JAIME GOLD, MAIS UMA VÍTIMA DE OUTRAS VÍTIMAS

Ontem foi mais um dia de embrulhar o estômago de gente como eu que, apesar de hoje militar na advocacia privada, defendendo meu pão diariamente, matando um leão por dia sozinho, já atuou ou ainda atua na área dos Direitos Humanos que, vira-e-mexe, um idiota diz tratar-se de “direitos humanos para humanos direitos”, numa visão reducionista, burra, preconceituosa e desprovida de qualquer lógica.

Antes de entrar no assunto que me traz hoje de volta ao balcão do Buteco, depois de mais de um mês afastado, quero lhes contar uma história rigorosamente verdadeira e que trago à tona, depois de muitos anos, não querendo com isso fazer proselitismo, não querendo sugerir o mesmo a ninguém mas querendo apenas começar minhas digressões sobre o assassinato do médico Jaime Gold no entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões postais da zona sul da cidade do Rio, com essa história para fazer uma melhor reflexão.

Corria o ano de 1994. Eu estava, de carro, na esquina das ruas Barão da Torre com Joana Angélica, com o vidro aberto, quando senti algo me espetar e me ferir na altura do lado esquerdo do pescoço. Um virar de olhos num átimo de segundo e vi uma menina, negra, não mais do que 12, 13 anos de idade, com um caco de vidro na mão me pedindo a carteira e o relógio. Eu, talvez premido pela recentíssima atuação na área de Direitos Humanos (eu trabalhara, durante anos, na Fundação Bento Rubião e fora ativíssimo na formulação das propostas que renderam o Estatuto da Criança e do Adolescente), movido, sabe-se lá, por uma dessas lufadas de esperança que insistem em nos fazer crer no afeto acima de tudo, disse à menina:

– Você troca meu relógio e minha carteira por uma pizza, um beijo e um abraço? – estávamos quase em frente à pizzaria Itahy.

Eu vi: a menina soltou o caco de vidro no chão e deu de chorar dizendo que sim.

Pedi a ela que me esperasse, estacionei o carro logo ali em frente na praça Nossa Senhora da Paz, fui até ela, tomei-lhe a mão mirrada entre as minhas e fomos pra pizzaria.

A menina, Rita, comeu duas pizzas inteiras. Tinha olhos de medo e de fome. Cobrou-me, depois que paguei nossa conta, o abraço e o beijo que eu prometera e que eu lhe dei tão ou mais emocionado que ela. Dei a ela meu telefone – e ela voltou a me ligar mais duas vezes, sempre pra comermos a mesma pizza na mesma Itahy – deixei-a em casa e foi meu irmão Fernando Szegeri o primeiro a saber dessa história que lhe contei aos prantos pelo telefone.

Volto ao tema.

O médico Jaime Gold foi assaltado enquanto pedalava na Lagoa e, desafortunadamente, esfaqueado e morto por dois menores de idade – é o que tem apregoado a imprensa e a polícia.

No momento em que o Brasil, por obra e graça do Congresso Nacional mais conservador desde a década de 60, discute a redução da maioridade penal – um absurdo por todas as razões – é preciso, de novo – e só quem militou ou milita na área dos Direitos Humanos sabe o quanto é penoso defender os mais básicos princípios que deveriam nortear a humanidade  – fazer emergir a discussão sobre a questão da violência urbana sem o calor que cega e mutila a razão.

Atenção para o inacreditável depoimento do Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro: “É mais do que lamentável. É inadmissível o que aconteceu ontem na Lagoa, um lugar querido por todos os cariocas. Um lugar frequentado pela população do Rio e estrangeira. Por todos os turistas que vem ao Rio. Cenas dessa natureza não podem se repetir. É um cartão-postal e não podemos assumir de maneira alguma que essas ações aconteçam, muito embora a gente entenda as dificuldades que as polícias têm de trabalhar”.”.

É preciso que alguém diga a esse sujeito, que tem lá seus méritos (afinal estamos diante de números que apontam para o menor número de homicídios no Estado do Rio de Janeiro desde 1994) que é inadmissível o que aconteceu ontem na Lagoa como é inadmissível o que acontece, dia após dia, nos morros e nas favelas cariocas (que a imprensa deu de, há anos, chamar de “comunidades” com o único intuito de embelezar o que é feio porque é degradante e indigno). José Mariano Beltrame, com essa declaração, defende mais o cartão postal do que as vidas humanas envolvidas no imbróglio: a do médico, que morreu, e a dos meninos que morrem um pouco a cada dia desde que nasceram.

É preciso que alguém diga a esse sujeito que esses meninos e meninas de rua, essas crianças e adolescentes, que receberam durante o Governo de Leonel de Moura Brizola aquilo que seguramente seria a solução – educação em tempo integral, projeto que Moreira Franco e seu Secretário de Educação, Carlos Alberto Menezes Direito, enterraram para sempre sob os aplausos da classe média e da elite carioca – recebem, desde o nascimento, facadas atrás de facadas da sociedade e dos governos.

É preciso dizer que sim, que é válido, legítimo e compreensível o choro da família que perde um pai – como Jaime Gold, por exemplo. Mas é preciso saber que para aqueles meninos as palavras “família” e “pai”, muitas vezes não significam nada. Porque eles não tiveram família, não tiveram um pai, não tiveram acesso a nada capaz de fazer deles cidadãos na mais ampla acepção da palavra.

É preciso saber – procurem conversar com um desses meninos que ficam como pedintes nos sinais da cidade – que um fechar de vidros do carro sob o manto do medo, um olhar de ódio, um olhar de repugnância, tudo isso são facadas na alma dessas crianças.

E o que temos aí, hoje, nas matérias que cobrem o episódio, são barbaridades como essa, publicadas pelo jornal O Globo, um dos mais ferrenhos jornais na defesa da redução da maioridade penal: “Como diziam os mais antigos, ele [Jaime Gold] não era deste mundo”. E querem saber por que o jornal chegou a essa conclusão? Porque Jaime Gold cumprimentava o porteiro de seu prédio e educou seus filhos mesmo depois de divorciado! Patético é pouco pra definir isso.

Os meninos que esfaquearam o médico não o fizeram por causa de uma simples bicicleta – façam-me o favor! Eles estavam ali, vá saber, com a arma (que mata, como matou) que usam para se defender de suas próprias rotinas e de seus destinos desgraçados e sem horizonte. Cravaram a faca no médico como se cravassem a faca numa bananeira. Como se cravassem a faca na sociedade que tudo lhes nega. Como se cravassem a faca na polícia que os aterroriza desde o dia em que nasceram. Como se cravassem a faca no seu próprio peito, vazio de afeto, de esperança, de perspectiva.

Só a educação salva – e isso, que soa como um clichê para os que não se sensibilizam diante da desigualdade e da pobreza, é a única saída.

A única.

Até.

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32 Comentários

Arquivado em gente, imprensa, política, Rio de Janeiro

32 Respostas para “JAIME GOLD, MAIS UMA VÍTIMA DE OUTRAS VÍTIMAS

  1. Querido Edu: lhe sigo sempre, mesmo distante do Brasil do qual sinto uma imensa saudade, e dessa vez você me fez chorar….. Abraços.

  2. Vicente Ferreira da Silva Filho

    Edu, meu caro, o ser humano, atualmente, consegue tudo. Menos ser humano. Pessoas como você nos ensinam como o ser. Forte abraço.

  3. João Henrique

    Sou médico. Consequentemente, estou cercado das opiniões reacionárias dos ‘estimados colegas”. Dá pra imaginar o que está sendo dito sobre esse episódio (que é uma droga, obviamente). Nesse contexto, é muito bom ler seu texto. Na falta de palavra melhor (poucas palavras são melhores), foi foda. “Facadas na alma”… vou usar essa por aí também… Abraços

  4. assustado com o crime e sua repercussão, questionei que mortes em outros lugares não recebiam tanta atenção. observação simples e curta. recebi de volta um educado “chegou a patrulha comparativa”. ótimo texto.

  5. Edu, sem palavras.Choro com tudo e no seu texto pois falo e penso e sinto assim,exatamente assim.

  6. Anna Antunes

    Edu,
    Não te conheço. Vi tua reportagem através do Bruno, amigo que sabe bem o que é perder um pai !
    Parabéns! É muito difícil querermos que esses menores respeitem a vida de outra pessoa se ninguém algum dia respeitou a deles.
    Está TUDO errado e eu tenho medo pelos meus filhos e por todas as crianças. Esses menores foram privados de serem crianças. E o pior é ver todo mundo dizendo que esses animais tem mesmo que morrer. Que Deus nos ajude a todos porque somos TODOS vítimas.

  7. Hoje, por causa de seu texto, mais do que nunca chegarei em casa e darei muitos abraços e beijos em minha filha que adotei e em meu filho de meu sangue. Porque são pessoas como você que me fazem voltar a crer no futuro, mesmo em tempos tão escuros.

  8. Patrícia Passos

    Edu, seu relato é belíssimo, muito bem escrito e emocionante! Mas não posso me ater de comentar… Concordo quando vc diz que esses menores que cometeram esse crime brutal não sabem o significado da palavra família, afeto, carinho, etc… Realmente podemos imaginar o histórico familiar desses meninos mas, JAMAIS vc vai me convecer que fizeram o que fizeram, enterrar uma faca numa pessoa como se fosse um porco, dilacerando seus vários órgãos por dentro, num gesto extremamente brutal, pelo histórico de suas vidas. Uma coisa não justifica outra! Acredito muito que a vida é feita de escolhas, sejam elas quais forem, ou você faz as certas ou as erradas, faz parte… Mas de forma alguma MATAR uma pessoa é uma “escolha justificável”. Me desculpe, mas sou completamente a favor da redução da maioridade penal. Isso, quero deixar bem claro, no país que estamos vivendo hoje! Se, por acaso, houver mudanças nos sistemas de segurança, prisional, político, etc… aí pode ser que eu mude minha opinião. Do contrário, MATOU TEM DE PAGAR POR ISSO!!! E não é o fato de ser menor que não vai pagar. TEM DE PAGAR de alguma forma… Você há de concordar comigo: hoje, um “menor” de 16 anos não pode votar? Então pode ser preso!!!

    • Não, não concordo com você, Patrícia. Mas está aí, registrada sua opinião.

    • Engraçado que as mudanças que você propõe não incluem educação, saúde, moradia, menos iniquidade na distribuição de renda, enfim, civilização!

    • Betinha

      Nossos atuais sistemas prisional, de segurança e político, para usar suas palavras, são motivos suficientes para sermos contra a redução da maioridade penal. Não compreendo como alguém pode verdadeiramente acreditar que encher ainda mais nossas cadeias vai trazer alguma mudança. É evidente que o caminho, como bem disse o Edu e outras pessoas que aqui comentaram, passa necessariamente por educação, moradia, melhor distribuição de renda. Enfim, dignidade.

  9. Hamilton Schiavone

    Concordo com a Patrícia. Eles escolheram a vítima, planejaram o ato, sem dó e, sabendo da impunidade, não exitaram em meter a faca. Estivesse por perto um parente ou amigo para socorrê-lo, seria justíssima, menores ou não, a execução sumária desses pobres inocentes, ali, na hora!

    • Pois bem, Hamilton: se “um parente ou amigo” matasse os menores eles responderiam, na forma da lei, pelo crime cometido. De um homem pode-se esperar esse gesto irracional. Do Estado, nunca.

  10. A imprensa vai só no factual, não chega junto para desatar o nó dos acontecimentos violentos efetuados pelos meninos e meninas de vida mal assistida, pelas famílias e pelo estado. São posições hipócritas da alta sociedade carioca, lastimável.

  11. Ivone Calmon

    Concordo com voce . Falta afeto amor ,educação sao uns pobres meninos

  12. belíssimo texto.
    bravo!

  13. Melhor artigo que li sobre esse assunto. Direto ao ponto certo!

  14. Texto com sentimento de humanidade, algo do qual todos nós esquecemos como praticar. Sem compaixão, as sociedades insistem em buscar na justiça, ou na educação formal, a cura de algo que nos aflige há milênios: as trevas da ignorância. Mas há esperança, e um meio virtuoso de mudar o que queremos: começando por nós, em nossas vidas. Dizem que Gandhi afirmava: Seja a mudança que você deseja no mundo. Grato pelo texto e pelo espaço.

  15. Edu, belo e assertivo texto. Parabéns!

  16. Pingback: Eduardo Goldenberg: Da fome da menina Rita à morte do médico Jaime Gold | Escrevinhador

  17. Pingback: Eduardo Goldenberg: Da fome da menina Rita à morte do médico Jaime Gold | bita brasil

  18. igor

    Texto delicado e humano , o assunto infelizmente serve a mídia reacionária e aos justiceiros de plantão para trazer a tona a barbarie que seria a redução da maioridade penal .
    Acho que muitos ganharam algumas lágrimas .

  19. DENIS

    O fato em si, independente do ponto de vista é muito triste: homicídio, latrocínio, envolvimento de menores de idade….Mas sob a ótica do Edu e com o relato da experiência que ele teve, foi impossível não se emocionar.
    Li em outro texto seu que “…Não é possível que não haja ninguém capaz de, com brilhantismo e didatismo, fazer as pessoas verem que é a imprensa do Brasil..” Discordo! Há gente com essa capacidade sim. Gente como como vc, que além do brilhantismo e didatismo ainda nos presenteia com “poesia” e humor. Vc deveria escrever mais. E nós deveríamos valorizar mais gente como vc e sua escrita.

  20. joao fernando

    A sociedade é um conceito abstrato e conceitos abstratos não matam pessoas. Pessoas matam pessoas e devem ser responsabilizadas pelos seus atos. Seria até possível individualizar , no conjunto de pessoas concretas que compõe o ente abstrato “sociedade” algumas que tenha contribuído para o destino dos menores criminosos: a paternidade irresponsável de seus genitores e a corrupção de políticos que desviam recursos que deveriam ir pra educação. O médico assassinado, no entanto, não se encaixa em nenhuma dessas categorias, de modo que seu assassinato é de um absurdo total, injusto e sem sentido.

  21. Andreza

    Eu chorei lendo essa história. Porque burrice e reducionismo são pragas difíceis demais de se controlar. Porque a menina empunhando o caco de vidro poderia ser qualquer um/a, mas o cara que enxergou além da violência “sem causa” não, tinha de ser um sujeito que milita na vida e na advocacia com alma, sangue e respeito. Descobri outra afinidade contigo: também advogo, também me incomodo. O absurdo da morte por nada (ou por tudo) tem de chocar sempre, seja quem for a vítima. Lamento a morte do médico como lamento a invisibilidade das pessoas que não são tratadas como tais, todos os dias, pelas ruas de todas as cidades. Somos dignos de comiseração em nossa cegueira, achando que a violência institucional pode resultar em outra coisa que não uma barbárie generalizada, contra tudo e todos. Ninguém está a salvo.

  22. Aretha Monteiro

    Parabéns pelo texto. Concordo integralmente. Fiquei emocionada. Bom saber q existem pessoas como vc. Conheci o site hj e já sou sua fã! Abraço.

  23. Wellington Nascimento

    Edu, se algumas pessoas verem essa palestra do filósofo espanhol Fernando Savater e descobrirem que a boa educação é cara, mas a ignorância é mais cara ainda, talvez este nosso Brasil ainda tenha alguma salvação.
    e vhttps://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=jK0mvflCSK8

  24. Wellington Nascimento

    Desculpem-me: “se algumas pessoas virem”.

  25. Pingback: A SEGUNDA MORTE DE JAIME GOLD | BUTECO DO EDU

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