VAMOS INDO? UM TRAUMA…

Estive no Maracanã com a Morena para ver Flamengo e Cruzeiro pela Copa do Brasil, quando o Flamengo venceu com um gol no finalzinho da partida. A Morena já havia estado no Maracanã comigo para a Copa das Confederações, Itália e México, mas fez sua estréia no estádio em um jogo do Flamengo com uma vitória de virada em cima do Fluminense, e a caráter, o que rendeu a ela, imediatamente, o caráter de talismã, jogo a jogo. Assisti à partida com o inseparável radinho de pilha, sob a viga 43 do maior do mundo, e deu-se o seguinte (é o que quero lhes contar hoje).

Final de jogo, o Maracanã em festa, e a Morena, dulcíssima (e cansada):

– Vamos?

Fui atirado, por uma catapulta imaginária, e arremessado em direção ao passado.

Desde 1978 até meados dos anos 80 (quando comecei a ir aos estádios com amigos mais velhos e sem meu vascaíno pai) eu vivi um drama. Meu pai, um sujeito mais metódico que o mais metódico dos homens, aos 39 minutos do segundo tempo virava-se para mim (e para meu irmão do meio) e dizia:

– Vamos!

Uma breve pausa: a única exceção foi em 1978 (como lhes contei aqui), quando papai quis ficar até o fim apenas para que eu visse o Vasco campeão diante do Flamengo. Rondinelli estragou seus planos, sedimentou minha paixão mas dali em diante nunca mais assisti, com ele, um jogo até o final.

A desculpa era sempre a mesma: evitar tumulto (um dos grandes atrativos do futebol).

Nova pausa: suas regras, seus métodos, valiam também para necessidades fisiológicas. A regra era dita sempre na subida da rampa:

– Vocês podem mijar agora e no intervalo apenas. Durante o jogo, nunca!

Voltemos.

Desenvolvi, então, ao longo dos anos, essa angústia, esse trauma, esse horror. Cansei de, descendo a rampa, ouvir pelo rádio um gol milagroso, salvador, um gol que decretava uma vitória suada, ou um empate, ou mesmo uma derrota acachapante. Nas primeiras vezes ainda gemia um “tá vendo?” sempre incapaz de sensibilizar o velho, arraigado a seus métodos com a tenacidade de um militar. E fui colecionando dores (um gol depois dos 40 sempre me doeu feito o diabo), frustrações, uma sensação de impotência que fez de mim, até hoje, um homem que só sai do estádio ao apagar das luzes.

A Morena disse “vamos?” e eu comecei a chorar (quase).

Contei a ela, rapidamente, sobre isso tudo.

Acho, sinceramente, que no fundo do fundo do fundo de mim eu desconto, após o apito final, todos aqueles minutos que perdi ao longo de tantos anos.

Fico ali, saboreando a imagem do gramado, das redes, das bandeiras, dos jogadores a caminho do túnel, ouço o começo da resenha pelo rádio, ouço de novo a narração dos gols, me vingo dos minutos de bola rolando que perdi.

Sou, a cada apito final, e até descer a rampa, e até ganhar as ruas, o menino de calças curtas que finalmente assistiu ao jogo todo, até o último minuto de acréscimo.

Ah, sim.

A coisa tem contornos tão fortes que, uma vez a cada jogo, pelo menos, sou arremessado por mim mesmo, e por meus fantasmas, em direção ao banheiro para mijar com a bola rolando, radinho de pilha equilibrado entre o ombro e o ouvido, livre das amarras daqueles tempos inflexivelmente delimitados.

Até.

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6 Comentários

Arquivado em confissões, futebol

6 Respostas para “VAMOS INDO? UM TRAUMA…

  1. Antonio

    Bom ler você… Muito bom! Abraços, A. Carlos.

  2. raphael

    Olá Edu sou (um dos poucos, mas fiel) leitor seu e também costumo acompanhar o Mengão sob a pilastra nº 43 do Maraca. No último Flamengo e Santos, reparei um rubro-negro que me pareceu conhecido, portando um rádio de pilhas, envolto numa “capa” de couro que pareciam saído de uma cápsula do tempo. Quando li estampado às costas do manto sagrado “Goldenberg”, dei um breve sorriso e tive a certeza de que aquele cara que os seus textos deixavam a mostra, era real. Na próxima vou lhe cumprimentar. Um abração, Raphael.

  3. Eduardo, isso acontece com certa frequência. Aqui em Bauru tem o time do coração da cidade, o Noroeste, e tentei levar meu filho seguidamente aos jogos. Desisti de tanto ouvir esse “vamos”. Da primeira vez que o fiz, ele no intervalo virou para mim e disse: “Mas ainda tem outro tempo igual a esse?”. Ele não pegou gosto pela coisa de futebol. Minha ex-esposa, a levei ao campo uma única vez, jogo do Paulistão, Noroeste X Guarani, e algo que nunca mais vi em outro momento num jogo por aqui aconteceu naquele dia. Uma pancadaria de dar gosto, incendiaram um ônibus do Guarani e víamos policiais sendo carregados nos ombros. Foi algo horroroso. Quando a coisa acalmou, virou para mim e disse: “É todo domingo desse jeito? É disso que voce gosta?”. Não houve jeito, não voltou mais. Hoje continuo indo ver meu Noroeste nos jogos da segunda, terceira divisão do Paulista, mas vou só e lá encontro com os amigos, os que também comungam do mesmo gosto esquisito de ainda freqüentar campos de futebol. Em tempo: por favor, leve em consideração o enorme abismo entre ir assistir um jogo do Flamengo no Maracanã e no estádio Alfredo de Castilho em Bauru. Guardadas as devidas proporções, essa história do “vamos” repete-se por tudo quanto é canto.

  4. Junior

    PQP! Leio muito os seus textos e nunca comento, mas todos os seus textos que falam do seu pai me emocionam e me fazem lembrar do meu. O meu grande amigo era rubro-negro e apesar de ter partido quando eu tinha apenas 13 anos, foi o meu melhor companheiro de Maraca.

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