UM NEÓFITO NA CONFRARIA DO BODE CHEIROSO

Era dia de jogo do Flamengo no Maracanã e o Bode Cheiroso, como sempre em dia de jogo, fervilhava de gente que se espalhava pela calçada em frente. Entrei, avistei os amigos já sentados à mesa, cumprimentei a Martha, o Paulinho, eu me sinto completamente à vontade no bar que freqüento desde priscas eras (como contei aqui) mesmo sabendo que aquilo ali é reduto de vascaínos (como lhes contei aqui).

Encontrei, também, o Miguel.

O Miguel, com quem não havia marcado nada – o encontro deu-se absolutamente por acaso – tinha um dos cotovelos (o direito) no balcão, um copo americano na mão esquerda e olhos de terror quando eu o encontrei:

– O que houve?! – eu disse diante da expressão pânica do Miguel.

– Isso é uma merda! – e me estendeu o copo que rejeitei.

E deu de explicar. Chegara ao bar determinado a experimentar o chá-de-macaco, uma beberagem tradicional do Bode Cheiroso, criação do magnífico Bigode, hoje aproveitando as benesses da aposentadoria. Só que chegando ao estabelecimento esquecera o nome da bebida. E foi ao balcão diante dos amigos a quem prometera uma “bebida dos deuses”. Foi visivelmente inseguro que pediu:

– Um Domeq com limão, por favor! – e fingia naturalidade, sorria em direção aos amigos.

– Não entendi! – disse a balconista.

Miguel falou baixinho, as mãos em concha:

– Domeq com limão.

– Quer uma dose de Domeq com limão espremido ou batida de limão com Domeq? Não entendi!

Miguel, em desespero, disse ainda mais baixo:

– Com limão, só com limão…

E tomou o rumo da mesa dos amigos. No caminho, deu o primeiro gole e quase vomitou. Foi quando eu cheguei.

Ouvindo a narrativa do agoniado Miguel, explodi:

– Você quer é o chá-de-macaco, pô!

Ele não economizou na gratidão: abraçou-me, deu tapinhas em meu rosto, repetia “isso, isso, isso” visivelmente emocionado até que o Paulinho, que ouvira meu pedido, trouxe a ele o gigantesco copo com a bebida servida com gelo.

Miguel deu o primeiro gole.

Uma lágrima escorreu de seu olho direito. Ele gemeu:

– Perfeito, perfeito! Quanto custa?

Quando o Paulinho disse o preço, ganiu:

– Isso custaria cento e vinte reais no Astor! Me veja mais quatro, mais quatro!

E foi, todo pimpão, com pose de íntimo, de membro da Confraria do Bode Cheiroso, até a mesa de seus amigos dizendo pro bar inteiro ouvir:

– Bebam, bebam! Esse é o chá-de-macaco de que lhes falei! Adoro! Adoro!

Não fomos juntos ao jogo.

Mas consta que Miguel bebeu pelos amigos (que não gostaram tanto assim da coisa) e foi visto, tarde da noite, no Bip Bip, falando arrastado pra um desconhecido:

– Você tem que ir ao Bode beber o chá-de-macaco. Tem que ir! Tem!

Até.

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1 comentário

Arquivado em botequim

Uma resposta para “UM NEÓFITO NA CONFRARIA DO BODE CHEIROSO

  1. Hahaha belo relato. Este é Miguelito!

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