BRASIL, JUNHO DE 2002 – SENTANDO O CACETE

Durante os anos 90/2000, mantive ao lado de Aldir Blanc, Fauto Wolff, Fernando Toledo, Mariana Blanc, Mauro Rebelo e Mello Menezes – com esporádicas contrtibuições de mais gente – a Sentando o Cacete, revista eletrônica que chegou a ter mais de 1.500 assinantes das edições que colocávamos no ar. Grande parte do material então publicado perdeu-se, só que dia desses, durante exercício arqueológico em casa, encontrei um DVD que continha muitos textos, muitos desenhos (inéditos de Mello Menezes, que ilustrava a coluna do Aldir), e pretendo, aos poucos, publicá-los aqui.

Hoje, por conta de um papo eletrônico que mantive com o Zeh Gustavo e com a Áurea Alves sobre nosso Totô – o saudoso Fernando Toledo, vítima de um estúpido acidente que o levou antes da hora – inauguro a série Sentando o Cacete. Este texto, intitulado Brasil, junho de 2002, foi publicado, claro, em junho de 2002, na edição XXI da revista.

Com vocês, a lucidez, o humor e a inteligência de Fernando Toledo:

“Antes de mais nada, gostaria de dizer que não vou torcer contra: apesar de todos os pesares, creio verdadeiramente que o povo brasileiro merece ter uma alegriazinha de vez em quando, e nada mais significativo nesta questão que um campeonato mundial de futebol. Afinal, cento e cacetada milhões de pessoas têm todo o direito de pelo menos se sentirem unidos periodicamente, de poderem soltar, em uníssono, o grito de “gooooool” ou, na hipótese mais enlouquecida, de “é penta!”. Nada contra, como brasileiro que também sou: com certeza vou acabar gritando junto, vibrando junto e consequentemente comemorando junto. Apesar de que, hoje pela manhã, assistindo ao jogo contra a Turquia em meu quarto – não sei se por causa do meu costumeiro sono matinal – só consegui me aborrecer com os foguetes. Mas tudo bem: se – milagrosamente – a coisa engrenar, sei que minha brasilidade atávica há de acabar se manifestando.

Paralelamente, não vou me influenciar também com a velha história da Copa ser em ano de eleições presidenciais e dos nossos espertos governantes se aproveitarem de um remotamente possível campeonato a fim de eleger seus candidatos: anos de experiência me ensinaram que a corja que mantém o Poder neste País possui métodos muito mais eficazes e sutis de conquistar a simpatia de um povo que já perdeu sua dignidade, seu senso de cidadania e, em muitos casos, a própria consciência de sua humanidade (que deveria ser intrínseca). Vide os artifícios utilizados para derrubar a esquerda em 89, esquemas que envolveram até mesmo o sequestro de Abílio Diniz por um bando de porras-loucas anacrônicos e sua libertação, transmitida com ares de espetáculo para todo o Brasil – principalmente as imagens da malta de policiais exibindo acintosamente, como se fossem troféus, camisetas do PT “encontradas” no local do cativeiro. Não, uma vitória em uma Copa do Mundo não é um mecanismo absolutamente necessário para estrategistas deste calibre. Mesmo porque uma vitória mundial não depende, exclusivamente, do desejo de uma nata de canalhas. A maioria dos países do mundo (principalmente alguns da envergadura de uma Itália ou uma França) não se dignaria a colaborar com uma jogada semelhante.

Meu grande receio é quase que da ordem do subconsciente coletivo brasileiro: Luís Felipe Scolari (meu computador quase que se recusou a exibir este nome) é o tipo de figura pública capaz de exercer uma influência muito perniciosa na cabeça do povo brasileiro: mandão, com ares de militar, detentor de um tosco e hipócrita moralismo e de uma mente tacanha. Que já declarou ser admirador de um homem (?) como Pinochet, com o qual possui (mantendo as devidas proporções) algumas semelhanças metodológicas. A vitória de uma Copa do Mundo, metáfora do pote de ouro no fim do arco-íris para o brasileiro; a glória nacional máxima; o auge da realização da coletividade e de cada brasileiro individualmente, ser conquistada por um indivíduo como o citado, traz o risco de se estender este arquétipo a qualquer solucionador de problemas nacionais. É bastante claro: se o cara conseguiu pegar uma seleção desacreditada, que vinha de uma sucessão de técnicos que, usando dos mais diversos métodos, nada conseguiram, e elevá-la a melhor seleção do mundo atual, e – não se esqueçam deste pequeno detalhe – primeira pentacampeã da História, não seria este o tipo de perfil ideal para a resolução de quaisquer problemas insolúveis? Se contrariar a vontade das massas e montar uma equipe ditatorialmente, obedecendo apenas a critérios próprios, sem dar a mínima para a opinião do restante da população, dispensando mesmo uma quase-unanimidade como Romário, se afigurar como genial? Como obtentor de resultado concreto? Ora, resultado concreto é o que todos os brasileiros esperam, hoje, de seus próximos governantes…

Meu medo não é o governo atual se aproveitar de um campeonato mundial, como já disse. Meu medo é esta vitória plantar na mente do povo brasileiro o gérmen de algo que não precisamos mais, que já experimentamos a contra-gosto uma vez (durante trinta anos!), que recentemente reapareceu na Venezuela e que, apesar de todas a minhas reservas em relação a meu candidato deste ano, Luís Inácio da Silva, não gostaria mesmo de ver repetido por aqui. Tenho medo da curta memória do brasileiro, de seu desespero, de sua necessidade de “soluções” milagrosas a prazos milagrosos, custe o que estas soluções possam custar.

Assim sendo, continuemos assistindo, sim, aos jogos, mas tendo sempre em mente que, se ganharmos este campeonato, não foi devido à truculência, ao autoritarismo, ao estilo, enfim, de Felipão e de seus ídolos. Tenhamos consciência de que, se chegarmos à final e conquistarmos o pentacampeonato, terá sido devido à sorte, à inépcia de nossos adversários, ou, simplesmente do talento individual de cada um de nossos jogadores, característica esta que torna o ser humano uma criatura realmente digna deste nome e que nem todas as mordaças do mundo conseguirão sufocar.”

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2 Comentários

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2 Respostas para “BRASIL, JUNHO DE 2002 – SENTANDO O CACETE

  1. Além de tudo, atual. Queria ainda falar do orgulho de ver meu nome ao lado de todas essas feras. Foi um prazer escrever pro ‘Sentando o Cacete’, meu início como escritor.

  2. Lendo este texto, é possível mensurar a tremenda falta que a mente de Fernando Toledo faz.

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