O CINEMA HÚNGARO (OU OS COLETIVOS)

Prometi ontem ao Maluco Fundamental, imprescindível para a sobrevivência da cidade do Rio de Janeiro (estou a lhes falar de Raphael Vidal, que ganhou de mim o epíteto que agora todos trazem no bolso como se espontâneo fosse chamá-lo assim), falar-lhes hoje sobre os coletivos, essa nova moda, essa nova bossa, esse novo savoir-vivre, por conta do que escrevi ontem: não há nada mais inviável do que um coletivo (ele, o Raphael Vidal, confessou-me ter tido uma crise de riso diante dessa verdade que estaquei na tela).

Mas deixarei para falar sobre os coletivos amanhã. E isso porque recebi, há pouco, no texto O Bigode, que publiquei ontem (aqui), comentário do seguinte teor:

“Me lembra os famosos filmes húngaros, em preto e branco, som horroroso e sem legenda, porque era chique vê-los em cinemas de circuito de “arte”, nos anos oitenta. Se você não os visse, era tachado de burro, ficando fora dos circuitos intelectuais. E além de ver, tinha que comentar!”

O comentário é do leitor Claudio Luiz Furtado, paranaense da cidade de Ponta Grossa, e lê-lo foi o suficiente para que eu fosse arremessado ao tempo do cinema húngaro. Eu escrevo cinema húngaro e subitamente me vêm à mente o que já escrevi sobre o cinema iraniano, aqui e aqui.

Notem vocês a semelhança de comportamento entres os entusiastas dos cinemas iranino e húngaro que emerge dos tais textos a que aduzi e do comentário que transcrevi acima. Segundo o leitor, de insuspeitada opinião, a bossa do espectador dos filmes húngaros era justamente fazer a blague com o reles mortal que, como de se esperar, detestava o decantado cinema húngaro, de “som horroroso e sem legenda”. Chegava ao fim a película e o intelectual dizia, seriíssimo:

– Gosto mais do olhar do Mi.

O homem-comum, que odiara o filme, fazia cara de quem não entendia. Pois era quando o intelectual ejetava o queixo pra frente a fim de dar mais dramaticidade à fala e soltava:

– Mi! Miklós Jancsó. Um gênio!

E os demais, que vinham atrás caminhando sobre a tapeçaria vermelha da sala de exibição, geralmente um cinema que integrava o chamado circuito de arte (o que quer dizer que era pequeno, fedia e quase em ruínas), relinchavam em uníssono:

– Gênio! Um gênio!

– Zseni! Zseni! – um mais descolado gastava o húngaro.

O pobre-diabo sentia-se aterrado pela própria ignorância que lhe era agradável.

Percebam que a humilhação posterior é que era o ápice. Porque não bastava humilhar o homem médio que não sabia quem era Miklós Jancsó. Era preciso ir mais fundo. O cinéfilo o punha praticamente contra a parede e perguntava:

– Gostou?

Não. Era evidente que ele não havia gostado (sequer havia compreendido aquilo tudo). Mas percebendo o olhar, como se fora uma foice, balançava a cabeça em sinal de positivo.

– Quem é o diretor? Quem é? – urrava um fanático pelo cinema húngaro que assistia, com prazer masoquista, aquele estupro cultural.

E o silêncio daquele pobre-diabo incendiava a multidão de intelectuais.

– István Szabó! – urravam numa só voz.

E repetiam:

– István Szabó!

Dali partiam para o aparelho de um deles para – era o que se dizia – uma plenária sobre o filme.

E o pobre-mortal voltava pra casa, de ônibus, com vergonha inclusive de olhar nos olhos do trocador.

Era o tempo, meus poucos mas fiéis leitores, em que dizer não à pergunta você curte o cinema húngaro? (e esse húngaro era dito, sempre, com o queixo projetado pra frente) significava o aval para o linchamento moral e público, o desterro e o degredo do homem sincero.

Até.

3 Comentários

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3 Respostas para “O CINEMA HÚNGARO (OU OS COLETIVOS)

  1. Valeu, Edu. A mesma coisa vale para a música dodecafônica (que palavrão do cacete, hein?), o dadaísmo e outras proliferações. Bom mesmo, amigo que não conheço pessoalmente mas que ja admiro pela verve, é Caymmi, Cartola e Antonio Maria, sem falar de João Bosco e Aldir, dentre tantos! Abraços e à Flavinha, que estagiou comigo anos atrás.

  2. Julio Vellozo

    Cumpre lembrar que nesses cinemas de arte da década de 80 sempre havia um carpete fétido e imundo, onde os ácaros já haviam construído uma civilização complexa, com divisão social do trabalho, líderes e Estado centralizado.
    Se você perguntasse para um dos fãs do cinema hungaro a razão dessa decoração eles diriam que era uma crítica ao Oscar com o seu famigerado e burguês Red Carpet.

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