MOACYR LUZ

Tenho dúvida em afirmar quando foi a primeira vez que eu vi o Moacyr Luz, não sei se foi no Caras & Bocas ou no Erva Doce, mas foi seguramente no começo da década de 80, eu tinha 15, 16 anos de idade. No Caras & Bocas, na Haddock Lobo (rua em que eu viria a morar em 1999), sempre via o Moacyr com Aldir Blanc, com Paulo Emílio, com Paulinho da Viola (posso jurar que ao menos duas vezes o vi lá), sempre cercado de muitos amigos e de muitas garrafas, e no Erva Doce, na Antônio Basílio, também na Tijuca, mais profissionalmente, o via cantando e tocando violão, canções belíssimas e muito antes da gravação de seu primeiro disco.

Uma curiosidade: minha primeira batida de carro (numa árvore, pateticamente), um Chevette bege de minha mãe, foi saindo (altíssimo!) de uma apresentação do Moacyr no Erva Doce (talvez eu tenha tentado acompanhar seu ritmo, da platéia).

Mais precisamente em 1995 (tinha eu meus 26 anos de idade), pedi a uma amiga – Vera Brazão – que me apresentasse ao Moacyr. Era véspera do lançamento de seu disco Vitória da Ilusão (meu preferido, até hoje), no Teatro Carlos Gomes, noite de gala, com quarteto de cordas, participação da Cristina Buarque e da Velha Guarda da Portela, um luxo.

De lá pra cá, muitas histórias, muitos enredos, muitos encontros, muitos desencontros, muitos porres, muitos bares, muita festa, muito luto, muita dor e sobretudo muito samba – que o samba sempre salva, o samba sempre cura, “porque em toda a vida o samba foi cura pra minha doença”.

Por conta do samba, por conta da II Edição da série O Samba na roda – em prosa & verso, tocada pelos meus amigos dos Inimigos do Batente, em que o convidado e homenageado é justamente o Moacyr Luz (neste sábado, 24 de agosto, em São Paulo, para onde vou com minha Morena), meu irmão e meu compadre Fernando Szegeri pediu-me um texto sobre o Moa, e eu de cara disse a ele que eu falaria da relação fusionada entre a cidade do Rio de Janeiro e o Moacyr.  

Não foi mole encarar o pedido, mas escrevi e foi publicado originalmente aqui:

“Moacyr Luz nasceu em Jacarepaguá, em 1958, na rua Barão e entre os 2 e 3 anos de idade foi morar na rua do Chichorro, no Catumbi, época da qual guarda a primeira visão de que se lembra: ele, com três anos de idade, e o avô, músico da Banda do Corpo de Bombeiros, o ensinando a escrever música. Foi no Catumbi, na zona norte do Rio de Janeiro – cidade que se confunde com sua obra – que começou essa relação indissociável entre o compositor, a música e a zona norte da cidade.

“(…) a zona norte é feito cigana lendo a minha sorte…”, escreveria anos depois Aldir Blanc, um dos principais parceiros de Moacyr.

Se o avô paterno de Moacyr foi quem apresentou ao neto a música, foram seus avós maternos que o apresentaram aos mercados de rua – ambos eram feirantes.

Moacyr morou ainda em Bangu, em Copacabana, no Méier, no Grajaú, na Muda (um pedaço sagrado da Tijuca), mas notabilizou-se por um fenômeno marcante em sua carreira, uma característica muito forte, um traço de sua personalidade: Moacyr sempre vergou o espaço e o tempo na direção da zona norte – a cigana.

Aliado a esse outro traço, um talento dentre tantos que carrega: o de ser agregador. Começou, a certa altura, a fazer reuniões quinzenais em sua casa, já na Muda, zona norte, na rua Garibaldi (no mesmo prédio em que mora Aldir Blanc até hoje), para onde iam Guinga, Fátima Guedes, Leila Pinheiro, Selma Reis, Oscar Castro Neves, Paulinho Pinheiro, Sérgio Natureza, Chico César, Lenine, Dudu Falcão, Beth Carvalho, Leny Andrade, Cláudia, gente que ia lá só pra tocar, cantar, mostrar música nova.

Foi numa dessas reuniões que mostrou “Saudade da Guanabara” quando eram apenas suas a música e a letra, samba que já cantara, muitas vezes, no Caras & Bocas, botequim na Tijuca – zona norte – que ganhou fama já por conta do poder agregador do Moacyr.

Dessa primeira versão, Moacyr lembra apenas dos primeiros versos: “Eu sei / Que o silêncio da madrugada / Faz a gente chorar por nada / Faz um homem sofrer de amor / Chorei / Com saudade da Guanabara / Meia-noite era noite clara / Meio-dia era o meu cantor”.

Beth Carvalho disse ao Moacyr que o samba era ótimo, mas a letra nem tanto. Até que um dia Moacyr, com Paulinho Pinheiro e Aldir em casa, mostrou o samba e pediu uma letra. Aldir subiu e desceu em meia-hora com a primeira metade pronta. E no final do dia, por fax, Paulinho Pinheiro mandou a outra metade daquele que se tornaria hino afetivo da cidade do Rio de Janeiro. Foi feita na Tijuca, zona norte.

Moacyr Luz inventou o Bar da Dona Maria, na rua Garibaldi, na mesma rua em que morava, um bar que não existia… Não tinha nem queijo, não tinha nada! Mas teve visita de Paulinho da Viola, de Luiz Fernando Veríssimo, de Beth Carvalho, de gente que vinha de todos os cantos da cidade pra ver mais aquele sonho do Moacyr virando realidade.

Ali, no Bar da Dona Maria, Moacyr inventou o bloco “Nem Muda nem Sai de Cima”, que mudou a filosofia da Tijuca – as palavras são do próprio Moacyr.

A Tijuca, que ficava entregue às baratas no Carnaval, quando tijucano tinha que ir pra Região dos Lagos ou atravessar a cidade pra brincar em outros blocos, Simpatia, Barbas, quando não havia a menor possibilidade de ficar por ali…

Moacyr, ao lado das outras pessoas que pensaram o bloco, criou a necessidade de que o enredo falasse da Tijuca ou de um tijucano, e isso começou a recriar um sentimento diferente no bairro. Começava ali essa história do cara achar bacana falar do bairro, do Rio Maracanã, do Paulo Emílio, do Vavá…

E esse sentimento – o amor arraigado do carioca pela sua cidade – que cresceu e se solidificou por diversas razões (que não cabem agora), deve muito ao Moacyr Luz, que incansavelmente, como reza a letra do samba, tira, dia após dia, “as flechas do peito do meu padroeiro”.

Na mesma rua Garibaldi, Moacyr – voltando no tempo, indo, sabe-se lá, ao encontro dos avós maternos, – deu de reinventar a feira. Cooptou um feirante, arrendou uma barraca e passou a fazer, sempre às sextas-feiras, às margens do rio Maracanã, uma reunião de amigos que, como acontece com tudo onde põe as mãos, virou evento de proporções olímpicas.

Tinha uca, açúcar, cumbuca de gelo e limão, camarão comprado e frito na hora, ostras praticamente vivas, jiló, alho e óleo, uma horda de malucos e de malucas que passavam as manhãs e atravessavam os começos das tardes em torno dele, dono absoluto do pedaço, anfitrião daquela barraca, mais um degrau na trajetória zona norte do Moacyr.

Moacyr foi virando, aos poucos, “o embaixador dessa cidade”, título que Paulinho Pinheiro deu a Pixinguinha em letra (comovente) feita para samba do Moacyr.

E foi mesmo: São Paulo passou a reverenciar o Moacyr como embaixador de São Sebastião do Rio de Janeiro, e ele passou a freqüentar cada vez mais a cidade injustamente carimbada como “túmulo do samba”. Fez do Bar Pirajá, a“esquina carioca” em São Paulo, uma espécie de bunker seu. Ia pra São Paulo levando o violão e, junto com ele, além das seis cordas, os seis postos de Copacabana – “do um ao seis” – e a zona norte, sempre ela, regando cada pedaço por onde passava pra São Paulo ganhar novo alento – e ganhou, gerou frutos, e não por outra razão é o segundo convidado da série “O Samba na Roda”, depois da estréia com o mestre Wilson Moreira, também seu parceiro.

Moacyr também sonhou o Samba Luzia, que hoje é realidade, às margens da Baía de Guanabara – foi quem plantou a primeira semente, que germinou.

O Renascença, há oito anos, é um fenômeno. Foi de novo Moacyr quem sonhou aquele encontro entre músicos, às segundas-feiras, e que se transformou naquela loucura que o Andaraí – zona norte! – vive semana após semana, com mais de mil pessoas em volta da mesa que comanda, como se fora, ele próprio, o anjo da velha guarda que cantou sobre verso de seu mais fiel parceiro, Aldir Blanc, abençoando a rapaziada que divide com ele a alegria daquelas tardes.

Mais outra prova de que Moacyr Luz faz das suas para torcer a trilha do samba para a zona norte da cidade? O Samba da Ouvidor, realidade também consolidada pela liderança de Gabriel Cavalcante, tijucano de escol, dileto seguidor da luz do Moacyr, ele próprio já com luz própria, começou com as suas bênçãos. Num dia 16 de setembro de 2006, tendo como testemunhas não mais do que 10, 15 pessoas, Moacyr desfiou sua obra durante uma tarde inteira.

Já escuro, sol posto, a pedidos acabou por reencenar ali um número somente testemunhado pelos felizardos partícipes daquelas reuniões indescritíveis em sua sala-botequim na Muda, cantando a canção que fez sozinho, música e letra, pra seu pai. “Luzes acesas na minha memória, escuto o silêncio e sinto saudade da voz de meu pai…”.

Os presentes sentiam que Moacyr, uma vez mais, estava plantando algo que brotaria forte pra fazer História. Seguiu cantando que luzes acesas “(…) movem o curso da minha vida (…)”, e fincou-se em cada um a certeza de Moacyr não é mero espectador do curso de sua própria vida e da vida da cidade que ajudou a reerguer. Moacyr, como ferreiro, torceu o tempo, torceu as ruas, torceu os morros e a geografia da cidade pra mover, ele próprio, o samba para a zona norte da cidade, e dali para todo o Brasil, que reconhece nele o Embaixador da mui amada e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.”

Até.

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