EU PENSEI QUE TODO MUNDO FOSSE FILHO DE PAPAI NOEL

Durante muito tempo – faço a confissão, nunca tardia – eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel. Contam as lendas de família – que é enorme!, aqui há muitas histórias da família – que eu sempre tive, entretanto, medo do Bom Velhinho. Nasci em 1969 e evidentemente não me recordo da minha primeira noite de Natal, tampouco me recordo da primeira lembrança que tenho da primeira noite de Natal que a memória algum dia guardou. Lembro-me, entretanto, de muitas noites de Natal até 1981, último Natal da minha bisavó (sobre quem escrevi aqui, em maio de 2004). Minha bisavó, jeito e porte de matriarca, mãe de seis filhos (quatro homens e duas mulheres), sempre manteve a família unida nas chamadas grandes datas: na Páscoa, no Natal, nos aniversários de cada um. O Natal (é do Natal que quero lhes falar) era para mim, sobretudo, a festa máxima que ela, minha bisavó, proporcionava à família. As noites de Natal eram passadas na casa de meus pais (primeiro na São Francisco Xavier 90 – no 6º e depois no 2º andar – e depois na Professor Gabizo). Mamãe mantinha uma tradição, bem me lembro, de montar um presépio bem simples e à meia-noite, pouco antes da ceia, a criança mais nova da casa punha o Menino Jesus na manjedoura. Mamãe rezava, fazíamos a troca de presentes, e até a fantasia manter-se viva em mim, eu ia dormir à espera do presente da manhã seguinte – o presente era, já lhes disse isso aqui, o menos importante.

Seguramente, um Natal semelhante ao de milhões de famílias – mas era o meu Natal, era a minha família. E como todas as famílias do mundo, uma família com conflitos, uma família com diferenças abissais entre seus membros, uma família que, apesar dos pesares, reunia-se na noite de 24 de dezembro, no almoço de 25 de dezembro, em torno daquela que era a mais-velha, era a mãe, era a avó, era a bisavó, sem que ninguém visse, naquela reunião, naquela festa!, qualquer sinal de hipocrisia ou fingimento. Lembro-me de minha bisavó, de sua irmã, de meus quatro avós, de meus tios, de meus primos, uma família, como disse acima, enorme… e que nunca mais reuniu-se no Natal na noite de 24 de dezembro depois de dezembro de 1982 quando, a sete dias do Natal, minha bisavó dormiu pra nunca mais acordar.

A família, enorme – repito de propósito -, partiu-se em sei lá quantos ramos: já não havia mais a âncora, já não havia mais minha bisavó. E minhas noites de Natal nunca mais tiveram a mesma graça – já não havia mais minha bisavó, a mulher-símbolo da família que me originou do lado materno. Eram, entretanto, noites de Natal. E eu as passava com minha família: meus pais, meus irmãos, meus avós (até que vovó, por último, morreu em 2010, ela também pouco antes do Natal), e se não estava com eles no dia 24, por incontáveis razões, no dia 25 lá estava eu para celebrar, ao lado deles, a data que sempre me foi tão marcante.

A foto abaixo, de 1969, tirada na Vista Chinesa poucos meses depois do meu nascimento, mostra papai de olhos em mim, mamãe de olhos em meu pai e eu, ainda filho único, dormindo o sono dos justos. De lá pra cá, 45 anos se passaram.

D (8)

A família encolheu, meus propósitos não.

E como lhes disse em 2009:

“Sem qualquer intenção de fazer proselitismo, evidentemente, desejo a vocês todos, meus poucos mas fiéis leitores, uma noite de Natal profundamente significativa. Desejo, mais, que todos se sintam dispostos, ao menos nesses dias, ao exercício de estender o olhar à sua volta. Esse olhar estendido mostrará a vocês, seguramente, alguém precisando de muito pouco para ter um dia ou uma noite melhor. Esse olhar estendido fará com que você vivencie, ainda que seja apenas com os olhos, a experiência do outro, quem sabe capaz de transformar sua própria vida. Esse olhar estendido possivelmente dará a você a dimensão exata da fraternidade, se você tiver olhos de ver e ouvidos de ouvir.

Que tenham todos uma noite de paz, com a família, com os amigos, com gente querida, que haja muita saúde, que haja muita esperança, que haja sobretudo muita coragem para os enfrentamentos diários que a vida exige.

Sejam vocês cristãos ou não, creiam ou não em Deus, tenham todos um Feliz Natal. Eu, brasileiríssimo no que diz respeito à escolha da religião (é tudo na cumbuca e sou feliz desse jeito!), desejo que a noite de hoje seja tranqüila, seja simples, seja renovadora, significando verdadeira comunhão de propósitos capazes de dignificar sua vida.”

Hoje mesmo, marcando a ceia de Natal com mamãe para a noite de 19 de dezembro (viajamos, eu e a Morena, no dia 20 para só voltarmos dia 28 à noite), ela me disse antes de desligar (e algo me diz que depois de um arranco em direção ao passado):

– Que nosso Natal dure o ano inteiro!

Eu, que há muitos anos não creio mais que somos todos filhos de Papai Noel, que não tenho mais sequer essa ilusão – a de ter um Natal durando o ano inteiro -, quero apenas poder viver e conviver com gente que se satisfaça, e que não se incomode, com a harmonia, e que não veja a destruição da imagem do Bom Velhinho como objetivo de vida, lato sensu. A vida, meus poucos mas fiéis leitores, já é farta demais em desilusões.

Até.

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