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DAS CINZAS À RESSURREIÇÃO

Não é a primeira vez e não será a última que recorro aos versos de meu orixá vivo, Aldir Blanc, para compreender a vida, seus movimentos e meu momento. É que vem chegando o Carnaval e eu ando, assim, comovido feito o diabo. Fiz minha estréia hoje no Gigantes da Lira (fotos aqui), um amistoso, é verdade, porque a coisa começa à vera, mesmo, no sábado de Carnaval, com a saída do Cordão da Bola Preta, como lhes contei aqui. E durante o desfile de hoje, e o Gigantes da Lira é um bloco infantil, a criança é sua tônica, fui de novo uma criança no meio de tantas crianças, ansiosa pelo milagre do Carnaval. Sim, meus poucos mas fiéis leitores, porque eu creio no milagre do Carnaval – e mais do que crer, eu preciso dele!

O Carnaval – relicário de uma tradição – é a vitória da ilusão, e eu preciso, durante o tríduo, ser bordadeira, ser carpinteiro, ser escultor e artesão para armar um novo homem, à moda do Rio de Janeiro que se renova e se reinventa a cada golpe que recebe. Preciso ser ainda mais passional do que já sou, ter mesmo veias de serpentina, alma de isopor e purpurina para galgar os degraus que me levarão, após a missa campal do povo brasileiro, ao altar profano a fim de merecer a hóstia consagrada e a dádiva do milagre que há de acontecer com a intervenção do deus maldito – das cinzas à ressurreição.

Deixo com vocês, na voz de Beth Carvalho, melodia belíssima de Moacyr Luz, a sabedoria do bardo tijucano, Aldir Blanc. Há de ser – será! – uma profecia.

Carnaval
Relicário de uma tradição
Imortal vitória da ilusão
Carnaval, coração…
Bordadeira e carpinteiro
Armam outro Rio de Janeiro
Escultor, artesão
Carnaval passional:
Veias de serpentina
A alma de isopor e purpurina…
Carnaval, missa campal do povo brasileiro
Onde a hóstia sagrada é o pandeiro
Carnaval, celestial império do trambique
Onde o crente idolatra o repique
Rio que passa e que não passou
Chama devassa purificou
O meu sentimento na contradição de um ritual
Carnaval anormal:
O menino é menina
E o doutor Juiz é a bailarina…
O carnavalesco é um deus maldito
E isso é que é bonito: recriar a criação
Pamplona, Julinho, Joãozinho Trinta dão a pinta
Que nada se acaba quando é feito por paixão
Arlindo Rodrigues, Fernando Pinto, isso é lindo!
– das cinzas à Ressurreição!

Até.

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FALTAM 10 DIAS PRO BOLA PRETA

De hoje, quarta-feira, 08 de fevereiro de 2012, a sábado são apenas dez dias até o ápice do Carnaval carioca, o desfile do Cordão da Bola Preta. Quem me lê sabe: trato o desfile do Bola Preta com a ansiedade de um réveillon. É, definitivamente, o ponto do alto do tríduo momesco, e eu já não consigo (como se a ansiedade não me fosse uma companhia constante) esconder, justamente, a dita cuja. Já conto as horas, já planejo a sexta-feira, já penso na garrafa de champagne que vai pro gelo pra ser aberta à meia-noite, e há, em mim – em mim, em mim, dentro de mim – todo o desenrolar de um filme com cenas dos meu melhores momentos no Bola Preta, bloco-procissão que me redime, que me imola, que me consome, que me consola, que me renova, que me transforma, que me agonia, que me transborda.

Vejam vocês, uma coisa (é que tenho, além de tudo, aguda saudade de Fernando Szegeri, na intenção de quem segue esse rabisco de hoje).

Estamos no ano de 2004.

Desfilávamos no Cordão do Bola Preta (já não me recordo se a foto é do domingo, no Cordão do Boitatá… acho que é). Eu e Szegeri encontramos, no Largo de São Francisco, com a Betinha. E o turbilhão que me invade também me confunde (acho que essa foto foi feita em 2004, repetindo uma pose de anos antes). Sei que quando Fernando Szegeri bateu os olhos na Betinha pela primeira vez (já sob a mira da pistola do Flavinho), disse:

– Minha musa… – e encheu os olhos-poço d´água.

E disse mais, meu mano:

– Edu, tire uma foto, por favor… Meu pai não vai acreditar que conheci uma moça tão bonita, mais bonita que minha pipa de sete cores que ganhei  do meu avô, quando menino.

Passaram-se os anos, veio o ano de 2006, a espera pelo Carnaval de 2007.

Enquanto eu esperava o Bola Preta, já em dezembro, Stê e Szegeri esperavam, em São Paulo, com ainda mais ansiedade, pela Rosa.

E a Rosa veio – antes do Bola Preta.

Deu-se a bulha na cabeça do meu irmão. A filhota pequena, meses de vida, não permitiria sua vinda para o Rio de Janeiro, interromperia uma tradição de mais de duas décadas, e trocamos incontáveis e-mails, ele se lamuriando de lá, eu prometendo a ele sua presença no glorioso cordão. Situação, convenhamos, non sense demais. Era mais ou menos assim:

– Ah, Edu, já me convenci. Não estarei no Bola Preta no sábado.

– Não se preocupe, querido. Você vai desfilar.

Ele, de lá, redarguia:

– Não adianta, mano… Já falei com a Stê, vou mesmo ficar por aqui.

E eu me despedia:

– Até o sábado de Carnaval.

Eis que veio a sexta-feira e eu vivi, talvez pela primeira vez, de forma bruta, a experiência da morte: dormi Eduardo Goldenberg e acordei Fernando Szegeri.

Repeti, na Cinelândia (sempre sob a mira da pistola do Flavinho), o gesto de anos antes.

Pus o chapéu de palha, olhos-poço, a camisa do Palmeiras, a barba amazônica, os óculos idênticos. Eu era, na íntegra, Fernando José Szegeri.

E deu-se o milagre do Carnaval.

Contou-me, o bom Szegeri, à noite, por telefone, que ele recebera uma ligação de um amigo seu, de São Paulo, diretamente do Cordão da Bola Preta. Disse, seu amigo, aos gritos:

– Pô, Fernando! Te vi de longe, te vi de longe! Você não está com a camisa do Palmeiras? Acabou que você veio?

Até.

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A AUSÊNCIA DO CRIOULO

Vejam vocês uma coisa (conversei dia desses, acho que foi com Fernando Borgonovi, sobre este assunto). Vem chegando aí o Carnaval – duas semanas pra ser mais preciso (do início ao fim, como sempre). E eu, aos poucos, ainda que eu saiba que na hora agá nada pode sair como o planejado, vou tecendo os meus planos para o tríduo momesco (e é assim, ano após ano).

Já sei, por exemplo, que no sábado de Carnaval, depois de uma manhã exaustiva – é quando sai o Cordão da Bola Preta, ápice da festa, e o simples fato de ser, o ápice, no primeiro dia, dá bem a dimensão da inversão que o Carnaval representa – vou precisar de um descanso em casa. Às três da manhã da madrugada de domingo desfilo no Império Serrano, convidado que fui por Rodrigo Pian (e por toda a “corte imperial”, segundo ele).

Como vou ao Sambódromo pela primeira vez para assistir ao desfile do Grupo Especial no domingo e na segunda-feira, isso pode (pode!) significar que não irei ao Cordão do Boitatá, na Praça XV. O que, de certa forma, me alivia (vou explicar, e foi sobre isso que conversei com o Borgonovi).

Nunca fui muito com o Cordão do Boitatá (mentira: no primeiro ano em que saiu, até que foi divertido; mentira de novo… divertido sempre é… vou tentar ser mais claro, acompanhem).

O Cordão do Boitatá, de muitos anos pra cá, faz lá seu baile na Praça XV. Sai, antes, entretanto (ou saía, não sei), desfilando pelas velhas ruas do velho Centro, escondido sob o argumento de que muita gente atrapalha. Sempre impliquei com esse troço (mas não é o que mais me incomoda). Vou ser mais claro, mais direto.

Quando vejo o Cordão do Boitatá na Praça XV eu penso, de mim para mim:

– Aí está a PUC sem os pilotis.

O Cordão do Boitatá – que não por acaso é o bloco que anima (anima!) os festejos do PSOL – é um bloco animado, é diversão na certa, é o que talvez reúna mais gente fantasiada… mas é o bloco anti-povo.

Farei a pergunta que gostaria que todos vocês, meus poucos mas fiéis leitores que lá já estiveram (e abusem, se quiserem, da caixa de comentários para suas respostas), respondessem: quantos crioulos – e refiro-me aos crioulões que brilham, que reluzem, aos desdentados, aos desvalidos, aos de povo! – você já viu, ali, sambando com os pés pisando nas pedras pisadas do cais? Eu mesmo respondo: nenhum.

O que há, durante o baile do Cordão do Boitatá, é mesmo um desfile de estudantes da PUC. Talvez não tenha sido o objetivo de seus criadores (não é, meu texto, uma acusação nesse sentido). Mas é o que se verifica, sem muita dificuldade.

Vou sempre (fui sempre) porque lá encontro inúmeros amigos, e porque afinal – como já lhes disse – fazem um bom baile os meninos e as meninas do Cordão do Boitatá. Mas sempre, sempre!, me assombra a ausência profunda do homem do povo. Não estão lá os pais-de-santo, não estão lá os paus-de-arara, não estão lá as passistas, não estão lá os flagelados, não estão lá os pingentes, não estão lá as balconistas (apud Aldir Blanc).

Dirão alguns que estou exagerando, o que repilo desde já.

E outra: uma pesquisa, simples, no Google, mostra que o que mais se fala a respeito do Cordão do Boitatá é que tem “muita gente bonita”, frase batida usada sempre pra definir coisas absolutamente intragáveis (o que não é, quero repetir, o caso deles).

– Algum problema nisso, na ausência dos crioulões? – perguntarão alguns.

– Não! – eu direi.

Não mesmo. Mas era o que eu queria lhes dizer.

Até.

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FALTAM 21 DIAS…

Faltam exatamente 21 dias. Às nove e meia da manhã do dia 18 de fevereiro estará aberto, oficial e subversivamente, o Carnaval no Rio de Janeiro. Digo subversivamente porque nasceu, o Cordão da Bola Preta, de forma absolutamente subversiva. Proibidos pelo Chefe da Polícia de então, os cordões (uma espécie de dissidência e de versão esculhambada dos blocos e das sociedades) no Carnaval de 1919, nasceu na extinta Galeria Cruzeiro, no Centro do Rio, da cabeça de um bando de malucos, o Cordão da Bola Preta, que faria seu primeiro desfile (ou seu primeiro baile, como preferem alguns) no dia 31 de dezembro de 1918. Em 2012, então, com 92 anos e alguns meses de vida, fará, o glorioso cordão, mais um desfile pelas ruas do Centro.

Sobre o Cordão da Bola Preta, nos conta Jota Efegê, em seu Figuras e coisas do Carnaval carioca:

“Nas proximidades do carnaval que, naquela época (1918), começava a ferver desde outubro nos festejos da Penha, o folião K. Veirinha erguendo seu copo de chope resolveu desafiar o chefe de polícia: “Vamos formar um cordão!” E, mostrando sua disposição de luta contra a autoridade, concluiu: “Ele disse que vai fechar todos os cordões, mas o nosso ele não fecha! O nosso é de bola preta!” Toda a turma, já com duas ou três altas pilhas de cartões na mesa, topou a parada e resoluta, pondo em alvoroço o Bar Nacional, da famosa Galeria Cruzeiro, prorrompeu em vivas seguidos.

Nascia, desse modo, em meio de uma reunião boemia, que acontecia normalmente, todas as tardes, o já hoje tradicional Cordão da Bola Preta, conhecido em todo o Brasil e também no estrangeiro. Ficava, igualmente, consagrado como folião, pois que já o era desde rapazola, o Álvaro Gomes de Oliveira, conhecido no Clube dos Democráticos como Trinca Espinha, apelido mais tarde substituído pelo de K. Veirinha.

À guisa de biografia

Antigamente, todos os associados de destaque dos grêmios carnavalescos adquiriam um pseudônimo sempre precedido de aristocrático Lord. Assim, Álvaro de Oliveira que, ainda garoto, de menor idade, conseguiu ser sócio dos Democráticos quando o alvi-negro tinha sede no Largo do Machado, ganhou sua alcunha. Deram-na, mais tarde, já na Rua do Hospício (hoje Buenos Aires), para onde o clube se transferiu, uma bem divertida: Lord Trinca Espinha. Continuou com ele da Rua dos Andradas e também na do Passeio, locais onde os valorosos ‘carapicus’ estiveram instalados.

Só em 1918, depois da terrível epidemia de ‘influenza espanhola’, da qual, conseguindo escapar, ficou, no entanto, bastante magro, esquelético, perdeu sua antonomásia. Um amigo, vendo-o em tal estado exclamou: “Puxa, você parece uma caveira”. À tarde, na costumeira chopada do Bar Nacional, a turma homologou definitivamente o apelido: “Viva o K. Veirinha!” Nunca mais se deixou de chamá-lo por esse diminutivo ou de completar seu verdadeiro nome com ele: “o Álvaro K. Veirinha”.

K. Veirinha enfrenta o chefe Leal

Carnavalesco de quatro costados, integrante de um grupo do qual faziam parte, entre outros, os irmãos Oliveira Roxo (Jair, Jorge, Joel), Chico Brício, Archimedes Guimarães (Fala Baixo), Álvaro de Oliveira era desassobrado. Ao ler nos jornais uma portaria do chefe de polícia, Dr. Aurelino Leal, achou o momento propício para mostrar sua coragem. Rigorosa, ameaçadora, a publicação dizia: “Os grupos e cordões que perturbarem a ordem pública terão suas licenças cassadas, sendo os perturbadores presos e processados, na forma da lei”. Proibia, ainda, mais adiante, de maneira igualmente decisiva, a fundação de grupos similares.

Longe de se amedrontar e disposto a topar uma parada com o “chefão” temido, o grupo das alegres reuniões chopísticas de um dos bares da galeria Cruzeiro seguiu coeso o líder K. Veirinha. Iriam, todos, desobedecer o mandachuva. Alugaram a sede do Clube dos Políticos, na Rua do Passeio, e na noite de 31 de dezembro de 1918, com um “maixético e rebolativo baile” (como era de praxe qualificar as festas dançantes carnavalescas) consumavam a deliberação. Iniciava, assim, o hoje famosíssimo Cordão da Bola Preta e sua brilhante e vitoriosa trajetória.

Tradição da Bola Preta

O sucesso da noitada de nascimento do Cordão da Bola Preta, com o salão apinhado e a fachada do clube feericamente iluminada, abriu-lhe caminho fácil nos meios carnavalescos. Seus iniciadores (K. Veirinha, Chico Brício, Vaselina, Pato Rebolão, Fala Baixo, Porrete e outros) puderam levar à frente o foliônico grêmio sempre com seus bailes excessivamente concorridos. Sem instalação definitiva, realizando seus fandangos na Rua 13 de Maio, no Palace Clube, na Cinelândia, num salão do antigo Liceu de Artes e Ofícios, acabou, por fim, rico e poderoso, com a sede própria que ora possui.

Álvaro de Oliveira viu, desse modo, triunfar sua iniciativa ao mesmo tempo que se firmava uma tradição levando o nome do cordão até ‘as estranjas’ como fator preponderante do fascínio do nosso Carnaval. Os turistas que aqui chegam para conhecer o nosso famoso tríduo de Momo desembarcam na Praça Mauá ou no Galeão perguntando pelo baile do Teatro Municipal e também pelo do ‘Bôle Preete”. Coisa que, inegavelmente, apesar do seu feitio boêmio, desprendido, envaidece o K. Veirinha, fundador e sócio número um, benemérito, na prestigiosa agremiação.

Saudosista, mas não muito

Afastado das homéricas “farras” dos áureos tempos em que o Carnaval carioca conseguia dividir durante o ano inteiro a cidade em três facções: ‘baetas’, ‘gatos’ e ‘carapicus’, Álvaro de Oliveira é agora um homem tranqüilo. O folião K. Veirinha hoje é apensa um assistente da festa de Momo. Às vezes, matando saudades, aparece no cordão e vê seus sócios vibrando, entoando o hino feito pelo maestro Vicente Paiva e Nelson Barbosa para empolgar a moçada: “Quem não chora não mama, segura, meu bem, a chupeta. Lugar quente é na cama ou, então, no Bola Preta”.

Recorda, vendo a animação reinantes bons tempos. Lamenta não encontrar ali a ‘velha turma’, em grande parte desaparecida, ou, como ele, fora da ‘linha de fogo’. Orgulha-se, porém, de ver seu cordão vibrante, nascido de uma rebeldia momentânea, resultado da desobediência ao ‘chefão’, abrilhantando de maneira decisiva a maior festa da Cariocolândia. Caminhando para o meio século de existência o Cordão da Bola Preta, sólido e vitorioso, faz também (reconhece ele feliz e exultante), a consagração de seu apelido: K. Veirinha.”

Eu já lhes contei, incontáveis vezes, o que é representa, pra mim, a saída do Bola Preta (vejam, aqui, vídeo gravado no dia 20 de janeiro de 2009, eu, Gabriel Cavalcante no cavaquinho, Leal no tamborim e Tiago Prata no sete cordas, na Folha Seca, cantando Bola Preta, choro de Jacob do Bandolim com letra póstuma de Aldir Blanc contando toda a história do cordão, que pode ser lida – e ouvida, na voz de Aldir -, aqui). Mas esse ano, nesse ano de 2012, vai ser diferente…

Anseio, com a ansiedade de um menino, pela sexta-feira da véspera. Pela noite que será, eu sei, passada em claro. Pelas primeiras luzes do sábado, pelo primeiro gole, ainda dentro de casa, pelo trajeto até o Centro. E o Bola Preta, subvertendo de cara a lógica e o trajeto de tantos anos, não partirá da Cinelândia, mas da Candelária. Vai ser ali, diante da imponente Candelária, a concentração do Bola Preta que, a se confirmar o crescimento ano a ano que se vê nas ruas, arrastará mais de dois milhões de foliões pelo asfalto quente da Rio Branco em direção à Cinelândia, palco de tantas manifestações da força do povo do Rio de Janeiro.

Anseio pelo Sábado de Carnaval, pelo primeiro grito do Bola Preta, para dar início ao processo pagão e milagroso que a festa momesca impõe aquele que se entrega, de corpo e alma, aos ritos carnavalescos. Como disse, certa vez, o mestre Luiz Antonio Simas, “o carnaval não é uma festa dos alegres, mas sim dos tristes.”. Disse mais, o professor: “O carnaval é um período marcado pelo símbolo da máscara, onde se inaugura a idéia de esquecimento do que efetivamente somos. Desde os primórdios da festa, a função social do carnaval é promover a inversão dos valores do cotidiano. O homem veste-se de mulher, o careta toma porres homéricos e por aí vai. O carnaval é o tempo do esquecimento necessário. (…). O que está presente no carnaval é, antes de tudo, a pulsão de morte. Matamos o que somos o resto do ano, repletos de horários, compromissos, burocracias e por aí vai. O lugar dos alegres é o camarote da cervejaria, a feijoada do Amaral e outras merdas do gênero. O grande folião, tenha certeza disso, é um triste.”. Outro sujeito a quem respeito, Claudio Renato, cravou na mosca: “Carnaval é a festa dos tristes, dos refugiados, dos abandonados, dos enganados, dos humilhados, dos ultrajados, dos vencidos, dos lusitanos, dos nostálgicos, dos moribundos, dos desempregados, dos deserdados, dos órfãos. Carnaval é a festa máxima do povo brasileiro.”. E, pra encerrar as citações que dão mais peso ao que lhes escrevo, Fernando Szegeri (Divagações cinerárias, em 22 de fevereiro de 2007, aqui):

“A verdade, meus amigos, é que o folião é, acima de tudo, um altivo. Daquela altivez de que nos fala Pièrre Verger ao observar que Pai Balbino, um humilde vendedor de quiabos na feira de Água dos Meninos, portava-se com a dignidade de um rei, por ser filho de Xangô. Daquela soberba que nos percorre o corpo e a alma depois de uma noitada boa de amor, ao encontrar de manhã no elevador a vizinha carola do 1201.

O folião, na quinta, sexta-feira que precedem os dias de Carnaval, encara as pessoas na rua, no ânibus, com uma acachapante superioridade. Tem pena de seu patrão, despreza o seu senhorio. Ele sabe, no seu íntimo, que a cidade lhe pertence, que as coisas na verdade não são como parecem na maioria dos dias; que a superioridade que o capataz lhe cospe reitaradamente às faces é uma ilusão que lhe custará caro. São chegados os dias em que tudo assume a sua feição verdadeira, em que as máscaras cinzentas que foram impostas à realidade são impiedosamente arrancadas. Essa efêmera mas irrefutável prova sobre o verdadeiro estatuto das coisas lhe propicia um inexprimível sentimento duplo de superioridade: por ter consciência desta realidade e por saber-se o senhor livre e soberano de seu próprio destino.

É por isso que ao folião repugnam as insuportáveis pessoas que simplesmente ignoram o Carnaval. Não as que o odeiam. Ele compreende que para os que se arvoram em donos das coisas e dos destinos nos outros trezentos e sessenta e um dias, a visão crua da realidade absolutamente diversa lhes seja insuportável. Aos que francamente detestam o Carnaval o folião responde com um sorriso de aviso: não tentem interferir no desvelamento essencial desses dias; contenham-se nos limites da sua mentira. Mas aos que ignoram o Carnaval, que estampam em suas faces lânguidas e mortas a sua estupidez indiferente, o folião devota, muito mais que piedade, um ódio secreto, um desprezo absoluto pela incapacidade de exercerem um atributo tão fundamental e tão simples de sua humanidade.”.

É isso, meus poucos mas fiéis leitores.

Faltam 21 dias. E eu serei, nesses dias que antecedem o Sábado de Carnaval, um ansioso à espera da apoteose das apoteoses.

Até.

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E VEM CHEGANDO O CARNAVAL…

Eis que atravessei 2011, um ano duro (aqui, meus agradecimentos em dezembro de 2011). Eis que foi bonito, leve, o réveillon (aqui). Enfrentei, com dignidade, o desafio de sexta-feira passada (aqui). E eis que estamos a poucas semanas do Carnaval, essa festa que me comove sobremaneira e que me faz ter, desde muito antes do grande dia, expectativas olímpicas (aqui, meu texto para o Carnaval de 2011 e aqui, minha primeira chamada pro Carnaval de 2012). Vejam aqui o meu relato sobre o Carnaval de 2005, e é impossível não reparar que falo sobre as mais de 50 mil pessoas no Cordão do Bola Preta, que hoje conta com mais de 2 milhões de foliões! Aqui, meu relato de 2007 (e o Bola Preta já tem mais de 300 mil pessoas atrás dele!). E aqui, o meu relato de 2010 (com mais de 1 milhão e meio de pessoas atrás do Cordão!). Estamos, então, a poucas semanas do Bola Preta, ápice dos meus anos, ao qual faltei no ano passado por razões mais do que justificáveis (explicadas aqui).

Estamos a poucas semanas do tríduo momesco mas, é preciso que eu lhes diga, como bom carioca – e no Rio de Janeiro acontece o melhor Carnaval do Brasil! – eu já vivo o Carnaval de maneira intensa.

Já anseio pelos ensaios das Escolas de Samba, em janeiro e fevereiro, e ontem mesmo, quarta-feira, estive na 28 de Setembro pra ver ensaiar a Unidos de Vila Isabel (vejam aqui e aqui as imagens do ensaio). Sábado, agora, vou à quadra da Academia do Samba, que a Acadêmicos do Salgueiro é um troço sério demais (é minha escola, minha paixão, minha raiz!, como está contado aqui). Já há, em cada esquina da cidade, a idéia de um bloco, de um cordão, já há gente compondo e cantando sambas – a cidade respira o samba! – e eu me sinto, desde já, nos braços da folia que subverte, que enlouquece, que purifica, que tortura, imola e remodela a alma.

Vai daí que eu ouço a Velha Guarda da vermelho-e-branco da Tijuca (abaixo) cantando o hino salgueirense, ouço os primeiros acordes do violão, o couro do tamborim tocado pela baqueta, a cuíca roncando, a voz da mulher que, orgulhosa, canta sua (nossa!) escola, o surdo de marcação, o pandeiro sendo espancado pelas mãos curtidas do tocador, e eu sou arremessado ao passado, atirado pro futuro próximo que se renova a cada fevereiro, e resignado me mantenho em compasso de espera: o Carnaval há de me redimir.

Até.

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O CARNAVAL POR VIR

Vocês que me lêem têm acompanhado o tanto de expurgo do que me vai na alma que tenho feito por aqui. E vai continuar sendo assim – sabe-se lá até quando. Pensei, dia desses (tenho pensado, e pensado muito), numa espécie de relação que possa existir entre a intensidade do amor vivido e a extensão do luto que se enfrenta por conta do desaparecimento da pessoa amada. Cheguei a diversas conclusões, e uma delas é a de que o luto é intensamente mais bem resolvido quando o amor que se perdeu, por conta da morte, foi intensa e plenamente vivido. E viver esse luto, resolvê-lo sem pressa, me tem sido de certo modo prazeroso por conta desse dividir de lembranças, de histórias, de fotografias, desse expurgo.

O tempo decorrido desde a morte da Sorriso Maracanã – lá se vão mais de 3 meses… – tem me apresentado a uma realidade que, se era evidente para mim (e para mim, e para mim, e só para mim), é também a de muita gente (eu quase disse “de toda gente”, mas temi ser presunçoso, embora seja verdade…). A Dani foi marcante, na mais ampla acepção da palavra, para quem cruzou com ela pelo caminho. Não há um só dia em que eu não ouça gente falando sobre isso: colegas seus de trabalho, amigos, amigas, funcionários da empresa na qual trabalhou por mais de dez anos, funcionários do prédio onde vivemos por tanto tempo, gente que a viu – pode lhes soar como exagero, não é… – uma, duas vezes. Não bastasse seu sorriso, o mais bonito que o mundo já viu (e o mundo foi mais bonito enquanto ele reluziu luminoso por aqui…), Dani tinha uma impressionante capacidade de compreender o outro, de representar a doçura em estado bruto da forma mais sutil possível, de fazer – sem com isso querer soar piegas… – diferença efetiva na vida das pessoas que tiveram a sorte, a profunda sorte, de com ela cruzar os olhos, de com ela conviver, e daí, meus poucos mas fiéis leitores, eu fui o mais afortunado, dividindo vida, cama, alma, sonhos, planos, alegrias e tristezas com ela.

Tem sido especialmente difícil fazer pela primeira vez, sozinho, o que tantas vezes fiz com ela. Foi assim minha primeira ida à praia, minha primeira ida à quadra do Salgueiro, minha primeira ida a tantos lugares… E vai ser assim – eu sei – no Natal, no réveillon… e acho que, principalmente, durante o Carnaval 2012. E explico.

O Carnaval era, pra nós, e desde o nosso primeiro Carnaval juntos, em 2000, a maior festa do mundo (mesmo!). Enquanto estivemos juntos, como se não bastassem os quatro dias de folia, o Carnaval começava muito antes… Íamos aos ensaios das escolas de samba, eu dei de me meter a disputar samba de bloco (ganhei, em 2000, no Nem Muda Nem Sai de Cima, durante seis anos seguidos no Barbas e ainda compus, sempre com parceiros, o samba do Azeitona Sem Caroço), e ainda criei, em 2001, ao lado de diversos amigos, o meu próprio bloco, o Segura Pra Não Cair. A Dani, minha menina, sempre a meu lado: quando havia a disputa dos sambas arregimentava os amigos, os colegas de trabalho, pra engrossar a torcida pelo samba; escolhia, comigo, nossas fantasias, quase sempre uma tendo muito a ver com a outra (lembro do ano em que saímos, eu de Fernando Szegeri e ela de Rosa, filhota dele e da Stefânia, nascida dias antes do Carnaval, o que os impediu de brincarem no Bola…). Mas nada se comparava ao Cordão da Bola Preta, ao sábado de Carnaval.

A sexta-feira que antecedia o grande dia era, lá em casa, praticamente um 31 de dezembro: comprávamos champagne, montávamos uma mesa bonita e à meia-noite brindávamos, juntos, o começo de mais um Carnaval (e foram 12 carnavais juntos!). Acordávamos no sábado bem cedo e colocávamos pra tocar – foram 12 anos assim! – o CD da Elizeth Cardoso com a Banda do Cordão da Bola Preta. Aos primeiros acordes do clássico “Quem não chora não mama! Segura, meu bem, a chupeta! Lugar quente é na cama ou então no Bola Preta!” o sangue fervia e partíamos, de ônibus (raramente de metrô), pra Cinelândia.

O vídeo abaixo, curto, 40 segundos apenas, é do Carnaval de 2007. Eu, Dani, Betinha e Fefê estamos na caçamba do carro dirigido pelo Flavinho, que nos resgatara ao final do desfile do Bola Preta a fim de que pudéssemos encarar a Festa das Burrinhas, promovida há muitos anos pelo Mello Menezes. E a Dani, cigarro numa mão, lata de cerveja na outra, pede, à certa altura:

– Canta, pituco! – e dá-lhe o Bola Preta!

O desfile do Bola Preta, em 2012, vai ser um grande teste pro meu combalido coração. No Carnaval deste ano, 2011, Dani já não estava bem, não tinha condições de ir ao Bola Preta comigo. Na quarta-feira que antecedeu o sábado de Carnaval, cheguei em casa do trabalho e ela me disse, sentada na cama, no nosso quarto:

– Eu não consigo ir ao Bola, esse ano. Vou amanhã cedo pra Cabo Frio com meu pai e com minha mãe. Mas você tem de ir, tá? É importante pra nós, é importante pra você. Desfila, bebe, dorme… no domingo de manhã você vai pra me encontrar… – e mostrou-me, toda contente, as três fantasias que havia separado pra mim.

Conversamos pacas, eu lutei contra a idéia de não ir com ela pra Cabo Frio, acabou que ela foi mesmo na manhã de quinta-feira e eu fiquei. Fiquei, meus poucos mas fiéis leitores, e minha sexta-feira foi triste – a anti-sexta-feira de todos os anos. E às cinco da manhã, de pé, diante das três fantasias, não tive a menor vontade de ir ao Bola Preta – o que sempre me pareceu inimaginável! – e parti, às pressas e aos prantos, pra Cabo Frio, ao encontro dela. Nada no mundo apagará de mim a luz de seu sorriso quando eu cheguei lá. Eram quase onze da manhã, a flagrei diante da TV:

– E eu aqui tentando te ver no Bola Preta! – deu-me o mais terno abraço do mundo, choramos feito duas crianças.

Deixei de ir ao Bola Preta sozinho para estar com ela.

2012 terá esse desafio: não tenho a opção de não ir para estar com ela.

Mas como “o Bola Preta sabe eternizar”, como reza a letra de Aldir Blanc para o Bola Preta do Jacob do Bandolim – que canto no vídeo abaixo ao lado de Tiago Prata (7 cordas), Gabriel Cavalcante (cavaquinho) e Leal (tamborim) – hei de viver a subversão absoluta que o Carnaval representa no sábado do Bola Preta, em fevereiro do ano que vem. E desfilar ao lado dela.

Até.

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DO DOSADOR – BALANÇO DO CARNAVAL 2011

* Eis que chegamos ao final de mais um Carnaval. Quero, pois, dose por dose, fazer o balanço do que vi e do que ouvi durante o tríduo momesco. Quatro dias em Cabo Frio – da manhã de sábado à manhã de terça-feira – atento às notícias (vi, do começo ao fim, todos os desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) me permitem, penso eu, falar com alguma propriedade sobre tudo. Vamos por partes;

* uma vez mais a Rede Globo estraçalhou, de forma abjeta, o prazer do telespectador, chamado por uma repetitiva Ana Paula Araújo (apresentadora do RJ TV) de “pessoal de casa”. Poucas coisas são mais simples do que transmitir o desfile das Escolas de Samba pela televisão: uma meia-dúzia de câmeras espalhadas ao longo da avenida, um único apresentador para dizer o mais-simples e um ou dois comentaristas entendedores do riscado para comentários entre uma escola e outra. E o que a Globo nos ofereceu? Na “ancoragem” – termo estúpido que eles usaram diversas vezes – Luis Roberto e Glenda Kozlowski, egressos do mundo do futebol. Ele, narrando os desfiles como quem narra uma partida de futebol. Ela, que em seu twitter pessoal mandou um bloco de rua do Jardim Botânico pra PQP – está aqui, pra quem duvidar, prova efetiva do quanto gosta de carnaval, a moça – deu um show de histeria durante todo o desfile, tanto o de domingo quanto o de segunda-feira. Ria, gargalhava, dava gritinhos, fazia ohs e ahs capazes de irritar, profundamente, o telespectador. E as imagens? Tenham em mente uma coisa: os carnavalescos pensam um enredo e os colocam na avenida numa determinada ordem lógica a fim de que se tornem compreensíveis para quem assiste. O que faz a abjeta Rede Globo? Exibe tudo na ordem que a ela convém. Daí você é obrigado a ver o terceiro carro antes do primeiro porque naquele está um astro da emissora. Outro troço irritante, de dar nojo: Luis Roberto e Glenda Kozlowski conversavam o tempo inteiro e foi simplesmente impossível para quem assistia de casa ouvir o canto da escola, a bateria da escola. Mais grave: tirando a Mangueira e a Beija-Flor, todas as outras escolas não foram mostradas durante um dos momentos cruciais, o grito de guerra, o canto que dá início ao desfile. Eu, salgueirense de quatro costados, não pude ver a saída da escola… Graças à transmissão da Rede Globo. Tem mais, tem mais: no chamado “estúdio Globoleza”, Ana Paula Araújo comandava o quadro de comentaristas. Quais comentaristas? Chico Pinheiro (sabe bastante, falou pouquíssimo), Teresa Cristina (triste ver a cantora fazendo aquele papel modorrento durante os desfiles), Haroldo Costa (sabe muito, falou pouquíssimo) e, como destaques negativos, Fernanda Abreu (que entende tanto de samba quanto eu, de física quântica) e Hélio de La Peña (que não conseguiu acertar uma só piada). Vai daí que os desfiles eram interrompidos para que ouvíssemos as besteiras que esses caras diziam… Uma outra repórter, Mariana Gross, destratava o povo no Setor 1 do Sambódromo, sempre com intervenções desnecessárias. Renata Capucci, outra repórter que trabalhava na avenida, disse, pelo twitter – vejam aqui – que um componente da Unidos da Tijuca havia caído do alto de um carro alegórico. O telespectador soube? Não, é evidente. E se eu fosse ficar aqui listando as barbaridades da transmissão, não faria outra coisa pelas próximas 24 horas;

* ah, sim, outra barbaridade. Luis Roberto e Glenda Kozlowski interrompiam as transmissões, muitas vezes a cada escola, incentivando o telespectador a enviar, por SMS, mensagens para a emissora (nunca anunciando o custo da ligação, é claro). E éramos obrigados a ler, na tela (com direito a narração nojenta dos dois), as babaquices que os babacas mandavam pra lá. Além disso, fomos obrigados a assistir vídeos enviados por idiotas do exterior. Pergunto eu a vocês: a quem interessa saber que o babaca A está assistindo ao desfile diretamente do Alasca? Ou que o babaca B está super feliz em Portugal vendo o desfile pela Globo Internacional? Tudo um repugnante e agudo nojo. A Globo, que trata futebol e Carnaval como entretenimento, que detém o monopólio dessas transmissões, presta – o que não é nenhuma novidade – um desserviço ao amante do futebol e do Carnaval. E faz – também não é novidade – um jornalismo abaixo da crítica;

* a prefeitura exibe, com orgulho, os quase 700 detidos durante o Carnaval por conta de xixi fora dos banheiros químicos disponibilizados pelo Poder Público. Ontem ouvi, na CBN, entrevista concedida por Alex Costa, Secretário Municipal de Ordem Pública, sobre o tema. Devo dizer, estarrecido, que esse sujeito não seria contratado por mim nem para engraxar meus sapatos. Não respondeu sequer a uma pergunta durante a entrevista. Falou muito, não disse nada. Usou, durante a entrevista (que durou pouco mais de 5min), centenas de vezes a palavra “questão”. Era um tal de “a questão da urina”, “a questão da educação da população”, a “questão dos banheiros químicos”, “a questão da fiscalização”, por aí. Soquei o volante do carro de tanto ódio. A Prefeitura, que nada em dinheiro (graças à parceria com o Governo do Estado, com o Governo Federal, e no Carnaval graças à parceria com uma marca de cerveja), que o desvia diante do nariz do cidadão incapaz de uma reação à altura, agora deu de punir, punir, punir. O incompetente disse que está estudando a possibilidade de, no ano que vem, multar os mijões, que é necessário, sim, haver paciência para esperar uma fila de meia-hora diante dos banheiros, e que não mais autorizará o desfile dos blocos que não cumpriram as regras estabelecidas pela Prefeitura. E a Prefeitura cumpre as mínimas regras de governar com decência a cidade? Haja paciência;

* vamos ao resultado da apuração aqui no Rio de Janeiro. Sabemos todos que há, sempre, armação para determinada escola e chororô por parte dos perdedores. O que quero lhes dizer é que foi simplesmente vergonhoso ver uma nota 9 dada à bateria da Estação Primeira de Mangueira. O que fez a bateria da Mangueira durante o desfile (veja um trecho aqui) foi um absurdo de tanta boniteza. Foi a única escola capaz de me fazer chorar diante da tela (chorei outras vezes, mas de raiva), mas isso não vem ao caso. Anseio, muito, para ver a justificativa que a besta-quadrada deu, no boletim de apuração, para explicar tanta obtusidade;

* foi muito bacana ver a Beth Carvalho de volta à Mangueira. Sentadinha ao lado de Sérgio Cabral, o pai, foi outra que fez valer a pena as duas noites viradas diante da televisão;

* os desfiles da Portela, da União da Ilha e da Grande Rio mostraram o erro que foi a LIESA decidir por não avaliá-las. O incêndio, embora trágico, faz parte do jogo. As três escolas mostraram capacidade de recuperação e podiam, principalmente a União da Ilha, fazer bonito na classificação final;

* só vi uma vantagem na vitória da Beija-Flor, que talvez tenha feito seu mais feio desfile de todos os tempos. A derrota da Unidos da Tijuca e do queridinho da Rede Globo, Paulo Barros. Se vencesse, estaria assinado o atestado de óbito da brasilidade do Carnaval das Escolas de Samba. Todas as alas da Tijuca – todas! – eram coreografadas (nem sombra de samba). Os carros, fazendo alusão ao cinema americano. Um lixo, um absoluto e desprezível lixo, como o cu do King-Kong do Salgueiro piscando.

Acho que era isso o que eu queria lhes dizer.

Até.

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