CARTA ABERTA PRA LUIZ ANTONIO SIMAS E UMA CONVOCAÇÃO

Simão, meu irmão, guardo, como tesouro, as primeiras palavras que você dirigiu a mim, em 18/08/2006, há mais de sete anos, portanto, aqui mesmo, pelo blog, poucos dias antes de nos conhecermos pessoalmente, na livraria Folha Seca, apresentados que fomos pelo Rodrigo Ferrari:

“Eduardo, sou um leitor assíduo do blog, morador do Maracanã, amigo do peito do grande Rodrigo Ferrari (da inestimável livraria Folha Seca) e admirador das suas campanhas cívicas – sim, cívicas – contra as sem-vergonhices do Jota e dos Leblons da vida. Mas sempre estive em silêncio obsequioso. Hoje, porém, vou me manifestar: sensacional! Como eleitor e admirador do velho, aplaudo de pé a cena! Quanto ao Roberto Talma… nunca me enganou! Francamente… abraço.”

É como tesouro, também, meu compadre, que guardo outra de suas declarações dirigidas a mim, essa de primeiro de novembro de 2011, quando eu ainda era todo-dor:

“É uma tranquilidade saber – e digo isso profundamente comovido – que envelheceremos juntos, como irmãos que somos. Mais confortante ainda é saber que um dia, quando um de nós se encaminhar pela noite grande do Orum, o que ficar mais tempo por aqui contará e cantará dessas coisas do amor de amigos – o que permanece. Beijo.”

E lhe escrevo hoje, publicamente, e publicamente faço escancarada declaração de amor, porque fuçando, mais cedo, esses meus escritos, dei de cara com esse A força das palavras do Simas, de 13/11/2006, no qual digo que “é mais-do-empolgado que quero recomendar, expressamente, os dois últimos textos escritos pelo Simas, de quem tenho tremendo e quase que inexplicável orgulho.”.

E eu, hoje, tendo estado no lançamento do seu livro com o Loredano sobre o J. Carlos, tendo estado no lançamento do seu livro com o Beto Mussa sobre sambas de enredo, tendo estado no lançamento do seu livro sobre a Portela, às vésperas do lançamento do seu Pedrinhas miudinhas – ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros, amanhã a partir das 14h justamente na Folha Seca – onde nos reconhecemos em 2006 – estou comovidíssimo, emocionado, orgulhoso.

Fuçando ainda mais minhas coisas, minha imensa memorabilia, encontrei e-mail de 05/06/2013 do Vitor Monteiro de Castro, que segue transcrito:

“Edu, tudo bem? Há tempos não nos falamos, não sei nem se lembra de mim. Certa vez foi à Maré e tomamos uma cerveja lá – e terminamos na Tijuca. Na época eu trabalhava no Observatório de Favelas. Bom, escrevo para pedir um favor: o contato do Luiz Antônio Simas. Seguinte, há dois anos saí do Observatório na perspectiva de abrir uma editora. Daí que a editora está caminhando (www.morula.com.br) e o Simas é um dos autores que a gente gostaria de publicar. Queria marcar um papo com ele para pensarmos em possibilidades. Abração.”

Breve pausa, querido: imagine você se eu não me lembraria do Vitor, que ciceroneou uma visita minha com a Dani à Maré, para conhecer o Observatório de Favelas e seu impressionante trabalho e para lá assistirmos, na rua, a um filme sobre o Chacrinha! Dá pra esquecer?!

Vai daí que eu fui tecendo uma teia, à moda da asa do vento de Luiz Vieira e de João do Vale, e fui ficando cada vez mais comovido com as lembranças, até que decidi vir desagüar aqui, publicamente, para aplacar a ansiedade (seguramente estou mais ansioso que você, você me conhece!) e pra manifestar minha felicidade pelo dia de amanhã.

Arremessei-me a 2006, quando nos conhecemos, atravessei 2007 e cheguei ao primeiro dia do ano de 2008, quando você – sábio, sacerdote, mais-velho – me deu seu ileke, que você tirou do pescoço, na esquina da Pardal Mallet com Afonso Pena, seu ileke de contas vermelhas, pretas e azuis, nós que somos filhos do mesmo pai. Cheguei ao dia de meus 40 anos e me veio sua imagem, vestido de Bangu, chegando pra feijoada que eu ofereci, trazendo nas mãos um imenso embrulho feito de jornal (lembro também da indignação da Candinha com a beleza da embalagem!), com a imagem de São Jorge Guerreiro, Ogum!, que guardava o congá do terreiro de xambá comandado por sua avó – e que hoje guarda minha casa. Lembrei-me de quantas vezes recorri a você, meu velho Simas, para que você me contasse sobre as coisas da vida, sobre os mistérios do invisível, de quantas vezes cantei, sozinho, as tuas canções – “alivia a minha dor enquanto pila o pilão” -, de quantas vezes estivemos juntos no sagrado espaço de um botequim em busca da reinvenção da vida, essa arte e essa lição que você, professor maiúsculo, domina como ninguém. Lembrei-me de tua chegada, sereno, com um Red Label debaixo do braço, na madrugada de 10 de julho de 2011, quando teu abraço foi um dos maiores antídotos que jamais experimentei: e sem que palavra tenha sido dita. Você, um sabido! Do dia em que você, reinventando a liturgia do cargo, nomeou-me padrinho-de-rua do moleque Benjamin, filho do homem que sopra no meu ouvido e que reconheço, muitas vezes, nos seus gestos (seus e dele). Lembro de tudo, Simão, e agradeço por tudo – eu na condição de aprendiz, de privilegiado, de testemunha ocular da genialidade e da potência do seu conhecimento, passado e repassado na contramão da cátedra arrogante que busca segregar, humilhar, diminuir. Você, a antítese do mestre inatingível. Você, o que ensina porque fala a língua do povo, da nossa gente, da nossa terra, do nosso Brasil. Um país mais rico porque tem você como um de seus filhos, de chinelo de dedo e copo de cerveja na mão.

Parabéns antecipado, meu irmão.

Estaremos lá amanhã, eu e a Morena, a fim de abraçá-lo e de festejar, ao seu lado, a luz e o axé que vêm da miudinha.

Amo você.

Axé.

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5 Comentários

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5 Respostas para “CARTA ABERTA PRA LUIZ ANTONIO SIMAS E UMA CONVOCAÇÃO

  1. Marcelo Moutinho

    E eu, que estarei em SP e não poderei ir? PQP. Quer dizer… chego às 21h no Galeão e espero encontrar a turma tomando a saideira em algum canto

  2. Puta texto lindo, Edu.

    Um brinde daqui de São Paulo a essa eterna amizade.

    Abraço,

    Alemão

  3. Edu,

    Sempre emocional e emocionante. Encheu minha sexta de alegria,

    Arnobio

  4. Leo Boechat

    Belíssimo texto, Edu!

  5. Vitor Castro

    Edu, como você é “preciso do início ao fim”, faltou dizer que da Maré saímos pro Marreco, na Tijuca, já ciceroneado por você.

    abs.
    Vitor

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