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FALTAM 21 DIAS…

Faltam exatamente 21 dias. Às nove e meia da manhã do dia 18 de fevereiro estará aberto, oficial e subversivamente, o Carnaval no Rio de Janeiro. Digo subversivamente porque nasceu, o Cordão da Bola Preta, de forma absolutamente subversiva. Proibidos pelo Chefe da Polícia de então, os cordões (uma espécie de dissidência e de versão esculhambada dos blocos e das sociedades) no Carnaval de 1919, nasceu na extinta Galeria Cruzeiro, no Centro do Rio, da cabeça de um bando de malucos, o Cordão da Bola Preta, que faria seu primeiro desfile (ou seu primeiro baile, como preferem alguns) no dia 31 de dezembro de 1918. Em 2012, então, com 92 anos e alguns meses de vida, fará, o glorioso cordão, mais um desfile pelas ruas do Centro.

Sobre o Cordão da Bola Preta, nos conta Jota Efegê, em seu Figuras e coisas do Carnaval carioca:

“Nas proximidades do carnaval que, naquela época (1918), começava a ferver desde outubro nos festejos da Penha, o folião K. Veirinha erguendo seu copo de chope resolveu desafiar o chefe de polícia: “Vamos formar um cordão!” E, mostrando sua disposição de luta contra a autoridade, concluiu: “Ele disse que vai fechar todos os cordões, mas o nosso ele não fecha! O nosso é de bola preta!” Toda a turma, já com duas ou três altas pilhas de cartões na mesa, topou a parada e resoluta, pondo em alvoroço o Bar Nacional, da famosa Galeria Cruzeiro, prorrompeu em vivas seguidos.

Nascia, desse modo, em meio de uma reunião boemia, que acontecia normalmente, todas as tardes, o já hoje tradicional Cordão da Bola Preta, conhecido em todo o Brasil e também no estrangeiro. Ficava, igualmente, consagrado como folião, pois que já o era desde rapazola, o Álvaro Gomes de Oliveira, conhecido no Clube dos Democráticos como Trinca Espinha, apelido mais tarde substituído pelo de K. Veirinha.

À guisa de biografia

Antigamente, todos os associados de destaque dos grêmios carnavalescos adquiriam um pseudônimo sempre precedido de aristocrático Lord. Assim, Álvaro de Oliveira que, ainda garoto, de menor idade, conseguiu ser sócio dos Democráticos quando o alvi-negro tinha sede no Largo do Machado, ganhou sua alcunha. Deram-na, mais tarde, já na Rua do Hospício (hoje Buenos Aires), para onde o clube se transferiu, uma bem divertida: Lord Trinca Espinha. Continuou com ele da Rua dos Andradas e também na do Passeio, locais onde os valorosos ‘carapicus’ estiveram instalados.

Só em 1918, depois da terrível epidemia de ‘influenza espanhola’, da qual, conseguindo escapar, ficou, no entanto, bastante magro, esquelético, perdeu sua antonomásia. Um amigo, vendo-o em tal estado exclamou: “Puxa, você parece uma caveira”. À tarde, na costumeira chopada do Bar Nacional, a turma homologou definitivamente o apelido: “Viva o K. Veirinha!” Nunca mais se deixou de chamá-lo por esse diminutivo ou de completar seu verdadeiro nome com ele: “o Álvaro K. Veirinha”.

K. Veirinha enfrenta o chefe Leal

Carnavalesco de quatro costados, integrante de um grupo do qual faziam parte, entre outros, os irmãos Oliveira Roxo (Jair, Jorge, Joel), Chico Brício, Archimedes Guimarães (Fala Baixo), Álvaro de Oliveira era desassobrado. Ao ler nos jornais uma portaria do chefe de polícia, Dr. Aurelino Leal, achou o momento propício para mostrar sua coragem. Rigorosa, ameaçadora, a publicação dizia: “Os grupos e cordões que perturbarem a ordem pública terão suas licenças cassadas, sendo os perturbadores presos e processados, na forma da lei”. Proibia, ainda, mais adiante, de maneira igualmente decisiva, a fundação de grupos similares.

Longe de se amedrontar e disposto a topar uma parada com o “chefão” temido, o grupo das alegres reuniões chopísticas de um dos bares da galeria Cruzeiro seguiu coeso o líder K. Veirinha. Iriam, todos, desobedecer o mandachuva. Alugaram a sede do Clube dos Políticos, na Rua do Passeio, e na noite de 31 de dezembro de 1918, com um “maixético e rebolativo baile” (como era de praxe qualificar as festas dançantes carnavalescas) consumavam a deliberação. Iniciava, assim, o hoje famosíssimo Cordão da Bola Preta e sua brilhante e vitoriosa trajetória.

Tradição da Bola Preta

O sucesso da noitada de nascimento do Cordão da Bola Preta, com o salão apinhado e a fachada do clube feericamente iluminada, abriu-lhe caminho fácil nos meios carnavalescos. Seus iniciadores (K. Veirinha, Chico Brício, Vaselina, Pato Rebolão, Fala Baixo, Porrete e outros) puderam levar à frente o foliônico grêmio sempre com seus bailes excessivamente concorridos. Sem instalação definitiva, realizando seus fandangos na Rua 13 de Maio, no Palace Clube, na Cinelândia, num salão do antigo Liceu de Artes e Ofícios, acabou, por fim, rico e poderoso, com a sede própria que ora possui.

Álvaro de Oliveira viu, desse modo, triunfar sua iniciativa ao mesmo tempo que se firmava uma tradição levando o nome do cordão até ‘as estranjas’ como fator preponderante do fascínio do nosso Carnaval. Os turistas que aqui chegam para conhecer o nosso famoso tríduo de Momo desembarcam na Praça Mauá ou no Galeão perguntando pelo baile do Teatro Municipal e também pelo do ‘Bôle Preete”. Coisa que, inegavelmente, apesar do seu feitio boêmio, desprendido, envaidece o K. Veirinha, fundador e sócio número um, benemérito, na prestigiosa agremiação.

Saudosista, mas não muito

Afastado das homéricas “farras” dos áureos tempos em que o Carnaval carioca conseguia dividir durante o ano inteiro a cidade em três facções: ‘baetas’, ‘gatos’ e ‘carapicus’, Álvaro de Oliveira é agora um homem tranqüilo. O folião K. Veirinha hoje é apensa um assistente da festa de Momo. Às vezes, matando saudades, aparece no cordão e vê seus sócios vibrando, entoando o hino feito pelo maestro Vicente Paiva e Nelson Barbosa para empolgar a moçada: “Quem não chora não mama, segura, meu bem, a chupeta. Lugar quente é na cama ou, então, no Bola Preta”.

Recorda, vendo a animação reinantes bons tempos. Lamenta não encontrar ali a ‘velha turma’, em grande parte desaparecida, ou, como ele, fora da ‘linha de fogo’. Orgulha-se, porém, de ver seu cordão vibrante, nascido de uma rebeldia momentânea, resultado da desobediência ao ‘chefão’, abrilhantando de maneira decisiva a maior festa da Cariocolândia. Caminhando para o meio século de existência o Cordão da Bola Preta, sólido e vitorioso, faz também (reconhece ele feliz e exultante), a consagração de seu apelido: K. Veirinha.”

Eu já lhes contei, incontáveis vezes, o que é representa, pra mim, a saída do Bola Preta (vejam, aqui, vídeo gravado no dia 20 de janeiro de 2009, eu, Gabriel Cavalcante no cavaquinho, Leal no tamborim e Tiago Prata no sete cordas, na Folha Seca, cantando Bola Preta, choro de Jacob do Bandolim com letra póstuma de Aldir Blanc contando toda a história do cordão, que pode ser lida – e ouvida, na voz de Aldir -, aqui). Mas esse ano, nesse ano de 2012, vai ser diferente…

Anseio, com a ansiedade de um menino, pela sexta-feira da véspera. Pela noite que será, eu sei, passada em claro. Pelas primeiras luzes do sábado, pelo primeiro gole, ainda dentro de casa, pelo trajeto até o Centro. E o Bola Preta, subvertendo de cara a lógica e o trajeto de tantos anos, não partirá da Cinelândia, mas da Candelária. Vai ser ali, diante da imponente Candelária, a concentração do Bola Preta que, a se confirmar o crescimento ano a ano que se vê nas ruas, arrastará mais de dois milhões de foliões pelo asfalto quente da Rio Branco em direção à Cinelândia, palco de tantas manifestações da força do povo do Rio de Janeiro.

Anseio pelo Sábado de Carnaval, pelo primeiro grito do Bola Preta, para dar início ao processo pagão e milagroso que a festa momesca impõe aquele que se entrega, de corpo e alma, aos ritos carnavalescos. Como disse, certa vez, o mestre Luiz Antonio Simas, “o carnaval não é uma festa dos alegres, mas sim dos tristes.”. Disse mais, o professor: “O carnaval é um período marcado pelo símbolo da máscara, onde se inaugura a idéia de esquecimento do que efetivamente somos. Desde os primórdios da festa, a função social do carnaval é promover a inversão dos valores do cotidiano. O homem veste-se de mulher, o careta toma porres homéricos e por aí vai. O carnaval é o tempo do esquecimento necessário. (…). O que está presente no carnaval é, antes de tudo, a pulsão de morte. Matamos o que somos o resto do ano, repletos de horários, compromissos, burocracias e por aí vai. O lugar dos alegres é o camarote da cervejaria, a feijoada do Amaral e outras merdas do gênero. O grande folião, tenha certeza disso, é um triste.”. Outro sujeito a quem respeito, Claudio Renato, cravou na mosca: “Carnaval é a festa dos tristes, dos refugiados, dos abandonados, dos enganados, dos humilhados, dos ultrajados, dos vencidos, dos lusitanos, dos nostálgicos, dos moribundos, dos desempregados, dos deserdados, dos órfãos. Carnaval é a festa máxima do povo brasileiro.”. E, pra encerrar as citações que dão mais peso ao que lhes escrevo, Fernando Szegeri (Divagações cinerárias, em 22 de fevereiro de 2007, aqui):

“A verdade, meus amigos, é que o folião é, acima de tudo, um altivo. Daquela altivez de que nos fala Pièrre Verger ao observar que Pai Balbino, um humilde vendedor de quiabos na feira de Água dos Meninos, portava-se com a dignidade de um rei, por ser filho de Xangô. Daquela soberba que nos percorre o corpo e a alma depois de uma noitada boa de amor, ao encontrar de manhã no elevador a vizinha carola do 1201.

O folião, na quinta, sexta-feira que precedem os dias de Carnaval, encara as pessoas na rua, no ânibus, com uma acachapante superioridade. Tem pena de seu patrão, despreza o seu senhorio. Ele sabe, no seu íntimo, que a cidade lhe pertence, que as coisas na verdade não são como parecem na maioria dos dias; que a superioridade que o capataz lhe cospe reitaradamente às faces é uma ilusão que lhe custará caro. São chegados os dias em que tudo assume a sua feição verdadeira, em que as máscaras cinzentas que foram impostas à realidade são impiedosamente arrancadas. Essa efêmera mas irrefutável prova sobre o verdadeiro estatuto das coisas lhe propicia um inexprimível sentimento duplo de superioridade: por ter consciência desta realidade e por saber-se o senhor livre e soberano de seu próprio destino.

É por isso que ao folião repugnam as insuportáveis pessoas que simplesmente ignoram o Carnaval. Não as que o odeiam. Ele compreende que para os que se arvoram em donos das coisas e dos destinos nos outros trezentos e sessenta e um dias, a visão crua da realidade absolutamente diversa lhes seja insuportável. Aos que francamente detestam o Carnaval o folião responde com um sorriso de aviso: não tentem interferir no desvelamento essencial desses dias; contenham-se nos limites da sua mentira. Mas aos que ignoram o Carnaval, que estampam em suas faces lânguidas e mortas a sua estupidez indiferente, o folião devota, muito mais que piedade, um ódio secreto, um desprezo absoluto pela incapacidade de exercerem um atributo tão fundamental e tão simples de sua humanidade.”.

É isso, meus poucos mas fiéis leitores.

Faltam 21 dias. E eu serei, nesses dias que antecedem o Sábado de Carnaval, um ansioso à espera da apoteose das apoteoses.

Até.

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E VEM CHEGANDO O CARNAVAL…

Eis que atravessei 2011, um ano duro (aqui, meus agradecimentos em dezembro de 2011). Eis que foi bonito, leve, o réveillon (aqui). Enfrentei, com dignidade, o desafio de sexta-feira passada (aqui). E eis que estamos a poucas semanas do Carnaval, essa festa que me comove sobremaneira e que me faz ter, desde muito antes do grande dia, expectativas olímpicas (aqui, meu texto para o Carnaval de 2011 e aqui, minha primeira chamada pro Carnaval de 2012). Vejam aqui o meu relato sobre o Carnaval de 2005, e é impossível não reparar que falo sobre as mais de 50 mil pessoas no Cordão do Bola Preta, que hoje conta com mais de 2 milhões de foliões! Aqui, meu relato de 2007 (e o Bola Preta já tem mais de 300 mil pessoas atrás dele!). E aqui, o meu relato de 2010 (com mais de 1 milhão e meio de pessoas atrás do Cordão!). Estamos, então, a poucas semanas do Bola Preta, ápice dos meus anos, ao qual faltei no ano passado por razões mais do que justificáveis (explicadas aqui).

Estamos a poucas semanas do tríduo momesco mas, é preciso que eu lhes diga, como bom carioca – e no Rio de Janeiro acontece o melhor Carnaval do Brasil! – eu já vivo o Carnaval de maneira intensa.

Já anseio pelos ensaios das Escolas de Samba, em janeiro e fevereiro, e ontem mesmo, quarta-feira, estive na 28 de Setembro pra ver ensaiar a Unidos de Vila Isabel (vejam aqui e aqui as imagens do ensaio). Sábado, agora, vou à quadra da Academia do Samba, que a Acadêmicos do Salgueiro é um troço sério demais (é minha escola, minha paixão, minha raiz!, como está contado aqui). Já há, em cada esquina da cidade, a idéia de um bloco, de um cordão, já há gente compondo e cantando sambas – a cidade respira o samba! – e eu me sinto, desde já, nos braços da folia que subverte, que enlouquece, que purifica, que tortura, imola e remodela a alma.

Vai daí que eu ouço a Velha Guarda da vermelho-e-branco da Tijuca (abaixo) cantando o hino salgueirense, ouço os primeiros acordes do violão, o couro do tamborim tocado pela baqueta, a cuíca roncando, a voz da mulher que, orgulhosa, canta sua (nossa!) escola, o surdo de marcação, o pandeiro sendo espancado pelas mãos curtidas do tocador, e eu sou arremessado ao passado, atirado pro futuro próximo que se renova a cada fevereiro, e resignado me mantenho em compasso de espera: o Carnaval há de me redimir.

Até.

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O CARNAVAL POR VIR

Vocês que me lêem têm acompanhado o tanto de expurgo do que me vai na alma que tenho feito por aqui. E vai continuar sendo assim – sabe-se lá até quando. Pensei, dia desses (tenho pensado, e pensado muito), numa espécie de relação que possa existir entre a intensidade do amor vivido e a extensão do luto que se enfrenta por conta do desaparecimento da pessoa amada. Cheguei a diversas conclusões, e uma delas é a de que o luto é intensamente mais bem resolvido quando o amor que se perdeu, por conta da morte, foi intensa e plenamente vivido. E viver esse luto, resolvê-lo sem pressa, me tem sido de certo modo prazeroso por conta desse dividir de lembranças, de histórias, de fotografias, desse expurgo.

O tempo decorrido desde a morte da Sorriso Maracanã – lá se vão mais de 3 meses… – tem me apresentado a uma realidade que, se era evidente para mim (e para mim, e para mim, e só para mim), é também a de muita gente (eu quase disse “de toda gente”, mas temi ser presunçoso, embora seja verdade…). A Dani foi marcante, na mais ampla acepção da palavra, para quem cruzou com ela pelo caminho. Não há um só dia em que eu não ouça gente falando sobre isso: colegas seus de trabalho, amigos, amigas, funcionários da empresa na qual trabalhou por mais de dez anos, funcionários do prédio onde vivemos por tanto tempo, gente que a viu – pode lhes soar como exagero, não é… – uma, duas vezes. Não bastasse seu sorriso, o mais bonito que o mundo já viu (e o mundo foi mais bonito enquanto ele reluziu luminoso por aqui…), Dani tinha uma impressionante capacidade de compreender o outro, de representar a doçura em estado bruto da forma mais sutil possível, de fazer – sem com isso querer soar piegas… – diferença efetiva na vida das pessoas que tiveram a sorte, a profunda sorte, de com ela cruzar os olhos, de com ela conviver, e daí, meus poucos mas fiéis leitores, eu fui o mais afortunado, dividindo vida, cama, alma, sonhos, planos, alegrias e tristezas com ela.

Tem sido especialmente difícil fazer pela primeira vez, sozinho, o que tantas vezes fiz com ela. Foi assim minha primeira ida à praia, minha primeira ida à quadra do Salgueiro, minha primeira ida a tantos lugares… E vai ser assim – eu sei – no Natal, no réveillon… e acho que, principalmente, durante o Carnaval 2012. E explico.

O Carnaval era, pra nós, e desde o nosso primeiro Carnaval juntos, em 2000, a maior festa do mundo (mesmo!). Enquanto estivemos juntos, como se não bastassem os quatro dias de folia, o Carnaval começava muito antes… Íamos aos ensaios das escolas de samba, eu dei de me meter a disputar samba de bloco (ganhei, em 2000, no Nem Muda Nem Sai de Cima, durante seis anos seguidos no Barbas e ainda compus, sempre com parceiros, o samba do Azeitona Sem Caroço), e ainda criei, em 2001, ao lado de diversos amigos, o meu próprio bloco, o Segura Pra Não Cair. A Dani, minha menina, sempre a meu lado: quando havia a disputa dos sambas arregimentava os amigos, os colegas de trabalho, pra engrossar a torcida pelo samba; escolhia, comigo, nossas fantasias, quase sempre uma tendo muito a ver com a outra (lembro do ano em que saímos, eu de Fernando Szegeri e ela de Rosa, filhota dele e da Stefânia, nascida dias antes do Carnaval, o que os impediu de brincarem no Bola…). Mas nada se comparava ao Cordão da Bola Preta, ao sábado de Carnaval.

A sexta-feira que antecedia o grande dia era, lá em casa, praticamente um 31 de dezembro: comprávamos champagne, montávamos uma mesa bonita e à meia-noite brindávamos, juntos, o começo de mais um Carnaval (e foram 12 carnavais juntos!). Acordávamos no sábado bem cedo e colocávamos pra tocar – foram 12 anos assim! – o CD da Elizeth Cardoso com a Banda do Cordão da Bola Preta. Aos primeiros acordes do clássico “Quem não chora não mama! Segura, meu bem, a chupeta! Lugar quente é na cama ou então no Bola Preta!” o sangue fervia e partíamos, de ônibus (raramente de metrô), pra Cinelândia.

O vídeo abaixo, curto, 40 segundos apenas, é do Carnaval de 2007. Eu, Dani, Betinha e Fefê estamos na caçamba do carro dirigido pelo Flavinho, que nos resgatara ao final do desfile do Bola Preta a fim de que pudéssemos encarar a Festa das Burrinhas, promovida há muitos anos pelo Mello Menezes. E a Dani, cigarro numa mão, lata de cerveja na outra, pede, à certa altura:

– Canta, pituco! – e dá-lhe o Bola Preta!

O desfile do Bola Preta, em 2012, vai ser um grande teste pro meu combalido coração. No Carnaval deste ano, 2011, Dani já não estava bem, não tinha condições de ir ao Bola Preta comigo. Na quarta-feira que antecedeu o sábado de Carnaval, cheguei em casa do trabalho e ela me disse, sentada na cama, no nosso quarto:

– Eu não consigo ir ao Bola, esse ano. Vou amanhã cedo pra Cabo Frio com meu pai e com minha mãe. Mas você tem de ir, tá? É importante pra nós, é importante pra você. Desfila, bebe, dorme… no domingo de manhã você vai pra me encontrar… – e mostrou-me, toda contente, as três fantasias que havia separado pra mim.

Conversamos pacas, eu lutei contra a idéia de não ir com ela pra Cabo Frio, acabou que ela foi mesmo na manhã de quinta-feira e eu fiquei. Fiquei, meus poucos mas fiéis leitores, e minha sexta-feira foi triste – a anti-sexta-feira de todos os anos. E às cinco da manhã, de pé, diante das três fantasias, não tive a menor vontade de ir ao Bola Preta – o que sempre me pareceu inimaginável! – e parti, às pressas e aos prantos, pra Cabo Frio, ao encontro dela. Nada no mundo apagará de mim a luz de seu sorriso quando eu cheguei lá. Eram quase onze da manhã, a flagrei diante da TV:

– E eu aqui tentando te ver no Bola Preta! – deu-me o mais terno abraço do mundo, choramos feito duas crianças.

Deixei de ir ao Bola Preta sozinho para estar com ela.

2012 terá esse desafio: não tenho a opção de não ir para estar com ela.

Mas como “o Bola Preta sabe eternizar”, como reza a letra de Aldir Blanc para o Bola Preta do Jacob do Bandolim – que canto no vídeo abaixo ao lado de Tiago Prata (7 cordas), Gabriel Cavalcante (cavaquinho) e Leal (tamborim) – hei de viver a subversão absoluta que o Carnaval representa no sábado do Bola Preta, em fevereiro do ano que vem. E desfilar ao lado dela.

Até.

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DO DOSADOR – BALANÇO DO CARNAVAL 2011

* Eis que chegamos ao final de mais um Carnaval. Quero, pois, dose por dose, fazer o balanço do que vi e do que ouvi durante o tríduo momesco. Quatro dias em Cabo Frio – da manhã de sábado à manhã de terça-feira – atento às notícias (vi, do começo ao fim, todos os desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) me permitem, penso eu, falar com alguma propriedade sobre tudo. Vamos por partes;

* uma vez mais a Rede Globo estraçalhou, de forma abjeta, o prazer do telespectador, chamado por uma repetitiva Ana Paula Araújo (apresentadora do RJ TV) de “pessoal de casa”. Poucas coisas são mais simples do que transmitir o desfile das Escolas de Samba pela televisão: uma meia-dúzia de câmeras espalhadas ao longo da avenida, um único apresentador para dizer o mais-simples e um ou dois comentaristas entendedores do riscado para comentários entre uma escola e outra. E o que a Globo nos ofereceu? Na “ancoragem” – termo estúpido que eles usaram diversas vezes – Luis Roberto e Glenda Kozlowski, egressos do mundo do futebol. Ele, narrando os desfiles como quem narra uma partida de futebol. Ela, que em seu twitter pessoal mandou um bloco de rua do Jardim Botânico pra PQP – está aqui, pra quem duvidar, prova efetiva do quanto gosta de carnaval, a moça – deu um show de histeria durante todo o desfile, tanto o de domingo quanto o de segunda-feira. Ria, gargalhava, dava gritinhos, fazia ohs e ahs capazes de irritar, profundamente, o telespectador. E as imagens? Tenham em mente uma coisa: os carnavalescos pensam um enredo e os colocam na avenida numa determinada ordem lógica a fim de que se tornem compreensíveis para quem assiste. O que faz a abjeta Rede Globo? Exibe tudo na ordem que a ela convém. Daí você é obrigado a ver o terceiro carro antes do primeiro porque naquele está um astro da emissora. Outro troço irritante, de dar nojo: Luis Roberto e Glenda Kozlowski conversavam o tempo inteiro e foi simplesmente impossível para quem assistia de casa ouvir o canto da escola, a bateria da escola. Mais grave: tirando a Mangueira e a Beija-Flor, todas as outras escolas não foram mostradas durante um dos momentos cruciais, o grito de guerra, o canto que dá início ao desfile. Eu, salgueirense de quatro costados, não pude ver a saída da escola… Graças à transmissão da Rede Globo. Tem mais, tem mais: no chamado “estúdio Globoleza”, Ana Paula Araújo comandava o quadro de comentaristas. Quais comentaristas? Chico Pinheiro (sabe bastante, falou pouquíssimo), Teresa Cristina (triste ver a cantora fazendo aquele papel modorrento durante os desfiles), Haroldo Costa (sabe muito, falou pouquíssimo) e, como destaques negativos, Fernanda Abreu (que entende tanto de samba quanto eu, de física quântica) e Hélio de La Peña (que não conseguiu acertar uma só piada). Vai daí que os desfiles eram interrompidos para que ouvíssemos as besteiras que esses caras diziam… Uma outra repórter, Mariana Gross, destratava o povo no Setor 1 do Sambódromo, sempre com intervenções desnecessárias. Renata Capucci, outra repórter que trabalhava na avenida, disse, pelo twitter – vejam aqui – que um componente da Unidos da Tijuca havia caído do alto de um carro alegórico. O telespectador soube? Não, é evidente. E se eu fosse ficar aqui listando as barbaridades da transmissão, não faria outra coisa pelas próximas 24 horas;

* ah, sim, outra barbaridade. Luis Roberto e Glenda Kozlowski interrompiam as transmissões, muitas vezes a cada escola, incentivando o telespectador a enviar, por SMS, mensagens para a emissora (nunca anunciando o custo da ligação, é claro). E éramos obrigados a ler, na tela (com direito a narração nojenta dos dois), as babaquices que os babacas mandavam pra lá. Além disso, fomos obrigados a assistir vídeos enviados por idiotas do exterior. Pergunto eu a vocês: a quem interessa saber que o babaca A está assistindo ao desfile diretamente do Alasca? Ou que o babaca B está super feliz em Portugal vendo o desfile pela Globo Internacional? Tudo um repugnante e agudo nojo. A Globo, que trata futebol e Carnaval como entretenimento, que detém o monopólio dessas transmissões, presta – o que não é nenhuma novidade – um desserviço ao amante do futebol e do Carnaval. E faz – também não é novidade – um jornalismo abaixo da crítica;

* a prefeitura exibe, com orgulho, os quase 700 detidos durante o Carnaval por conta de xixi fora dos banheiros químicos disponibilizados pelo Poder Público. Ontem ouvi, na CBN, entrevista concedida por Alex Costa, Secretário Municipal de Ordem Pública, sobre o tema. Devo dizer, estarrecido, que esse sujeito não seria contratado por mim nem para engraxar meus sapatos. Não respondeu sequer a uma pergunta durante a entrevista. Falou muito, não disse nada. Usou, durante a entrevista (que durou pouco mais de 5min), centenas de vezes a palavra “questão”. Era um tal de “a questão da urina”, “a questão da educação da população”, a “questão dos banheiros químicos”, “a questão da fiscalização”, por aí. Soquei o volante do carro de tanto ódio. A Prefeitura, que nada em dinheiro (graças à parceria com o Governo do Estado, com o Governo Federal, e no Carnaval graças à parceria com uma marca de cerveja), que o desvia diante do nariz do cidadão incapaz de uma reação à altura, agora deu de punir, punir, punir. O incompetente disse que está estudando a possibilidade de, no ano que vem, multar os mijões, que é necessário, sim, haver paciência para esperar uma fila de meia-hora diante dos banheiros, e que não mais autorizará o desfile dos blocos que não cumpriram as regras estabelecidas pela Prefeitura. E a Prefeitura cumpre as mínimas regras de governar com decência a cidade? Haja paciência;

* vamos ao resultado da apuração aqui no Rio de Janeiro. Sabemos todos que há, sempre, armação para determinada escola e chororô por parte dos perdedores. O que quero lhes dizer é que foi simplesmente vergonhoso ver uma nota 9 dada à bateria da Estação Primeira de Mangueira. O que fez a bateria da Mangueira durante o desfile (veja um trecho aqui) foi um absurdo de tanta boniteza. Foi a única escola capaz de me fazer chorar diante da tela (chorei outras vezes, mas de raiva), mas isso não vem ao caso. Anseio, muito, para ver a justificativa que a besta-quadrada deu, no boletim de apuração, para explicar tanta obtusidade;

* foi muito bacana ver a Beth Carvalho de volta à Mangueira. Sentadinha ao lado de Sérgio Cabral, o pai, foi outra que fez valer a pena as duas noites viradas diante da televisão;

* os desfiles da Portela, da União da Ilha e da Grande Rio mostraram o erro que foi a LIESA decidir por não avaliá-las. O incêndio, embora trágico, faz parte do jogo. As três escolas mostraram capacidade de recuperação e podiam, principalmente a União da Ilha, fazer bonito na classificação final;

* só vi uma vantagem na vitória da Beija-Flor, que talvez tenha feito seu mais feio desfile de todos os tempos. A derrota da Unidos da Tijuca e do queridinho da Rede Globo, Paulo Barros. Se vencesse, estaria assinado o atestado de óbito da brasilidade do Carnaval das Escolas de Samba. Todas as alas da Tijuca – todas! – eram coreografadas (nem sombra de samba). Os carros, fazendo alusão ao cinema americano. Um lixo, um absoluto e desprezível lixo, como o cu do King-Kong do Salgueiro piscando.

Acho que era isso o que eu queria lhes dizer.

Até.

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CARNAVAL – EXORTAÇÃO À MORTE POR 3 DIAS

Quando o Salgueiro pisar na avenida na segunda-feira de Carnaval, por volta das 22h, estarei, como nos anos anteriores, e desde que me entendo por gente, diante da tela da TV assistindo, comovido, passar a vermelho-e-branco da minha aldeia, a vermelho-e-branco da minha Tijuca. Eu, devoto confesso da anti-festa – e já explico o porquê do “anti-festa” – pela primeira vez em muitos anos estarei quieto, no meu canto, durante os dias em que a magnífica esbórnia varre o Brasil de norte a sul, e varre meu Rio de Janeiro principalmente, centro nervoso da festa de Momo.

Há de ser assim, é preciso que seja assim. Os tempos pedem e meus deuses clamam, dentro de mim, por esse afastamento. Eis aí a primeira prova efetiva, que experimento na carne e na alma, de que o Carnaval é inversão, precipuamente é inversão. São os deuses, nesse momento, a quem tanto tenho me dirigido, que me pedem o afastamento. E eu me afastarei, que eu não sou besta de desobedecer.

Nasci em 69, filho de mãe salgueirense até a alma, como lhes contei aqui, e “o que importa é que eu sempre soube que mamãe, quando menina, morando na Rua dos Araújos, na Tijuca, evidentemente, teve uma babá, negra, que desfilava na ala das baianas da Acadêmicos do Salgueiro. Tem, ainda hoje, minha mãe, memórias vivíssimas da tal babá. Eu, quando menino, morando na Rua São Francisco Xavier, na Tijuca, evidentemente, lembro-me, com a mesmíssima nitidez com que minha mãe lembra da negra baiana, de assistir pela TV aos longos desfiles das escolas de samba, sempre ao lado de minha mãe, e lembro-me de vê-la sempre chorando, emocionada, quando a vermelho e branco pisava a passarela. Lembro-me, mais nitidamente ainda – sinto as mesmas dores agora – de suas unhas cravadas na palma da minha mão, soluçando, comovidíssima com aquilo tudo. Talvez visse, na telinha da TV, sua babá. Talvez fosse uma quimera e a negra já estivesse morta, talvez fosse saudade, não sei, nunca perguntei nada. Eu atribuía tudo ao amor pela escola.”.

Nesse mesmo texto, de dezembro de 2006, escrevi que “quando o Salgueiro pisar a avenida em 2007, evocando as Candaces, mulheres guerreiras, cantando um samba que se alinha à tradição dos mais belos sambas do Salgueiro – saudando os orixás, a África, os negros e suas heranças que encontram na vermelho e branco o mais bonito terreiro – eu vou ter, de novo, calças curtas, camisa listrada, pouquíssimos anos, e chorar de saudade – sabe-se lá – da babá de minha mãe.”.

Ocorre que agora, meus poucos mas fiéis leitores, há uma necessidade mais urgente. Preciso, e como preciso!, morrer na madrugada do sábado para renascer, renovado, na quarta-feira de cinzas. E se meus deuses têm me feito tantos apelos (a tal primeira inversão), é um apelo público, desavergonhado, sem resquício de qualquer pudor, que quero fazer aos meus mais chegados, eles que entendem e entenderão a razão pela qual preciso desse afastamento, desse arremesso em direção ao passado e ao invisível.

Eu já vivi, em 2007, a experiência da morte, por amor a um amigo, a um irmão. Corria o ano de 2007, véspera do Carnaval, quando anunciei, de pé, na livraria Folha Seca, na sexta-feira, véspera do desfile do Bola Preta, diante de minha menina e de amigos meus que acompanharam, assombrados, o anúncio:

“- Morro agora, amigos meus, morro agora, amor da minha vida, para somente renascer amanhã à tarde, depois do desfile do Bola Preta, eis que cederei meu corpo, que não mais me pertencerá a partir da agora, para meu irmão Fernando José Szegeri, que desfilará, assim, pela décima nona vez, pelo portentoso Cordão!”

E fui – vejam com seus próprio olhos! – Fernando Szegeri durante o sábado de Carnaval, aqui e aqui, ele que não pôde vir ao Rio por conta do nascimento do filho.

É chegada, pois, a hora de mais uma subversão da lógica e da ordem, é chegada a hora da imortal vitória da ilusão, apud Aldir Blanc.

Permitam-me o desabafo, a prece dita aos prantos, a exortação feita em ritmo de samba bem marcado pelo surdo de marcação imaginário que há de me ecoar nos ouvidos, durante três dias, como o coração acelerado de um feto à espera da luz.

Afastar-me-ei das ruas do meu Rio mas hei de estar, em algum momento, ao lado de meu mano de fé, Fernando Szegeri, de quem já fui cavalo, nas ladeiras de Olinda, nas ruas do Recife, ao som da triste melodia de um frevo qualquer. Chame por mim, mano!, uma vez que seja. Hei de estar, durante um minuto que seja, bebendo com outro de fé, Luiz Antonio Simas, num bloco qualquer que há de sair no Rio de Janeiro, abraçado à Candinha e afagando a barriga que guarda o menino por vir. Chame por mim, mano, uma vez que seja! Hei de estar com Julio Vellozo, com Arthur Tirone, meu mano Favela, com o Felipinho, com meu do peito, Bruno Ribeiro: ergam um brinde à minha ausência-morte, chamem por mim, amigos meus, uma vez que seja! Hei de estar segurando Helena no colo, uma vez que seja, vendo passar o arlequim de mãos dadas com a colombina – chame por mim, Leo Boechat, uma vez que seja! Hei de estar com minha comadre, Mariana Blanc, tendo a Milena por perto, minha borboleta. Chame por mim, comadre, uma vez que seja! Hei de estar com a Betinha na Rio Branco, hei de estar com o Flavinho e hei de ver o Felipe tonto de rir diante de uma guerra de confetes – chamem por mim, queridos meus, uma vez que seja! Hei de estar de porre, trôpego, esbarrando na minha irmãzinha, a Marcela, que há de ser mais Manguaça que nunca durante o tríduo momesco, e hei de receber o abraço da Sonia ao chegar em casa pela manhã, trocando as pernas. Chamem por mim, minhas amadas, uma vez que seja! Hei de estar nos fios do talabarte junto do Buba, no coração da bateria da Vila Isabel, e hei de estar também na cabeça da baqueta que vai surrar o couro do surdo, serei eu, também, gritando. Chame por mim, malandro, durante o desfile! Hei de estar brincando com Rosa e com Chico antes de sair pra rua, hei de estar – hei de estar! – com minha comadre Stefania, misturado à turba de um bloco qualquer – chame por mim, maninha, uma vez que seja! Hei de estar vendo Iara, moça bonita de olhos negros como jabuticaba, afilhada que amo tanto, e hei de estar nas mãos e na voz da Railídia, que a Railídia há de cantar durante o Carnaval. Gritem por mim, queridas, gritem que eu me farei presente! Hei de estar ao lado de minha anã preferida, Flavinha Calé, e ao lado de Fernando Borgonovi, bebendo industrialmente e dormindo nas sarjetas da Tijuca. Chamem por mim, queridos, uma vez que seja! Hei de estar bordejando pela cidade com Fabinho Calé, serão seus os meus olhos a cada flerte furtivo durante a festa. Chame por mim, caboclo, chame que estarei presente. Uma vez que seja!

E quero estar, como quero e preciso estar!, experimentando de novo – eis o milagre da fé foliona – no instante exato em que o Salgueiro pisar na avenida, o calor do útero de minha mãe, longe das agruras e das dores do mundo, pronto pra apoteose da vida quando a escola acabar de atravessar, gloriosa, a avenida.

Em 69, quando nasci, pouco mais de dois meses antes de eu vir ao mundo – e eu cheguei pela Tijuca, é claro! – o Salgueiro desfilou cantando a Bahia de todos os deuses. Tenho, vá entender, absoluta certeza de que ouvi, ao vivo, a vermelho-e-branco desfilando naquele ano.

São os milagres do Carnaval. E quem há de duvidar deles?

Até.

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E EIS QUE CHEGOU O CARNAVAL

É amanhã, meus poucos mas fiéis leitores, que desfila o Bola Preta, concentrado desde as primeiras horas do sábado de Carnaval nos arredores da Cinelândia. Hoje, sexta-feira, véspera do ápice do tríduo momesco (e o primeiro dos quatro dias ser o ápice já diz muito sobre a inversão que o Carnaval representa), é dia de preparação a fim de que o corpo agüente o tranco do trajeto sob o sol escaldante que se anuncia e que há fazer com que suemos o suficiente para expurgarmos culpas, medos, frustrações, dúvidas, incertezas e as mazelas do dia-a-dia. É dia de dormir cedo para que às seis da manhã, no máximo, estejamos prontos para a imolação em meio à multidão de mais de um milhão e meio de pessoas dispostas ao cumprimento do roteiro do mais tradicional bloco da minha mui amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Para driblar as peripécias e as artimanhas que o Bola Preta trama, ano após ano. A fim de que voltemos para casa com cicatrizes nos pés, com dores no corpo, quase sem voz. Como diz, há anos, com a devida autoridade, meu mano Fernando Szegeri, há que se sofrer! Carnaval é, acima de qualquer coisa, sacrifício. É chupeta, meu bem, pro neném. É dia de beliscar imaginariamente a Elizeth e convidá-la, depois, com a cara mais limpa do mundo, pra beber no balcão do Tangará, que está vivo ainda lá, ainda lá, no sonho coletivo que há de nos embalar. É dia de desfilar ao lado da Malícia e da Inocência, irmãs gêmeas que ainda moram lá e que só querem namorar. Dia de dançar ao som da Banda do Sodré, que desabrocha e faz lembrar o flamboyant em flor de Paquetá. Às 10 horas da manhã o Bola – que sabe eternizar – vai passar na avenida popular. Dia de paquerar Carminha Rica e levá-la pra beber no Bar Luiz. Chama Caymmi, Noel, Lamartine, Ary, Bororó, Ademilde, o Orestes, Sinhô, Donga, Jota Efegê. Dia de misturar gente da Saúde, da Vila, do Estácio, de Madureira e da Tijuca que, na uca, sempre comparece em peso. Dia de encher a cara com Pato Rebolão, Porrete e outros bambas sem par, de esbarrar com Trinca-Espinha e K-Veirinha – é carnaval! Dia de bater um fio pra Zezé Gonzaga pra beber com ela no Nacional. Evoé, meus poucos mas fiéis leitores. Despeço-me hoje pra despertar Vilma Flinstones amanhã, junto com os primeiros raios de sol e com o primeiro gole de cerveja. Volto na terça-feira – ou na quarta-feira. Deixo com vocês, expostas no balcão do Buteco, a gravação do choro Bola Preta, de Jacob do Bandolim, e a sensacional letra (póstuma) escrita pelo gênio Aldir Blanc. Taí o primeiro desafio (e sacrifício!) do Carnaval: tente cantar (aqui) a letra encaixando nota por nota, que o Aldir não é mole! Bom Carnaval a todos. Profundamente emocionado, me despeço. Até!

“Miudinho da Penha a Xerém
eu sei onde tem…
Um balanço de vem-ou-não-vem
no bonde ou no trem.
Socialaite beijou Zé-Ninguém:
nenhum nhém-nhém-nhém.
Chupeta, meu bem, pro neném…


Um inglês que trocou por Roskoff
o tal Big Bem,
o glamour de João Valentão
no Rio:
olha o cabra-da-peste,
deixa estar,
pintando o 7,
beliscou a Elizeth
e foi beber no Tangará!

Malícia e Inocência moram lá.
São gêmeas e só querem namorar.
A Banda do Sodré
desabrocha e faz lembrar
o flamboaiã em flor de Paquetá.

– mas, ai, meu Deus que saudade que dá…

Já são 10 horas da manhã
de sábado e o Bola vai passar.
Passou e não passou,
foi pra Lapa mas ficou.
O Bola preta sabe eternizar.
– Eu sou de lá…

Mas tem um risco Brasil de mulhé
com a tal cana-caiana e café
e bota fé que o Bola chegou
não tem Zé-Mané!
Colombina dá bola pra mim
que ando assim-assim
– Sou meio Pierrô e Arlequim.

Tô na máquina do velho Wells
descida dos Céus,
um Balzac soltando no mundo
traque bom de pelica.
Tô no Bola,
a dica é de cuíca,
tão feliz a gente fica,
paquerei Carminha Rica
e fui beber no Bar Luiz.

Demorô,
oi, Iaiá, ai, Ioiô,
eu tô que tô
ou tu fica ou não fica…
A mulher ideal
é a Neuma, a Zica, a Surica
– ai, cumé qui eu vô fazê? Hein?

Duvidô,
de-ó-dó,
chororô, ô,
se encrencou,
o segredo é viver.
Pro Bola Preta
eu vou de muleta
e sinto a caceta
rejuvenescer.

Vem Caymmi,
Noel, Lamartine, Ari, Bororó,
Ademilde também, o Orestes,
Sinhô, Donga, Jota Efegê
– Ai, o Tatu subiu no Pau!

Da Saúde, da Vila, do Estácio e de Madureira,
na uca, a Tijuca também quis comparecer,
pagou pra ver porque
eu vou sambar
no Bola, meu cordão,
o sangue e o coração
com Pato Rebolão, Porrete
e outros bambas sem par…
o Bola Preta, preta, é meu segundo lar
e é lá que eu quero
me curar.

Os Democráticos e os Fenianos são pau-a-pau.
A vizinha mamava na minha: ensaio geral.
Trinca-Espinha virou K-veirinha
– Hoje é Carnaval!
Não chora, meu bem:
é norrrmal! Uau!

Preto e Branco, as cores do time:
feijão bom de sal.
Na moral, a moçada não quer
o teste da farinha.

Quem apaga e perde a linha
– amor com amor se paga –
liga pra Zezé Gonzaga
e vai beber no Nacional.

Vou pro Bola, já.
Tô ainda lá…
Eu vou me esbaldar
pra eternizar,
pra eternizar,
pra eternizar…”

Por sugestão de um leitor, eis, aqui, a gravação na voz de Aldir Blanc e Jayminho Vignoli!

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O ANTI-RIO DE JANEIRO

Quem me lê, sabe: quando quero falar daquele bairro estranho na zona oeste da cidade eu digo Barra Cada Vez Menos da Tijuca. Pois vejam se não é o anti-Rio de Janeiro. No próximo sábado, no primeiro grito de carnaval (carnaval?!) do pedaço, a partir do sunset (lá eles não falam pôr-do-sol), vai ter show (show?!), na praia, com a bateria da VIRADOURO (que fica a mais de 50km de lá) e com a apresentação de um sujeito-quem chamado Roger Lyra, que assim se apresenta:

“Ao longo de 20 anos de carreira, o nome de Roger Lyra tornou-se um sinônimo de qualidade e competência. Atualmente, é o nome de maior expressão na cena eletrônica do Rio de Janeiro e sem dúvida, é um dos profissionais mais requisitados do Brasil, acumulando fãs em todo o país com apresentações marcantes ao lado de nomes como Armin Van Buuren, Paul Van Dyk e Fatboy Slim. Sua participação em mega-eventos como o Superstar DJ´s ao lado de Tiesto em Ipanema para um público superior a 200.000 pessoas ou no Réveillon 2007 com Above & Beyond na praia da Barra para mais de 700.000 pessoas, são a prova da experiência de um verdadeiro especialista na arte da mixagem, com vocação natural para manter a pista cheia onde quer que esteja, seja nos grandes festivais como o Skol Beats, Creamfields ou Helvetia, ou nos principais club´s do país como Anzu, Privilege, Nox, Pacha e principalmente no club 69 em Ipanema, club de destaque na cena carioca onde mantém uma residência quinzenal.”

Carioquíssimo e ultracarnavalesco o programa, não?

Vejam o estilão do cara:

Tsc.

Até.

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NEM MUDA NEM SAI DE CIMA

Como lhes contei aqui, desfilou ontem o NEM MUDA NEM SAI DE CIMA, na Tijuca, homenageando – merecidamente – Moacyr Luz. Bonito o desfile, bonito o que escreveu o enredo, hoje, em seu blogaqui:

“Essa história de bloco deveria ser tratada com fichinhas tipo BA – BLOCOS ANÔNIMOS. A gente vicia na emoção que esse estatuto traz, perde e ganha amigos, rifa a alma pra conseguir comprar as camisas, convence um craque amigo de criar a estampa consagradora, jura que será a última vez que se mete nisso, mas quando a bateria cadencia, chora… O desfile desse ano do “Nem Muda Nem Sai de Cima” me deu nó na garganta. Fui o enredo. Acostumado a homenagear, fui pego de supresa na emoção, nasceu um riso na boca que só amenizou quando amanheci repetindo o último verso – “Cabô, meu pai, cabô…”. O arredor desse estado todo é a cidade. As pessoas chegam de bairros distantes, ouso dizer que conheço todos. Vêm do Méier, Copacabana, Irajá, Baixada Fluminense. Uns deixaram o churrasco na birosca da esquina pra alimentar de canto o rio de gente que transborda à rua. Outros não quiseram se bronzear, cruzando o túnel que separa status pra abraçar a Muda com seus apêndices – Formiga e Borel. Vejo os ambulantes suados. Carregam gelo nas costas, abanam com a outra mão o braseiro de asinha e salsichão. Agora um latão é tres, dois é cinco! Os rolimãs numa ladeira tangeciam nossos corpos enquanto o carro de som cresce na microfonia do intérprete. Meus queridos Gabriel, Pedrinho e Guilherme gesticulam animados uma garrafa de maracujá. O mestre Capoeira pede atenção ao cavaco, vem aí a Bateria do Império da Tijuca. Mesmo longe da passarela, eu recuo. Na outra margem correm as caixas pro foguetório: só pode durar 30 segundos, ordem da prefeitura! Hoje tem corda no bloco protegendo os ritmistas. Sai a primeira estrofe, e, junto com as rimas, o primeiro morteiro… “Aplausos, pois o samba somos nós”. Não sou da Polícia Militar pra contabilizar o público. Acho que, feito a final de 50, o Rio de Janeiro compareceu. Basile e Lula subiram pra pedir à São Pedro que não chovesse, destino contínuo dos nossos desfiles, e o bloco saiu pela Garibaldi, itinerário tijucano que inclui um congestionamento da Conde de Bonfim. Percebi que tempo passou, 15 anos. As crianças que habitavam os primeiros enredos, hoje são pais de novos foliões. O coração permanece amarelo e vermelho, cores da nossa bandeira. Eu saí da Tijuca, mas a Tijuca não saiu de mim. Até a garça do Rio Maracanã me acenou. Só não fui à dispersão porque o coração engasgou na boca, os olhos molhados não enxergariam meus diretores pra agradecer. Juro que foi a última vez, mas a bateria cadencia, o peito acelera e…”

Ao lado de dois de meus afilhados – Felipe (no meu colo, na foto abaixo) e Helena – e com uma garrafa de Red Label no bolso, presente do Pavão, eu fiz a festa.

A lamentar, apenas, o fato de que não consegui comprar, e pela primeira vez em 15 anos, uma camisa do bloco. Não havia o meu tamanho…

Até.

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A VILA NA 28 DE SETEMBRO

Nenhum de nós, ali, bebeu com Nöel ou foi com ele ao bordel. Mas tínhamos todos a intenção, lúdica, imaginária e efetiva de estarmos próximos do poeta da Vila, da energia da VILA ISABEL, que promete fazer baixar o malandro na avenida no desfile de 2010. E ele baixou, meus poucos mas fiéis leitores, já no ensaio de quarta-feira passada na 28 de Setembro, coração do bairro. Encontrei-me com Luiz Antonio Simas, sua Candinha e Claudio Renato, diplomado naquelas pedras das calçadas musicais, morador da Praça Sete, por volta das 20h, no PETISCO DA VILA, na esquina da 28 com a Visconde de Abaeté, a fim de preparamos o músculo do lado esquerdo do peito pra pedrada que – sabíamos – estava por vir.

Luiz Antonio Simas, Candinha e Claudio Renato, PETISCO DA VILA, 27 de janeiro de 2010

Ficamos ali coisa de – o quê? – uma hora, uma hora e meia, até que a bateria começou a fazer barulho, sabem como?, aperta o couro daqui, afina a cuíca dali, esquenta os tamborins, que foi quando pedimos a conta e partimos pra avenida.

Encontrei uma porção de amigos, encontrei minha comadre, encontrei com a rapaziada do morro dos Macacos, do Pau da Bandeira, com a rapaziada que durante anos foi responsável pelo suingue do SEGURA PRA NÃO CAIR, bloco que mantive por 5 anos, entre 2001 e 2005, ali pertinho, na Vila mesmo, limite com a Tijuca.

Quando Tinga, puxador oficial da escola, começou a cantar “Tão bonita a nossa escola, é tão bom cantarolar…”, foi difícil segurar a emoção. Quando a bateria, sob o comando do mestre Átila, entrou pra acompanhar o povo, foi ainda mais difícil. E foi impossível, meus poucos mas fiéis leitores, segurar o choro e a emoção quando milhares de vozes louvaram Nöel Rosa com o samba monumental de autoria do Martinho da Vila pro Carnaval de 2010.

Eu vi a Candinha chorando, eu vi o Simas com lágrimas nos olhos, eu vi o Claudio Renato indo chorar sozinho, na esquina mais próxima. E vi – e filmei! – o que eu havia lhes contado aqui que eu veria… “(…) os apartamentos dos prédios ficam todos acesos com gente na janela, bandeiras azuis e brancas tremulando nas mãos dos moradores orgulhosos e a energia da nossa Vila Isabel mexe com o coração do mais frio dos homens.”.

Sou da Vila não tem jeito, comigo eu quero respeito que o meu negócio é sambar!

Com vocês, quatro vídeos feitos durante o furdunço, com destaque pro último, onde aparece um senhor, cabelos brancos, copo de cerveja no parapeito da janela, fazendo tremer dois pequenos pavilhões dessa gigantesca escola de samba!

Até.

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NOVO BLOCO TIJUCANO

Acaba de nascer, de um lampejo genial que fez tremer o balcão de um buteco às margens do rio Maracanã, mais um bloco carioca, precisamente tijucano: o Nem Muda Nem Sai do Simas, composto por fãs incondicionais de Luiz Antonio Simas e por leitores aficcionados de seu blog, o melhor do Brasil, o Histórias Brasileiras. Abaixo, o pavilhão do bloco, criado por Lucio Lemos, freqüentador do buteco-nascedouro do furdunço!

Até.

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