Arquivo do mês: fevereiro 2012

RISOTTO DE LULA, A RECEITA

Conforme o prometido, vou lhes contar hoje a receita do risotto de lula feito na própria tinta, prato absolutamente delicioso e que preparei, em janeiro, na Mansão dos Zampronha, especialmente para Bruno Ribeiro, de Campinas, de passagem pelo Rio, e para Juliana Freitas, hoje morando em Volta Redonda, a quem dedico, carinhosamente, o texto e as imagens. Lá estiveram presentes, também, o Cheval (que chegou com uma surpreendente garrafa de rum cubano), os membros da cúpula da casa gentilmente cedida para o convescote, Felipe Quintans, Luiz Antonio Simas, Candinha e meu afilhado-de-rua, o Benjamin. Como naquela oportunidade esqueci de fotografar o passo-a-passo, e como choveram pedidos para que eu dividisse a receita do portentoso prato, decidi repetir o desafio ontem à tarde, em minha casa, prato para quatro pessoas (façam, pois, suas contas, na hora de prepará-lo).

Os ingredientes: arroz tipo carnaroli, 800g de lula cortada em anéis (prefiro sempre, como fiz em janeiro, comprar a lula na feira, mas a idéia de última hora me obrigou a comprar anéis congelados – enormes! – no supermercado… ficou ótimo, mas prefiro a lula fresca), a tinta da lula (vendida em saquinhos ou retirada pelo feirante), 1,5l de caldo de peixe ou de legumes (usei ontem o de legumes, em janeiro o de peixe), 150g de queijo parmigiano reggiano ralado na hora, manteiga sem sal, azeite extravirgem, vinho branco e cebola.

Daí você vai à cozinha e pica uma cebola média bem miúda (pique, não rale). Enquanto isso, já ponha pra ferver, e mantenha em fogo bem baixo, o caldo de legumes. Em um copo pequeno, você deve juntar ao caldo a tinta da lula e deixá-lo separado para usar no final. Serão usadas, para quatro pessoas, duas xícaras do arroz. Uma colher e meia de sopa da manteiga sem sal e azeite suficiente para regar, com certa generosidade, o cubo de manteiga na panela.

Hora de ralar o queijo parmigiano reggiano – e uma dica. Há bons queijos do tipo parmesão à venda no Brasil. Mas nada, meus poucos mas fiéis leitores, nada supera o sabor do autêntico parmigiano reggiano. É um pouco mais caro, evidentemente, mas está aí uma coisa que, definitivamente, compensa. O mesmo vale para o arroz. Já há marcas nacionais de arroz tipo carnaroli, mas pagar um pouco mais pelo arroz italiano, berço do risotto, vale muito a pena.

Daí você põe na panela a manteiga sem sal e o azeite, acende o fogo e deixa derretê-los, tomando cuidado pra não dourar, pra não queimar. Fogo baixo, portanto. Eu, quem me lê sabe, cozinho sempre escoltado por uma dose de uísque. O calor do dia de ontem, entretanto, me fez cozinhar bebendo uma cerveja estupidamente gelada – é impossível cozinhar sem uma bebida por perto.

Derreteu? Aumente o fogo e ponha a cebola para refogar. Quando a cebola perder o branco, ficar transparente, é hora de colocar o arroz na panela. Coloque o arroz na panela e mexa. E você não vai poder parar de mexer até o final do preparo do risotto. Observe que esse mexer constante nos grãos do arroz servirão para que o amido se desprenda, o que vai tornando cremoso, o arroz, e fazendo com que cresçam os grãos – um espetáculo. Há quem prefira colocar os anéis de lula para refogar antes do arroz. Pode ser. Mas eu prefiro (ou preferi ontem, por conta do tamanho dos anéis, imensos como mostra a foto) fazer isso com o arroz, antes.

Assim que o arroz estiver bem incorporado à cebola, à manteiga, ao azeite, é hora de pôr o vinho branco (um copo americano). O chiado na panela é comovente, o cheiro é inebriante, e não deixe de mexer. Muito, e sempre. E com calma, nada de mexer com velocidade. Carinho, meus poucos mas fiéis leitores, é fundamental.

Depois de evaporado o vinho, e para que o arroz não fique seco na panela – pecado mortal! – comece a regar, aos poucos, com conchas (uma de cada vez) do caldo (de peixe ou de legume, lembrem-se). Quando estiver quase secando essa primeira concha, é hora de colocar na panela os anéis de lula (não, você não corre o risco da lula ficar, como se diz, emborrachada).

O espetáculo vai ficando ainda mais bonito. Mexa com cuidado, mesmo, para não destroçar os anéis da lula.

E lembre-se: começou a secar, o caldo foi evaporando e incorporando-se ao arroz?

Mais uma concha.

A embalagem do arroz que você comprar trará o tempo ideal de cozimento para que o arroz fique al dente, imprescindível para o sucesso do risotto. O que comprei ontem foi o De Cecco, a mesma marca do azeite que comprei – de 14 a 16 minutos para ficar pronto.

Portanto, dois minutos antes desse tempo (e o caldo deverá, já, estar perto do fim), é hora de fazer o seguinte, nessa ordem.

Mande pra panela o queijo ralado. Mexa a fim de que ele suma, junte-se ao arroz, dê aquela liga tão característica dos melhores risottos.

Lembram da tinta da lula no copo à parte? Mande-a pra dentro. E mexa.

E por fim, mais uma colher de sopa de manteiga sem sal, para dar brilho ao prato.

Hora de desligar o fogo e deixar a panela tampada, depois de uma última mexida, por uns 5 minutinhos.

Estará pronto pra servir o risotto de lula na própria tinta.

Recomendo um vinho branco para acompanhar, e ontem fomos de um Casal Garcia, vinho verde português que me satisfaz intensamente.

Boa sorte, mãos à obra!

Até.

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A CASTRAÇÃO

Quero lhes contar uma coisa hoje, e seria interessante que vocês, que me lêem, já tivessem lido No Divã, publicado aqui, em primeiro de fevereiro de 2012, quando fiz, pela primeira vez, a confissão que me contradiz: estou submetido ao tratamento psicanalítico.

Só de dizer estou submetido ao tratamento psicanalítico sinto o corpo trespassado por um arrepio causado pela humilhação que eu mesmo causei a mim quando decidi sentar-me lá, diante da psicanalista. Sim, porque eu passei a vida inteira a fazer chistes com a figura do analista. E hoje – notem vocês – lá estou, a cada manhã de terça-feira, a cada manhã de quinta-feira, diante daquela pessoa que é paga (mal paga, falo disso mais adiante) para ouvir meus derramamentos.

Mas não é sobre minhas sessões que quero falar. Quero falar de uma raça (sei do uso inadequado da palavra) que me causa, essa sim, até hoje, ganas de homicídio. É importante que vocês leiam No Divã (aqui) justamente porque lá eu falo de uma cidadã que enquadra-se perfeitamente no conjunto de pessoas (a tal raça a que me referi) que me dão nojo: a Núbia.

Eu digo seu nome – Núbia – e me vem sua imagem maviosa (Núbia era uma uva!) a repetir, como uma cacatua:

– Você já tentou terapia?

Vamos ao que quero lhes dizer: há, por aí, um exército de analisados, homens e mulheres, que não têm, simplesmente não têm, outro assunto para tratar. Pode estar ruindo a Europa, pode estar morrendo o Chico Anysio, pode ser dia de Fla x Flu, pode vencer o Oscar um filme iraniano, o assunto dessa gente será, sempre, em torno da terapia. Vou lhes dar exemplos.

Sentei-me, dia desses, à mesa de um bar. A mesa foi enchendo, foi chegando gente, até que chegou uma fulana (nomes, hoje, não interessam). E a fulana me perguntou (isso foi há uns meses), assim que sentou-se, como eu estava passando. Fui sucinto:

– Levando.

E ela, sabedora de minha situação íntima, disse, incorporando a Núbia:

– Você já tentou terapia?

Para evitar estender-me no tema – eu não queria falar de mim – dei por encerrado:

– Já estou fazendo.

Pra quê, meus poucos mas fiéis leitores? Pra quê? Bastou esse simples já estou fazendo terapia para que os olhos da fulana brilhassem. Sua respiração tornou-se ávida e intensa (penso que ela chegou a babar). Cravou as unhas no meu antebraço e me disse, nariz com nariz:

– Conta! – bateu os pés no chão.

E repetiu:

– Conta, conta, conta!

Eu, com cara de poucos amigos, disse:

– Conta o quê?

E ela, revirando os olhos e falando com voz de bebê:

– Ah, conta, vai… como é com você?

Fiz cara de nojo, pedi outra cerveja e ela insistiu:

– Você gosta dele?

– É ela.

– Gosta dela?

– Gosto.

Ela bateu palminha, gargalhou e disse, com expressão de pós-doutorado:

– Então ainda não houve a transferência…

Levantei pra ir ao banheiro sem dar um pio.

Voltei e lá estava a neurótica a postos:

– E a castração? Como você lida com esse lance da castração? – falou assim, bem escorregadia.

Perdi a paciência:

– Que castração, porra?!

Ela, tentando me acalmar, fez festinha na minha mão esquerda, pousada sobre a mesa, acendeu um cigarro e disse depois de fazer círculos com a fumaça:

– Como é, pra você, pagar as sessões? Saca esse lance? Quando você paga, você se castra. É um pedaço seu que fica lá. Saca?

– Não.

– Não te dói, pagar pelas sessões?

– Não.

Ela ficou transtornada. Queria, porque queria, que eu sofresse – “É, pra mim, o pior momento!”, ela urrava espetando o dedo no meu rosto e chorando, de forma compulsiva – com o fato de pagar pelas sessões. Encerrei ali, diante daquela cena que me pareceu exagerada demais, e é sobre isso que quero lhes falar hoje.

Vejam bem. Eu, que já me humilho de vergonha de mim mesmo quando saio caminhando de casa em direção ao consultório (eu ia dizer casa – fica numa casa – mas acho que consultório é mais apropriado), sinto-me ainda mais humilhado e vergastado pela vergonha quando abro a carteira, ao final da sessão, e estendo as notas que somam o valor da consulta. Isso, para essa raça insuportável, é a desgraça. Eles querem, eles precisam, eles desejam que o pagar seja sinônimo de sofrimento por conta da aplicação do dinheiro na cura da alma (é como eu chamo, não me corrijam). Eu, notem a diferença (é o foco do que quero lhes contar), ao contrário, pago achando que pago pouco.

Digo de mim para mim ao final de cada sessão:

– Se eu fosse pagar o que essa camarada vale eu teria de vender meu apartamento!

E isso, esse simples sentimento que me invade às terças e quintas-feiras, é o que não toleram esses chatos.

Até.

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A AUSÊNCIA DO CRIOULO

Vejam vocês uma coisa (conversei dia desses, acho que foi com Fernando Borgonovi, sobre este assunto). Vem chegando aí o Carnaval – duas semanas pra ser mais preciso (do início ao fim, como sempre). E eu, aos poucos, ainda que eu saiba que na hora agá nada pode sair como o planejado, vou tecendo os meus planos para o tríduo momesco (e é assim, ano após ano).

Já sei, por exemplo, que no sábado de Carnaval, depois de uma manhã exaustiva – é quando sai o Cordão da Bola Preta, ápice da festa, e o simples fato de ser, o ápice, no primeiro dia, dá bem a dimensão da inversão que o Carnaval representa – vou precisar de um descanso em casa. Às três da manhã da madrugada de domingo desfilo no Império Serrano, convidado que fui por Rodrigo Pian (e por toda a “corte imperial”, segundo ele).

Como vou ao Sambódromo pela primeira vez para assistir ao desfile do Grupo Especial no domingo e na segunda-feira, isso pode (pode!) significar que não irei ao Cordão do Boitatá, na Praça XV. O que, de certa forma, me alivia (vou explicar, e foi sobre isso que conversei com o Borgonovi).

Nunca fui muito com o Cordão do Boitatá (mentira: no primeiro ano em que saiu, até que foi divertido; mentira de novo… divertido sempre é… vou tentar ser mais claro, acompanhem).

O Cordão do Boitatá, de muitos anos pra cá, faz lá seu baile na Praça XV. Sai, antes, entretanto (ou saía, não sei), desfilando pelas velhas ruas do velho Centro, escondido sob o argumento de que muita gente atrapalha. Sempre impliquei com esse troço (mas não é o que mais me incomoda). Vou ser mais claro, mais direto.

Quando vejo o Cordão do Boitatá na Praça XV eu penso, de mim para mim:

– Aí está a PUC sem os pilotis.

O Cordão do Boitatá – que não por acaso é o bloco que anima (anima!) os festejos do PSOL – é um bloco animado, é diversão na certa, é o que talvez reúna mais gente fantasiada… mas é o bloco anti-povo.

Farei a pergunta que gostaria que todos vocês, meus poucos mas fiéis leitores que lá já estiveram (e abusem, se quiserem, da caixa de comentários para suas respostas), respondessem: quantos crioulos – e refiro-me aos crioulões que brilham, que reluzem, aos desdentados, aos desvalidos, aos de povo! – você já viu, ali, sambando com os pés pisando nas pedras pisadas do cais? Eu mesmo respondo: nenhum.

O que há, durante o baile do Cordão do Boitatá, é mesmo um desfile de estudantes da PUC. Talvez não tenha sido o objetivo de seus criadores (não é, meu texto, uma acusação nesse sentido). Mas é o que se verifica, sem muita dificuldade.

Vou sempre (fui sempre) porque lá encontro inúmeros amigos, e porque afinal – como já lhes disse – fazem um bom baile os meninos e as meninas do Cordão do Boitatá. Mas sempre, sempre!, me assombra a ausência profunda do homem do povo. Não estão lá os pais-de-santo, não estão lá os paus-de-arara, não estão lá as passistas, não estão lá os flagelados, não estão lá os pingentes, não estão lá as balconistas (apud Aldir Blanc).

Dirão alguns que estou exagerando, o que repilo desde já.

E outra: uma pesquisa, simples, no Google, mostra que o que mais se fala a respeito do Cordão do Boitatá é que tem “muita gente bonita”, frase batida usada sempre pra definir coisas absolutamente intragáveis (o que não é, quero repetir, o caso deles).

– Algum problema nisso, na ausência dos crioulões? – perguntarão alguns.

– Não! – eu direi.

Não mesmo. Mas era o que eu queria lhes dizer.

Até.

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UM EMBATE MÉDICO

Volto hoje, depois de uns dias me dedicando ao cinema iraniano e ao bigode (ou ao não-bigode) do Milton Temer, a fazer confissões de família, fruto de meus incessantes arremessos em direção ao passado. Tive o tal arremesso na semana passada, quando precisei ir ao consultório médico do meu homeopata. Vou lhes contar como foi.

O consultório médico do meu homeopata fica na Tijuca, na fronteira com o Andaraí. E lá fui eu disposto a tratar da minha hemorróida (uma apenas, solitária e inédita). Pausa.

Relutei muito sobre lhes contava ou não sobre minha hemorróida. Resolvi contar. Até porque já estou bom. Voltemos.

Sempre que vou ao consultório do bom Luiz sofro trancos que chegam a doer de tão intensos. A razão? Simples. Dr. Luiz vem a ser filho do médico homeopata de toda minha família, e desde que mamãe tinha – o quê?! – 3, 4, 5 anos de idade. Lauro faleceu recentemente, já na casa dos 90 anos, e sempre fomos tão ligados ao bom médico, que eu e mamãe protagonizamos uma cena de cinema (não o iraniano, claro) em seu velório.

Toda a família do bom Lauro – eu disse toda! -, composta por muitas dezenas de filhos, netos, bisnetos etc., é espírita (como minha avó materna, e como mamãe). Estavam pois, os espíritas, como se estivessem numa festa de aniversário: sorriam, abanavam-se com livros do Kardec, lembravam boas histórias, distribuíam frases de impacto como “vovô já deve estar todo serelepe ao lado da vovó…”, “ah, o papai fez a passagem com muita tranqüilidade…” e por aí. Eu e minha mãe, não. Chorávamos de causar constrangimento. Eu, confesso agora, chorava porque sabia que minha carreira de paciente chegava ao fim, e explico: o bom Lauro era, de fato, um santo. Eu cheguei a ver, e não foi uma, nem duas, nem três vezes, aquele halo luminoso sobre sua cabeça, durante as consultas. Nunca – eu disse nunca! – o bom Lauro pediu-me um exame. Nunca o bom Lauro me assombrou com o que quer que fosse. O bom Lauro era, pra mim, o anti-médico (sim, eu sofro da síndrome do jaleco branco). Chorava porque cresci ouvindo vovó dizer:

– Deva ao doutor Lauro a vida de sua mãe, meu filho. Salvou-a do tifo! Do tifo! – e quando vovó falava tifo, eu sentia arrepios horripilantes, um medo pretérito, anterior a mim.

Pois bem.

Sempre que vou ao consultório do Luiz, seu filho, passos os primeiros quinze minutos da consulta chorando. E dá-se sempre a mesma cena:

– O que houve, Eduardo?

– Nada. É saudade do seu pai.

Ele dá-me um tapinha na mão e seguimos.

Daí eu lhes contei do bom, velho e saudoso Lauro e lembrei-me de outro médico, que tratava de outro ramo da família, e quero lhes contar – foi do que me lembrei durante o arremesso da semana passada – sobre isso, sobre essa devoção, esse fanatismo, essa idolatria que liga famílias a médicos.

A tia Noêmia tinha também, no bolso do vestido, o seu médico, o seu doutor Lauro, o salvador – era a expressão que ela sempre usava: o Dr. Cambuquira. E o Dr. Cambuquira, assim como o bom, velho e saudoso Lauro, era médico das antigas. Andava sempre aprumado, bem arrumado, tinha sempre sua malinha a tiracolo, não usava estetoscópio pendurado no pescoço como os médicos de novela, tinha fala mansa e era (bem me lembro disso) cheirosíssimo (cheirava a talco, o Dr. Cambuquira). E tinha – eis o principal, e disso tinha um orgulho tremendo, a tia Noêmia – uma mania: andava com um termômetro espetado no bolso da camisa que era usado com inexplicável freqüência (nos outros, diga-se). Vejam só.

Havia um almoço na casa da tia Noêmia. E o Dr. Cambuquira era sempre o convidado de honra. Me lembro do vozerio das mulheres (avós, tias etc.) anunciando:

– Lá vem o Dr. Cambuquira! – e dava-se um pequeno tumulto na sala principal da casa, as mulheres disputando quem teria, primeiro, a temperatura medida pelo homem de cabelos brancos.

Uma das mulheres da família, entretanto, implicava com o médico: minha avó (Dr. Cambuquira nunca tirou a temperatura de minha avó).

Ela não admitia ouvir os elogios da tia Noêmia ao Dr. Cambuquira. Bastava ouvir um – e eram muitos, sempre – e vinha o rebate, ofendida:

– Ah, mas o doutor Lauro… Salvou a vida da Mariazinha, minha filha. Tifo, Noêmia, tifo! Gravíssimo! – e dizia o gravíssimo muito pausadamente, os olhos arregalados.

Tia Noêmia não deixava barato:

– E a escarlatina do Chico? Quem curou? Doutor Cambuquira!

Ficavam, as duas, nunca na frente de nenhum dos dois, diga-se, disputando a habilidade de seus médicos.

Vovó dizia:

– Doutor Lauro sossegou com o pigarro da mamãe!

– Ah, Mathilde, pigarro? O Doutor Cambuquira deu jeito na coqueluche do Eugênio!

Vovó não deixava barato:

– E a caxumba do Milton? Homeopatia. Dr. Lauro!

E disputavam, mesmo, doença a doença, cura a cura, quem era o melhor.

Acho, franca e sinceramente, que muito da minha tendência para a hipocondria vem daí.

Até.

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NO DIVÃ

Quem me lê sabe: há anos – anos! – eu esculhambo, com fulcro na visão rodrigueana que me acompanha, a figura do psicanalista, do psicólogo, do psiquiatra (pus as nobilíssimas profissões em ordem alfabética para não ferir suscetibilidades). Vejam vocês – e é só um exemplo – o que disse, sobre estes profissionais, o inigualável Nelson Rodrigues, em A vida como ela é… O homem fiel e outros contos:

“A mãe de Bebeto e as tias benziam-se só de ouvir falar em psiquiatria. D. Detinha interpelou o marido: “Você quer que o Bebeto vá tratar de malucos?”. Acrescentava, para os lados: “Deus me livre!”. No fundo o que a assustava era a possibilidade de que um dos futuros clientes do filho o esganasse, num acesso homicida. Dr. Sinval teve que esclarecer:

— O Bebeto pode fazer psicanálise.

Explicou que a psicanálise não oferecia o menor perigo, nem para o médico, nem para o doente. Aventurou uma blague segundo a qual o mais perigoso dos dois era, ainda, o psicanalista. Impressionada, d. Detinha pediu outras explicações. Então, o dr. Sinval, mascando o charuto, afirmou:

— Sabe o que é a psicanálise, para encurtar conversa? Um bate-papo.

— Como assim?

E ele, convicto: “O médico senta e o cliente deita. Os dois se põem a conversar e pronto. Isso é a psicanálise”. Houve, em torno, uma impressão profunda, que tocou o próprio Bebeto. D. Detinha engoliu em seco: “Só?”. Confirmou: “Só”. E foi acrescentando:

— Ainda por cima, o seguinte: o analisado não é doente nem aqui, nem na Cochinchina. Na maioria das vezes, tem uma saúde de ferro e vai lá porque não tem o que fazer e pode pagar duas mil pratas por sessão.”

Vai daí que eu, premido por várias questões (não vêm ao caso, quais), fui parar no colo (ou melhor, no divã) de uma psicanalista. Escrevi no divã e já me corrijo: eu jamais deitei-me, ou mesmo sentei-me, no tal divã (tenho, do divã, uma paúra pânica). Passo as sessões sentado na cadeira de palha diante da médica (é uma médica) com os pés – apenas os pés – apoiados no divã. Isso  – essa minha obsessão pela mesma posição na mesma cadeira e com os pés, sempre, sessão após sessão, sobre o divã – já deve ser um prato cheio para a doutora (é o que imagino).

Vivo – é o que quero lhes contar -, por conta disso, desde a primeira sessão, uma sensação de fracasso absoluto. Eu, 42 anos e alguns meses de vida, desde o berço, desde antes de aprender a ler (e antes, portanto, de ler Nelson Rodrigues, e eu só leio Nelson Rodrigues), já tinha uma aversão agudíssima aos psicanalistas, aos psicólogos, aos psiquiatras. E de repente, não mais que de repente, lá estava eu diante da psicanalista rasgando minha pequena biografia íntima, pisoteando minhas convicções, estuprando, como uma fera possessa, as frases que repeti a vida inteira com denodado orgulho.

E desde ontem – desde anteontem, a bem da verdade – uma coisa me perturba a ponto de me tirar o sono (não preguei o olho a noite passada). Tenho, ainda, e cada vez mais viva, a mesma aversão que eu tinha (esse verbo no pretérito imperfeito é como um punhal no meu peito) aos médicos da alma ao cinema iraniano e ao partido do sol e da liberdade. Pois passei a me perguntar enquanto fumava pela sala escura de minha casa:

– Estarei, um dia, no Buraco do Lume, festejando o bigode ou o não-bigode do Milton Temer?

– Flagrar-me-ei, numa manhã de domingo, dançando ciranda de mãos dadas com o Chico Alencar em Copacabana?

– Será que um dia serei um fanático pelo cinema persa?

E essa possibilidade de novas violações às minhas convicções foi capaz (foi ela!) de me fazer atravessar a noite em vigília.

Bastou, entretanto, nascer o sol para tudo se esvair.

Donde se conclui que a noite é minha senhora, uma espécie de feitor impiedoso a me trazer lembranças assustadoras e possibilidades trágicas. Ontem, por exemplo (e é por isso que lhes escrevo hoje sobre este tema), lembrei-me da Núbia, colega de faculdade, e a imagem da Núbia parecia gargalhar de mim, submetido, hoje, ao tratamento psicanalítico. Vou lhes contar sobre a Núbia.

A Núbia estudava na PUC, era minha contemporânea. Eu fazia Direito, a Núbia psicologia. Estamos em 1989, ano da primeira eleição presidencial depois dos anos de chumbo. Eu era Brizola, a Núbia era Roberto Freire (na ausência do PSOL, o PCB quebrava o galho dessa gente). E a Núbia achava que pra tudo, tudo, tudo!, a terapia era a solução. Vejamos.

Lembro-me de uma sexta-feira. Na vila dos diretórios, onde fumava-se maconha com a mesma liberdade que sonha o Renato Cinco. Todos (penso que até o Reitor) davam seus tapas, todos. Menos eu. E a Núbia chegou-se a mim, determinado dia. Tinha, entre o polegar e o indicador, aquela guimba nojenta, babada, entre o verde e o marrom. Diante de mim, aspirou, tampou o nariz (era lindo, o nariz da Núbia) e estendeu-me o psicotrópico. Recusei. Ela:

– Há tempos percebo que você nunca fuma…

Sempre tive, de fato, horror à maconha. Respondi:

– É. Não gosto.

 E ela, cravando os olhos vermelhos nos meus:

– Já tentou terapia?

E essa sugestão – já tentou terapia? – era um bordão na boca carnuda da Núbia (era linda, e carnuda, a boca da Núbia). Servia pra tudo. Você se irritava diante da fila do elevador e ela fazia a sugestão. Você reclamava da qualidade sofrível da comida do bandejão, ela fazia a sugestão. Eu, que sempre fui um feio, tentei beijá-la não me lembro quando. Ela empurrou-me com nojo e disse:

– Você já tentou terapia?

E esse acúmulo de sugestões foi solidificando em mim esse horror que eu tinha – tinha – à idéia da terapia.

Quero voltar a falar do bigode do Milton Temer, vocês vão entender porquê.

Como lhes contei, em 1989, a Núbia fez campanha para o candidato do PCB, Roberto Freire (hoje, um pobre-diabo que não vale um tostão). Mas a Núbia tinha – disso me lembro com nitidez impressionante – fixação por um deputado estadual do PT: justamente o Milton Temer. E a Núbia, também é vivo na minha memória esse episódio, tinha verdadeiro fascínio pelo bigode do aguerrido deputado, então do PT (agora no PSOL).

Havia outra moça (não lembro seu nome nem a fórceps) que apoiava o Lula e que não era do PT, dizia ser de uma tal ala mais radical, da linha chinesa. Fanática (vejam vocês a força dos bigodes!) pelo bigode do Stalin. E me lembro das duas, durante o fumacê na vila dos diretórios, disputando pra ver quem tinha o bigode mais charmoso, se o Milton Temer ou o Stalin.

Sei que é o seguinte: vali-me de vários meios e achei, vejam vocês, o telefone da Núbia (e eu não falava com a Núbia desde 1992). Disquei e conversarmos por mais de meia-hora. Falamos da vida, das nossas carreiras (Núbia atende em casa, na Praça da Bandeira, está na miséria mas se declarou muito feliz), demos de falar sobre política (Núbia, é claro, é militante do PSOL) até que eu disse:

– E o Milton Temer?

Ouvi um suspiro que me sugeriu desolação. E ela disse:

– Tirou o bigode. Falamos depois.

É ou não, o PSOL, um partido incrível? Consegue, e só ele consegue, fazer da ausência de um bigode um assunto, um tema, uma pauta.

E no caso da Núbia, um trampolim para a depressão.

Até.

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