ARREMESSO VIOLENTÍSSIMO EM DIREÇÃO AO PASSADO

Deu-se o seguinte: ontem pela manhã, bem cedo, recebi um e-mail enviado por minha velha mãe. Ei-lo, na íntegra, que eu sou preciso do início ao fim e, mais do que preciso do início ao fim, colho provas com a obsessão de um promotor visando esfregá-las no focinho do primeiro que ousar duvidar do que digo, do que escrevo.

“Oi, Du: consultando o Nilo Cairo, encontrei uma receita do Dr. Lauro pra você, de 1976. Guardei para lhe dar. Me lembre quando vier por aqui. Beijossssssssssss.”

Quando li a conjunção das palavras e dos números – Nilo Cairo, Dr. Lauro, 1976 – plantou-se em mim uma febrícula e um tremor de mãos que me atestaram com certeza: lá estava eu a sofrer mais um dentre tantos os arremessos ao passado que me derrubam de vez em quando.

O Dr. Lauro, de quem tanto já lhes falei por aqui (um simples exemplo é esse texto aqui, de setembro de 2008), é, em mim, até hoje (já morreu, o bom Dr. Lauro), um santo com direito ao halo luminoso sobre a cabeça, e a quem recorro, em oração, diante do primeiro sintoma de seja-lá-o-quê-for. Aqui, texto de fevereiro de 2012, uma pequena descrição do que fomos, eu e mamãe, no enterro do bom homeopata.

O Nilo Cairo, uma espécie de Bíblia da Homeopatia, é o único livro de cabeceira de meu pai. Se vocês querem ver meu pai feliz, excitado como a criança diante do primeiro velocípede, basta fazer o seguinte: batam o telefone pra ele, ou mesmo enviem a ele um e-mail, perguntando para quê serve determinado remédio da homeopatia. O velho será um homem em estado de êxtase… Folheará o Nilo Cairo – e papai fala Nilo Cairo como quem se refere a um amigo de infância! – e lerá a indicação do remédio com a voz empostada, de pé, como se fora o Papa rezando a Missa do Galo diante do Vaticano lotado.

Em 1976, em 16 de fevereiro de 1976 (data aposta no receituário), eu tinha apenas 6 anos de idade. Em 16 de fevereiro de 1976, faltando duas semanas para o Carnaval, estaria eu já com a mesma febre que me antecede os Carnavais de hoje em dia? Ver e ler no receituário a letra mágica do médico que cuidou de mim até morrer, reconhecer na letra do velho Dr. Lauro a letra do seu filho que hoje me atende na mesma rua (mudou-se há pouco para outro consultório) e que vem a ser a rua onde fui morar assim que nasci (em texto de 2007, a foto do prédio que me viu bebê, aqui), tudo isso foi responsável pela montagem do cenário: eu, aos 43 anos, tive de novo 6 anos de idade, os mesmos sintomas que fizeram papai e mamãe marcar a consulta, a mesma ziquizira que fez com que o Dr. Lauro receitasse o que me receitou há mais de 35 anos.

Mamãe, que é ansiosa (o que explica muito do que há em mim), não esperou que eu fosse até sua casa para me entregar a receita, como dissera no e-mail de ontem. Hoje cedo, quando voltei da médica da alma, o porteiro me entregou um envelope e disse:

– Seu pai passou aqui e deixou isso pra você…

No envelope, a letra de mamãe: “Edu, conforme o prometido.”.

Subi pelo elevador abrindo-o com cuidado, tirando a receita dobrada, amarelada, e antes mesmo de saltar no quarto andar eu tinha febre e mãos trêmulas.

Entrei em casa, tratei de digitalizar o que recebi como tesouro a fim de preservá-lo, e corri pra cá, a fim de dividir com vocês mais esse arremesso em direção ao passado, justo no momento em que atravesso a expectativa de arremessos em direção a um futuro tão promissor, tão repleto de coisas boas por conta da chegada da mulher que o minuano me trouxe, como desenhei aqui.

Na manhã dessa feriado, nessa manhã chuvosa, agradeço à mamãe, publicamente, pelo estopim de emoções que seu presente me trouxe. E ergo o copo cheio de espessa espuma brindando à Vida, a caprichosa senhora que a todos nós conduz, pelos encontros que me proporcionou.

Até.

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