AS FRASES DE MEU PAI

Quem me lê sabe que meu pai é uma de minhas obsessões (e cada vez mais, cada vez mais!).

As sessões de psicanálise, as horas diante da médica da alma, um escavar permanente na memória e na própria alma, tudo contribui para que, cada vez mais, e mais intensamente, meu pai vá se sedimentando como um tótem em minha vida. Explico.

As frases de meu pai são um bom exemplo do quanto ele é, do alto de seus recém-completados 70 anos, um sujeito que me toma a atenção.

Já lhes contei aqui que meu pai é um homem que tem, permanentemente, nos bolsos, frases que ele repete com uma constância rígida. É como o árbitro de uma partida de futebol que, diante de uma falta, exibe o cartão amarelo, o cartão vermelho. Em determinadas situações – eis o que eu queria lhes dizer – lá está meu pai, como o homem de preto, com seu apito imaginário e suas frases exibidas com ares de inedistismo. Os exemplos são muitos…

Mamãe serve sorvete de sobremesa e lá começa meu velho:

– Rápido! Rápido! Sirvam-se antes que vire sopa! Vai virar sopa! – lhes contei sobre isso, aqui.

Outra. Você encontrará meu pai na rua, na Praça Saenz Peña, na piscina do Montanha, num restaurante qualquer. Antes do “olá”, do “oba”, papai dirá sem que você nada tenha perguntado:

– Hoje eu acordei tarde… – e fixará os olhos nos seus esperando a prevísivel pergunta.

Daí você perguntará a que horas ele acordou. E ele, numa alegria incontida e até hoje incompreensível para mim, dirá:

– Três e meia! Tarde, tardíssimo! – sobre isso, lhes contei aqui.

De uns meses pra cá – eis o mote que me move hoje – papai incorporou mais uma frase para seu repertório.

Você o encontrará e o convidará para jantar, eis a situação-exemplo.

Ele dirá, no ato:

– Eu não janto. Eu só belisco.

E isso é dito como um mantra. E vez por outra, pobre mamãe, ele dá de cutucar minha mãe exigindo o testemunho:

– Hein, Pixuxa? Eu janto? Eu janto?

Mamãe bufa e faz que não com a cabeça. Daí ele emenda:

– Viu? Eu só belisco.

Deu-se então que no sábado passado, por uma dessas coincidências da vida, fui ao teatro com a Morena para ver “Elis, a musical”, no Teatro Casagrande. E lá, na fila, encontramos papai e mamãe. Foi um efusivo encontro (meu irmão caçula estava com eles) até que eu sugeri:

– Depois da peça, vamos jantar?

Mamãe fez que sim, Cristiano disse “claro” mas meu pai começou a sapatear na Afrânio de Melo Franco:

– Eu não janto, eu só belisco.

Mamãe lançou-lhe um olhar de reprimenda, papai bufou e disse:

– Não tem problema, eu fico olhando vocês comerem! – notem a categoria.

Deu-se uma pequena bulha e o Cristiano propôs, para acalmar os ânimos:

– Então não vamos jantar… vamos só comer uma pizza.

E meu pai, inovando sobre o mesmo tema:

– Eu não como à noite, eu só belisco. Vou comer só uma fatia. Só uma! Uma, uma, uma!

Terminada a peça, tomamos o rumo da pizzaria.

E eu tive a impressão de que meu pai, azul-de-fome, cravava os olhos cheios d´água nas pizzas alheias, tamanha a vontade de comer as maravilhas que chegavam à mesa. Mas diante de sua rigidez e de seu caráter implacável, gania com o prato vazio depois de comer sua única fatia, mesmo mamãe perguntando se ele queria mais (era evidente que queria):

– Não, Pixuxa. Eu não janto. Eu só belisco.

Era o que eu queria lhes contar hoje.

Até.

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4 Comentários

Arquivado em confissões, gente

4 Respostas para “AS FRASES DE MEU PAI

  1. Vera Mello

    Até eu que nao sou filha, já ouvi essa frase umas 3 vezes, quando ia jantar na sua casa. Quando eu perguntava se ele ia sentar à mesa conosco, ele respondia :
    – Nao Verinha, eu nao janto, eu só belisco, não é Pixuxa?
    Delicioso compartilhar aqui essa verdade suprema, kkkkkkkkkkkkk.
    Beijo querido,
    Verinha

  2. Pingback: MAIS FRASES QUE PAPAI TIRA DA CARTOLA | BUTECO DO EDU

  3. Tadeu

    Legal. Achei seu blog meio que do nada. Estava procurando blogs sobre história do Brasil… Enfim, cara, meu pai tem dessas também. Infelizmente, eu, às vezes, respondo com certo mau humor as suas frases. Uma das mais clássicas é “Tá cedo, fica mais um pouco”. Se você está na minha casa e decide ir embora, não importa a hora, mesmo que seja às 5 da manhã e você esteja muito bêbado, ele a dirá. Outra que ele fala demais, essa eu não gosto, é “arroz eu como em casa”. Qualquer que seja a ocasião, se lhe oferecem arroz, ele vem com essa. Bom, muitos pais devem ter as suas.

  4. Pingback: O PAI DO TADEU | BUTECO DO EDU

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