelão…

EG: Mas não é tão bonita quanto a sua gravação do hino do Flamengo no CD do Ary Barroso!

S: Nunca ouvi…

EG: Nunca ouviu?

JB: E aquela gaitinha que tem na gravação é do Ary…

RF: E você, como intérprete, como é que fazer mais de cem apresentações do mesmo espetáculo?

EG: Ah, não se faz mais isso…

JB: É… Isso é difícil…

RF: Esse disco da centésima apresentação me marcou muito, em vinil… E tenho agora em CD…

JB: Não se faz mais esse tipo de coisa… Sair em grandes temporadas…

EG: Grande temporada hoje é de seis semanas…

JB: Nem isso! Só Chico Buarque e Bethânia fazem isso… Todos os outros artistas fazem geralmente de quinta a domingo… Vocês sabem que eu tenho muita vontade de fazer um disco solo agora, depois desse DVD, com banda grande…

entrevista com João Bosco, 17 de janeiro de 2007

RF: E o que é que você tá ouvindo agora?

JB: Então! Ontem eu ouvi “Miudinho”, do Paulinho da Viola, que eu tenho vinil em casa…

RF: O chiadinho da agulha é fundamental, né?

JB: É… (cantando) “Vai, meu samba / Tudo se transformou…” Eu ando tocando esse samba, tirei o samba, toquei o samba até umas duas da manhã… Ontem eu fiquei só por conta do Paulinho! Você sabe que eu ganhei na Loteria Esportiva, né?

RF: Não!

JB: Ninguém sabe disso…

EG: Conta, conta, conta…

JB: Fizemos 13 pontos!

RF: Quando isso?

JB: Fizemos 13 pontos em 1980!

RF: Hoje ninguém mais faz 13 pontos, agora são 14!

EG: Ganharam muito dinheiro?

JB: 13 pontos é sagrado! Loteria Esportiva são 13 pontos, são 13! Eu ganhei um dinheiro compatível com a compra de um apartamento de dois quartos no Jardim Botânico, naquela época! Eu! Metade. Quer dizer que a outra metade também… Então aquele dinheiro daria pra comprar um apartamento de quatro quartos (todo mundo ri)!!! Mas por razões pessoais eu não posso dizer aqui porque é que eu e Paulinho não alardeamos essa notícia e nem fizemos um samba falando disso… (todo mundo ri, João ri muito…). Só jogamos uma vez e ganhamos uma vez! Fizemos um triplo no Vasco e Flamengo, foi a primeira coisa que a gente resolveu na hora de marcar o cartão, que foi pago com cheque, que estávamos duros, o cara fechando a loja… Embaixo do Cine Veneza… O cara fechando a loja e o Paulinho pedindo pra aceitar o jogo… Dois triplos, só! Pagamos o dobro da aposta mínima… 13 pontos! Paulinho pagou em cheque e eu fui pra Cuba com Chico Buarque, Djavan, fui participar do Festival de Varadero… Passamos 15 dias em Cuba. No primeiro domingo, Paulinho em casa, 1, 2, 3, 4, 5, 12, 13, caralho! E eu ainda tinha mais sete dias em Cuba. O cartão tava em nome da minha mulher, que na hora que a gente jogou eu disse “Não bota o meu”… Eu só me dou na música, no jogo eu não tô com nada. Paulinho não quis o dele, não quis o da Lila, mulher dele… Eu falei “Bota no nome da Ângela!”… E a gente em Cuba, o Paulinho pirou!!!!! Foi uma grana, bicho, muito legal… Agora, fazer 13 pontos com Paulinho da Viola é fazer 13 pontos duas vezes! E agora eu quero fazer um disco assim, tocando… Tem um samba novo do Aldir comigo nesse disco chamado “Sonho de Caramujo”…

EG: Tá pronto?

JB: Pronto!

EG: Mostra aí!

João pega o violão, afina, começa a cantar “Sonho de Caramujo”, a mais nova parceria com Aldir Blanc.

JB: Ele sonhou comigo… “Sonho de Caramujo”… E eu morava dentro do violão… Eu musiquei o sonho dele… E o tom desse samba remete aos puxadores da antiga, né? Tá sempre no limite… (canta de novo)… Porra… “caramujo musical”…

EG: Pô, João… você falou dos puxadores da antiga… Um dos sambas seus que eu mais gosto é “Da África à Sapucaí”…

João canta. Todo mundo aplaude, o e o bar, a essa altura, já se vira pra nossa mesa.

JB: Eu adoro esse samba também! E esse, que eu não paro mais de cantar!

João canta “Tudo se Transformou”, de Paulinho da Viola. Visivelmente à vontade, canta “Ingenuidade”, sucesso na voz do imperiano e saudoso Roberto Ribeiro.

JB: É lindo esse samba, né? Foi gravado também pela Clementina em 77…

S: O Edu outro dia tentou me ligar de São Paulo pra que eu cantasse “Boca do Sapo”…

João canta. Eu ligo pro Szegeri, que estava comigo quando liguei de São Paulo pro Simas, e ele ouve o samba ao vivo, pelo celular! E o João ainda fala com ele!

S: Maravilha! Agora, cá pra nós, heim! O Aldir aí dá uma lição de um trabalho… (e ri)

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JB: E eu recentemente mudei a introdução… (e cantarola, rindo muito)

LB: Toca um Noel Rosa aí…

João canta “Pra quê Mentir?”.

JB: Escuta esse samba!

Canta “O Filho do Alfaiate”, de Noel Rosa. Emenda com “Amigos Novos e Antigos”, parceria com Aldir Blanc.

JB: Pô… nossa conversa então já foi pro caralho, né?

(todo mundo ri muito)

RF: Mas foi ótima!

EG: Digão, então fecha oficialmente!

RF: Fecha você!

(todo mundo ri)

S: Eu fecho! Eu fecho! Em nome de Eduardo Goldenberg e de Rodrigo Ferrari, dois flamenguistas, nós encerramos aqui essa entrevista maravilhosa, com João Bosco, no dia 17 de janeiro de 2007, estamos no Bar do Pires, oficialmente chamado “Rainha do Mar”, com o João Bosco no violão, com Rodrigo Ferrari, grande Eduardo Goldenberg, Leonardo Boechat, já emocionado, totalmente alcoolizado, absolutamente alcoolizado (ri), estamos juntos aqui. É isso aí…

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ENTREVISTA – WILSON MOREIRA

No sábado, 30 de setembro de 2006, recebi em casa, às nove e meia da manhã, esses três craques, parceiros novos, e pela ordem de chegada, Simas, Rodrigo Ferrari e Pratinha, que me deram a honra da presença em meu mui humilde Buteco do Edu, não o virtual!

pratinha, simas e digão

É que tínhamos marcada, às dez e meia da manhã, uma entrevista com Wilson Moreira, em sua casa, na aprazível vila na Rua Barão de Ubá, na Tijuca. O que não sabíamos é que Wilson Moreira e Ângela Nenzy transformariam aquela manhã/tarde num verdadeiro acontecimento! Muita cerveja, lombinho de porco, lingüiça, frango assado e uma sopa de ervilha monumental escoltaram o carinho dos anfitriões, que nos receberam de alma e coração abertos, estrada perfeita para que a conversa fluísse sem pressa, emocionada, cheia de momentos capazes de quase-derrubar a gente.

Foram 90 minutos de papo – que deixaram um inevitável gostinho de quero-mais – com o Wilson, que revelou-se, vocês verão, um baú vivo de histórias nunca dantes contadas. Estejam à vontade, que a semana é dele. E ao longo da semana, como tem sido praxe aqui no Buteco, agora sim o virtual, vou disponibilizando vídeos gravados ao vivo, com Wilson cantando acompanhando pelo 7 cordas do Pratinha.

Com vocês, Wilson Moreira!

edu, simas e wilson 01

Eduardo Goldenberg: Wilson, você vai fazer agora em dezembro, 70 anos…

Wilson Moreira: É…

EG: Eu queria que você contasse pra gente o nome dos teus pais, o dia que você nasceu, e que contasse as histórias da tua infância, pra que a gente pudesse começar, as tuas primeiras memórias, eu sei que você tem uma história de herança, de teus avós, teus pais, de jongo, caxambu…

WM: Eu sou de 12 de dezembro de 1936. Você sabe que naquela época, rapaz… Eu era muito menininho, meu pai foi embora eu tava com 8 anos de idade… Meu pai foi embora em 45…

EG: Como chamava o seu pai?

WM: Meu pai era Francisco… Francisco Moreira Serra. Ele era conhecido como Chico lá em Realengo. Ele era funcionário do IAPI, o antigo Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários. Tinha vários institutos. Era IAPETC, IAPP, IAPM… Aí juntaram tudo e fizeram o INAMPS, não é isso? INPS, essas histórias todas… Mas você sabe que o velho, rapaz, era um desbravador. Quando terminou a guerra ele levou a gente lá pra ver os militares… Que ali é área militar, né? Realengo, Vila Militar, o Campo de Marte, o quartel da EVA, onde hoje é a Praça do Canhão.

Rodrigo Ferrari: Qual foi a rua que você nasceu?

WM: Eu nasci na Rua Mesquita, paralela à Vila Vintém. Morei em casa de sapê, no bom tempo… (ri) Tempo em que soltava balão e ninguém se incomodava com negócio de “vai queimar…”… Vai queimar nada! A gente fazia balão, soltava, fazia fogueira… Eu mesmo gostava de fazer balão. Fazia balão caixa, santos dumont, tangerina…

EG: E sua mãe chamava como?

WM: Mamãe era Hilda Balbina. Mineirona! Daquela área de Juiz de Fora, Matias Barbosa. Dali ela veio pra Paraíba do Sul, pra Andrade Costa, Avelar… Meus tios… tudo ali, primos, tava tudo ali. Até hoje eu tenho uma priminha que mora lá em Paraíba do Sul. Aliás, o Sérgio Cabral tá com um casarão lá em Paraíba do Sul… De vez em quando eu encontro com ele e a gente conversa, e eu até falo com ele isso… Minha prima mora lá, trabalha numa casa de material de construção… Ela já me falou que viu ele lá algumas vezes.

EG: Você tem lembrança do teu primeiro contato com música?

WM: Olha, rapaz… Meu primeiro contato com música? Eu sei dizer que o meu avô – minha mãe contava – , eu não conheci os meus avós, não… Minha mãe contava que eles eram sanfoneiros, jogavam caxambu, gostavam de dançar jongo… O jongo é uma coisa muito mística, uma coisa muito séria. É uma coisa religiosa. Esse jongo que eu faço é um jongo festivo, é um jongo que todo mundo pode cantar e brincar à vontade, sem abusar, né? Tem gente que quer me chamar de jongueiro! Eu não sou jongueiro! Jongueiros são os velhos, os meus antepassados foram jongueiros! Lá no Império teve grandes jongueiros! Seu Aniceto falava que o jongo era uma coisa muito séria, não era pra ser mostrado, assim, de qualquer maneira, em qualquer lugar. E é verdade! E você sabe que eu tinha um tio, meus primos lá de Paraíba do Sul e Avelar, que tocavam sanfona de oito baixos e a origem deve estar vindo daí, né? Eu tive influência dessas coisas todas. Que quando eu era moleque novo eu ouvia muito rádio, Rádio Tupi, Rádio Mayrink Veiga, Rádio Mauá, tinha muito programa de rádio. Heber de Bôscoli, Iara Sales, Lamartine Babo… Houve um tempo em que eu até cheguei a ir, rapaz, no início da minha carreira, à Rádio Mayrink Veiga assistir a um musical e ali eu vi o Heber de Bôscoli, a Iara Sales, o Lamartine Babo…

RF: Anos 50 isso?

WM: Foi, nos anos 50.

EG: Quando é que você diria que começou a sua carreira?

WM: Sabe… Eu tinha 14 pra 15 anos… 16, por aí.

RF: Qual a primeira música que você fez?

WM: A primeira mesmo? (pensando)

RF: Quem foi teu primeiro parceiro? Ou a primeira mesmo você fez sozinho?

WM: Eu fiz sozinho. Fiz sozinho. Agora, o meu primeiro parceiro mesmo foi um camarada que tinha lá em Padre Miguel, chamado Ivan Pereira, que tinha o apelido de Da Volta. É um cara que comigo começou tudo. Eu e ele, naquela luta na Mocidade Independente… Depois eu vou contar como é que eu fui pra Mocidade Independente. Aí ele conversou comigo e sugeriu: “Ô, Wilson, vamos fazer um samba juntos?”. “Vamos!”. “É que você já me mostrou um negócio aí e eu tenho um negócio que eu gostaria de te mostrar, eu sei que você gosta de cantar…”. E eu gostava mesmo! Minha irmã foi cantora, foi caloura, né?

EG: Como se chamava a sua irmã?

WM: Julieta. Minha irmã era funcionária da Fábrica Bangu naquela boa época?

Simas: Eram quantos irmãos?

WM: Seis! Perdi uma irmã novinha… Isso eu morava num casarão lá em Realengo. Realengo foi o meu reduto. Onde eu nasci… E eu morei em vários lugares ali, sabe? Aí uma irmã foi embora cedo. A Julieta foi embora mais tarde. Julieta era mais velha do que eu. Ela gostava de cantar… Antigamente tinha programa de calouro em qualquer lugar. O pessoal fazia programa de calouros, sabe? O pessoal botava a gurizada que tinha talento pra cantar e dava um prêmio! E minha irmã cantava muito… Tinha umas músicas que a Ângela Maria cantava… Linda Batista… Emilinha Borba… (Wilson pigarreia uma, duas, três vezes…) Pô… se eu bebesse conhaque não aconteceria isso!!!!!

(risos gerais)

WM: Que coisa, né? Vou pedir a Ângela pra botar um vinho pra mim…

(pede o vinho)

WM: Olha, vou te contar uma coisa! Se a minha irmã gostasse de carreira de cantora ela talvez fosse até aproveitada como cantora! Porque ela cantava direitinho, sempre tirava o primeiro lugar nos programas de calouro que tinha lá em Realengo, Padre Miguel… Naquela época nem era Padre Miguel, era Moça Bonita, né?

RF: E esses programas de calouro eram festas na rua ou eram programas de rádio mesmo?

WM: Eram festas nas casas das pessoas. O pessoal fazia uma brincadeira em casa e fazia aquela programação de calouro e as meninas se inscreviam, a rapaziada que gostava de cantar…

RF: Era uma coisa do bairro?

WM: É verdade. Você sabe que tinha até uma casa, lá em Realengo, que era uma espécie de teatro… Tinha umas peças teatrais… Tu vê que a rapaziada ali era bem aproveitada nisso, sabe?

RF: Tinha nome essa casa, esse teatro?

WM: Não! Era uma casa de família!

RF: Que a família transformava num teatro?

WM: É… Nos anos 50…

(Ângela chega com vinho do Porto)

WM: Não… (rindo) Isso é pra tomar só um pouquinho… Pega aquele que tá lá embaixo da pia…

Tiago Prata: Os cantores que concorriam nesses programas tinham o acompanhamento de um regional?

WM: Não! Tinha um cara que tocava cavaquinho e violão. Só. Os coroas ali do bairro… Qualquer um! (rindo) Era o maior barato! Você sabe que ali em Realengo teve grandes músicos como Darly Louzada… Grande 7 cordas! Um dos primeiros 7 cordas!

TP: Tocava no regional da Rádio… não lembro agora o nome…

WM: Nacional Tupi!

TP: É!

WM: Ele começou no Ary Barroso. O Ary Barroso bateu nas costas dele e disse “vai à luta que você é bom, rapaz!”. Foi meu parceiro ele… Eu devo ter fita guardada em algum lugar…

TP: Tem música tua gravada com ele?

WM: Com o Darly?

TP: É.

WM: Tem! O Darly participou do meu primeiro disco, chamado Matéria Paga. Não era independente, era matéria paga naquela época! (todo mundo ri) Isso em 67. O Darly organizou! Você sabe quem tocou na época comigo? Darly, Periquito, aquele Periquito, antigo, do cavaquinho, o Arlindo Russo do Regional da Tupi.

TP: Mas o Darly Louzada compôs contigo?

WM: Tenho duas músicas com ele.

(chega o vinho que o Wilson pediu)

wilson moreira 01

TP: Meu pai chegou a pesquisar um pouco sobre o Darly, um cara muito esquecido…

WM: Ele era ótimo!

EG: Mas vamos volta um bocadinho, Wilson! Você tava contando sobre tua parceria com o Da Volta…

WM: É… Com o Da Volta eu fiz samba de terreiro, na Mocidade. Fiz samba-enredo, meu primeiro samba-enredo, primeiro e segundo samba-enredo eu fiz com ele!

RF: Pra Mocidade?

WM: É, pra Mocidade…

S: Wilson, você foi fundador da Mocidade?

WM: Eu fui um dos fundadores, me considero um dos fundadores, porque tinha uma escola de samba em Realengo, nos anos 50, chamada Unidos da Água Branca. Onde começou tudo.Eu tocava tamborim e ficava ali, né?, assistindo os ensaios e tocando tamborim. Aí… Veja só… Um dia, já próximo ao carnaval, chegou lá um diretor da Mocidade Independente… A Mocidade era uma escola que desfilava no bairro, em Padre Miguel, Bangu e Realengo. Aí eles se inscreveram na associação das escolas de samba e foram desfilar na Praça Onze no carnaval. Daí chega um diretor um dia, nós estávamos numa brincadeira, fazendo um ensaio. Terminou o ensaio a gente ficou ali batendo papo, né? E eu sempre participando do papo junto com a rapaziada. Aí chegou um diretor da Mocidade, um relações públicas, assim: “Boa noite! Boa noite, gente! A Unidos da Água Branca vai desfilar no carnaval? Aonde?”. “A gente desfila em Realengo mesmo…, no ponto central do bairro, né?, no desfile principal.”. Aí ele falou: “Não interessa a vocês desfilar com a gente no carnaval lá na Praça Onze?”. “Vamos ver, né?”… O presidente nosso, era o Tião… A gente chamava ele de Tião Presidente porque ele andava com um bracelete, uma faixa aqui no braço escrito “PRESIDENTE” (ri muito) O Tião era uma figura! Andava pra lá e pra cá com aquilo… “PRESIDENTE”. Aí o presidente conversou com o Renato – Renato era irmão do Mestre André, né? Ele era relações públicas da Mocidade – e o Renato disse “Olha, a Mocidade vai desfilar pela primeira vez na Praça Onze. Então a gente tá querendo conteúdo, tá querendo gente, e como vocês são verde e branco igual a nós…”.

RF: Que ano foi isso?

WM: Foi em 52, 53… 54, mais ou menos por aí. Então ele continuou: “Como vocês são verde e branco, a gente tá pegando essa turma desses blocos, dessas escolas que são verde e branco pra juntar com a gente e ir lá pra Praça Onze, pra fazer um número suficiente pra gente poder alcançar uma boa posição lá.”. Aí o nosso presidente topou: “Gente, vocês querem desfilar com a Mocidade Independente no carnaval?”. Aí fomos desfilar com a Mocidade. A Mocidade tirou em quinto lugar na Praça Onze. Eu me considero fundador, né? Tiramos em quinto lugar e sabe que nessa brincadeira a Unidos da Água Branca acabou? Ficou todo mundo lá na Mocidade…

RF: Fundiu tudo?

WM: É. Fundiu. Não foi uma fusão oficial, não! O pessoal foi pra lá! Que nem o Salgueiro… O Acadêmicos do Salgueiro é uma escola nova! Tinha a Unidos do Salgueiro que não fundiu com o Salgueiro! Não juntou! Parece que também acabou e foram pra lá! Eu me lembro disso… A Acadêmicos de Salgueiro é uma escola nova! Isso nos anos 50…

S: Salgueiro é de 1954…

WM: É… Salgueiro não é uma escola velha, não. É uma escola nova. Como o Império também não é uma escola antiga. A Portela tem o quê? Oitenta e tal! A Mangueira também tem uma cacetada de anos, né?

RF: Esses sambas-enredo que você falou que foram os primeiros que você fez…

WM: Foi em 62!

EG: Você e Da Volta?

WM: Eu e Da Volta.

RF: O primeiro que emplacou ou o primeiro que você fez? Ou já emplacou logo o primeiro?

WM: Vou te contar. Sabe o que aconteceu? Nós recebemos o histórico, o tema – antigamente era histórico mesmo, hoje em dia é sinopse, né?! (todo mundo ri) – e o pessoal vinha animado, quando ia andando lá pra Mocidade dizendo “Vai lá na Mocidade?”, “Já apanhei o meu tema, hein!”, “Tá legal! Vou pegar o meu agora!”. O pessoal ia animado pra ver aquilo, pra ler… Era a História do Brasil! Era tema obrigatório! Hoje em dia é grego, Europa…

RF: Chico Recarey!

WM: (rindo muito) Chico Recarey! Mas era História do Brasil. Era obrigatório! E sabe que o Brasil é tão grande… Tem coisa aí à beça pra exaltar, sabe que ainda tem? Os caras não querem. Acham que não dá leite mais. Dá leite, sim, sabe? Tem tanta coisa aí pra você exaltar aqui dentro do Brasil, coisas bonitas…, mas eles partem lá pra fora… A Portela esse ano vem com negócio do Olimpo, né? Eu não faço mais samba-enredo. O samba-enredo tomou um rumo muito diferente. Aliás as escolas tomaram um rumo… Viraram Hollywood, né? A Mocidade virou Hollywood!

RF: Não é mais um espetáculo pra quem faz a festa, mas pra quem tá a fim de comprar…

WM: É… Tu vê os sambas-enredo que eu ganhei junto com o Nei Lopes, aquela linha, né? Eu fiz um samba com o Adalto Magalha… Nós concorremos na Unidos da Tijuca… Eu não podia aparecer que a Unidos da Tijuca era do primeiro grupo, como a Portela, e eu pertencia à ala de compositores da Portela e o Adauto à ala da Unidos da Tijuca. Eu falei: “Adalto, eu vou fazer um samba contigo, mas você canta sozinho, lá, que eu não posso nem der as caras lá, se não o Seu Natal vai me dar umas lambadas, lá!” (todo mundo ri). “Pô, mas o que é que é isso?”. “Não, pô… Bota um parceiro…”. O Adalto morava do lado de um diretor. “Bota o nome daquele diretor lá no samba junto contigo!”. “Não, não vou botar ele não! Quero botar é contigo.”. Aí o samba ficou em segundo lugar… Aquele samba que o Marçal gravou: (cantando) “Nessa epopéia de glória / A cultura de um povo!”… Uma história sobre os malês, que é uma história bonita, sobre os negros malês, são uns negros bacanas, né?… Uma história muito bonita… Aí uma vez eu fui com o Adalto lá no morro, depois do carnaval, né?, no tempo em que se podia ir no morro à vontade, lá no Borel, aí um componente da escola e o compositor que ganhou, Jorge Moreira, falaram assim: “Esse samba aí que você fez era pra ser o vencedor… um samba lindo!”, e eu “Pois é, rapaz, mas infelizmente ficou em segundo lugar…”. Aí, veja só, o Marçal tava na Portela, né? Marçal brigou lá com a diretoria da Portela e foi pra Unidos da Tijuca. O presidente da Unidos da Tijuca contratou o Marçal: “Marçal, tu quer vir pra cá dirigir a nossa bateria?”. “Vou…”. Aí um dia o Marçal tava consertando os instrumentos lá, e tal, e disse que os sambistas lá do Borel começavam a cantar: “Nessa epopéia de glória / A cultura de um povo / Mostramos com graça / A força de uma raça…”… E ele: “Puxa vida… que samba bonito é esse?”, “É um samba que perdeu aqui na Unidos da Tijuca…”, “Pô, de quem é?”, “Adalto Magalha e Wilson Moreira!!!!!”.

RF: Que ano foi isso, Wilson?

WM: Isso foi em…

S: Isso deve ter sido no início dos anos 80. Foi o enredo “Salamaleikum: a epopéia dos insubmissos malês”.

WM: Isso! Isso mesmo! Isso mesmo! Pô… esse aí, hein! Que memória!

EG: É o nosso historiador!

(Wilson ri muito)

RF: Volta lá pra 62 quando você pegou o tema…

WM: Pois é. Aí eu peguei o tema e o Da Volta falou assim: “Wilson, como é que a gente vai fazer? Tu vai pra minha casa, eu vou pra tua…”. E eu: “vai ser isso. Eu vou pra tua casa, tu vai pra minha, a gente marca um dia na tua casa, outro dia na minha casa…”. Aí começamos. Lemos e relemos o tema, né? Tava bonito! Aí eu comecei a cabeça: (cantando) “Brasil / Oh, meu grande Brasil / Hoje exaltamos mais um trecho da tua História / Glórias e glórias / Grandes vultos em nossa memória! / Brasil no campo cultural / Apresentamos com grandeza / Abrilhantando este carnaval / Laiá laraiá laraiá lalaialaiá…”. Era o solfejo. Aí entra a outra parte… Mas a terceira parte eu não lembro… Porque houve um problema lá na hora da reunião que nós fizemos – a reunião era na casa do Seu Eurico, era o presidente da ala dos compositores – e todo mundo com o samba pronto foi pra casa dele. Ele disse: “Olha, vamos na minha casa que hoje vai sair o samba de enredo escolhido para o desfile de carnaval da Mocidade”. Seu Eurico resolveu fazer o seguinte… Quando chega nessa parte (canta) “De Dom Pedro Segundo / Herdeiro do trono do Imperador / Dom Pedro Primeiro”, ele disse: “Bota essa outra parte aqui do Jurandir!”. Jurandir é um cara que foi meu parceiro e que já foi embora. “Bota essa parte do Jurandir aqui e bota essa outra parte do Arsênio!”. E eu não lembro das duas partes, rapaz… Ficou bonito… Aí terminava com o solfejo. E nós fomos desfilar na avenida e a escola ficou em sexto lugar. Que era uma colocação boa pra Mocidade… Que naquela época tinha as chamadas quatro grandes, Império, Portela, Salgueiro e Mangueira. Mas tinha Capela, Aprendizes de Lucas, né? Que eram boas pra caramba! E a Mocidade entrou ali com a bateria, era chamada a escola da bateria! Não sei se vocês souberam disso. Ela tinha uma bateria fenomenal!

S: A paradinha…

WM: Mestre André… E essa paradinha, rapaz, foi dos anos 50. Um barato. Foi um barato. Então a Mocidade já desfilou entre as grandes, na Rio Branco. Foi um barato. Tomei o gostinho da coisa e no outro ano nós apanhamos o outro tema. Esse primeiro foi “Brasil no campo cultural”. Um título bonito, um enredo bonito, um histórico bonito, fácil, bom de você ler. Hoje em dia você vai fazer um samba, todo mundo se mete, carnavalesco se mete, o compositor não tem direito de fazer as coisas à vontade.

TP: O patrocinador se mete…

WM: É… Você sabe que bom é você pegar um tema, digamos… Você vai fazer um enredo sobre o Estephanio´s. “Wilson, o tema taí, leva lá o tema…”. Aí tu me deixa à vontade e eu vou fazer o samba, e o bloco sai (imita o som de uma bateria). Né? Vou fazer o samba como nós fizemos o “Sandália Amarela”… “Sandália Amarela” foi um samba de bloco, de desfile de bloco, sabia disso?

RF: Ah é? Qual bloco?

WM: Foi… (rindo) O lance foi o seguinte… Não sei se isso deve entrar aí…

(grita geral)

WM: (rindo muito) Não é nada demais, não… É que eu tava contando uma história, vem outra…

RF: Esses parênteses são bons!

WM: Foi nos 80. Ali na Avenida Passos com Senhor dos Passos, tinha uma sobrado, como tem até hoje…

RF: Agora tem um McDonald´s embaixo?

WM: Tem, agora?

RF: Não sei se é esse ou se é o do lado… Em frente à igreja?

WM: Não… Bom… Veja só… Ali era o Nei Lopes, Rubem Confete, Zé Luiz, Ari Araújo, Flávio Moreira, Os Vissungos… Lembra desse grupo, Os Vissungos? Era um grupo de samba, de samba-afro… Sabe o que aconteceu? Ali rolava show… era tipo Zicartola… roda de samba… tipo Encontros Cariocas, sabe? Então no carnaval o pessoal resolveu fazer um bloco: “Olha, vamos fazer um bloco e escolher um samba…”. Era o Bloco dos Apóstolos do Samba. Aí, escolhe samba daqui, escolhe samba dali, a gente cantava muito esse samba lá (cantando): “Eu dei a ela / Um par de sandálias / Da cor do meu chapéu de palha / Ela de saia amarela / E uma blusa de filó / E eu com uma flor na lapela do meu paletó / Eu dei a ela / Um par de sandálias / Da cor do meu chapéu de palha”. Aí tinham uns versos nossos e tinha os versos da malandragem que cantava de improviso. Tudo dentro dessa música, o pessoal botava os versos de improviso. Então a direção do bloco disse: “Tá escolhido o samba pro desfile do carnaval dos Apóstolos, pronto! É esse aí! Samba de Wilson Moreira e Nei Lopes, Sandália Amarela”. Eu disse, “Pô, mas tem a ver?”, “Tem a ver!”. Aí eu “Bloco é um negócio mais quente…”. Tinha o Cacique de Ramos, tinha o Bafo da Onça, mas ele disse “Não, mas é esse samba que vai pra avenida!”. E você sabe que deu pé?

EG: Esse bloco desfilou quantos carnavais?

WM: Desfilou um carnaval!!!!!

(todo mundo ri)

cartaz wilson

EG: Então deixou de ser samba pra ser o hino, então!

WM: (rindo) É… pergunta isso ao Nei Lopes uma hora… Abrimos o desfile… o Nei Lopes acho que vai explicar isso melhor… A RIOTUR nos cedeu o carro de som, oito horas da noite, desfilando pela avenida… Em cima tinha os velhos partideiros dizendo de improviso e cá embaixo a gente cantando: (cantando) “Eu dei a ela / Um par de sandálias / Da cor do meu chapéu de palha / Ela de saia amarela / E uma blusa de filó / E eu com um flor na lapela do meu paletó / Eu dei a ela”. Todo mundo aprendeu na hora e cantava junto! Aí os caras diziam uns versos (cantarola)… Nós saímos lá do Simpatia, lembra do Simpatia, aquela choperia? Acabou aquilo, né? Era ótimo. Do início da Rio Branco até a Praça Floriano. Aí o dono de um bar, de um restaurante, ali na Santa Luzia falou assim: “Vocês tão todos convidados a tomar um chope lá no meu restaurante… Eu gostei do samba… E ele cantou ´Eu dei a ela / Um par de sandália!´”… Foi um barato isso! Aí quando foi em 80 nós fizemos o Arte Negra, né? E em 85 nós fizemos o Partido Muito Alto. O falecido Rogério Rossini e o Genaro, que foi o nosso produtor, disseram: “Bota o ´Sandália Amarela´…”. Aí o Rogério fez aquele arranjo bonito… (cantarola)… Bonito, né?

S: Maravilha!

WM: E a música taí até hoje, rapaz… E é pedida… Se eu não cantar, o pessoal cobra! (rindo) Deu um tremendo pé!

EG: Wilson, vamos retomar o fio da história das parcerias… Quando você começou, lá atrás, com o Da Volta, você já tinha consciência de que queria viver de música?

WM: Tinha!

RF: Você tinha outro emprego?

WM: Eu tinha. Eu vou dizer um negócio a vocês… Eu fui, rapaz… Eu vou dizer o que eu fui… Antes de eu ser bombeiro hidráulico eu fui uma porção de coisas… Entregador de marmita, guia de cego, vendi doce, bala, eu vendia amendoim na ponte de Realengo… Eu era conhecido como Amendoim até um determinado tempo lá em Realengo. O pessoal dizia: “Esse aí é o Amendoim mesmo?” (ri muito) (todo mundo ri) Pessoal me conhecia como Amendoim, não me conheciam como Wilson Moreira.

RF: Nessa hora então você já sabia que era compositor?

WM: Exatamente! Mas aí, rapaz, veja só… Com o Da Volta eu fiz vários sambas de terreiro… Eu tinha samba de terreiro que até hoje é cantado por aí… O pessoal lá de cima, quando me encontra diz “Ô, Wilson… (cantando) ´Já pedi pra você me deixar…´” isso era samba de terreiro lá na Mocidade!

EG: Você lembra de um? Faz aí pra gente gravar!

WM: Agora? Olha só… Vou fazer um inédito que é daquela época e que tá no projeto da Ângela que se Deus quiser a gente vai transformar em disco: (cantando) “Amei demais alguém, porém / Não deveria amar / Sofri com o pão / Que o diabo amassou com os pés / Hoje…”.

EG: Esse é você com quem?

WM: Eu e Da Volta.

RF: Nessa época era samba de terreiro sempre, né?

WM: Era… Samba de terreiro prevalecia, rapaz, na quadra! Incrível, né? E a Mocidade era uma escola tão simpática, que as pessoas saíam da cidade, eram jornalistas, pessoal de rádio… Jamelão não saía da Mocidade! Seu Natal da Portela era freqüentador assíduo lá, tinha até um cargo na Mocidade. Então ele ia pra lá assistir aos ensaios e ficava amarrado no samba de terreiro que a gente fazia lá. Aí um dia ele chegou e me convidou. Quando eu acabei de cantar o samba e desci do palanque e falou assim: “Você não quer ir pra Portela não, garoto?” Aí eu falei assim: “Olha, Seu Natal, eu adoro a Portela, gosto da Portela desde essa idade de pequeno, agora… um dia eu vou pra lá… Que eu sou daqui, né?!”. Eu tinha um samba que eu botei no Okolofe, produção do Maurício: (cantando) “Até breve / Amável povo da cidade / Que tanto me orgulha / Venho de lá das quebradas, de longe / Honro o nome de uma Mocidade / Digo com prazer / Com prazer / Mocidade Independente é uma das razões do meu viver / Canto com muito alegria / Esqueço a nostalgia / Que tanto me invade / Até amanhã, povo da cidade / Ou até para o ano / Saudades vou levando / Até / Vou partir / Brevemente nos veremos / Sou da Mocidade”.

TP: Esse samba é seu sozinho?

WM: Meu sozinho. Sabe o que aconteceu com essa samba? A diretoria da escola falou assim: “Esse samba vai ser o samba de fechamento do desfile no carnaval.”. Nesse ano a Mocidade estava desfilando da Candelária pra Central do Brasil. Não lembro qual era o samba-enredo desse ano, mas foi um dos últimos anos meus na Mocidade. Eu já estava saindo fora. Quando tava chegando quase perto da Central a bateria parou, o diretor de harmonia mandou parar a bateria e entrar nesse samba: (cantando) “Até breve / Amável povo da cidade / Que tanto me orgulha / Venho de lá das quebradas, de longe / Honro o nome de uma Mocidade / Digo com prazer / Com prazer / Mocidade Independente é uma das razões do meu viver / Canto com muito alegria / Esqueço a nostalgia / Que tanto me invade / Até amanhã, povo da cidade / Ou até para o ano / Saudades vou levando / Até / Vou partir / Brevemente nos veremos / Sou da Mocidade”. Aí todo mundo fazia assim ó (acena com o braço)… Era bonito pra chuchu, rapaz!!!!! Essa história é contada até hoje, o Confete fala isso, o Zé Luiz do Império… O Zé Luiz não saía da Mocidade! Esse pessoal ia todo lá pra cima, sabe? Era uma escola simpática e tinha um ensaio bonito. Além disso, quando terminava o ensaio, as baianas iam pra cozinha fazer um panelão – um nunca vi um caldeirão igual aquele, rapaz! -, um caldeirão grandão, acho que era sob medido (ri muito) cheio de sopa, rapaz! Aquela sopa rolava até uma hora da tarde, duas, três, o pessoal não ia pra casa, continuava ali. Aí à noite começava o ensaio, domingo, né? O pessoal já tava ali, continuava… E os caras que vinham da cidade (rindo) não voltavam…

EG: Quando e por que você saiu da Mocidade?

WM: Eu saí da Mocidade em 68. Houve uma animosidade comigo lá, houve um problema lá comigo… Eu não gostei do tratamento que me deram lá… O presidente da ala das compositores não me tratou muito bem, eu discordei e me afastei da ala. Me afastei, fiz uma carta pelo próprio punho e mandei pra lá. Foi me afastamento. Mas a diretoria ficou “Poxa, Wilson, você vai sair da escola?”. “Não, vou me afastar!”. Eu tinha uma ala, uma ala de conjunto, e disse “Vou passar a sair na minha ala de novo, porque na ala de compositores o presidente não tá querendo que eu fique, então vou me afastar”. Aí sabe o que aconteceu? Eu tinha um amigo, que era relações públicas da Portela, e esse amigo morava em Padre Miguel. Encontrei com ele na cidade, a gente ia apanhar o trem pra ir pro subúrbio e ele falou assim: “Wilson, não vou subir agora não , eu vou saltar em Madureira que eu tenho que ir à reunião na Portela.” E eu disse “Pô, rapaz, eu vou aproveitar e acho que eu vou contigo na Portela também…”.

EG: O Seu Natal já tinha te convidado pra ir, né?

WM: Já tinha me convidado! Aí eu fui com ele à reunião.

EG: 68, né?

WM: Isso foi em 68… 68… Quando eu cheguei na Portela a diretoria tava formada pra reunião. Aí ele falou assim “Olha aí! Vim com o Wilson Moreira, que o Wilson Moreira quer assistir nossa reunião…”. Seu Natal tava sentado assim, do lado, ele era Presidente de Honra, o presidente da escola, oficial, era o Seu Armando Passos. Aí a diretoria toda levantou pra me cumprimentar: “Olha, muito obrigado pela presença, esteja à vontade!”, e o Seu Natal falou assim “Esse é o garoto que eu falei que convidei pra vir aqui pra Portela…”. Pô, aquilo foi o maior aval! Eu disse: “Seu Natal, muito obrigado… Prazer…”. Ele disse “Você quer assistir à reunião dos compositores? É lá em cima!”. Tinha uma escadinha… na Portelinha, né?. Aí eu fui lá. O presidente da ala na época era o Picolino, o Carlos Imperial era diretor não sei de quê… A diretoria era bem formadinha, direitinho, sabe? Tava Casquinha, Monarco, Valter Rosa, só tinha fera, Jair do Cavaquinho, Chatim, a turma toda. Aí me abraçaram, falaram “Pô, Wilson, esteja à vontade. Veio assistir nossa reunião?”, “Vim assistir e vou ficar!”… Depois daquela recepção!!!!! (ri muito) A diretoria toda de pé, rapaz! Fiquei na Portela! Até hoje! A Portela ainda não tinha o Portelão, a Portela ensaiava no Imperial, que era um clube que tinha em Madureira, ensaiava no Madureira Atlético Clube e ensaiava no Mourisco. Aí fui ficando. Um dia marcaram comigo lá, perguntaram se eu queria mostrar algum samba, se eu tinha algum samba… E veja só! Tinha uma reunião, que nem nós estamos aqui, engraçado… igualzinho, rapaz!!!!! (fica com os olhos marejados) Cada um cantava um samba. Casquinha cantava samba de terreiro…

wilson moreira 03

EG: Isso aonde, Wilson?

WM: Isso na Portelinha. Isso em 69, mais ou menos por aí… Casquinha, Valter Rosa, Chatim, todo mundo cantando. “Wilson, tem algum samba que tu fez pra Portela?”. “Tem”. Aí cantei meu samba: (cantando) “Quando eu brigar com alguém / Ou tiver um transtorno qualquer / Faça da vida um prazer / Que o mais belo requinte é viver / Deixa a tristeza pra lá / E vamos cantar / Pra comemorar com alegria / Vem pra Portela sambar / No calor autêntico…”. Uma coisa assim: (cantando) “Portela é paz / Portela é gente / Portela é carnaval!”. Aí eu cantei. Mandei fazer naquela época uns folhetos, né? Fiz uns folhetos, pra distribuir pro pessoal, cantei nos ensaios, foi uma maravilha, o samba cresceu na quadra…

EG: Como chama o samba?

WM: “O Mais Belo Requinte”. Aí a Portela ia fazer um disco em 70. Escolheram esse samba. Botaram esse samba no disco. Pô, eu novo na escola, na ala dos compositores… Pô, que bom… Tava iniciando minha carreira…

EG: Mas também você entrou com a benção do Seu Natal, né?

WM: Pois é! (rindo) Não é? Foi um barato! Fiquei como parceiro de outros compositores… Na Portela eu fui parceiro do Antônio Alves, foi um cara que foi vencedor de samba-enredo, fui parceiro de Monarco, fui parceiro do Jair do Cavaquinho, Candeia… Candeia foi o meu parceiro mais constante na Portela.

EG: Então conta aí pra gente a história dessa tua parceria com o Candeia… Como você o conheceu…

WM: Eu já conhecia o Candeia antes dele estar na cadeira de rodas, mas eu não tinha intimidade com ele. Eu ia na Portelinha assistir ensaios e o Candeia ficava lá ajeitando os troféus… Aquele negro alto, né?… (de olhos marejados novamente)… Bom compositor… Era parceiro do Valdir 59 e outros… Ele soube que eu estava na Portela já na cadeira de rodas. Quem tocava e fazia show com ele era o Osmar do Cavaquinho e o Jorge da Conceição. Jorge da Conceição morou em Realengo também. Era vizinho do Darly Louzada, lá na boa época. Ali tinha onde o Jorge morou tinha o Darly, tinha o Neco, do violão, Adilson Bolinha de Sabão, que era irmão do Neco, era bossanovista… (cantando) “Sentado na calçada de canudo e canequinha…”… Era uma coisa assim, né? Irmão do Neco! É crente hoje em dia… Acabou…

(todo mundo ri muito)

WM: Virou crente… crente é fogo! Meu amigo, mas puxa vida… O Candeia falava pro Jorge: “Ô, Jorge, eu tô sabendo que o Wilson Moreira que era da Mocidade tá na Portela com a gente, né? Traz ele aqui em casa pra gente conversar um pouco…”. Aí o Jorge foi lá em casa, em Realengo, ele morava no Batam, na época em que no Batam podia se andar tranqüilamente, hoje em dia tá meio brabo lá. “Wilson, o Candeia tá querendo que tu vá na casa dele, ele tá querendo conversar contigo, lá. Ele mora em Jacarepaguá. Vamos lá? Eu toco com ele, tô sempre lá…”. Aí fomos na casa do Candeia. Chegou na casa do Candeia e o Candeia: “Pô, Wilson Moreira, como é que é, rapaz? Tô sabendo que tu tá na Portela…”. “Tô”. “A gente precisa fazer uns negócios juntos, né?”. “Vamos…”. Aí Candeia de cara me deu logo uma música pra terminar pra ele, “Quero Estar Só”: (cantando) “Quero estar só / Não me veja no espelho pra não me ver acompanhado…”. Aí eu falei: “Candeia, eu tô com um samba na Portela, pra cantar nos ensaios…” – isso depois do “O Mais Belo Requinte” – “E eu vou até passar logo pra você botar uns versos aí pra gente empurrar esse samba nos ensaios…”. Era o “Não Tem Veneno”: (cantando) “Provar / Que não tem veneno / Que não tem veneno, não / Pode provar”. Aí ele botou uns versos… (cantando) “Saí pra trabalhar de manhã / Já caiu o sereno / E voltei de noite… / Diga à dona da casa pra não fazer prato pequeno…”. Tinha um cara que gostava tanto desse samba que um dia eu cheguei lá Portela, e eu não tinha letra pra mandar pro pessoal cantar, e ele disse: “Pô, rapaz! Que samba que vocês fizeram, você e Candeia! Vai lá em cima que eu botei um negócio no palanque!”. (ri muito) O cara botou um pacote assim, cheio de letras!!!!! Montão assim, ó! Aí eu jogava pro público, foi o maior sucesso na quadra! E a bateria tocando… Puxa vida… (olhos marejados de novo) Aí a Sabrina, uma passista da Imperatriz, passista do Teatro Opinião… esse negócio de mulata… mulatas, cabrochas… (ri)… Ela sambava no Teatro Opinião… Às segundas-feiras tinha aquela roda de samba, era um show internacional, né? Era um show pra pandeirista, um jogava o pandeiro na mão do outro, Rogério, Pimpolho, a turma toda… Carlinhos do Pandeiro… E aquelas mulheres dizendo no pé… (gargalhando) Rebolados… Aí a Sabrina foi na casa do Candeia: “Candeia eu vou fazer um disco… queria música…”. E ele: “Aproveita ouve essa música minha e do Wilson Moreira… (cantando) ´Provar / Que não tem veneno / Que não tem veneno, não / Pode provar…´”… Aí ela gravou, rapaz! Gravou, tocou na rádio! Naquela época era fácil gravar e fácil de tocar nas rádios. Ela tocava, rapaz, o tempo todo… E foi o maior sucesso, modéstia à parte… Depois nós viemos gravando, e o povo canta junto até hoje… Eu hoje em dia brinco com o pessoal… Canto, aponto assim (aponta pra um prato de sopa)… (cantando) “Que não tem veneno, não / Pode provar!”. O pessoal gosta, curte isso à beça… (rindo muito)

EG: Quantos sambas você fez com o Candeia?

WM: Ah, rapaz… Você sabe que tem sambas inéditos? Tem o “Afirmação”… Eu há pouco tempo fui fazer um show em São Paulo, convidado do Elton Altman, eu Paulinho, Tereza Cristina, Quinteto em Branco e Preto, Luiz Carlos da Vila, e eu cantei um samba inédito chamado “Samba Livre”: (cantando) “O samba é livre / O samba é vida, oh minha gente / Vem para o samba / Que eu vou também / Samba, menina / Samba, moço / O samba é quente / O samba é bom / Mexe com a gente / Sinto a cadência do samba no meu coração / Tenho como objetivo na minha paixão / Ser livre é sambar / É gente, é vida / Vem comigo cantar…”. Você sabe que esse samba, na primeira vez que eu cantei lá todo mundo cantou junto? O SESC Pompéia tava cheio, maior barato… O Elton ficou doido… E agora taí, né? Nos meus 70 anos eles querem fazer um trabalho de disco comigo, de show, lá no SESC Pompéia, agora em dezembro… esse samba tá! Eu tenho parcerias com Mano Décio da Viola, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça…

S: Tudo inédito, é?

WM: Tudo inédito… Maurício Tapajós… tudo inédito… O Pedrinho Altman tá pra vir aqui… Eu vou ver se eu não me esqueço de levar o Pedrinho Altman lá no Estephanio´s… Depois tu deixa o endereço comigo! O Pedrinho Altman é filho do Elton, né? Eles são botequineiros lá… Gostam pra caramba de farra…

S: Wilson, e você acompanhou o Candeia quando o Candeia rompeu com a Portela e fundou a Quilombo, né?

WM: É. O Candeia não ficava satisfeito com a mudança, com o rumo que as escolas de samba vinham tomando… Essa Hollywood toda que tá hoje em dia, o Candeia não gostava… O Candeia era um cara muito autêntico, muito tradicional, sabe? Ele falou: “Wilson, eu vou fundar uma escola de samba. Você tá comigo?”. Eu falei: “Candeia, eu só não vou sair da Portela…”. “Não, não precisa sair da Portela, ninguém precisa sair de suas escolas. Como o Xangô tá com a gente, Elton tá com a gente, Clementina tá com a gente, fulano, beltrano, sicrano…, Jorginho Peçanha tá com a gente”. Jorginho do Império, né? Eu falei “Tá legal!”. “Vamos fundar a Quilombo.” Eu tava na época lá, fui até diretor de harmonia junto com o Jorginho Peçanha… Eu tenho a minha carteira de fundador guardada até hoje, aí, diretor de harmonia da Quilombo. O Nei Lopes era salgueirense e era também diretor da Quilombo. Eu não participei do primeiro desfile da Quilombo, eu tava com compromisso na Portela. Isso foi em 75… A fundação… Mas em 78 eu participei até de samba-enredo. Eu tava na casa do Candeia, a Tereza Raquel, filha do Solano Trindade lá de São Paulo, aquele grande poeta, ator… Ela chegou na casa do Candeia e a mãe dela morava, ou mora, em Jacarepaguá… Ela falou: “Estou com um tema aqui bom pra Quilombo, vou te mostrar… ´Ao Povo em Forma de Arte´”. Bonito tema! Aí o Candeia leu, releu, levou pra diretoria e todo mundo ouviu, viu e foi escolhido o tema de enredo pra Quilombo. Aí o Candeia me mostrou e eu disse: “Candeia, eu vou deixar o Jorginho na direção de harmonia e vou fazer esse samba com o Nei Lopes, tá bom?”.

S: Você conhecia bem o Nei?

WM: O lance foi o seguinte. Eu não conhecia o Nei muito bem. Em 74, quando eu fui produzido pelo Adelzon Alves, lá na ODEON, quando eu gravei “Mel e Mamão com Açúcar” e “O Meu Apelo”, naquele disco “Quem Samba Fica”, que era um projeto que o Adelzon tinha que lançou em 72 o João Nogueira, o Roberto Ribeiro, né? Era tipo um pau de sebo, que eles botavam cinco pessoas no disco. E ele falou pra mim que ele ia fazer outro em 74 e que eu estava, com aquelas duas músicas, que eu cantava na roda de samba que ele fazia na rádio à noite… Rádio Globo todo mundo ouvia… O “Amigo da Madrugada”… O Adelzon ele hoje em dia tá na Rádio MEC, quase ninguém vai lá ver. O Paulão produziu um disco dele agora lá na Rádio MEC com aquela turma dele. Dizem que tá muito bom o disco, eu não ouvi. Aí o que é que aconteceu? Marcou o estúdio. Naquela época ele namorava a Clara Nunes. Botou eu, Casquinha, Dona Ivone Lara, Sidnei da Conceição e o Flávio Moreira. Aconteceu o seguinte… Eu tinha aquele “Mel e Mamão com Açúcar”, que na época foi o maior barato, foi muito bem gravada… Tinha o Carlinhos do Cavaco, do conjunto “Nosso Samba”…

TP: Ele tinha uma pegada de direita!

WM: É, o maior barato! A gravação ficou excelente. Houve várias gravações, a música tocou no rádio, em tudo que era roda de samba, e o “Meu Apelo”: (cantando) “Eu vou acabar enlouquecendo…”. O Nei Lopes encontra com o Délcio Carvalho e diz: “Ô, Délcio, eu preciso conhecer o Wilson Moreira, que eu conheço ele de nome, mas pessoalmente eu não conheço…”. O Nei trabalhava com o Reginaldo Bessa, ali na Rua Santa Luzia, um negócio de jingle… Publicidade, essas coisas. O Délcio me levou lá no prédio e quando o Nei me viu plantou uma bananeira: “Puta que!…” (rindo muito, gargalhando) Rolou no chão! “Wilson Moreira aqui, que barato!”. Aí o Délcio disse: “Eu vou te apresentar um cara que bota música até em bula de remédio!”. Aí foi aquela brincadeira toda. O Nei fazia uns eventos lá na casa dele em Irajá, morava na Honório de Almeida, não sei se vocês já ouviram falar nisso, era o Festival de Ensopado…

S: É… Continua tendo!

WM: Continua tendo? (rindo) Festival de Ensopado… Tinha até jurado, provadores… Primeiro lugar! Segundo! Décimo! (rindo muito) Era um barato! Naquela época os irmãos dele estavam aí… Tinha o Zeca, que cantava pra caramba, era cantor de gafieira… O Gimbo tocava no Estudantina… tocava um trombone fora de série… A família dele é toda de músico, né? Aí eu conheci a mãe dele, Senhorinha, de oitenta e tal, na época, e ele me manda a primeira letra, “Leonel e Leonor”, lembra disso? (cantando) “Oh, Leonor / Cadê Leonel, Leonor? / Viveu pro mar / Morreu de amor” Quem canta muito isso lá no Carioca da Gema é o Marquinho China.

S: Essa é a primeira da parceria?

WM: É… Aí um dia o João de Aquino me encontra na cidade de fala assim: “Ô, Wilson, tá de bobeira hoje à tarde?”, “Tô…”, “Vou te dar meu endereço!” Ele morava na Rua Belizário Távora, em Laranjeiras, acho que é aquela rua que tem um tobogã, né? Sobe assim! Eu tinha um Fusca… (ri muito) O Fusca encrencou… E não ia de jeito nenhum! Vou deixar aqui embaixo… (rindo) Fusca 64. Bom Fusca, mas não foi! Aí eu subi e não era lá em cima, era embaixo, fui parar lá em cima! Chego lá, Roberto Ribeiro tava lá, o falecido Roberto Moura, jornalista, era uma reunião pra mostrar música. Tava só eu, João, Roberto Ribeiro tava sendo lançado naquela época como cantor… Primeiro LP que o João ia produzir do Roberto Ribeiro… Um disco bonito… O João pegou o violão e eu comecei a cantar: (cantando) “Meu cavalo baio…”, e o Roberto começou a cantar junto comigo. Essa música ele gravou junto com os Golden Boys. Eles faziam o contracanto. Essa música tem uma história muito boa… “Canta outra!”. Aí eu cantei: (cantando) “Oh Leonor / Cadê Leonel, Leonor? / Viveu pro mar / Morreu de amor…”. Aí eu falei: “Essa é a primeira música que eu fiz com o meu parceiro Nei Lopes”. Cantei toda e o Roberto começou a cantar… “Essa já tá, hein!”. O Roberto Moura depois me disse “Tá essa e tá o ´Meu Cavalo Baio´”… Eu novo no meio e já gravando logo duas com um cantor de alta qualidade! O Roberto Ribeiro, se estivesse vivo, ele… (de olhos marejados)… Puta que pariu… Aquele cara cantava muito, né, rapaz? Coitado… Ele ficou desgostoso com os problemas da vida dele, né? A vista, começou a beber muito… A vista ficou vazada, né? Ficou igual aquele cara da novela “Sinhá Moça”, de olho branco… Parece que ele tinha vergonha daquilo, botava uns óculos… A ODEON… Gravadora… não é a ODEON… qualquer gravadora… Não vendeu 100 mil, não faturou, pum! (chuta com o pé) Chutou o Milton Nascimento, Djavan, Paulinho da Viola, Dona Ivone, não quis saber. E ele ficou meio chateado com aquilo… Não faturou… Ele já bebia, já gostava, aí, ó… (faz com a mão um gesto como se estivesse bebendo) A mulher dele não controlava direito ele… De vez em quando a sobrinha dele vem aqui, com o Adauto Magalha. Ela é passista lá pro lado do Império…

EG: Wilson, você foi parceiro do Paulo Brazão também?

WM: Não. O Paulo Brazão foi o seguinte: ele assinou embaixo uma música minha. Foi o responsável pela minha ida pra Mocidade. O Paulo Brazão tinha uma sogra, que era vizinha minha, morava em Realengo, na mesma vila que eu morava. O filho dela, cunhado do Paulo, era meu amigo e falou: “Ô, Wilson, o Paulo Brazão é lá da Vila Isabel, Cabuçu, Unidos do Acaú..”, muito anos… Lá na Rua Acaú… Engenho Novo, Vila Isabel… A Clementina de Jesus morou nessa rua! Acho que era Índios do Acaú! Nos anos 40, 50… Eu era molequinho e trabalhei no Grajaú muitos anos numa estamparia, por cinco anos. E via os caras cantando os sambas do Paulo Brazão, de terreiro. O cunhado dele então me apresentou a ele. “Wilson, esse é meu cunhado, o Paulo Brazão…”, aí eu falei “Pô, muito prazer, eu sou raia miúda, eu não sei se esse negócio é samba, se eu posso cantar pro pessoal…”. “Pode cantar, sim, você me mostrou aí, cantou pra mim, é bonito pra chuchu, isso é terreiro, rapaz! Você quer ir pra onde com esse samba?”. “Olha, eu sou da Unidos da Água Branca… mas eu vou me filiar à ala de compositores da Mocidade…”. E ele: “Pode se filiar e cantar esse samba que você vai se dar bem!”. Eu mandei fazer umas letras, mostrei pro presidente da ala de compositores, o Seu Eurico, e cantei: (cantando) “Bahia me recordo com amor / Quando eu vejo alguém falar / Terra de São Salvador / Bahia berço de grandes poetas / Uma terra que é esta…”.. Pô, esqueci! Eu tenho a letra aí, futuramente eu vou mostrar a vocês direito esse samba, pro Tiaguinho… Cantei na quadra e todo mundo cantou comigo, foi meu primeiro samba de terreiro na Mocidade sem parceiro! Depois foi que apareceu o Da Volta! Mas foi um barato… Com o aval do Paulo Brazão… Ele assinou… e eu fui! Eu tinha ele como um grande amigo meu. Eu lamentei quando soube que ele foi embora. Ele era conhecido como Presidente Eterno da Vila Isabel, né? Um dos caras que tinha mais samba-enredo. Era ele, Tolito…

EG: Quantos sambas você tem com o Nei?

WM: Ih, rapaz… Pra contar é difícil… Até hoje eu tenho samba inédito com o Nei. Tem coisas guardadas que a gente ainda não mostrou a ninguém… Ele tem guardadas minhas com ele também lá na casa dele, que ele não mostrou a ninguém ainda. É difícil, né? Às vezes o artista quer um tipo de música e não é aquilo, né? Aí ele ouve… A gente acha que vai dar um tremendo pé e se engana, né?

RF: O parceiro com quem você tem mais música é ele?

WM: É com o Nei. É o mais constante.

RF: Você conheceu o Silas de Oliveira?

WM: Era muito meu amigo. Eu não bebia, né?

RF: Vocês nunca fizeram samba?

WM: Não. É a minha mágoa, essa. Eu quando fui pra Portela ele ficou muito chateado… “Poxa, Wilson… a gente se dava tão bem, em vez de você ir lá pro Império…”. O Seu Natal era primo dele! “Seu Natal me convidou pra ir pra Portela, eu tô lá! Enjoei de verde e branco, tô no azul e branco agora!”. O Silas foi um grande, era um mestre. O Silas, rapaz… eu vou te contar! Cada samba enredo dele era uma coisa de louco! O próprio Geraldo Babão, que era também meu amigo…

RF: Padeirinho, você fez samba com ele?

WM: O quê? Pô… o Padeiro era… (fica de novo emocionado)… Não fiz… Minhas maiores mágoas são essas… O Padeirinho era meu amigo pra caramba… Puxa vida…

EG: Wilson… faz aí a seleção das mágoas, então… Não ter feito samba com o Silas, com o Geraldo Babão, quem mais?

WM: Silas, Babão, Eurico Costa da Mocidade, Paulo Brazão, Padeirinho…

TP: Cartola, você fez?

WM: Não, não cheguei a fazer, mas a gente não tinha muita intimidade… Ele gostava das músicas que eu fazia. Eu fiz um show com ele em São Paulo, no Treze de Maio, nos anos setenta. O Pelão, aquele jornalista de São Paulo, foi o produtor… O Pelão segura o copo…

(Edu, que conhece o Pelão, o imita segurando o copo, Wilson morre de rir)

WM: É! Assim! O Pelão é meu amigo! Ele veio no Espírito do Chope quando eu lancei o Okolofe. Tinha uma fila pra autógrafo, imensa… (rindo muito)… O Pelão fazia uma roda de samba toda segunda-feira no Treze de Maio, lá em São Paulo, com um conjunto chamado “Lá Vai Samba”. Era o falecido Doutor no repinique, Jones Santos no cavaco, Everaldo Cruz no violão e Carlão Elegante…

S: Falecido Carlão da Unidos de Lucas…

WM: Carlão teve um derrame, ficou muito mal… Eu fui até cantar em benefício dele, lá no Lucas.

RF: Quem mais estava nesse show em São Paulo?

WM: Cartola, Mano Décio, Babaú, Jorginho do Império… Eu pegava um ônibus aqui na rodoviária, às sete da manhã, chegava lá à tardinha. A gente se apresentava lá.

RF: Quando você teve o bar, o bar era ponto de encontro da moçada?

WM: Lá em Vista Alegre?

RF: É…

WM: Ia muita gente… Beth Carvalho, Sérgio Cabral, a turma de samba do subúrbio, pessoal do Império… Mas não era tanto como lá no Sobrenatural… Sobrenatural era fora de série…

TP: Wilson, mudando um pouquinho o rumo: você não toca nenhum instrumento de cordas, né?

WM: Não. Eu tentei aprender violão, mas quando eu ia levar a sério eu tive o acidente…

TP: Como é que você consegue essa expressão toda pra tanta melodia linda?

WM: Você sabe que o Rogério Rossini era um grande maestro… Ele dizia “Wilson não aprende isso não que você tem coisa muito bonita…”

TP: Vai atrapalhar!

WM: Vai se bitolar e não vai fazer mais aquilo! O Guerra-Peixe quando eu estudava música – eu fui bolsista lá no Museu da Imagem e do Som – em 67, 68, reuniu os alunos perante alguns jornalistas de Rio, São Paulo, Minas e Brasília e falou: “Eu vou apresentar aos senhores os meus alunos. Esse é fulano, esse é sicrano…”. E me apresentou: “Esse é o Wilson Moreira, compositor de samba de morro!” (rindo) E me mandou cantar alguma coisa que eu tinha feito durante as aulas. “Como é que você faz isso sem tocar instrumento?”. Tá na minha mente, né?

EG: Você tem um processo pra compor? Como é essa história de estar na tua mente, Wilson?

WM: Você sabe o que é? É vivência, né? Você conhece a “Canção de Carreiro?”

S: Belíssima!

WM: Aquilo ali, eu vivi! (cantando) “O som das rodas daquela carroça / Faz lembrar os tempos que eu vivi na roça / Esse cheiro de fumaça / É fogão de lenha de alguém cozinhando / O ranger das rodas / Vão me acompanhando…”. Sabe… (emociona-se) Eu morei num lugar lá em Realengo que tinha uma porteira, que tinha carroça ainda, e tinha vacaria, e tinha boi mugindo… (imita o som dos bois) Eu vendi muito estrume, rapaz! Era encomendado! Estrume de vaca para adubo de horta! De cavalo não gostavam muito, não! Mas de vaca? Aquelas patacas, grandonas! Eu apanhava aquilo, botava numa lata, uma porção, rapaz! Tinha espalhado pelo meio do mato. Eu botava numa lata e vendia. Então eu passava aquilo. Quando um belo dia eu tô compondo durante uma viagem lá pra Paraíba do Sul, eu, minha mãe e meus irmãos. Eu olhei, rapaz… Aquilo era bonito! Eu lembrei de tudo, rapaz! Aí comecei assim… (cantando) “O som das rodas daquela carroça…” Veio tudo na mente! (continua) “Faz lembrar os tempos / Que eu vivi na roça / Esse cheiro de fumaça…” Quando você vai pra roça você sente o cheiro de fumaça de comida no fogão de lenha (rindo)… Eu participei com música no Prêmio VISA… Foi muito bem aplaudida… Modéstia à parte… Sabe quem gosta muito mesmo dessa música? O Adelzon Alves! O Zeca Pagodinho não gravou essa música mas canta em show. Uma vez eu fui assistir a um show dele lá no Metropolitan e ele falou no show: “Vou cantar uma música inédita aqui, que não tá no meu disco mas que eu gosto muito da música e do compositor, meu parceiro, Wilson Moreira!”. Aí o pessoal levantou pra me aplaudir. Que beleza! (rindo) Aí ele começou… cantou tudo, rapaz! O Zeca é maluco!

EG: Tá tudo ligado ao que você viveu, né?

WM: Exatamente. E eu acho que tem a ver com a origem dos meus antepassados. Meu avô tocava sanfona! Minha mãe falava que vovô saía lá pro meio da roça com a sanfona pendurada nas costas e ficava três, quatro dias…

TP: Já imaginou essa música com sanfonas?

WM: Putz!

RF: Porque tem gente que compõe como se fosse mulher…

WM: Uns tem que beber…

RF: Conta a história do “Senhora Liberdade”, Wilson!

WM: Eu trabalhava no presídio… O Nei, muito esperto… Fez a letra toda e eu musiquei. O Nei é muito esperto…

RF: Mas ele fez pensando nessa história de você trabalhar no DESIPE?

WM: Exatamente. 35 anos lá… Aposentei lá, em 92.

EG: Wilson, conta de novo a história que você contou no intervalo, durante a sopa, daquele camarada que pagou teu chope…

WM: Pois é, rapaz… Eu tava bebendo ali na Praça Onze, chope na rua, um bom chope, na época eu podia tomar um bom chope, um shcnitt… (gargalhando) Aí veio um cara e pagou o chope! Pagou e deixou outros pagos. Aí a Ângela, minha companheira, foi correndo: “Por favor, chega aqui! Você pagou aqui por que?”. E ele: “Paguei porque esse homem aí merece! Eu quando tava guardado lá em Bangu ele sempre me tratou bem, com o maior respeito, é um homem que merece respeito, nunca fez mal a ninguém lá!”. Aí ela: “Tava guardado?”. E ele: “É. Eu tava preso!”.

(todo mundo ri muito)

EG: Quem mais passou por lá, Wilson?

WM: Nelsinho Rodrigues… que foi preso político, né?

TP: Ficava junto com os presos comuns?

WM: Não. Ficava separado. E de vez em quando eu era selecionado para trabalhar no Talavera Bruce. Sabe quem eu encontrei lá? Tinha um bocado de presas políticas! Jesse Jane! Ela anda por aí, né?

S: Hoje ela é professora de História da UFRJ…

WM: Eu a via lá sempre!

EG: Wilson… Hoje, quem é quem tem a tua benção na música brasileira?

WM: Arlindinho. Zeca Pagodinho. Serginho Procópio, que é meu parceiro também. Rapaz… tanta gente, essa garotada nova que tá começando… Marquinho China… Ele gosta das coisas que eu faço…

S: Wilson… E a sua parceria com o Moacyr Luz?

WM: O Moacyr veio aqui em casa… (rindo) O Moacyr… De manhã cedo, eu tava aqui, tocou o interfone, eu fui abrir e ele já tava lá no meio da vila, procurando onde era a entrada da casa. Aí eu chamei e ele veio. E veio com uma música: “Seu Wilson eu vim aqui e trouxe uma música pra gente iniciar uma parceria…”. E eu falei: “Pô, mas eu faço música…”. E ele: “Não… Agora é ao contrário, tu vai botar letra!”. “Não tem dúvida, eu boto a letra aí…”.

S: Ah, a letra é sua?

WM: É. A letra é minha.

S: É uma das raras que você é só o letrista, né?

WM: Não… Eu tenho muita coisa…

TP: Tem uma com o Pedro Amorim…

WM: Tem. Eu tenho muita coisa… Eu faço muita coisa simultânea. Com o Paulo César Pinheiro é não dá, né? (rindo) Eu tenho umas parcerias com ele, mas a letra é dele… O Aldir, agora, eu vou mandar música pra ele…

EG: Wilson, vamos terminando… Você hoje tem a consciência de que está com o nome escrito na história da música brasileira?

WM: Graças a Deus!

EG: Como é que você gostaria de ser lembrado daqui a 50, 60, 70 anos?

WM: Eu vou durar 200 anos, pô! (gargalhando) Olha, rapaz… Eu tenho tanta coisa que eu fiz aí na música, e tem tanta gente que eu gosto… E essa juventude que gosta de mim… (se emociona) É um carinho danado, rapaz… Eu fico até… “Que é que eu vou fazer pra essa rapaziada?” (cantando) “Ô mel / Mamão com açúcar / Eu também quero encontrar / Um lugarzinho no céu…”. Vamos nessa! E olha… eu acho muito legal esse trabalho que vocês estão fazendo comigo… Eu agora nesse fim de ano eu faço 70 anos… Se der pra eu estar com todo mundo junto… Engraçado…

EG: Tem alguma bagunça programada?

WM: Aqui no Rio estão querendo fazer. Lá em São Paulo já tá mais ou menos engatilhado. O Pedrinho, filho do Elton Altman, falou: “Guarda essa data que ela é minha!”.

TP: Nós vamos todos de ônibus, hein?

WM: É mesmo, rapaz? Eles estão querendo fazer até disco lá comigo… Lá no SESC Pompéia… Vai ser um barato!

RF: Ah, Wilson! Quem te botou o apelido de Alicate?

WM: Foi o Xangô da Mangueira. Nos anos 60 eu chegava falando com a rapaziada… Vem cá, dá a mão aqui…

(Tiago estende a mão)

TP: Ai!

WM: (rindo) Aí o Xangô tinha um amigo chamado Valdomiro do Candomblé, que tinha uma mão toda arrebentada… Machucada. Eu não sabia… Eu apertei a mão dele e ele botou a mão pra trás, ficou me olhando… E o Xangô… “Esse é o Alicate, a mão dele não é mole não!”.

S: Wilson… De tudo o que você falou, duas coisas eu acho muito importantes… Você é uma memória de uma região que fez samba no Rio de Janeiro, que é muito pouco documentada, que é a região da zona oeste, Realengo, Bangu…

WM: Sabe que é mesmo? Vou te dizer um negócio… Realengo tinha muitos músicos. Eu já falei, né? Neco, o Darly Louzada, tinha uma cantora chamada Jurema, que tinha um namorado que morava em Realengo e que tocava cavaquinho chamado Caciporé! Muito bom. Aquela região era fértil!

S: E a memória é muito pouca, né?

WM: Não cortando sua boa proposta… Deixa eu falar uma coisa… Lá em Realengo tinha um clube chamado Grêmio Estudantil de Realengo, e eles faziam às segundas-feiras, nos anos 60, um sarau de jazz. Tinha o Trio Ternura… O Toco da Mocidade cantava na boate Drink, um vozeiraço! Hoje em dia é compositor da Mocidade. Até me falaram que ele anda meio doente, eu tenho que visitar ele, que ele é muito meu amigo… Um cara que é da fundação da Mocidade, com grandes sambas-enredo… Eu também me magôo de não ter samba feito com ele, sabe? Ele era cantor, naquela época, da boate Drink, tempo da bossa-nova. Ele cantou nesses cabarés, nessas boates que tinham em Copacabana, no Beco das Garrafas… Ele tem muita história bonita pra contar… Quando o Johnny Mathis vinha ao Brasil, procurava o Toco! O Toco cantava um fox… (cantarola)… cantava de um jeito que parecia o Johnny Mathis, um inglês fluente… Eu era pé-de-valsa, o Toco era crooner de um conjunto chamado Melódico Rubi. E eu ia dançar lá… (cantando) “When somebody love you…”. Toco cantava isso muito bem! Sabe que o Johnny Mathis ia a Bangu procurar o Toco?

S: Essa é ótima!!!!!

WM: O Toco cantava no Cassino Bangu… E o Johnny Mathis cantava lá! Ia lá, encontrava com o Toco… Tinha o Juarez Machado… Maestro…

S: Wilson, uma última intervenção… Você conheceu algum lugar da África?

WM: Não… É minha mágoa não ter ido lá ainda… Tenho vontade de ir lá… Pelo tipo de música que eu faço… (cantando) “Luanda, Luanda ê, ê / Luanda, Luanda, á, á…”… Bonito, né?

EG: Wilson, valeu, Wilson!

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ENTREVISTA – ALDIR BLANC

Foi em meio a uma tremenda confusão, durante a festa de aniversário de seus netos gêmeos, Pedro e Joana, que Aldir Blanc me concedeu essa longa entrevista, em sua casa, na Muda, na sexta-feira passada, 08 de setembro de 2006, a segunda feita para o BUTECO DO EDU (a primeira foi com Fausto Wolff). Durante a entrevista, que foi muito mais um papo do que uma entrevista propriamente dita, Aldir, que acaba de completar 60 anos, falou sobre política, sobre música, sobre futebol, sobre carnaval e sobre o que restou do Rio de Janeiro que ele tanto preza.

Em razão da extensão da entrevista, até segunda-feira da semana que vem o Buteco manterá as portas abertas expondo Aldir no balcão imaginário.

entrevista com Aldir Blanc

Eduardo Goldenberg: Aldir, eu fui buscar na coleção do PASQUIM, que eu tenho, um mote pra gente começar a entrevista. E me deparei com a primeira entrevista que você concedeu pro jornal, em julho de 75, e durante o tempo inteiro, na entrevista, você bate pau violento na questão dos direitos autorais. Inclusive tem um borderô seu, de 75, com a legenda: “Borderô do Aldir Blanc, menos de 700 pratas em 2 meses pro autor de “Bala com Bala”, “Cabaré”, “Dois pra lá dois pra cá”. Tem mão de gato aí.” E aí você, respondendo à pergunta, diz que tem 60 músicas, à época, e umas 100 gravações. Nós estamos em 2006, você tem idéia de quantas gravações têm de músicas suas?

Aldir Blanc: Lógico. No último levantamento são trezentas e tantas músicas e não mudou nada. Se eu não vivesse de bico, né?, eu sou o personagem do Jô Soares… não mudou nada. A gente continua, é…, no meu caso, é…, eu vivo de textos vendidos pra revistas, pra jornais, e tal, e eu vivo disso. E quando a barra suja, é pra onde eu vou.

EG: Quer dizer que a questão do direito autoral continua a mesma?

AB: A mesma, a mesma, se não, se não pior, se não pior! Porque, é…, depois que a gente teve aquele momento de euforia onde a gente conseguiu criar o CNDA, que foi extinto, e o ECAD, não é?, que se mantém de uma forma espúria, né?, já que ele é integrado por todas as arrecadadoras que a gente tentou derrubar, eles sempre votam, e a gente sempre tá em minoria, e existem conversas sobre mesas de negociações… Mas a mesa de negociações, do que é que adianta uma mesa de negociação se você perde sempre, né? É o que eu tenho conversado com meus amigos da AMAR, a sociedade da qual eu fielmente faço parte, mas… Do que vale uma mesa de negociação onde você sempre é derrotado?

EG: E na AMAR você tá junto com o Nei Lopes…

(interrompendo)

AB: Nei Lopes, Paulo César Pinheiro, o nosso querido lá de São Paulo, o Marcos Vinícius, mas… mas é uma mesa fictícia, entendeu? A gente negocia, negocia, negocia, e perde sempre, eles votam e a gente perde sempre!

EG: Agora, me diga uma coisa… Tem uma história que agora está em voga, que é a história do jabá, com um movimento pra acabar com o jabá, que é o JABASTA . E eu trouxe pra você um trecho de uma entrevista que o Gil deu, recentemente, aqui no Rio. Foi feita uma pergunta pra ele, citando o seu nome: “Francis Hime, Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Lobão, Beth Carvalho, Nei Lopes, Nelson Sargento, Ivan Lins, estão nesse grupo do JABASTA, lutando contra o jabá”. E a resposta do Gil foi a seguinte: “Esses músicos, na hora de criticar são socialistas. Querem fazer a revolução. Mas na hora de abrir mão de seus direitos autorais em benefício, digamos, de uma escolinha na favela de Salvador, são adeptos de farinha pouca, meu pirão primeiro”.

AB: Hum…

EG: Ele se diz rigorosamente contra o movimento JABASTA, porque entende que o jabá é um troço do jogo, do mercado, e que tem que ser negociado…

AB: Eu acho que… Já posso ir?

EG: Claro!

AB: Eu acho o ministro Gilberto Gil um ministro lamentável. Eu, numa das primeiras declarações dele… “Eu leio o I-Ching…”… Eu já o teria demitido se tivesse alguma autoridade. Acho que ele não mudou coisíssima nenhuma, entendeu? Acho que ele vive à sombra do direito autoral, com negócios com firmas paralelas que o mantém, não é? E que talvez sejam ligadas à esposa dele, então eu acho inteiramente lamentável. Acho essa declaração especificamente de uma infelicidade tremenda, que a gente luta muito, e há muitos anos, e temos mais passado do que ele em lutas de direito autoral. Houve uma manobra que o nomeou Ministro da Cultura, muitas pessoas reclamaram, ele não representa absolutamente nada das posições que a gente defende. Ele não é absolutamente nada em relação a tudo que a gente reivindica.

EG: E você acha que a sua luta, contra o jabá, é uma luta inglória?

AB: É. A luta do jabá é muito inglória, porque eles sempre vão dominar esse mercado, sempre. Nós vamos ter que lutar muito contra isso e infelizmente o governo Lula, né?, aliás, como outros! Nós já tivemos o “grande” Celso Furtado no Ministério da Cultura, da Educação, sei lá, não me lembro agora! Nós tivemos ministros ilustres e eles não fizeram absolutamente nada. Eles foram omissos, eu botei as obras deles à venda, entendeu?, num sebo, de tão decepcionado que eu fiquei. Porque eles não são absolutamente nada em relação à luta do direito autoral. Inclusive o atual Ministro da Cultura que é inteiramente omisso.

Aldir Blanc
EG: Ainda agora você falou em decepção, que pôs no sebo os livros desses caras todos etc. Decepção, acho, que é a palavra que define, hoje, o marasmo das eleições no Brasil. E aí nós estamos entrando na reta final das eleições, o Lula praticamente eleito, né?, com um quadro de opções que me parece lamentável… O PSDB que é a grande oposição ao Lula, apostou num cara que sabidamente vai ser derrotado…

AB: É, o Chuchu…

EG: … quer dizer, se fosse pra brigar, entendo eu que deveria lançar o Serra…

AB: É…

EG: … que é um cara que tinha condições, pelas pesquisas, de brigar… Então, hoje, decepção é a palavra que define o sentimento comum dos eleitores. E há uma discussão corrente que é a seguinte: o Brasil tem uma democracia recentíssima. 506 anos de História, 502 anos na mão da elite, na mão dos poderosos que sempre espoliaram, foderam com o povo… E só há 4 anos o Lula está no poder… É verdade que fez uma série de alianças…

AB: … espúrias!

EG: … que decepcionaram os eleitores.

AB: É verdade…

EG: Diante desse quadro, a tua opção ainda é o Lula?

AB: Não. Não. Eu, eu… pretendo exercer, à exceção do voto no Vladimir, pra governador, pretendo exercer a desobediência civil. E por que é que eu tô chamando de desobediência civil? Porque eu não pretendia ir lá. Eu pretendia não ir lá. Eu pretendia me recusar a ir lá. E que fosse considerado relapso ou lá o que seja, né? Mas eu vou lá por causa de um candidato…

EG: … que é o Vladimir.

AB: Que é o Vladimir. Um candidato em quem eu confio. Então eu acho que eu tenho que ir lá e votar no candidato em quem eu confio.

EG: Pro resto você vai anular?

AB: Não vou votar em mais ninguém, a menos que eu tenha muita convicção. Não vou votar pra presidente, nem pra senador, pra absolutamente nada. Eu vou, e lamento que o atual sistema de votação não me permita escrever cacareco, palavrões…

(Mari Blanc chega e intervém)

Mari Blanc: Você está dizendo que não votaria em mais ninguém, pra presidente ou pro resto, Câmara, Senado… E aí, como é que você vê isso? Claro que a gente percebe que você está, assim, exausto – como você usa –, que está cansado…

AB: Eu não tô cansado! Eu tô contestando politicamente o sistema.

MB: Mas supondo que todos fizessem isso que você tá falando. Como você vê que ficaria, por exemplo, o nosso Congresso? Quem iria legislar?

(interrompendo)

AB: Não é a minha preocupação essencial. Eu sou um indivíduo. Eu voto como indivíduo. Eu voto como cidadão. Como cidadão eu contesto o sistema, voto no Vladimir, não voto em mais ninguém, anulo o resto todo e esculhambo o resto todo. Lamentavelmente não posso falar palavrão. Agora, quanto à conjuntura política, e tal, eu acho que quanto mais anarquia e confusão essa eleição criar, melhor! Entendeu? Inclusive o meu voto no Vladimir é muito pensado, porque eu preferia gerar um clima de intensa confusão, de intensa anarquia, e tô convicto de que seria ótimo pro Brasil que esse troço falasse assim…

MB: … então que fosse isso, a grande maioria passaria isso na eleição…

(interrompendo de novo)

AB: … eu não sei se a maioria… Aí é que tá a diferença! Não sei se a maioria – que eu não sei direito o que é que é… O que eu sei é que eu tenho absoluta convicção de que esse é o meu dever político! É isso.

MB: Eu sei, Aldir… o que eu quero que a gente pense junto é o seguinte: se a maioria pensasse como você a gente estaria passando uma mensagem que, no fundo, é aquela que todo mundo quer…

AB: Não!

MB: … a gente não tá satisfeito com o que tá acontecendo, a forma da eleição…

AB: A característica do voto anarquista, que é o que eu tô pregando, não se preocupa, absolutamente, com a opinião da maioria. Se preocupa com o indivíduo. Se preocupa em que um indivíduo diga não, e depois dois indivíduos, e depois três, e depois quatro, e que seja a essência de uma democracia real. Inclusive pregando a não-obrigatoriedade do voto, que é o que defendo.

EG: Então, evidentemente se fosse esse o caso você não iria votar?

AB: Não iria votar, mas poderia ir votar no Vladimir. No Vladimir, com certeza!

EG: Aldir, você já falou isso em dezenas de entrevistas, que “O Bêbado e a Equilibrista” se tornou o hino da anistia à tua revelia.

AB: À minha revelia! É verdade!

EG: Aquele movimento, na verdade, tinha uma esperança muito grande dali pra frente. E nós só temos pouco mais de 20 anos de lá pra cá.

AB: Certo…

EG: E é tempo o suficiente pra você se dizer rigorosamente decepcionado?

AB: Com certeza!

EG: Mas não cansado de lutar?

AB: Não cansado de lutar. Esse movimento… Falta tanta coisa pra esse movimento… Não vi uma única mudança relevante em relação à reforma agrária. Nada, nada, não vi nada relevante em relação à reforma agrária. Não vi nada relevante em relação à justiça social. Não vi um único vagabundo ser punido no imposto de renda, que é facílimo de enquadrar… O Al Capone entrou em cana assim. Maluf, Pittanic, estão soltos entre outras centenas de ladrões…

EG: ACM…

AB: Não conheço corruptores… queimaram o arquivo do PC… não é? Não vi nenhum corruptor ser preso. Quantos eram? Eram centenas! Não vi nenhum corruptor ser preso. Enquanto nós não alterarmos isso, e radicalizarmos mais em relação a torturadores, canalhas, vagabundos, gente ligada ao sistema da ditadura militar, nós nunca teremos chance de nos reerguer como a Argentina tá fazendo agora, inclusive levantando PIB, é… não sei o quê… e renda, sei lá, eu não entendo de economia, mas eles já têm mais do que nós, porque eles tiveram coragem de limpar um pouquinho a casa, e a gente ficou vaselinando mesmo no governo aparentemente ligado a movimentos populares. Nesse sentido o Lula foi uma tremenda decepção.

MB: Será que você acha que a gente teria alguma explicação pra isso? Por que é que esse governo, que a maioria elegeu, e tende a eleger de novo, não conseguiu seguir por esse caminho?

AB: Não. Não, não tenho. Quer dizer, eu tenho. Eu não tenho mas agora eu vou dizer que eu tenho, sim. Nós somos intensamente vaselinas. Nós somente intensamente a favor da conciliação…

MB: Então! Mas você não acha que quando se alcança o poder, então, você tem que abrir concessão, conciliar, pra poder governar, pra ter, como eles dizem, governabilidade?

AB: Não! Não, senhora! Não tô falando isso não! Nós temos que ser rigorosos, nós temos que punir os culpados, sejam eles criminosos, sejam eles fraudadores, sejam eles torturadores, nós temos que punir todos os criminosos. Cada criminoso solto é um cara que contribui contra a democracia que a gente pretende instalar no Brasil!

EG: Você saberia apontaria a hora em que, pra você, o governo desandou? A que horas você jogou a toalha?

AB: No meu caso particular, no meu caso inteiramente particular, quando o Genoíno não soube responder… Eu sofri intensamente. O meu momento particular é esse. Não quero, eu não sou cronista político, né?, não pretendo ser, mas aquele momento me rachou ao meio, eu esperava uma outra atitude… E agora parece que tá trancado em casa, fumando e escrevendo sua biografia, sei lá! Eu vou ler a biografia pela atenção que ele merece pelo passado…

MB: Mas isso doeu…

AB: Mas eu me lembro muito de quando aquele cara que era diretor do Internacional, do Internacional, do futebol, que entrou numa jogada com um Jeep, que ele apareceu e disse “eu nunca tive os olhos rasos de lágrimas…”… Porra… quando ele também apareceu assim eu também chorei muito e vou cobrar isso dele o resto da vida. Não vai ter a menor chance comigo!

EG: Foi, então, esse o marco pra você?

AB: Foi. Eu posso ter demorado, mas foi aí.

EG: Porque eu me recordo de você, na imprensa, dizer “tô brigando na rua”, “eu ainda sou um sujeito que acredita no PT”, “ainda acredito no Lula”, e a partir desse momento você parou.

AB: É. Foi uma espécie de CHEGA!, que eu não sou cínico, não sou burro, não sou cego… Entendeu? E é bom que fique claro isso, eu não sou filiado, né? Eu voto nas pessoas em quem eu acredito. E isso foi o golpe de morte pra mim. Podem botar isso na conta do Genoíno.

EG: Foi o responsável por esse troço?

AB: No meu coração, foi.

Aldir Blanc
EG: Vou mudar um bocado o rumo da prosa. Na imprensa, você é uma das vozes que eu particularmente mais respeito, como é o Fausto, como era o Biondi, que pra mim faz uma falta violenta…

AB: É verdade…

EG: … um sujeito que… O Biondi, era o único cara que tratava de economia de uma maneira que eu conseguia entender, por exemplo, que tem uma obra brilhante sobre as privatizações onde fica claríssimo o mecanismo…

AB: Claro! Claro! Lógico!

EG: … e ele morreu, e vocês ficam aí, você e o Fausto, mas efetivamente com um buraco de fechadura, quase, para botar a boca e gritar. E isso se percebe no Brasil como um todo. A imprensa virou um pastiche, você lê todos os jornais e são idênticos, um copidesque, você poucas vezes vê uma voz dissonante como é a de vocês. Eu tenho inclusive um amigo, o Fernando, lá de São Paulo, que costuma dizer sempre o seguinte… “A gente vai ficar velho e vai virar um Fausto, um Aldir, bebendo, falando merda, todo mundo nos julgando loucos…”. Você acha que é possível reverter esse quadro?

AB: Não sei. Mas eu acho que é possível lutar por isso, né?, lutar incansavelmente por isso, lutar até morrer por isso.

EG: Por que mesmo essa luta solitária vale a pena, né?

AB: É! Claro que sim, claro que vale a pena. Até porque quando a gente fala muito na corrupção do governo Lula a gente deve lembrar do Azeredo, deve lembrar do Fernando Henrique, deve lembrar das privatizações, né?, a gente deve lembrar que esse lixo imenso, que essa lama terrível, né?, isso dura muito tempo. Mas o que me choca particularmente é o seguinte… Exigiram que o Palocci fosse pro cacete. Então foda-se! Mas eu não vejo ninguém do governo Fernando Henrique preso. Eu vejo um Monteiro de Barros que é demitido e um Monteiro de Barros que entra. São barros que saem e barros que voltam! Né? Isso parece um emissário submarino, né?, cocô pra lá e pra cá. E pra esses caras só há uma solução: a Receita Federal e a Procuradoria da República. Essas pessoas precisam prender, precisam punir, precisam tirar… Eu tenho feito sistematicamente nas matérias uma pergunta… Por que o Marcola se regeneraria, né? Por que, não é? O Maluf, que é tido como o grande colecionador, independente de qualquer outra corrupção de obras superfaturadas, toda essa lama, ele é tido como o grande colecionar de vinho do país, o grande colecionador de jóias do país, o grande colecionador… Eu não sei o que é que ele coleciona!

(todo mundo ri)

AB: Vá colecionar na puta que o pariu, entendeu? Porra! E ainda entra atrás, o Pitta, o famoso Pittanic, conseguiu encher um túnel em São Paulo…

MB: Ele já sumiu…

AB: Sumiu mas tá na área! Tá punido? Tá em cana?

EG: Você não acha que a Polícia Federal, nesses quatro anos, prendeu como nunca? A Justiça é que vai e solta!

AB: Solta…

EG: Você não acha que há uma mudança nesse rumo, da Polícia Federal efetivamente fazendo as operações…

AB: Há, há. Mas infelizmente na cúpula da Justiça está Marco, Mello, Collor de Mello, mandando, soltando. Soltou o nosso Cacciola, que foi lá pra fora e hoje vive bem em Roma. Entendeu? Esse tipo de canalhice da nossa Justiça tem que acabar!

MB: Mas agora mesmo, esse Marco “collorido”, quer questionar se a eleição…

AB: … se a eleição, se a reeleição… Pô! Esse cara dá uma linda entrevista sobre o jeitinho, e três dias depois libera geral. Quer dizer, esse tipo de sacanagem do jurídico, a gente tem que combater de uma forma muito dura, e é muito difícil, né?, já que os cargos implicam em nomeações, méritos políticos, indicações, mas é muito difícil. Mas quanto a isso temos a Procuradoria da República, temos a Polícia Federal, e temos pessoas empenhadas em conseguir mudar um pouco esse quadro, lutando de uma forma às vezes quase suicida, que alguns acabam a carreira ali mesmo, ao dar um parecer, eu sei que carreiras terminam assim. Então eu acho que é muito importante o que essas pessoas têm feito. Eu não perdi, de jeito nenhum, a esperança. Embora eu reconheça que ela vai se afunilando, né? Depois da ditadura nós tínhamos um regato, hoje nós temos um fio d´água, né? E daqui a pouco não temos nada!

MB: Mas durante a ditadura não se tinha nada.

AB: Mas eu prefiro não creditar nada à mudanças pós-ditadura. A ditadura torturava, matava, chutava. Eu prefiro acreditar no seguinte: nós estamos mudando, nós estamos tentando mudar. E eu não vou recordar, eu não vou ter uma espécie de nostalgia de quem matou ou não matou por princípios… (debochando) Mas eles chutavam a cara de uma forma mais limpa… Eu não quero saber dessa merda! Eu quero saber do seguinte: a lei, a ordem, esse troço que é tão falado… Quando a gente vai começar a exercer? A Polícia Federal, a Receita Federal, podiam ter um trabalho seriíssimo que nos remetesse a Chicago dos anos 20 e botar todo mundo em cana, que é muito simples, cara! É muito simples. Não é difícil.

MB: Mas Aldir, aí eu quero voltar praquilo que você falou no início. Claro que você tem essa opinião. Se pensando dessa forma, na hora da eleição, você diz “eu não quero saber de votar”

(interrompendo)

AB: Eu não quero saber da hora da eleição. A única alternativa pro Brasil é não saber da hora da eleição. A única alternativa pro Brasil é ignorar a hora da eleição. Eu não quero saber quem é candidato. Eu voto no meu. Eu sou só uma pessoa, um indivíduo. Não voto pra presidente, porque não quero! Não voto pra senador! Não voto pra deputado federal, mando todo mundo tomar dentro e é assim que eu vou agir. Que a minha consciência, nesse momento, está me mandando agir assim!

MB: Mas como vai ser se a gente não conseguir botar lá as pessoas nas quais a gente acredita?

AB: Não sei! Não sei! Eu já botei as pessoas em quem eu acreditava antes. Não quero saber disso. Isso não é problema meu. Eu já fiz isso antes e não vou fazer de novo.

MB: Mas você ainda acha que mesmo assim ainda não tem ninguém…

AB: Não sei! Não sei! Eu tenho sessenta anos e tô votando com o máximo do meu coração e da minha consciência em Vladimir Palmeira pra governador do Estado e em mais ninguém. É isso que eu posso fazer!

Aldir Blanc
EG: Tá. Vamos deixar a política de lado um bocado. Você recentemente deu uma entrevista dizendo que nada te é mais caro do que o anonimato.

AB: É verdade.

EG: Você é um cara tímido?

AB: Não, eu não sou um cara tímido. Eu sou um cara até bastante agressivo em relação às pessoas que me cercam. Eu quando eu saio, eu saio pra valer. Mas eu acho que a consagração do compositor popular, que é o que eu sou, que é o que eu quero ser, tudo em volta disso é o que eu ganhei a mais, é a hora em que o sujeito canta (cantando) “Tá lá o corpo estendido no chão…”, e o cara não sabe que é você, ou uma vez que eu tava na gafieira, e o cara disse, na hora em que tocou “Dois Pra Lá Dois Pra Cá”, “vou dançar que essa é a minha música”, e eu tenho certeza que ele não sabia que era eu, ou o cara que vem batucando (assobia “Kid Cavaquinho)… E que se dane. Eu acho que essa é a essência do compositor popular. Compositor popular que não sonha com o anonimato é uma besta.

EG: E você é um compositor popular consagrado, né?

AB: É. Em termos… (constrangido)

EG: Pô! Nesses termos! As tuas canções são cantadas a torto e a direito… Tua obra, então, é consagrada!

AB: Consagrada por pessoas que não sabem quem eu sou, ignoram quem eu sou, prezam a obra, que cantam até em momentos de sufoco, de tristeza, de dor, de dar a mão um pro outro, e cantar… Essa é a consagração do compositor popular.

EG: Aldir, outro dia eu assisti uma entrevista do Otto Lara Resende com o Nelson Rodrigues.

MB: Caraca! Que beleza que deve ser esse video!

EG: Fabuloso! Na verdade o Otto começa dizendo que vai fazer uma entrevista sobre o livro do Nelson e falam de tudo, menos do livro!

AB: Eu vi, eu vi! Menos do livro, é!

EG: Eles se sacaneiam, se espetam o tempo inteiro! E ele faz uma pergunta pro Nelson, a certa altura, que eu queria te fazer. O Otto pergunta ao Nelson qual a última frase que diria, a última declaração que faria, e o Nelson diz: “Marx é uma besta!”.

(todo mundo ri)

EG: Se você tivesse que antecipar sua última frase, seria qual?

AB: Bom… Eu não quero plagiar o Alfred Jarry, e pedir um palito, que é uma frase que eu prezo muito. Não sei se vocês sabem que o autor de “D´Ubu Roi”, o Alfred Jarry, no momento de morrer pediu um palito. Mas eu diria… “Tem algum neto meu aqui?”. Com certeza seria isso que eu perguntaria, mesmo desvairado, mesmo olhando em volta. “Tô perto de algum neto pra que possa estender a mão?”. Eu sou um cara essencialmente ligado a valores familiares nesse sentido, com certeza.

EG: Quando você compõe, você compõe pra quem?

AB: Eu não tenho nada desse troço que rola aí que o sujeito, o artista, cria pra si mesmo e tal. Eu não tenho nada a ver com isso. Eu crio pra uma síntese, assim, que tem a ver com o que eu tô trazendo de conclusões íntimas, e com o que eu tento captar “o que é que eles tão pensando agora, hein?”, “pra onde eu posso caminhar que traduza um pouco a voz deles”, que sofrem tanto, né, cara? Sem demagogia alguma. Que sofrem tanto… Eu acho que eu tenho essa pretensão.

EG: Tem essa pretensão que é bem-sucedida, né? Grande Basile! (chega o Basile, beija o Aldir) Os seus parceiros mais constantes, e eu não vou fazer a pergunta idiota que todo mundo faz, sobre a tua história com o João… são João Bosco, Moacyr, Guinga, Jayminho…

AB: Jayminho, grande Vignoli…

EG: Pra mim é bastante visível três facetas, e se eu estiver errado você já me corrige. Com o Guinga você é quase que surrealista, grande delírios nas letras loucas, com o Moacyr você tem um troço carioca violentamente presente…

AB: É…

EG: … a coisa do dia-a-dia, do corriqueiro, da porradaria do casal, do botequim etc e com o João, com quem você tá retomando a parceria agora, tem uma marca clássica, capaz de dizer “É Bosco e Blanc!”. Na hora de compor, você se direciona pra isso ou não?

AB: Não. Não. Não porque em primeiro lugar são parceiros diferentes, né? E eu jamais penso naquilo que eu vou letrar. Eu deixo a letra bater, bater, bater, bater até eu sentir condições de fazer, a menos que tenha prazo, né? Ou coisa assim. Então, elas vêm de um momento muito particular meu, às vezes é na rua, às vezes eu tô, sabe?, dormindo e vem a letra e eu prefiro trabalhar assim. E em noventa por cento dos casos eu trabalho sempre, ao contrário do que as pessoas pensam, fazendo letra em cima de música. Nota por nota. Perseguindo nota por nota, botando sílaba por sílaba em cima de cada nota. Então é um troço complicado porque aí você tem também que considerar o que é que o cara gostaria de ouvir, né? Que é uma tarefa que eu considero meio complicada.

EG: E você é bem sucedido nela?

AB: Acho que sim, eu acho que sim. Eu tenho feito coisas e os parceiros sempre me abraçam, e a gente fica muito comovido com o resultado final. Eu acho que em muitos casos eu consegui dar voz ao parceiro que não faz letra.

EG: Então essa coisa que a gente escuta às vezes, “eu sempre componho pra Elis Regina cantar”, o Milton Nascimento disse isso certa vez…

AB: Nunca! Nunca! A menos que tenha ocorrido uma encomenda muito específica, e isso aconteceu raras vezes e nunca me ocorreu isso. A Elis Regina me procura pra dizer “Oi, tá bom? Gravei “Ela”! Tá contente?”, foi ela que me procurou, cara! E depois ela me liga e diz “Eu soube que você tá fazendo música com um cara novo aí…”… Eu nunca tive esse tipo de experiência, mesmo, cara!, sem nenhum tipo de banca, de nada, né? Nem pra Simone, nem pra Leila Pinheiro, todas as cantoras que eu prezo, modéstia à parte, as parcerias foram procuradas por elas.

Aldir Blanc
EG: Você fez 50 anos e escreveu “50 anos são bodas de sangue”. Você agora tá fazendo 60 e disse recentemente que tá muito mais triste, que tá envelhecendo e tá perdendo amigos…

AB: É terrível… Nos últimos meses, acho que foram, entre os que são conhecidos e os que não são, acho que foram seis. É um negócio que eu não sei nem dimensionar… É uma perda, uma sensação, terrível, né? E é claro que tem hora que você se identifica com as pessoas que foram, né? É muito complicado, bastante complicado.

EG: Mas isso não te desanima a continuar caminhando…?

(interrompendo)

AB: De forma nenhuma, de forma nenhuma. Até por eles! Pô, quando você tem um … (rindo)… Você tá caminhando, né?, em direção a uma fronteira que não é a sua, e tiro tá disparando de lá pra cá, e caem as pessoas em volta… Ou você se acovarda ou continua, né? Então… e eu sou um cara bom de chinfra nisso, eu vou até o fim e não tenho o menor medo de cair, de nada disso… Eu tenho alguns medos particulares que são meus, que são assim… Como vão ficar meus filhos e meus netos, e tal, essas são as coisas que me ocorrem. Agora… Caminhar pra combater, pra continuar combatendo, não tenho medo nenhum, não tenho medo nenhum. Não tenho medo de morrer, absolutamente nenhum. Eu só não quero é ficar em tubos e comadres e coisas assim… Morrer eu acho mole. Como médico, né?, o difícil é você passar por aquele inferno lá, se a agonia se prolonga.

EG: Então eu imagino que você perdendo os amigos, como você disse que vem perdendo, você vá vendo o seu, digamos, exército, que você escolheu ao longo da vida se reduzindo, não é isso?

AB: Isso.

EG: Você tem perspectiva de que haja pessoas capazes de segurar essa herança, essa herança da tua geração?

AB: Claro que sim! Claro que sim! Eu tenho provas disso quase todo dia. Eu converso muito com pessoas mais novas e dou entrevistas, e sinto uma vontade enorme de… Claro que há uma dose imensa de ingenuidade, mas acho que isso é inevitável, né, cara?, vai aprender na porrada. Mas as pessoas tão aí, com certeza tão aí e a peteca não vai cair. Nessa geração, pelo menos, a peteca não vai cair, não.

EG: Não vai. Mas aí eu vou voltar pra uma pergunta que eu fiz pra você sobre a imprensa. A peteca não vai cair, as pessoas estão aí pra lutar. E os canais pra elas se manifestarem? O que é que você acha que é viável daqui pra frente, a gente vendo a imprensa se fechando num troço que o Biondi, o Veríssimo, chamavam de pensamento único? Quer dizer, essas pessoas cada vez menos têm voz…

AB: É, eu acho que hoje existe um troço lamentável na imprensa, né?, que é o censor interno, né? Aquele sujeito disfarçado de ombudsman que passa, de uma forma meio sorrateira, censurando textos… Isso tem a ver, sempre tem a ver, com patrocínio, que é uma coisa triste mas que tem a ver com patrocínio. Eu lembro quando eu saí do O DIA, que eu prezava muito a coluna lá, o Bumbum-Garoto e Rosinha Gigoga pedem a minha cabeça lá por um artigo muito agressivo em relação ao Garotinho, né? Agora tô no JB, passo por uma ou outra circunstância desse tipo mas… A minha política é a seguinte: eu escrevo meus textos. Se tiverem que censurar, censuram lá dentro, que eu vou continuar a escrever os meus textos até a hora em que alguém vai ter que fazer um movimento pra me demitir, né? E aí eu vou, de novo, denunciar o que ocorreu, e vou lutar mais uma vez e vou tentar ir pra outro jornal. E acho que isso é um destino inevitável.

EG: Aldir, hoje a internet, com essa coisa dos blogs… Você veja esse teu caso recente, com a carta resposta que você mandou pro ACM. Em questão de dias, semanas…

AB: Foi, foi, foi inacreditável!

EG: … foi uma enxurrada de…

AB: Enxurrada, foi…

EG: … adesões, né?

AB: Ele mesmo mandou uma mensagem dizendo “já esqueci e não vamos continuar com isso”.

EG: O ACM?

AB: Foi.

EG: Mandou pra você?

AB: Não. Mandou pra alguém que perguntou num desses blogs, o que é que ele pretendia fazer e ele disse “não tenho a menor intenção de continuar com isso, foi um pequeno episódio”, e tal, minimizou, né? Mas achei ótimo porque é assim: o cara bate, e você peita ele e depois o cara tira o time. Acho que é assim que tem que funcionar. Ele tem um poder imenso e eu não sou ninguém, e de repente ele pula.

EG: Você sabe que agora teve uma história parecida com essa tua com o ACM… O Sarney foi alvo de um desenho, uma charge, num outdoor, que dizia “XÔ, SARNEY”. E uma moça foi e publicou aquilo num blog. O Sarney entrou na Justiça e conseguiu cassar o blog da cidadã. E aí no dia seguinte, Aldir, o troço tava em mais de cinco mil blogs no Brasil inteiro.

AB: É, é importante demais.

EG: Então… é um puta veículo hoje…

AB: É um outro mundo… É um outro mundo que eu não sei dimensionar. Eu, por exemplo, eu particularmente lido mal com computador, mas é um mundo tão diferente, é de tal forma novo e… porra… Já aconteceu antes… Pessoas tinham medo de ditaduras caírem antes do fax… No tempo do fax, né?, não era internet… O fax saía e o cara se borrava de medo, né? Então essa comunicação é essencial pra liberdade. Eu acho que nós temos que ter computador na África, na Ásia, na China, não sei aonde… Quanto mais melhor.

EG: É, é um meio violento, né? Quase que revolucionário…

AB: Eu quero dizer o seguinte: por mais monstruosidades que o computador eventualmente perpetre, os ganhos com ele são infinitamente maiores. Tenho certeza disso.

EG: Existe hoje, na internet, num troço chamado ORKUT, sabe, né?, uma comunidade tua, que a Mariana comanda, e as pessoas pedem muito um site teu, que reunirá toda tua obra, por exemplo. É um negócio que você tem vontade de fazer?

AB: Olha… Eu sou um cara feito esses jornalistas turrões, entendeu? Assim que eu for mandado embora de novo, (rindo), eu faço o meu site

EG: Aldir, você vai morrer brigando!?

AB: Vou morrer brigando. A minha política é morrer atirando!

EG: E isso você aprendeu no Estácio?

AB: Não…

EG: Tem uma história tua que eu escutei uma vez, de uma cabeçada…

(Aldir ri)

AB: É… Mas eu acho que isso é muito meu. Meu pai é um cara pacífico, os avôs eram figuras muito engraçadas… Um cara podia dar uma porrada na mesa e dar até um tiro pro alto num almoço… Mas esse troço turrão, maluco, e tal, eu acho que isso é meu mesmo. Um cromossomo Y que existe nisso… Sou eu!

EG: Não tem, então, a ver com o lugar onde você foi criado?

AB: Não tem, não. Eu sou assim mesmo… Eu sou encrenqueiro mesmo… Com certeza, e jamais me rendo, jamais me curvo, jamais nêgo vai me humilhar, de forma nenhuma!

Aldir Blanc
EG: Vamos mudar de novo o assunto… Vou pedir mais uísque pra nós, tá? Vamos falar de futebol?

AB: Pra caralho!

EG: O futebol também passa por um momento de merda, como passa a imprensa, como passa a política. Você é Vasco pra caralho…

AB: … pra caralho…

EG: … tá escrevendo um livro que recentemente você disse, maravilhosamente, aliás, que vai ser um libelo..

AB e AG (ao mesmo tempo): … contra o Eurico Miranda…

EG: … e eu vinha comentando há pouco com o Marquinho que o Kleber Leite fez, hoje, com o Zico, a mesma coisa que o Eurico fez com o Roberto Dinamite, botou ele pra fora da Gávea…

AB: Faço idéia…

EG: … porque ele disse uma verdade, que o Flamengo hoje tá na mão de um único empresário, o Eduardo Uran, que quase foi linchado no jogo passado…

AB: Tudo aquilo que a gente já conversou antes, né? Jetons, jetons intermináveis, né? Jetons capazes de mudar um time inteiro… A gente já conversou sobre isso, né?

EG: Você consegue ver alguma saída pro futebol? O futebol voltar, não àquele romantismo, ao amadorismo que nós chegamos a ver… Mas é possível o Vasco retomar a história dele, o Flamengo a dele, o futebol brasileiro retomar a história dele?

AB: É possível tirar aquele vagabundo lá do Corinthians, que queria entrar no Flamengo. E é possível que o Roberto Dinamite faça uma coisa boa no Vasco, assim como o Zico faça uma coisa decente no Flamengo… Eu acho que é possível, sim.

EG: Acha? Porque eu tenho um medo do caralho que é o seguinte: a decepção que a gente teve com o Lula no governo talvez seja a mesma que a gente vá ter com o Zico no Flamengo ou com o Roberto no Vasco. Porque os times estão na mão dos patrocinadores.

AB: É possível…

EG: Né? E hoje você tem jogadores que jogam bem uma, duas partidas, já são vendidos. E o clube, pra compensar, compra um, dois merdas. Diante disso, você acha que o Eurico, saindo do Vasco, vai significar o começo de uma nova história?

AB: Ah, tem, tem… Olha… Eu não conheço bem a história do Flamengo, do Fluminense. Mas se o Vasco encerra o ciclo do Eurico, tudo o que vem a partir dele, se for Roberto Dinamite, se for um outro…

EG: … o Fernandão…

AB: … é, o Fernandão… tudo que vier de lá, certamente vai implicar numa limpeza imensa, numa confusão tremenda, num aspirador de lama que não tem tamanho, e eu tenho muita esperança nisso em relação ao Vasco. O que eu acho de diferença em relação ao Vasco e o Flamengo é o seguinte: é que a gente se acostumou a pensar no Vasco como um tirano, e é verdade, que domina o clube inteiro. E não pensa no Flamengo dessa forma. Pensa no Flamengo como uma nação democrática, em que as pessoas votam…

EG: O que é mentira!

AB: E você sabe que isso é mentira né?. O Flamengo é dominado pelos mesmos caras, pelos mesmos sujeitos que levam jeton, pelas mesmas pessoas que pegam o mesmo dinheiro, e há muitos anos elas pegam esse dinheiro… Cifras faraônicas, cifras de chocar alguém por dirigir o infantil do cu da perua… É um negócio…

EG: Mas o Flamengo vive um momento muito pior que o Vasco, que o Vasco tem uma oposição…

(interrompendo)

AB: Não tem! Não tem! A bem da verdade não tem.

EG: Pô, mas tem uma oposição…

AB: É, mas ela é muito virtual… E o Flamengo aparenta votar, jogar coisas na vidraça, mas é tudo mentira. O Flamengo, o Vasco, um pouco o Fluminense, menos, acredito eu, o Botafogo, vivem momentos de intensa corrupção, entendeu? De intensa corrupção, assim como os times de São Paulo, do Rio Grande do Sul, como no Paraná, em Minas, e isso é muito difícil de você alterar. Até porque o cúmplice dessa estrutura é a CBF… Então…

EG: Que é a sócia maior da FIFA…

AB: É… Terrível, né?

Aldir Blanc com Patrícia, Mariana e Dani
EG: Aldir… falamos de política, falamos de música, falamos de futebol… Vamos falar de carnaval, que também passou e passa por esse mesmo movimento, o que faz a gente perceber que tudo converge pra essa merda do patrocínio. Você é salgueirense.

AB: Salgueiro.

EG: Compositor… Eu estive na quadra quando você recebeu a carteira de compositor da escola…

AB: Mas não sou… Foi uma homenagem. Por questões de princípio eu não sou filiado a escola alguma, não sou compositor de escola alguma, sempre fiz questão de manter minha independência até pra poder criticar.

EG: Mas o carnaval é uma coisa que também não vai voltar ao molde que tinha.

AB: Não tem volta, não há como voltar.

EG: As escolas – escolas mesmo – praticamente terminaram. Os compositores das escolas, os compositores de samba de quadra, isso tá terminando, não tá?

AB: Não sei… Não sei porque aí é mais complicado, porque os sambistas não são a escola, né? Eles vão, voltam, freqüentam, compõem, e eles têm uma força tão grande de renovar… Eu lembro a você um momento, vou lembrar um momento: o samba ficou tão mal, num momento, que ele voltou pro fundo de quintal e gerou até o nome do conjunto, né?, e ele veio com força total, rapaz!, a partir dali, trazendo o grande Zeca Pagodinho, né? Então eu acho que não há nada perdido, não existe nada perdido. Quanto ao patrocínio, quanto a quem paga o quê, eu não me meto muito nisso, não, cara. As escolas são o que são. Eu gostaria que a coisa fosse diferente mas também não quero voltar ao adereço de mão e… (ri)… à sandalinha, entendeu? Mudou demais. Não há como…

EG: Você tá sempre na avenida, né?

AB: Às vezes, eu tenho ido ver, fico muito comovido…

EG: E ver o Salgueiro é uma coisa que mexe contigo?

AB: Fico muito comovido, muito comovido, é uma coisa quase insuportável. Mesmo com todas as confusões, quem matou quem… Aquilo é a minha escola. Eu vou chorar toda vez que ela passa.

EG: Isso é uma coisa impressionante… Minha mãe, que você conhece, e eu sou salgueirense por causa dela, minha mãe morava na descida do morro do Salgueiro, e a babá dela era baiana do Salgueiro. Por isso é que ela tem uma relação doente com a escola. E até hoje, e Dani é testemunha disso, até hoje a gente costuma assistir o desfile juntos, e minha mãe chora violentamente quando o Salgueiro entra na avenida…

AB: É?

EG: Porque é uma coisa que mexe com ela de uma maneira que é quase que indescritível.

AB: É difícil você definir isso pra caramba! Eu, por exemplo… Você quer ter um exemplo absurdo? Eu desfilei uma vez na comissão de frente da Mocidade, numa homenagem a Elis; eu fui bicampeão da Mangueira numa homenagem a poetas, em que se falava do Carlos Drummond, e eu tava na comissão de frente. Eu queria ir! Eu fui convidado e me senti honrado. Eu nunca tinha passado por isso. Quando eu saí no Salgueiro, agora que o Salgueiro fez cinqüenta anos, nós não fomos sequer classificados. Não mudou nada pra mim, cara! Fiquei intensamente comovido em cima do carro, cantei e saí rouco, de ser abanado no final…

EG: A disputa é uma grande besteira…

AB: Uma besteira enorme… uma besteira enorme!

EG: O grande barato é desfilar e ver o escola…

AB: O desfile, a escola, o seu coração ali… É mais ou menos como futebol. Eu sou Vasco, eu não gosto do Eurico, eu sou Salgueiro, posso discordar da diretoria. Mas eu não vou mudar! Eu sou Vasco, sou Salgueiro, como sou Bafo da Onça!!! Que eu nem sei sequer se existe…

(Aldir gargalha)

EG: Do Catumbi… Você freqüentava a quadra lá de cima do Salgueiro, né?

AB: Calça Larga…

EG: Você chegou a ter contato com os compositores da escola?

AB: Nenhum. Eu cheguei a disputar um pernil lá, bebendo, quase ganhamos…

EG: E você atribui o seu amor, que é o imenso, pelo Salgueiro, a quê? Memória… é o quê?

AB: Olha…pra tu ter idéia, isso não tem muita explicação, não… Porque eu nasci no Estácio. Fui pra Vila Isabel. Voltei pro Estácio, né? Passei um tempinho no Largo da Segunda-Feira… Acho que foi um primo meu, que me levou pra subir a Calça Larga e eu fiquei apaixonado, nesse intervalo, eu fiquei louco pela escola. Eu poderia ser Vila Isabel ou Estácio: não sou! Assim como você é filho de vascaíno e é Flamengo. Isso não tem explicação, cara! É um negócio, é uma paixão, é uma loucura e a gente não sabe explicar direito… E eu choro e entendo a sua mãe… Eu tô disfarçando em casa dizendo… (imitando a si mesmo!)… “Ah, eu hoje não vou nem ver, caralho!”… Mas passa e eu choro pra caralho e é uma merda! Com qualquer desfile. Choro muito, fico intensamente comovido e é uma confusão, cara… E ela tem que vir com o famoso abanador da Brahma e perco o fôlego… É minha escola, porra!, não tem que explicar… Ali tá o meu coração… Sabe? Meu coração tá no Vasco da Gama, pra viver ou morrer… E sou um torcedor, como meu pai era, crítico.

EG: Você freqüentou o Maracanã?

AB: Nunca mais. Até porque depois que a perna quebrou eu não tô qualificado a correr, né? Então eu prefiro ficar quietinho. Mas eu sofro muito, cara… Eu recebi um telefonema do Paulinho da Viola, que pode fechar a entrevista, que foi magnífico… “Depois que o Eurico trouxe aquelas três estátuas da Ilha de Páscoa pra ficarem parados na defesa…”

(Aldir ri muito, e chega a Dani)

Dani: Sabe tudo! Tudo!

(Dani beija o Aldir)

EG: Sabe tudo o quê?

D: Sabe tudo! Aldir sabe tudo!

AB: Ahhhhhh… Eu tenho uma história legal pra contar pra caramba, sobre o Zeca (Mello Menezes), que eu acho linda. Uma vez a gente tava bebendo e o Zeca disse assim: “As mulheres vão ser sempre superiores…”.

(Dani ri)

AB: E eu, né, cara?, naquele movimento, desvio a cara do copo, que o cara que tá bebendo pressente o momento da asneira, né?, mas da asneira clássica, aquela que vai entrar pra antologia (Dani gargalha)… “Mas por que?”… E ele fala: “Trompas”. E eu: “Hein?”. “Trompas, nós não temos trompas…”… (Aldir aponta pros ouvidos)… “Mas nós temos, ó!”. E ele: “Essas não! Eu me refiro àquelas que se ligam ao útero, que se ligam à matriz… Trompas. É a coisa mais bonita que tem, é você já de madrugada, quatro e meia, um troço desses, vem uma moça já um pouco prejudicada e já bebeu, e você tenta conversar com ela, e ela… ai, eu tô com problemas…” (Dani não pára de rir)… E continua o Zeca: “E não há nada mais bonito que isso, e eu tenho um sonho…”. E eu: “Conta pra nós…”. E ele: “Um dia eu vou fazer uma mulher gozar tanto que quando eu encostar a orelha na barriga dela, as trompas dela vão tocar o Hino Nacional”

(todos três gargalham violentamente)

EG: Grande Mello!

AB: Mello Menezes! É lindo, né?

EG: Desde quando você conhece o Mello?

AB: Ih! Eu tinha dezessete anos, cara! Tu não conhece esse começo?

EG: Conta! Conta!

AB: Eu passei de bicicleta…

EG: Em Paquetá…

AB: É… Aí o cara tava na parede encostado assim, com as pernas cruzadas, com uma flauta, fazendo assim… (cantarola a introdução de “Ponteio”)… Ele tava fazendo isso… Aí eu parei a bicicleta e disse: “Ué… tu quer ir a uma seresta?” Porque havia uma rivalidade, entendeu? Quem ficava lá pro lado da Imbuca não se dava com quem ficava pro lado de cá, nos Coqueiros…

D: Tipo Volta Redonda e Barra Mansa…

AB: Aí eu paro a bicicleta e digo: “Porra, um troço do caralho…” E ele fala: “Pô, claro que eu vou…”. E eu: “Você quer ir a uma seresta nos Coqueiros hoje?”, e ele, “Claro que eu vou!” e eu “Leva a flauta!”. E aí ele leva a porra da flauta.

(Mari, que chega, ri)

AB: Bom… o que aconteceu foi o seguinte, cara… Uma, duas, três, quatro músicas… Aí alguém disse: “Nós trouxemos, hoje, um flautista emérito, Mello Menezes, que vai nos acompanhar em ´Ponteio´”. E era o Silvinho! (Sílvio da Silva Jr.) (imita o violão e a flauta) Aí entra: “Era um, era dois, era cem…” (imita a flauta) Aí eu notei que havia alguma merda errada ali, né? Mas o melhor, Dani…

D: Fala, querido!

AB: Próxima música! Alguma moça diz assim: (imita a voz da moça) “Ah, toca ´Minha Namorada´”. Aí o sujeito faz um acorde enorme e diz: “Não há amor sozinho… (cantando)”… E o que é que aconteceu, cara? (imita a introdução de “Ponteio” na flauta) Ele só sabia essa merda, cara!

(Aldir gargalha)

AB: Cara! Na quarta vez pintou: “Vamos cantar blues!” E aí entram (cantando): “They say, ruby you’re like a flame…” (volta a imitar a flauta com a introdução de “Ponteio”)… Aí nêgo quase linchou ele, quis jogar ele na água e foi assim…

D: E foi assim que você conheceu o Mello?

AB: Foi. Maravilhoso.

D: Essa pessoa estranha e maravilhosa…

(Aldir gargalha)

EG: É o maior maluco que você conhece, né?

AB: É. Eu posso te contar até a tua fita acabar e vocês vão ficar em estado de choque. Vão ficar em estado de choque. Uma vez, essa vocês não sabem… Uma vez ele foi a uma feira dessas, de arte, e conheceu uma japonesa. E ele ficou completamente apaixonado. E dois dias depois ele voltou pra encontrar a japonesa e ajeitou a banqueta e ficou em frente… Que ele faz gênero, né, cara? Ninguém faz mais isso, mas ele faz. (imita o Mello admirando a japonesa desenhando na banqueta). E a japonesa: “Que é, porra?” E ele olhando, olhando, e isso ficou rolando, rolando, até que na quinta vez que ele fez essa merda, a japonesa, exausta, disse:

(todo mundo ri)

AB: “O que é que você quer, hein, caralho?” E ele (imitando o Mello): “Quero levar você no Capela…”. Bom, ele conseguiu sair com a japonesa. Mas passou antes num bar, bebeu pra caralho, encheu os cornos, mesmo!, no bar, bebeu chope e disse que ela era linda e dizia “esses olhos… eu sei o que é que vai me aguardar, bilubilubilu no corrimão”, fez todas as merdas imaginárias… Aí foi pro Capela. E disse: “Daqui nós vamos subir lá pra minha casa, lá em Santa Teresa… E como eu vou te dar um trato lá em cima, e tu nunca mais vai esquecer… (imitando o Mello)… Cícero! Cícero! (chamando o garçom do Capela)… Filé e molho de espinafre!“… Cara… a japonesa levantou ele com a cara dentro do molho de espinafre, no Capela, assim… (imita) Escornado… e ela fez assim: “Ei…”. Levantou ele pelo cabelo, espinafre em tudo… E ele: “Oi…”, e ela: “Porra, tu caiu…”. De repente, cara, ele: “Eu? Caralho! Porra!”. Foi lá lavar a cara. Lavou a cara, se preparou todo, sentou em frente a ela, naquelas posições que já não fazem sentido (imita o Mello cruzando as pernas)… E disse: “Vamos lá pra minha casa, lá em Santa Teresa…”. Bom, foram, cara. Aí ele foi com a japonesa, a japonesa tirou a roupa toda e ele deitou em cima da japonesa e teve a maior vontade de fazer cocô e disse pra japonesa: “Você esperaria um pouco que eu vou buscar o Proseco?”.

(gargalhada geral)

AB: Eu nunca mais vou esquecer o que é que é buscar o Proseco! Bom… Foi pro banheiro da empregada, chegou no banheiro da empregada, ficou nu, puto com o mundo e tal… Sentou no vaso e (imitando Mello dormindo)… Quando eram mais ou menos oito e dez, a japonesa, que procurava ele pela casa inteira entrou no banheiro de empregada e disse: “Oi… Será que daria pra você chamar um táxi…”.

(todos riem muito)

Aldir Blanc
EG: Aldir, pra fechar! Você sempre foi um cara de botequim, né?

AB: De pé-sujo! Não freqüento restaurante, não gosto de nada…

EG: O Rio hoje, e eu não sei se você acompanha esses troços, tem um movimento, que a imprensa vem adulando, que é o crescimento dos “pés-sujos fashion”, ou os “botecos grifados”, que é um troço que vem tentando transformar o buteco pé-sujo numa coisa pré-fabricada, moldada… Na mesma medida em que esses lugares não param de crescer…

AB: Proliferam, né?

EG: … os botequins vão morrendo!

AB: É…

EG: … por que, até mesmo as políticas de postura jogam contra… proíbem os paliteiros, proíbem os saleiros…

AB: Acabei de escrever um artigo, cara, tem vinte e quatro horas que eu escrevi um artigo… Não me interessa a cozinha, não me interessa a decoração, a limpeza, não me interessa merda nenhuma, cara, botequim é o papo, botequim é o papo… Se eu tenho os meus caras, e se a gente conversa, esse é o meu botequim. Se não tem conversa, não tem botequim.

EG: Mas aí é que tá a questão! O grande papo, no final das contas, está nesse pé-sujo! É no pé-sujo que se reúne a corja, né?, a nossa tribo, onde está o papo, o jogador, tem a porrinha, tem o cara do cavalo, esses caras tão nesses lugares que tão morrendo…

AB: Tão morrendo…

EG: … tão sumindo, porque vão crescendo esses bares, né?

AB: … os mauricinhos… Os limpinhos, os pés-limpos…

EG: O que é que você mais ama, ou amava, no Rio, que você vê que tá desaparecendo?

AB: Com certeza, botequim e papo. O Ivan Lessa tem uma grande frase, cara, uma frase inesquecível: “Papo é civilização”. Toda vez que a gente conversar, ninguém joga bomba… É uma frase que eu amo muito. E no botequim tem isso… Você deve lembrar uma época, aqui, que o Maurinho Judeu, que tinha esse apelido, não sou eu que tô botando, conversava com o Alemão, e eles faziam piadas completamente alopradas sobre campo de concentração que é um negócio absurdo, mas eles faziam isso! Isso não é culpa minha! Depois eles dois sumiram, né? Mas eu acho que o essencial, rapaz, é conversar, entendeu? No botequim não interessa o tira-gosto, o Bar da Maria foi consagrado sem ter um único pedaço de queijo pra vender, até porque são uns idiotas, entendeu? E outros tantos, né? O que interessava eram as pessoas que você encontrava pra falar, falar, falar, falar… Depois podia vir o queijo, não vir… O que você estiver bebendo é essencial, tem que estar gelado… Tem que ter limão…

EG: Você tem o seu buteco de fé?

AB: Eu gosto do Momo. O Momo é pé-sujo, cara, mas o Momo tem o seguinte: o Momo serve feijoada, rabada, mocotó, não sei o quê, tudo direitinho. Você pede a cerveja, ela tá gelada. Você vai ao balcão e toma um limão impecável, cara. Hoje é, sem dúvida, é o meu buteco. Aquilo lá é… E digo-lhe mais! Os garçons te tratam como pessoas da família, né? O Tonhão é meu irmão, ele é filho do meu pai, aquilo não existe, cara… Aquilo acabou faz tempo…

EG: Aldir, pra fechar mesmo! Você falou do Maurinho Judeu e do Alemão e me lembrou um troço que eu conversei com o Fausto no Bar Brasil e ele falou uma frase hilariante sobre isso… O que é que você acha dessa merda de papo politicamente correto, que te impede de falar Maurinho Judeu, Alemão, sem ser tolhido…

AB: O politicamente correto é a morte da criatividade e do botequim. É o que posso dizer.

EG: Tá bom!

AB: Se a gente for se guiar por aquilo que é politicamente correto, nós vamos morrer com certeza…

EG: Tá bom, querido. Obrigado!

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ENTREVISTA – FAUSTO WOLFF

No dia 19 de junho de 2004, um sábado, eu, Fernando Toledo, Gustavo Dumas e a Betinha passamos uma agradabilíssima tarde no Bar Brasil, na Lapa, na companhia do Fausto Wolff, para uma pequena entrevista com o Velho Lobo, que eu pretendia ter publicado aqui, no Buteco, desde então.

Hoje, 09 de agosto de 2006, mais de dois anos depois daquela agradabilíssima tarde, faz um ano, exatamente um ano, que o meu irmão Fernando Toledo mandou-se daqui deixando a gente com uma saudade doída, danada, que não cessa e que arde mais forte hoje.

E é em homenagem a ele, Fernando Toledo, orgulho da minha geração, amigo querido que faz uma falta que só ele sabe – tenho certeza de que o puto me lê – que eu publico hoje, na íntegra (ô, trabalhão que deu!), a tal entrevista, com todos os detalhes, e agradeço de público, de pé no balcão do Buteco, ao Marcelo Moutinho e ao Cesar Tartaglia pelas dicas e pelas manhas com relação à transcrição de uma entrevista gravada.

Ergo o copo, também, com um especial carinho no rosto da minha querida Áurea Santos, a quem ofereço, milagres da tecnologia, a voz do meu irmão, que ainda ecoa em cada buteco vagabundo dessa cidade que ele tanto ama, e a gente fica aqui, “chogando p´ga cagalho”, com saudade, onde tudo o que amei sobrevive.

E eu falei no presente de propósito.

Fernando Toledo: Dr. Fausto Wolff, bem… é… o que você acha do jornalismo feito hoje pelos nossos colegas mais jovens?

Fausto Wolff: Eu acho que é um jornalismo de merda. Acho que é um jornalismo de merda porque ele não leva o povo em consideração. Porque ele faz um jornalismo imparcial. Eu sou um jornalista parcial. Entre o bancário e o banqueiro eu vou escrever sempre a favor do bancário.

Eduardo Goldenberg: Deixa eu fazer uma pergunta que eu não sei se vai ser complicado pra responder… Você, quando o Roberto Marinho morreu, foi a única voz na imprensa brasileira que não o bajulou, não o transformou num, num anjo, num homem que foi capaz de fazer benesses pelo País, e fechou o teu artigo dizendo, pedindo desculpa, a todos esses que vinham dizendo que ele era um grande jornalista, dizendo que você era um grande jornalista. Quem é que você hoje, no Brasil, na grande imprensa, escrita, jornal, ou revista, pode considerar seu colega, jornalista também?

FW: Jânio de Freitas, Millôr Fernandes, Carlos Heitor Cony, Veríssimo, os irmãos Caruso, Angeli, é… Glauco, Nani, enfim, a grande, grande maioria são cartunistas, o que também é mais fácil porque o poder perdoa o que vem em chave de humor, e quando você mostra, por exemplo, um… um pitbull como se ele fosse um poodle de divã, todo mundo acha graça, mas o pittbull não deixa de ser um pitbull. Então você pode fazer gracinha com o Delfim Neto, você pode fazer gracinha com o Antônio Carlos Magalhães, você pode fazer gracinha com o Sarney, você pode fazer gracinha com o Barbalho, mas eles continuam sendo os mesmos genocidas de sempre. E olha que eu falei a palavra genocida!

FT: O Millôr falou uma vez que, que imprensa é de oposição, o resto é armazém de secos e molhados. Essa imprensa bunda mole que ´cê tá vendo por aí… A que você atribuiria esse fato dela simplesmente seguir a corrente e não mostrar a bunda do rei?

FW: Não entendi a pergunta!

FT: Bem… Hoje tem uma pequena praga que é a imprensa a favor. Você vê que, é… revista como a Caros Amigos e tal e outras afins hoje estão perdidas porque elas não conseguem ser exatamente uma oposição a um governo que teoricamente seria de esquerda. Né? Por que ela age assim?

FW: Há uma diferença fundamental entre o rebelde e o revolucionário. O revolucionário sabe que o poder corrompe sempre, o revolucionário sabe que o capitalismo é um sistema selvagem sim, o revolucionário sabe que ele não pode abrir a guarda. O rebelde, ele só é rebelde até ser convidado à mesa do poder. Eu conheci vários rebeldes durante os meus cinqüenta anos de jornalismo; estão todos n´O Globo hoje, e eu ensinei eles a escrever.

EG: Ô, Fausto, você dentro dessa perspectiva de que o revolucionário ao sentar na mesa do poder deixa de ser um revolucionário…

Roberta Oliveira: Rebelde!

EG: É, rebelde! Consegue enxergar hoje, dentro de um quadro de decepção que eu posso dizer que a gente tá vivendo, e você tem manifestado isso o tempo inteiro, consegue enxergar alguma nova liderança ou algum novo caminho que possa efetivamente fazer as mudanças que todo mundo que votou no governo, hoje, gostaria que fossem realizadas?

FW: Com um pé atrás, levo muita fé no Movimento dos Sem-Terra. Gostaria, já disse pra eles isso várias vezes, que me convidassem, é claro, com despesas pagas, pra eu passar dois meses com eles e escrever um livro sobre esse movimento. Eu creio que é a única esperança que nós podemos ter. Porque hoje eu estava verificando, além de vocês e alguns poucos amigos, sobrou pouco do meu Rio de Janeiro. Eu reconheço a cidade mas não reconheço os habitantes. A maioria das pessoas tornou-se rude e não gentil. O carioca era por natureza gentil, cordato, cordial, prazeroso, sem ser puxa-saco. Hoje nós vemos as pessoas que não têm esperanças e não têm perspectivas e estão apenas aprisionadas a um emprego, e que te tratam mal porque sabem que não vão poder tomar um chope na esquina, porque esse chope vai representar um litro de leite a menos na casa deles. Essa é a herança que o militarismo passou pro neoliberalismo.

FT: Bem, é… Há uns anos atrás eu visitei um assentamento de sem-terra em Barra Mansa, parece pergunta de Jesus Chediak isso, né?… E uma coisa que eu achei muito interessante, e que é uma coisa que a esquerda brasileira geralmente não faz. Os caras têm um trabalho de… é… ideológico, desde a escola deles lá, que é muito boa, eu assisti uma aula, e tudo deles envolve a tomada de consciência e que eu acho que foi uma das falhas da esquerda durante anos e anos no Brasil. E eu gostaria de saber o que é que você, se você acha que… acerca dessa falha da esquerda… essa ruptura que a esquerda opera entre a massa que ela quer, é… instrumentalizar e ela mesma, a esquerda que se coloca num patamar acima dessa mesma massa.

FW: Em primeiro lugar eu acho que não há mais esquerda no Brasil, eu já falei isso. Tô depositando minhas esperanças no movimento dos trabalhadores sem-terra. Porque a esquerda no Brasil me parece hoje é um bando de rebeldes sem caráter e sem vergonha. Isso vale pro PPS… parece que é, parece partido de viado do Oscar Wilde, partido que não ousa dizer o seu nome… (Toledo rola de rir), tá entendo? E pro Partido Comunista Brasileiro que como é que ousa manchar esse nome – comunismo – enquanto luta na Câmara e no Senado pra não aumentarem o, o salário mínimo em vinte reais, ou quinze reais. Isso é uma vergonha, um nojo!

FT: É… Como você vai se sentir quando o Antônio Carlos Magalhães levantar o braço e dizer: eu consegui aumentar o salário mínimo que o Lula queria dar!!!!!

(todo mundo ri)

FW: Eu vou me sentir como sempre me senti, como… é… irritado com o fato de ser um homem de paz e não ter um revólver e não dar um tiro nos cornos.

(a mesa rola de rir)

EG: Ô, Fausto, você já escreveu várias vezes que um dos dias mais felizes da tua vida foi o dia da eleição do Lula, e isso aconteceu comigo também, com todos nós…

FT: Chorei que nem um…

EG: … estávamos, eu particularmente num churrasco onde a festa foi pra isso, todo mundo chorou muito, foi uma grande esperança. E você há pouco disse que não há mais esquerda no Brasil. Mas naquele dia nós acreditávamos que a esquerda tinha chegado ao poder. Aonde, quando e de que forma você acha que houve essa quebra de compromisso com a linha de pensamento da esquerda?

FW: Hoje eu fui obrigado, por causa do comportamento do governo, a julgar a coisa como um romancista e ir para o passado. Mal ou bem, antes do PT aparecer, nós tínhamos um partido comunista, tínhamos dois partidos comunistas. O PT apareceu como o PTB na época do Getúlio, para formar um partido trabalhista, nada contra uma vez que a… a… a…, o axioma era que o comunismo comia crianças e isso foi colocado durante tantos e tantos anos que era até compreensível que um pai de família fosse prum partido trabalhista e não prum partido comunista. Esse partido trabalhista já é cópia do partido trabalhista do Getúlio. Mas aí aparece onde Freud e Marx se encontram. Nós temos uns garotos, todos filhos de papai, com raras exceções, que com dezenove, vinte anos, decidem que são contra, que os pais são uns exploradores etc etc e que eles vão fazer a guerrilha, que vão fazer isso e vão fazer aquilo. Mas eles precisavam de um líder. E esse líder naturalmente, já que eram todos comunistas, só podia ser um operário. E eles encontraram esse operário e endeusaram esse operário, e viveram em função desse operário, e esse operário achou bom. E a coisa toda virou meio religiosa. Se não você não era do PT você não era ninguém. Se você não era do PT você era burro. Se você não era do PT havia alguma coisa de errado com você. Porque o Suplicy foi aquele príncipe que encontrou a verdade, eles todos encontraram a verdade no profeta que veio de Garanhuns, naquele rapaz que não tinha nada e que chegou a ser presidente do sindicato, e foi indo e foi indo e foi indo. E o povo acreditou. Esse babaca aqui não acreditou nunca porque eu nunca votei no Lula, sempre votei no Lula em segunda instância, votei num outro maluco que é o Brizola, mas que eu prefiro. Mas aí o Lula chegou ao poder. Eu achava impossível. E ele chegou. E ele chegou e ele chegou e disse… a primeira coisa que nós vamos fazer é mostrar a fome no Brasil. O Projeto Fome Zero. E levou um bando de ministros riquíssimos pra ver a fome… Olha aqui, ô, Sr., essa é a fome, esse é o Ministro, essa é a fome, esse é o Ministro, essa é a fome perebenta e esse é o Ministro… (a mesa rolando de rir) E foi a última vez que eles viram a fome. E no dia seguinte eu comecei a fazer, não campanha contra o Lula, mas apenas dizer que aquilo era uma demagogia barata, que eles eram uns incompetentes, que não tinham um programa e que o Lula era um Cabo Anselmo, coisa que eu acho.

FT: É… bem, eu queria mudar um pouco o enfoque, agora, e queria falar da tua obra literária…

FW: Mas não era pra ser uma mini-entrevista?

(Roberta ri)

FT: Mas tá aumentando a mini-entrevista… Olha só! Deixa o Eduardo falar mais uma coisinha aqui…

RO: Antes de mudar o foco!

EG: Antes de mudar o foco, e agora quase que matando uma curiosidade pessoal minha. Eu também sempre votei no Brizola, meu carro até hoje tem adesivos do Brizola…

FT: Inclusive ele é reconhecido na Vila Isabel por causa do carro!

RO: Por isso!

EG: Reconhecido, é verdade! E você sempre que menciona o Brizola, como um homem em quem você acreditou, acredita ainda, não sei, como o “homem do dedo podre”. Por que isso?

FW: Porque o Brizola não tinha a genialidade, não tem a genialidade do Getúlio, o Brizola é um caudilho. Mas o Brizola tinha um programa de alfabetização e de educação, e de transformar crianças em cidadãos: o CIEP. Eu muito mais que brizolista sempre fui “ciepista”. Porque eu imaginei que se você tem 500 escolas dessas, você tira… põe 1.000 crianças em cada escola, e essas crianças vão comer, vão ter noções de higiene do próprio corpo, essas crianças vão se tornar cidadãs, eu não quero mais nada. Se isso tivesse acontecido em 1986, quando o Moreira Franco tomou conta pra isso acabar… Esse Moreira “francamente” Moreira eu gostaria de dizer… É a única pessoa no mundo que eu conheço que não tem serventia alguma.

(a mesa vem abaixo de tanto que ri!)

FW: Só pra ficar registrado. Mas enfim, ele queria acabar com a criminalidade no, no Rio de Janeiro em seis meses, e entrou no, no lugar do Darcy (Ribeiro) que também não seria um grande governador, não, porque o Darcy não entendia disso, mas alguém faria alguma coisa. E eu desconfio que o Brizola já sabia disso e preferia o Darcy perdendo pra ele poder depois das cagadas do Moreira chegar bem. Enfim, o Brizola não é um intelectual naquilo que o intelectual tem de bom sentido, o Brizola jamais se disse comunista, acho que nunca leu Marx, eu acho que o sujeito que… Ele era mais ligado era ao Alberto Pasqualini que escreveu um livro chamado… é… (pensando)… “Bases e Proposições Para Uma Política Social”, ali é onde está todo o comunismo do PTB, e posteriormente o Brizola, como tem medo de intelectuais, como tem medo de pessoas que pensam, acabou se cercando de vigaristas. E é por isso que ele está onde está. Eu diria: um homem de bem, mas não é uma pessoa confiável.

FT: Uma pergunta rápida… Você falou que do Brizola ter medo de intelectuais. Porque que o brasileiro tem tanto preconceito em relação a quem pensa e a quem questiona, a quem se arrisca a raciocinar. E perguntar o “por que”… Porque na minha opinião a pergunta mais significante que o ser humano pode fazer é “por que?” Porque que o brasileiro tem tanto medo do “por que”?

FW: Porque o brasileiro é um povo como qualquer outro, com a diferença de ser um povo um pouco melhor, principalmente o povo aqui do Rio de Janeiro que tinha uma cultura. Mas a cultura lhe foi roubada, seu jornalismo foi roubado, sua cultura foi roubada, seu esporte foi roubado, sua música foi roubada, tudo, e ele está carente e continua. Por que é que tem medo de intelectuais? Quais são os intelectuais? Eu não vejo intelectuais. Eu vejo um bando de acadêmicos idiotas dizendo besteiras uns por outros e aparecerem na televisão dizendo coisas que o povo não entende.

FT: Isso cai numa questão do Stockman, do Ibsen…

FW: Você vai perguntar se eu conheço o Ibsen?

FT: Claro que não, porra! Lentilha garni! Lentilha garni! (pedindo o prato ao garçom) Por que é que todo Stockman se fode?

FW: Porque os “Stockman” da vida, eles… em vez de seguir um código eles preferem criar um código. Qual é o código do Stockman? Eu tenho que denunciar a podridão. Eu não consigo conviver com o cheiro da podridão. Talvez se eu conseguisse eu seria galã da Globo, eu seria produtor da TV Globo… E depois, depois escreveria artigos sobre a morte do…

FT: Roberto Marinho!

FW: Não! Daquele garoto que morreu em São Paulo… O primeiro a ser suicidado em São Paulo… Jornalista. Jornalista judeu, meu Deus do céu!

EG: Samuel Wainer!

FW: Não! Jornalista judeu! Foi suicidado em São Paulo!

EG: Herzog!

FW: Herzog!!!!! Aí depois de ter colaborado com o suicídio do Herzog eu escreveria artigos louvando o Herzog. Porque o que está se passando na imprensa brasileira é isso! Hoje O GLOBO está falando de todos os heróis de 64, 65, 66, 67, 68, como se ele não fosse responsável pela morte dessas pessoas. E só tem um puto nesse país que diz isso, que sou eu, porra!

FT: Bem, é… a gente pode falar de literatura agora? Eu observo – eu li todos os seus livros, você sabe muito bem disso – bem, é… que no início quando você começou a escrever, você tinha uma tendência até um pouco surrealista, quase que escrita automática, muito próxima do Henry Miller e que hoje você é mais sintético, você tenta dizer as coisas com menos palavras e com mais clareza. Você passou anos sem escrever ficção, década de 90, né? É… você pode explicar – eu como escritor gostaria de ouvir isso – como se dá esse mudança e como se dá esse amadurecimento estilístico?

(longo silêncio)

FW: É natural que todo o sujeito com 22 anos escreva com o subconsciente e tente mais ou menos domar aquilo que o seu consciente dita. Isso não é natural (ri) 50 anos depois.

FT: É, eu vejo isso, eu vejo poemas que você escreveu em mesa de bar, quando você tinha em torno de 50 anos, mais ou menos na época em que eu te conheci, um pouco mais derramados, prolongados, com 50 anos! Hoje você faz quase hai-kais em certos momentos, você tenta é… conduzir a coisa até o cerne da coisa, né? E com musicalidade na coisa. Como é que você consegue fazer esse troço?

FW: Eu decidi que eu ia escrever poesia a sério depois dos 60 anos, quando eu tivesse alguma coisa pra dizer.

(Fernando Toledo ri)

FW: Os outros poemas de mesa de bar foram poemas gentis, pra amigos. Se havia alguma qualidade nos poemas, que bom. Mas a idéia principal era lembrar uma data e louvar um amigo.

FT: Tinha uma pergunta pro Gustavo Dumas aqui, que é um grande amigo meu, que é escritor, poeta… Pergunte!

Gustavo Dumas: Bom, vou tentar fazer aqui uma provocação com o Fausto, com todo o respeito… Uma pergunta ligando a literatura a…

Fausto: Não faz não, eu me conheço, se a provocação for idiota eu vou ficar puto…

RO: Ah, faz, faz!

GD: Você me diz, você me diz… Tá bom! É o seguinte, você respondeu pro Fernando, essa mudança de… uma mudança até de postura estética, de consciência, que quando você tinha 22 anos você escrevia muito com o seu subconsciente, se foi isso que eu entendi, acho que foi essa a sua afirmação. E que depois com o passar do tempo, essa, essa… vai se adquirindo uma consciência literária. Eu queria retomar aquele assunto inicial, que era o assunto política. Será que a desculpa pra essa transformação do revolucionário pro rebelde, a desculpa dessa transformação não seria um suposto amadurecimento? E eu teria outra pergunta ainda sobre política. Você falou que a esperança partia do campo. Em relação à cidade… Como pensar a cidade como agente de transformação hoje? São duas perguntas, na verdade, diferentes.

FW: A pergunta se eu acho que o revolucionário que se transforma num rebelde não é uma demonstração de amadurecimento. Não. É uma demonstração de filho da puta. Esse não vale nada, esse quer grana, quer poder.

GD: A outra pergunta sobre… Sobre a questão da cidade, né? Porque a esperança no campo seria os sem-terra. E quanto à cidade? Qual seria a esperança na cidade?

FW: Não pode haver esperança nas cidades enquanto não houver uma reforma agrária e essa reforma agrária vai ter que ser sangrenta. E talvez nós possamos ganhar nas cidades, porque por mais pobres que morram, nós sempre vamos ser em número maior que latifundiários e seus filhos.

FT: O que você acha que dá pra esperar da arte brasileira, e da literatura em particular, hoje, é… em termos de participação da literatura não como um compartimento estanque em relação à sociedade, mas da literatura da arte em si como elemento transformador da sociedade? E eu acho que é uma boa pergunta pra terminar a entrevista.

FW: Nada.

(risos)

FT: Ótimo! Fechamos! Dia… 18 de junho…

RO: 19!

FT: 19 de junho de 2004, Bar Brasil, às três e meia da tarde… Robertinha… Essa menina linda de morrer vai fazer uma pergunta…

RO: Eu não tenho pergunta pra fazer… Por favor! Tchau! Tchau!

EG: Um dos livros do Fausto que mais me impressionou e eu até trouxe pra cá no último encontro que nós tivemos aqui, foi “Palestinos: judeus da terceira guerra mundial”. A situação que está hoje, com aquele muro construído, a opressão cada vez maior, o isolamento do Arafat de uma forma cada vez mais… daqui a pouco ele vai se tornar uma figura desprezível internacionalmente… Quais são as perspectivas que você vê para o conflito entre os palestinos e os israelenses? E o que é que você adquiriu naquela teu livro, naquela época daquele teu livro, que você verifica hoje como realidade?

FW: Olha, tudo o que eu escrevi no livro está acontecendo hoje. E tudo poderia ter sido evitado naquela época.

EG: E daqui pra frente, você vai acha que aquilo vai se transformar no quê?

FW: Daqui pra frente nós vamos ver uma mistura de… Freud… tá muito ligado a isso, né? Eu acho que o Sharon é louco, né?, como todas as pessoas que tem esse tipo de cargo, e eu acho que ele quer um Holocausto glorioso, eu acho que ele tá… há uma vergonha por parte do militarismo judeu por parte daquilo que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, ou seja, deles deixarem se matar daquela maneira. Então eles estão reagindo contra o inimigo errado. Os judeus em vez de transferirem, transferirem não!, em vez de continuarem com ódio dos alemães estão transferindo o ódio deles para os árabes.

FT: Você falou em “politicamente correto”… É, antes, primeiro eu queria fazer um preâmbulo. Você conhece um romance do Sinclair Lewis chamado “Nobre Senhor Kingsblood”?

FW: Conheço.

FT: Maravilhoso. Eu acho a melhor análise do racismo norte-americano. Quanto ao “politicamente correto”… Na verdade eu acho que essa imposição do “politicamente correto” acaba sendo uma espécie de racismo às avessas, porque… porra, eu não posso chegar pro Zózimo Bulbul e chamá-lo de “Afrão”, porra, porque ele é afro-brasileiro. O que você acha dessa imposição politicamente correta?

FW: Politicamente correto é coisa de viado reacionário.

FT: Concordo!

FW: Meus amigos vão continuar me chamando de Alemão, vão continuar me chamando de Gigante, vão continuar me chamando de Vara Pau, ta entendendo?. E eu quero continuar chamando meus amigos judeus, “fala, Jacó!”, e o crioulo, “fala, crioulo!” e assim por diante, porra! No momento em que você começar a colocar uma ordem na língua do povo, no linguajar do povo… essas coisas elas só podem e devem ser perseguidas quando elas vêm de cima pra baixo, quando são nazistas que fazem através dos meios de comunicação você odiar os judeus, você ta entendendo?, quando são os americanos dos anos 20 mostrando que os negros todos são palhaços, são idiotas etc. Qualquer coisa que saia do povo para o meio de comunicação é arte. Aquilo que vai do meio de comunicação pro povo é imposição de arte. Isso vale pra qualquer coisa.

FT: Exatamente… Olha… Uma coisa curiosa… Eu tenho passado por uma coisa semelhante… O samba, que é uma arte popular, é uma arte altamente complexa e altamente sofisticada, você concorda comigo, eu sei que você concorda, toda vez que eu, porra, o Zuza Homem de Mello, o Roberto Moura, a gente tenta pegar e teorizar sobre o samba nós somos taxados de elitistas em relação ao samba. Você acha que, porra, o samba não merece ser estudado, ser observado com a postura epistemológica, você acha que o samba não merece isso?

FW: Isso é um negócio tão burro, essas coisa me deixam tão puto! Ta entendendo? Mozart, Bethoven, Strauss, por que é que eles são clássicos hoje?

FT: Porque eles faziam coisas maravilhosas, lindas!

FW: Por que eles eram populares, pôrra! Clássico é o popular que vira clássico, é aquilo que passa pela triagem.

FT: Mas você acha que a arte popular, além da análise gosta, não gosta, ela não merece também ser estudada a fundo como são estudados a fundo como as pessoas estudam Stravinsky por exemplo?

FW: Eu acho que não existe arte popular. Eu acho que todo cara que fala em arte popular, música popular brasileira, devia ser castrado e colocado em praça pública para ser fuzilado. O que existe é a arte.

FT: E todas as formas de arte não merecem ser tratadas da mesma maneira?

FW: Claro, eu por exemplo não conheço… qual é a música clássica brasileira? Que eu saiba o Carlos Gomes, que fez uma ópera que já era arte popular na Itália, que por sua vez vinha da comedia dell´arte, porra, pelo amor de Deus, não me enche o saco com arte clássica, porra!

(risos)

EG: Fausto, deixa eu te perguntar uma coisa pra voltar ao teu estilo de Pasquim. Hoje, 2004, junho, quem é “O Coiso” e como se combate “O Coiso”?

FW: O Coiso já foi na mitológica história judaica, Arnaz e Caifás. Porque Arnaz e Caifás fizeram uma gangue no grande Sinédrio na época de Jesus e eles permaneceram donos do poder econômico e religioso da Judéia durante 70 anos, era o mesmo pessoal. Esse pessoal queria que Jesus morresse realmente porque ele poderia subverter as coisas. Então “O Coiso” é sempre o homem de palha do poder. No caso do Brasil, o homem de palha do poder era o Roberto Marinho. Agora eu vou ter que arranjar um outro Coiso, mas está cheio de gente querendo tomar o lugar do Coiso!

EG: E como é possível, não combater, mas fazer com que este espírito que era o Roberto Marinho e que hoje se traduz nessa imprensa pastiche, como é que se faz para que ela não seja a maior influência sobre a população em geral? Isso foi até o princípio de uma conversa minha com o Fernando… a internet hoje é efetivamente um canal possível de levar pras pessoas informação e dados que não têm que passar pelo crivo da censura desses instrumentos?

FW: Por acaso aconteceu uma coisa excelente. A classe média brasileira, internacional, foi obrigada a tomar vergonha por causa do Consenso de Washington e do neoliberalismo e do salve-se quem puder. E essa classe média tá utilizando a internet e isso tá jogando muita água no chope dos poderosos.

FT: Chega!

EG: Acabei de lembrar de uma coisa! Através do Jean Scharleau, você mantém hoje um site, Fausto Wolff, que é muitíssimo visitado e que obviamente é um troço que você incentiva, tem um extremo apreço por aquilo e tal. Você consegue enxergar que aquilo é, ainda que dentro do universo pequeno de pessoas no Brasil que têm acesso à internet, um canal pra levar a verdadeira informação e a transformação pras pessoas que acessam o site?

FW: Claro! A minha idéia basicamente é isso, fazer do site um lugar pras pessoas inconformadas, as pessoas que foram feridas, as pessoas que não têm um lugar pra falar, você tá entendendo?, mesmo que seja um menino, uma menina, mas um lugar onde elas tenham o que dizer… Aquilo não é uma ONG, mas como ali tem nomes, endereços, tem tudo, talvez outras pessoas ajudem aquelas que estão precisando, mas basicamente é um lugar libertário pra todo mundo escrever. Um cara aí que escreveu uma bobagem enorme sobre os CIEP´s eu disse, “claro, publica!”, é claro que escrevi o que eu pensava, mas eu quero que seja um espaço aberto pra todo brasileiro que se considere sacaneado…

EG: E que esteja à esquerda da esquerda!

FW: Isso é o melhor! Mas enfim que se considere sacaneado, que tenha sido machucado como ser humano e queira limpar isso de alguma maneira.

FT: Pode funcionar como a consciência da consciência. Lembra dos desenhos animados? Que ficava a consciência no ombro do personagem: “Eu sou a boa consciência!!!”. E a esquerda não parece esquecer que ela necessita de uma consciência? Ela parece se arvorar da própria consciência, ela é a própria consciência dela mesmo. O que você pensa a respeito dessa arrogância dessa pseudo-esquerda que tomou o poder.

FW: Eu fiquei impressionado com a burrice dos intelectuais do PT e realmente poucas coisas me dão mais nojo do que um fim de semana na Granja do Torto.

FT: É impressionante que um cara como o Frei Betto, que, porra!, não é um cara burro, porra!, esteja corroborando a burrice. Você conhece o Frei Betto… A posição dele é meio esquisita.

FW: Ninguém é frei de graça!

(risos)

FT: Podemos encerrar?

(desliga o gravador)

(liga o gravador de novo)

EG: Falou em estrada eu lembrei dele! O Ministério Público já conseguiu provas. A Justiça já tem provas. E Paulo Maluf continua dizendo, como em ladainha, “não tenho conta na Suíça”… Depois de 40 anos os mesmos homens estão no poder e ainda almejando o poder… Aqui no Rio, se é que é possível você me responder isso agora, temos uma eleição municipal pra brevíssimo, onde estão disputando a princípio César Maia tentando a reeleição, Crivela, aquele Bispo da Igreja Universal, do PL, o Conde, que é vice da Rosinha, e parece que vem a Jandira do PC do B como opção de esquerda, e o Jorge Bittar do PT. Tem alguém que você consiga enxergar como capaz de modificar esse estado de merda que a gente ta vivendo na cidade de hoje?

FW: O Maluf, eu tenho a maior admiração por ele. Quanto ao futuro prefeito, ta muito difícil, porque é uma corrida de incompetências, mas eu ficaria com o Bittar, pela coerência. Acho que o Lula, como ele mudou, e o Bittar não mudou, ele vai ficar com César Maia. César Maia por sua vez é um fascista e ladrão. Sobra o Conde que eu poderia levar a sério se não fosse vice da Garotinha que ainda não sabe o que é álgebra. De modo que a situação tá muito braba. Quanto à Jandira Feghali, é uma médica, do PC do B, mas em compensação apóia o Lula… Difícil… Muito difícil…

Até.

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