UM PEDAÇO DO CÉU EM MARECHAL

Eu não saberia dizer, com precisão, quando foi a última vez em que estive lá.

Sei que voltei, na sexta-feira passada, depois da genial idéia e sugestão de meu mano Fernando Szegeri, que passou o feriado de Corpus Christi no Rio de Janeiro. Seguimos eu, a Morena, Szegeri, Ana e Felipinho em direção à Marechal Hermes – e como está bonito, o glorioso bairro de Marechal! – e lá aportamos por volta das sete e meia da noite…

Fui ao balcão, abracei longamente o Celsão, dono do pedaço, cambaleei, tonto, arremessado ao passado de mãos dadas no presente com ela, a quem apresentei, orgulhoso, ao Comandante-em-Chefe da Adega Tudo do Mar, e fomos pra calçada beber uma cerveja e tomar uma fresca (e fazia um frio polar!!!!!).

Quase-morri, confesso, quando a garçonete veio à mesa e me estendeu uma folha de papel (foto abaixo) contendo um texto meu de novembro de 2001 intitulado, como este, Um pedaço do céu em Marechal. Estendi, com as mãos trêmulas, o papelucho já meio amarelado, em direção ao Szegeri que passou a lê-lo em voz alta.

SOC 112001

O que eu quero lhes, meus poucos mas fiéis leitores, é que o Szegeri foi lendo, foi lendo, sua voz falhava de vez em quando, e eu fui tendo frêmitos na alma, arremessos violentíssimos em direção ao começo do século, e olhava à volta, e via tudo ali, ainda presente, ainda constante, e pedimos sardinha (perfeitas!!!!!), e pedimos ova (que ovas, que ovas!), e fomos derrubando garrafas e mais garrafas de cerveja, e demos de ouvir histórias dos freqüentadores (volto ao tema), e bebi da bagaceira portuguesa que o generoso Celsão me ofereceu, e voltamos de lá, já na madrugada do sábado, com uma certeza aterrada: é no subúrbio, é na zona norte, que vive e resiste a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Com vocês, o texto de 2001, logo abaixo da próxima fotografia – feita pela Morena – que me flagrou de olhos marejados, copinho de bagaceira na mão, ao lado desse imprescindível sujeito que é o Celsão.

Edu e Celsão

“Conheci um bar que não existe. Um bar que fica numa rua triste, no subúrbio, onde há casas simples com cadeiras na calçada, e na fachada, escrito em cima que é um bar.

Há, neste bar que não existe, pelas inúmeras prateleiras, potes de vidro com cobras lindíssimas preservadas, um aquário, um carcará numa gaiola e um louro livre recebendo a freguesia, imagens de santos em madeira, escudos do Fluminense, galhos de arruda e um cágado sempre próximo aos banheiros, garrafas de todas as cores, e eu juro que ainda sóbrio vi a garrafa azul, a falante, do Visconde de Sabugosa, guardando a melhor aguardente do bar oferecida a uns poucos homens de sorte – além de mesas toscas, luz pouco forte, figas, fotografias.

Há, por trás do balcão do bar que não existe, um homem de sorriso largo e abraço farto recebendo quem chega, comandando o incessante vai-e-vém das garçonetes que dão perfeita conta do bando de loucos que chegam ao bar que não existe.

Há, no bar que não existe, a cerveja mais gelada que jamais bebi, a melhor casquinha de siri que jamais comi e pimentas, do reino, de cheiro, vários molhos, caldos, croquetes, caldeiradas.

E há, mais um dos trunfos do lugar, nas noites de sexta-feira, Waldecir regendo, Bolão no pandeiro e tantã, Nelson no violão, Jorge no cavaco, João no tamborim, seu Augusto e dona Deny cantando; ele, sambas e ela, serestas. Uma espécie de Buena Vista Marechal Club. Eles, que são velhos malandros maneiros e que provavelmente têm São Jorge Guerreiro como fiel protetor, tocam e cantam, das oito a meia-noite, rasgando suas próprias almas e enchendo o bar de uma única e encantadora alma que só existe no subúrbio de gente humilde, que vontade de chorar. Sem vaidade, senhores de seu tempo e de seu talento, arrumam os instrumentos e saem de fininho prometendo timidamente a quem pergunta, voltar na semana seguinte.

Rua General Savaget 67, Adega Tudo do Mar, em Marechal Hermes, fone 24504411. Não está nos guias de bares da cidade e não está nas páginas das revistas. Vá conferir, pergunte pelo Celsão, e me diga depois se aquilo existe.”

Endosso, de novo, palavra por palavra.

Até.

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12 Comentários

Arquivado em botequim, gente, Rio de Janeiro

12 Respostas para “UM PEDAÇO DO CÉU EM MARECHAL

  1. Agora temos que voltar com mais frequência, ainda por cima depois que descobrimos que o Mariópolis passa em frente. 🙂 Grande noite, grande texto.

  2. Edu,

    Sensacional, a vontade de um dia ir ao “Bar que não existe”, mesmo eu que nada bebo, mas acompanho aqueles que bebem,

    Arnobio

  3. marosc

    Adorei! Você me autoriza a reproduzi-lo no meu Facebook? Com todos os royalties a você!

  4. Edu, o subúrbio é o que nos resta!

  5. Geraldo Chaves

    Edu:
    Fora do assunto, acabei de ler no DCM um post falando sobre o seu trabalho, as suas “duas certezas” ligadas áquela “rede”, e sua admiração pelo “MITO” Brizola.
    Empatamos em tudo e passarei a colocá-lo em meus TOP favoritos.
    PARABÉNS!!!!

  6. Belo texto ,grandes sentimentos,dignos dos grandes poetas.Aceite um grande abraço baiano e tenha certeza que
    na próxima chegada ao Rio vou dar um pulinho na Adega.Levo como brinde para ti uma autentica branquinha destilada na Serra das Almas na, Chapada Diamantina.
    Axe
    Shazan Dantas

  7. paulo fernando

    Caro Edu,
    Sinto-me realizado quando tenho acesso as “letras” de pessoas sensíveis, inteligentes e com poder de fogo e coragem, como você, que bota pra fora seus pontos de vista. Você é grande e não esmoreça. O nosso brasilzão precisa muito de pessoas iguais a você.
    ATENÇÃO: Quanto a GLOBO, fique atento, você esta lidando com bandidos.

  8. Alberto

    Hoje de bobeira, cansado da Zona Sul, rodando a procura de botecos por outras plagas ,dei uma parada nesse “bar que não existe”, aquele que não tem nome na porta e nem no cardápio…tudo por acaso.
    Conheci o sr. Celso e ele nos apresentou a sua pérola, a sua cozinheira. Na hora, minha amiga a qual eu acompanhava, me disse: ela é a tia Nastácia, aquela mulher que faz comida boa. Foi emocionante, não sei o por que.
    Chegando agora em casa e procurando infos sobre essa bar fantástico, dei de cara com o seu texto. Fantástico!

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