UM DEDO DE PROSA SOBRE JOSÉ DIRCEU

Sou advogado, não milito com direito criminal, não conheço a fundo o processo que está sendo julgado pelo STF mas tenho alguns critérios, muito particulares e que me bastam – antes que algum paladino venha me recomendar caminhos distintos – para que eu possa fazer uma breve avaliação do vem sendo orquestrado no Brasil.

Eu costumo dizer que desde o final da década de 40, quando nasceu, José Dirceu incomoda aos poderosos que nunca mediram esforços para impedir a liberdade e a autonomia do Brasil e dos brasileiros. Em 1965, cursando Direito na PUC/SP, tornou-se líder estudantil, chegou à presidência da UNE e foi preso pela ditadura militar em 68 durante o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna, organizado clandestinamente. Foi um dos 15 presos libertados por exigência dos bravos que seqüestraram o embaixador norte-americano – e que naquele momento dobraram a linha-dura – e foi exilado (banido!) do Brasil, tendo trabalhado e estudado em Cuba e voltado ao Brasil, durante o período do exílio, clandestinamente por duas vezes. Como tantos outros violentados pelo regime militar que governou o Brasil durante mais de 25 anos, com a anistia, em 1979, voltou à legalidade. Reingressou na PUC/SP onde formou-se em Direito em 1983.

Foi peça fundamental no processo de fundação do Partido dos Trabalhadores, em 1980, – o PT, tão odiado pelos mesmos que ainda estão aí e que são entusiastas do que chamam “revolução de 64” – , batalhou amplamente pela anistia para os processados e condenados por atuação política e participou, também, da coordenação da campanha pelas eleições diretas para presidente da República, em 1984. Segundo informações que constam do espaço que mantém ativo para discutir o Brasil, aqui, “de 1981 a 1983, foi secretário de Formação Política do PT; de 1983 a 1987, secretário-geral do Diretório Regional do PT de São Paulo; e de 1987 a 1993 foi secretário-geral do Diretório Nacional. Entre 1981 e 1986 foi assistente jurídico, auxiliar parlamentar e assessor técnico na Assembléia Legislativa de São Paulo. Em 1986 foi eleito deputado estadual em São Paulo. Em 1990 elegeu-se deputado federal e em 1994 candidatou-se ao governo de São Paulo, recebendo dois milhões de votos. Voltou a se eleger deputado federal em 1998 e 2002, quando foi o segundo mais votado do país, com 556.563 votos. Na Câmara dos Deputados, assinou, com Eduardo Suplicy, requerimento propondo a “CPI do PC” (Paulo César Farias), que levou ao impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Também participou da elaboração dos projetos de reforma do Judiciário, da Segurança Pública e do sistema político. Em 1995 assumiu a presidência do PT, sendo reeleito por três vezes. Na última, em 2001, foi escolhido diretamente pelos filiados da legenda em um processo inédito no Brasil de eleições diretas para todas direções de um partido político. Ocupou a função até 2002, quando se licenciou para participar do governo do presidente Lula. Integrante da coordenação das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República em 1989, 1994 e 1998, foi o coordenador-geral em 2002. Com a vitória de Lula, assumiu a função de coordenador político da equipe de transição. Em janeiro de 2003, José Dirceu assumiu a cadeira de deputado federal, mas logo se licenciou para assumir a função de ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, permanecendo no cargo até junho de 2005, quando retornou à Câmara dos Deputados. Seu mandato foi cassado em dezembro do mesmo ano e teve a inelegibilidade decretada por oito anos.”.

Jamais fugiu à luta, o Zé.

Ontem, condenado pelo STF sem qualquer prova (causou-me assombro a justificativa de cada um dos Ministros que o condenou), fez publicar uma carta aberta ao povo brasileiro, que passo a transcrever:

“No dia 12 de outubro de 1968, durante a realização do XXX Congresso da UNE, em Ibiúna, fui preso, juntamente com centenas de estudantes que representavam todos os estados brasileiros naquele evento. Tomamos, naquele momento, lideranças e delegados, a decisão firme, caso a oportunidade se nos apresentasse, de não fugir.

Em 1969 fui banido do país e tive a minha nacionalidade cassada, uma ignomínia do regime de exceção que se instalara cinco anos antes.

Voltei clandestinamente ao país, enfrentando o risco de ser assassinado, para lutar pela liberdade do povo brasileiro.

Por 10 anos fui considerado, pelos que usurparam o poder legalmente constituído, um pária da sociedade, inimigo do Brasil.

Após a anistia, lutei, ao lado de tantos, pela conquista da democracia. Dediquei a minha vida ao PT e ao Brasil.

Na madrugada de 1º dezembro de 2005, a Câmara dos Deputados cassou o mandato que o povo de São Paulo generosamente me concedeu.

A partir de então, em ação orquestrada e dirigida pelos que se opõem ao PT e seu governo, fui transformado em inimigo público numero 1 e, há sete anos, me acusam diariamente pela mídia, de corrupto e chefe de quadrilha.

Fui prejulgado e linchado. Não tive, em meu benefício, a presunção de inocência.

Hoje, a Suprema Corte do meu país, sob forte pressão da imprensa, me condena como corruptor, contrário ao que dizem os autos, que clamam por justiça e registram, para sempre, a ausência de provas e a minha inocência. O Estado de Direito Democrático e os princípios constitucionais não aceitam um juízo político e de exceção.

Lutei pela democracia e fiz dela minha razão de viver. Vou acatar a decisão, mas não me calarei. Continuarei a lutar até provar minha inocência. Não abandonarei a luta. Não me deixarei abater.

Minha sede de justiça, que não se confunde com o ódio, a vingança, a covardia moral e a hipocrisia que meus inimigos lançaram contra mim nestes últimos anos, será minha razão de viver.

Vinhedo, 09 de outubro de 2012

José Dirceu”

Uma vez mais, e agora me parece que num movimento inédito que une os mesmos golpistas de sempre – as grandes cadeias de comunicação – ao Poder Judiciário e a uma parcela da sociedade que nunca teve a capacidade de perceber-se marionete na mão dessa escória, tentam calar José Dirceu.

Volto a tratar do assunto – o tempo me tem sido escasso. Mas não queria deixar passar em branco essa quarta-feira negra como a toga dos que condenaram um homem que sempre lutou a favor do Brasil, do povo brasileiro, de nossa autonomia e de nossa independência. Eu, como não domino o direito penal, como já lhes disse, uso ainda outro critério, além de minha mera observação, para saber de que lado fico. Os grandes jornais brasileiros – O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo – , as revistas mais abjetas – Veja sobretudo -, as TVs que sempre foram servis aos inimigos do povo brasileiro estão sempre contra José Dirceu?

Pois bato continência ao Comandante José Dirceu de Oliveira e Silva.

E que não se iludam os inimigos de sempre: ainda não será dessa vez que vocês calarão quem jamais se calou diante das ignomínias das quais sempre foi vítima.

Até.

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4 Comentários

Arquivado em política

4 Respostas para “UM DEDO DE PROSA SOBRE JOSÉ DIRCEU

  1. Marcelo

    O mais interessante.. além da compra pela reeleição etc.. do psdb.. a maior prova que o STF não julga, ou faz corpo mole pra julgar tucano é Ronaldo Cunha Lima . Tentou matar outro político com um tiro na boca na década de 90 em João Pessoa, e morreu esse ano sem ser julgado…

    • Isso apenas corrobora a tese de que o STF, vergonhosamente, vergou-se diante do poder da Rede Globo, dos grandes meios de comunicação, que cobravam a condenação de José Dirceu a todo custo. Justo a de José Dirceu que, num golpe de mestre (como tantos por ele lançados), redistribuiu a verba de publicidade do Governo Federal, tirando da mão desses canalhas uma fortuna anual.

  2. Alfredo

    Salve, Edu. Por essas “coincidências” da vida, o Zé Dirceu foi condenado no dia que completou 45 anos do assassinato de Che Guevara. Seria esse um emblema do modo de agir dessa gente que tenta silenciar o Zé?

  3. Rita Valente

    O ZÉ É MUITO MAIOR QUER TODA ESTA INJUSTIÇA. POR ISSO QUEREM LIQUIDÁ-LO.

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