Arquivo do mês: fevereiro 2012

DAS CINZAS À RESSURREIÇÃO

Não é a primeira vez e não será a última que recorro aos versos de meu orixá vivo, Aldir Blanc, para compreender a vida, seus movimentos e meu momento. É que vem chegando o Carnaval e eu ando, assim, comovido feito o diabo. Fiz minha estréia hoje no Gigantes da Lira (fotos aqui), um amistoso, é verdade, porque a coisa começa à vera, mesmo, no sábado de Carnaval, com a saída do Cordão da Bola Preta, como lhes contei aqui. E durante o desfile de hoje, e o Gigantes da Lira é um bloco infantil, a criança é sua tônica, fui de novo uma criança no meio de tantas crianças, ansiosa pelo milagre do Carnaval. Sim, meus poucos mas fiéis leitores, porque eu creio no milagre do Carnaval – e mais do que crer, eu preciso dele!

O Carnaval – relicário de uma tradição – é a vitória da ilusão, e eu preciso, durante o tríduo, ser bordadeira, ser carpinteiro, ser escultor e artesão para armar um novo homem, à moda do Rio de Janeiro que se renova e se reinventa a cada golpe que recebe. Preciso ser ainda mais passional do que já sou, ter mesmo veias de serpentina, alma de isopor e purpurina para galgar os degraus que me levarão, após a missa campal do povo brasileiro, ao altar profano a fim de merecer a hóstia consagrada e a dádiva do milagre que há de acontecer com a intervenção do deus maldito – das cinzas à ressurreição.

Deixo com vocês, na voz de Beth Carvalho, melodia belíssima de Moacyr Luz, a sabedoria do bardo tijucano, Aldir Blanc. Há de ser – será! – uma profecia.

Carnaval
Relicário de uma tradição
Imortal vitória da ilusão
Carnaval, coração…
Bordadeira e carpinteiro
Armam outro Rio de Janeiro
Escultor, artesão
Carnaval passional:
Veias de serpentina
A alma de isopor e purpurina…
Carnaval, missa campal do povo brasileiro
Onde a hóstia sagrada é o pandeiro
Carnaval, celestial império do trambique
Onde o crente idolatra o repique
Rio que passa e que não passou
Chama devassa purificou
O meu sentimento na contradição de um ritual
Carnaval anormal:
O menino é menina
E o doutor Juiz é a bailarina…
O carnavalesco é um deus maldito
E isso é que é bonito: recriar a criação
Pamplona, Julinho, Joãozinho Trinta dão a pinta
Que nada se acaba quando é feito por paixão
Arlindo Rodrigues, Fernando Pinto, isso é lindo!
– das cinzas à Ressurreição!

Até.

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FALTAM 10 DIAS PRO BOLA PRETA

De hoje, quarta-feira, 08 de fevereiro de 2012, a sábado são apenas dez dias até o ápice do Carnaval carioca, o desfile do Cordão da Bola Preta. Quem me lê sabe: trato o desfile do Bola Preta com a ansiedade de um réveillon. É, definitivamente, o ponto do alto do tríduo momesco, e eu já não consigo (como se a ansiedade não me fosse uma companhia constante) esconder, justamente, a dita cuja. Já conto as horas, já planejo a sexta-feira, já penso na garrafa de champagne que vai pro gelo pra ser aberta à meia-noite, e há, em mim – em mim, em mim, dentro de mim – todo o desenrolar de um filme com cenas dos meu melhores momentos no Bola Preta, bloco-procissão que me redime, que me imola, que me consome, que me consola, que me renova, que me transforma, que me agonia, que me transborda.

Vejam vocês, uma coisa (é que tenho, além de tudo, aguda saudade de Fernando Szegeri, na intenção de quem segue esse rabisco de hoje).

Estamos no ano de 2004.

Desfilávamos no Cordão do Bola Preta (já não me recordo se a foto é do domingo, no Cordão do Boitatá… acho que é). Eu e Szegeri encontramos, no Largo de São Francisco, com a Betinha. E o turbilhão que me invade também me confunde (acho que essa foto foi feita em 2004, repetindo uma pose de anos antes). Sei que quando Fernando Szegeri bateu os olhos na Betinha pela primeira vez (já sob a mira da pistola do Flavinho), disse:

– Minha musa… – e encheu os olhos-poço d´água.

E disse mais, meu mano:

– Edu, tire uma foto, por favor… Meu pai não vai acreditar que conheci uma moça tão bonita, mais bonita que minha pipa de sete cores que ganhei  do meu avô, quando menino.

Passaram-se os anos, veio o ano de 2006, a espera pelo Carnaval de 2007.

Enquanto eu esperava o Bola Preta, já em dezembro, Stê e Szegeri esperavam, em São Paulo, com ainda mais ansiedade, pela Rosa.

E a Rosa veio – antes do Bola Preta.

Deu-se a bulha na cabeça do meu irmão. A filhota pequena, meses de vida, não permitiria sua vinda para o Rio de Janeiro, interromperia uma tradição de mais de duas décadas, e trocamos incontáveis e-mails, ele se lamuriando de lá, eu prometendo a ele sua presença no glorioso cordão. Situação, convenhamos, non sense demais. Era mais ou menos assim:

– Ah, Edu, já me convenci. Não estarei no Bola Preta no sábado.

– Não se preocupe, querido. Você vai desfilar.

Ele, de lá, redarguia:

– Não adianta, mano… Já falei com a Stê, vou mesmo ficar por aqui.

E eu me despedia:

– Até o sábado de Carnaval.

Eis que veio a sexta-feira e eu vivi, talvez pela primeira vez, de forma bruta, a experiência da morte: dormi Eduardo Goldenberg e acordei Fernando Szegeri.

Repeti, na Cinelândia (sempre sob a mira da pistola do Flavinho), o gesto de anos antes.

Pus o chapéu de palha, olhos-poço, a camisa do Palmeiras, a barba amazônica, os óculos idênticos. Eu era, na íntegra, Fernando José Szegeri.

E deu-se o milagre do Carnaval.

Contou-me, o bom Szegeri, à noite, por telefone, que ele recebera uma ligação de um amigo seu, de São Paulo, diretamente do Cordão da Bola Preta. Disse, seu amigo, aos gritos:

– Pô, Fernando! Te vi de longe, te vi de longe! Você não está com a camisa do Palmeiras? Acabou que você veio?

Até.

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OS PSICOTRÓPICOS

Já lhes contei, em mais de uma oportunidade, sobre os métodos dos quais meu pai se valeu durante minha infância e adolescência para manter-me afastado da maconha e de outras drogas ilícitas (aqui, em A Marcha da Maconha e aqui, em A pedagogia do meu pai). Teve, é preciso que seja feito o registro, êxito integral em sua empreitada. Nunca, nunca!, pus a boca naquela guimba nojenta, mesmo sofrendo, principalmente durante a adolescência, preconceitos brutais por parte da turma – a turma toda fazia fumaça. Pus, é verdade – sou preciso do início ao fim -, sim… algumas poucas vezes, já depois de velho, e tive sempre a pior das relações com o psicotrópico. Bastava um trago – que eles chamam de tapa ou pauzinho, vão vendo o nojo que é isso! – e eu dormia coisa de doze, quatorze, dezesseis horas. De certa forma eu invejava aquelas pessoas que, sob o efeito da aliamba, viam discos voadores, conversavam com objetos os mais variados, gargalhavam por qualquer razão ou assumiam personalidades absolutamente díspares das que apresentavam de cara limpa. Eu, quando experimentei o umbaru pela primeira vez, tive um surto psicótico tão intenso – seguido de profundo sono – que a cara que me estendeu o psicotrópico jurou, dezoito horas depois, que nunca mais sequer fumaria diante de mim.

Mas não é disso que quero lhes falar. Quero lhes falar do PSOL.

O PSOL tem, entre suas bandeiras, a organização da tal Marcha da Maconha. E dia desses, bebendo meu café diante do balcão do Café Gaúcho, avistei três jovens (que mais pareciam, pela aparência, mendigos arados há muitos dias) panfletando (e como conjuga, o PSOL, o verbo panfletar) em prol da tal marcha. Sabe-se lá por qual razão, vieram os três andrajos em minha direção. Estenderam-me um panfleto:

– Obrigado. – e virei de costas.

Uma mocinha (eram dois rapazes e uma moça) pôs as duas mãos sobre o balcão, ao meu lado, e eu tive um misto de piedade e nojo. Suas unhas pareciam garras, e era visível a lama, a crosta, a sujeira por baixo do que um dia foi unha. Disse-me:

– Tu não pode nem ler essa parada? É pra conscientizar a burguesia a respeito da liberação da maconha…

Pedi outro café e pus a mão no nariz em sinal de asco.

Disse um dos militantes:

– Deixa ele, gata. Tu não vê que é um caretão?

Cresci. Diante daquele elogio – sou um careta, sou uma múmia, sou o anti-militante-do-PSOL – sorri (sem, entretanto, destampar o nariz). Sorri e tomei o rumo do meu escritório, a poucos metros do Café Gaúcho.

Saíram, os três, e saíram gritando “Eu sou maconheiro com muito orgulho, com muito amor” (e se você acha que isso é impossível, que nenhum idiota diria isso em público, veja isso aqui).

O que sabem, esses meninos e meninas do PSOL, sobre o amor para declarar amor à condição miserável de maconheiro? Porque não são, esses militantes do PSOL, usuários da maconha (conheço vários, conheço muitos, e nenhum deles, do meu círculo, vale-se dessa denominação degradante e reles). Deu-me, aquela cena (plasticamente suja, sonoramente repugnante), novamente, um misto e piedade e nojo. Não, não. Não me deu nojo. Deu-me apenas pena. Uma pena infinita. Santa, eu diria. Quem são os pais – era o que eu me perguntava, lembrando da pedagogia de meu pai – daqueles meninos e meninas?

Até.

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RISOTTO DE LULA, A RECEITA

Conforme o prometido, vou lhes contar hoje a receita do risotto de lula feito na própria tinta, prato absolutamente delicioso e que preparei, em janeiro, na Mansão dos Zampronha, especialmente para Bruno Ribeiro, de Campinas, de passagem pelo Rio, e para Juliana Freitas, hoje morando em Volta Redonda, a quem dedico, carinhosamente, o texto e as imagens. Lá estiveram presentes, também, o Cheval (que chegou com uma surpreendente garrafa de rum cubano), os membros da cúpula da casa gentilmente cedida para o convescote, Felipe Quintans, Luiz Antonio Simas, Candinha e meu afilhado-de-rua, o Benjamin. Como naquela oportunidade esqueci de fotografar o passo-a-passo, e como choveram pedidos para que eu dividisse a receita do portentoso prato, decidi repetir o desafio ontem à tarde, em minha casa, prato para quatro pessoas (façam, pois, suas contas, na hora de prepará-lo).

Os ingredientes: arroz tipo carnaroli, 800g de lula cortada em anéis (prefiro sempre, como fiz em janeiro, comprar a lula na feira, mas a idéia de última hora me obrigou a comprar anéis congelados – enormes! – no supermercado… ficou ótimo, mas prefiro a lula fresca), a tinta da lula (vendida em saquinhos ou retirada pelo feirante), 1,5l de caldo de peixe ou de legumes (usei ontem o de legumes, em janeiro o de peixe), 150g de queijo parmigiano reggiano ralado na hora, manteiga sem sal, azeite extravirgem, vinho branco e cebola.

Daí você vai à cozinha e pica uma cebola média bem miúda (pique, não rale). Enquanto isso, já ponha pra ferver, e mantenha em fogo bem baixo, o caldo de legumes. Em um copo pequeno, você deve juntar ao caldo a tinta da lula e deixá-lo separado para usar no final. Serão usadas, para quatro pessoas, duas xícaras do arroz. Uma colher e meia de sopa da manteiga sem sal e azeite suficiente para regar, com certa generosidade, o cubo de manteiga na panela.

Hora de ralar o queijo parmigiano reggiano – e uma dica. Há bons queijos do tipo parmesão à venda no Brasil. Mas nada, meus poucos mas fiéis leitores, nada supera o sabor do autêntico parmigiano reggiano. É um pouco mais caro, evidentemente, mas está aí uma coisa que, definitivamente, compensa. O mesmo vale para o arroz. Já há marcas nacionais de arroz tipo carnaroli, mas pagar um pouco mais pelo arroz italiano, berço do risotto, vale muito a pena.

Daí você põe na panela a manteiga sem sal e o azeite, acende o fogo e deixa derretê-los, tomando cuidado pra não dourar, pra não queimar. Fogo baixo, portanto. Eu, quem me lê sabe, cozinho sempre escoltado por uma dose de uísque. O calor do dia de ontem, entretanto, me fez cozinhar bebendo uma cerveja estupidamente gelada – é impossível cozinhar sem uma bebida por perto.

Derreteu? Aumente o fogo e ponha a cebola para refogar. Quando a cebola perder o branco, ficar transparente, é hora de colocar o arroz na panela. Coloque o arroz na panela e mexa. E você não vai poder parar de mexer até o final do preparo do risotto. Observe que esse mexer constante nos grãos do arroz servirão para que o amido se desprenda, o que vai tornando cremoso, o arroz, e fazendo com que cresçam os grãos – um espetáculo. Há quem prefira colocar os anéis de lula para refogar antes do arroz. Pode ser. Mas eu prefiro (ou preferi ontem, por conta do tamanho dos anéis, imensos como mostra a foto) fazer isso com o arroz, antes.

Assim que o arroz estiver bem incorporado à cebola, à manteiga, ao azeite, é hora de pôr o vinho branco (um copo americano). O chiado na panela é comovente, o cheiro é inebriante, e não deixe de mexer. Muito, e sempre. E com calma, nada de mexer com velocidade. Carinho, meus poucos mas fiéis leitores, é fundamental.

Depois de evaporado o vinho, e para que o arroz não fique seco na panela – pecado mortal! – comece a regar, aos poucos, com conchas (uma de cada vez) do caldo (de peixe ou de legume, lembrem-se). Quando estiver quase secando essa primeira concha, é hora de colocar na panela os anéis de lula (não, você não corre o risco da lula ficar, como se diz, emborrachada).

O espetáculo vai ficando ainda mais bonito. Mexa com cuidado, mesmo, para não destroçar os anéis da lula.

E lembre-se: começou a secar, o caldo foi evaporando e incorporando-se ao arroz?

Mais uma concha.

A embalagem do arroz que você comprar trará o tempo ideal de cozimento para que o arroz fique al dente, imprescindível para o sucesso do risotto. O que comprei ontem foi o De Cecco, a mesma marca do azeite que comprei – de 14 a 16 minutos para ficar pronto.

Portanto, dois minutos antes desse tempo (e o caldo deverá, já, estar perto do fim), é hora de fazer o seguinte, nessa ordem.

Mande pra panela o queijo ralado. Mexa a fim de que ele suma, junte-se ao arroz, dê aquela liga tão característica dos melhores risottos.

Lembram da tinta da lula no copo à parte? Mande-a pra dentro. E mexa.

E por fim, mais uma colher de sopa de manteiga sem sal, para dar brilho ao prato.

Hora de desligar o fogo e deixar a panela tampada, depois de uma última mexida, por uns 5 minutinhos.

Estará pronto pra servir o risotto de lula na própria tinta.

Recomendo um vinho branco para acompanhar, e ontem fomos de um Casal Garcia, vinho verde português que me satisfaz intensamente.

Boa sorte, mãos à obra!

Até.

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A CASTRAÇÃO

Quero lhes contar uma coisa hoje, e seria interessante que vocês, que me lêem, já tivessem lido No Divã, publicado aqui, em primeiro de fevereiro de 2012, quando fiz, pela primeira vez, a confissão que me contradiz: estou submetido ao tratamento psicanalítico.

Só de dizer estou submetido ao tratamento psicanalítico sinto o corpo trespassado por um arrepio causado pela humilhação que eu mesmo causei a mim quando decidi sentar-me lá, diante da psicanalista. Sim, porque eu passei a vida inteira a fazer chistes com a figura do analista. E hoje – notem vocês – lá estou, a cada manhã de terça-feira, a cada manhã de quinta-feira, diante daquela pessoa que é paga (mal paga, falo disso mais adiante) para ouvir meus derramamentos.

Mas não é sobre minhas sessões que quero falar. Quero falar de uma raça (sei do uso inadequado da palavra) que me causa, essa sim, até hoje, ganas de homicídio. É importante que vocês leiam No Divã (aqui) justamente porque lá eu falo de uma cidadã que enquadra-se perfeitamente no conjunto de pessoas (a tal raça a que me referi) que me dão nojo: a Núbia.

Eu digo seu nome – Núbia – e me vem sua imagem maviosa (Núbia era uma uva!) a repetir, como uma cacatua:

– Você já tentou terapia?

Vamos ao que quero lhes dizer: há, por aí, um exército de analisados, homens e mulheres, que não têm, simplesmente não têm, outro assunto para tratar. Pode estar ruindo a Europa, pode estar morrendo o Chico Anysio, pode ser dia de Fla x Flu, pode vencer o Oscar um filme iraniano, o assunto dessa gente será, sempre, em torno da terapia. Vou lhes dar exemplos.

Sentei-me, dia desses, à mesa de um bar. A mesa foi enchendo, foi chegando gente, até que chegou uma fulana (nomes, hoje, não interessam). E a fulana me perguntou (isso foi há uns meses), assim que sentou-se, como eu estava passando. Fui sucinto:

– Levando.

E ela, sabedora de minha situação íntima, disse, incorporando a Núbia:

– Você já tentou terapia?

Para evitar estender-me no tema – eu não queria falar de mim – dei por encerrado:

– Já estou fazendo.

Pra quê, meus poucos mas fiéis leitores? Pra quê? Bastou esse simples já estou fazendo terapia para que os olhos da fulana brilhassem. Sua respiração tornou-se ávida e intensa (penso que ela chegou a babar). Cravou as unhas no meu antebraço e me disse, nariz com nariz:

– Conta! – bateu os pés no chão.

E repetiu:

– Conta, conta, conta!

Eu, com cara de poucos amigos, disse:

– Conta o quê?

E ela, revirando os olhos e falando com voz de bebê:

– Ah, conta, vai… como é com você?

Fiz cara de nojo, pedi outra cerveja e ela insistiu:

– Você gosta dele?

– É ela.

– Gosta dela?

– Gosto.

Ela bateu palminha, gargalhou e disse, com expressão de pós-doutorado:

– Então ainda não houve a transferência…

Levantei pra ir ao banheiro sem dar um pio.

Voltei e lá estava a neurótica a postos:

– E a castração? Como você lida com esse lance da castração? – falou assim, bem escorregadia.

Perdi a paciência:

– Que castração, porra?!

Ela, tentando me acalmar, fez festinha na minha mão esquerda, pousada sobre a mesa, acendeu um cigarro e disse depois de fazer círculos com a fumaça:

– Como é, pra você, pagar as sessões? Saca esse lance? Quando você paga, você se castra. É um pedaço seu que fica lá. Saca?

– Não.

– Não te dói, pagar pelas sessões?

– Não.

Ela ficou transtornada. Queria, porque queria, que eu sofresse – “É, pra mim, o pior momento!”, ela urrava espetando o dedo no meu rosto e chorando, de forma compulsiva – com o fato de pagar pelas sessões. Encerrei ali, diante daquela cena que me pareceu exagerada demais, e é sobre isso que quero lhes falar hoje.

Vejam bem. Eu, que já me humilho de vergonha de mim mesmo quando saio caminhando de casa em direção ao consultório (eu ia dizer casa – fica numa casa – mas acho que consultório é mais apropriado), sinto-me ainda mais humilhado e vergastado pela vergonha quando abro a carteira, ao final da sessão, e estendo as notas que somam o valor da consulta. Isso, para essa raça insuportável, é a desgraça. Eles querem, eles precisam, eles desejam que o pagar seja sinônimo de sofrimento por conta da aplicação do dinheiro na cura da alma (é como eu chamo, não me corrijam). Eu, notem a diferença (é o foco do que quero lhes contar), ao contrário, pago achando que pago pouco.

Digo de mim para mim ao final de cada sessão:

– Se eu fosse pagar o que essa camarada vale eu teria de vender meu apartamento!

E isso, esse simples sentimento que me invade às terças e quintas-feiras, é o que não toleram esses chatos.

Até.

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A AUSÊNCIA DO CRIOULO

Vejam vocês uma coisa (conversei dia desses, acho que foi com Fernando Borgonovi, sobre este assunto). Vem chegando aí o Carnaval – duas semanas pra ser mais preciso (do início ao fim, como sempre). E eu, aos poucos, ainda que eu saiba que na hora agá nada pode sair como o planejado, vou tecendo os meus planos para o tríduo momesco (e é assim, ano após ano).

Já sei, por exemplo, que no sábado de Carnaval, depois de uma manhã exaustiva – é quando sai o Cordão da Bola Preta, ápice da festa, e o simples fato de ser, o ápice, no primeiro dia, dá bem a dimensão da inversão que o Carnaval representa – vou precisar de um descanso em casa. Às três da manhã da madrugada de domingo desfilo no Império Serrano, convidado que fui por Rodrigo Pian (e por toda a “corte imperial”, segundo ele).

Como vou ao Sambódromo pela primeira vez para assistir ao desfile do Grupo Especial no domingo e na segunda-feira, isso pode (pode!) significar que não irei ao Cordão do Boitatá, na Praça XV. O que, de certa forma, me alivia (vou explicar, e foi sobre isso que conversei com o Borgonovi).

Nunca fui muito com o Cordão do Boitatá (mentira: no primeiro ano em que saiu, até que foi divertido; mentira de novo… divertido sempre é… vou tentar ser mais claro, acompanhem).

O Cordão do Boitatá, de muitos anos pra cá, faz lá seu baile na Praça XV. Sai, antes, entretanto (ou saía, não sei), desfilando pelas velhas ruas do velho Centro, escondido sob o argumento de que muita gente atrapalha. Sempre impliquei com esse troço (mas não é o que mais me incomoda). Vou ser mais claro, mais direto.

Quando vejo o Cordão do Boitatá na Praça XV eu penso, de mim para mim:

– Aí está a PUC sem os pilotis.

O Cordão do Boitatá – que não por acaso é o bloco que anima (anima!) os festejos do PSOL – é um bloco animado, é diversão na certa, é o que talvez reúna mais gente fantasiada… mas é o bloco anti-povo.

Farei a pergunta que gostaria que todos vocês, meus poucos mas fiéis leitores que lá já estiveram (e abusem, se quiserem, da caixa de comentários para suas respostas), respondessem: quantos crioulos – e refiro-me aos crioulões que brilham, que reluzem, aos desdentados, aos desvalidos, aos de povo! – você já viu, ali, sambando com os pés pisando nas pedras pisadas do cais? Eu mesmo respondo: nenhum.

O que há, durante o baile do Cordão do Boitatá, é mesmo um desfile de estudantes da PUC. Talvez não tenha sido o objetivo de seus criadores (não é, meu texto, uma acusação nesse sentido). Mas é o que se verifica, sem muita dificuldade.

Vou sempre (fui sempre) porque lá encontro inúmeros amigos, e porque afinal – como já lhes disse – fazem um bom baile os meninos e as meninas do Cordão do Boitatá. Mas sempre, sempre!, me assombra a ausência profunda do homem do povo. Não estão lá os pais-de-santo, não estão lá os paus-de-arara, não estão lá as passistas, não estão lá os flagelados, não estão lá os pingentes, não estão lá as balconistas (apud Aldir Blanc).

Dirão alguns que estou exagerando, o que repilo desde já.

E outra: uma pesquisa, simples, no Google, mostra que o que mais se fala a respeito do Cordão do Boitatá é que tem “muita gente bonita”, frase batida usada sempre pra definir coisas absolutamente intragáveis (o que não é, quero repetir, o caso deles).

– Algum problema nisso, na ausência dos crioulões? – perguntarão alguns.

– Não! – eu direi.

Não mesmo. Mas era o que eu queria lhes dizer.

Até.

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UM EMBATE MÉDICO

Volto hoje, depois de uns dias me dedicando ao cinema iraniano e ao bigode (ou ao não-bigode) do Milton Temer, a fazer confissões de família, fruto de meus incessantes arremessos em direção ao passado. Tive o tal arremesso na semana passada, quando precisei ir ao consultório médico do meu homeopata. Vou lhes contar como foi.

O consultório médico do meu homeopata fica na Tijuca, na fronteira com o Andaraí. E lá fui eu disposto a tratar da minha hemorróida (uma apenas, solitária e inédita). Pausa.

Relutei muito sobre lhes contava ou não sobre minha hemorróida. Resolvi contar. Até porque já estou bom. Voltemos.

Sempre que vou ao consultório do bom Luiz sofro trancos que chegam a doer de tão intensos. A razão? Simples. Dr. Luiz vem a ser filho do médico homeopata de toda minha família, e desde que mamãe tinha – o quê?! – 3, 4, 5 anos de idade. Lauro faleceu recentemente, já na casa dos 90 anos, e sempre fomos tão ligados ao bom médico, que eu e mamãe protagonizamos uma cena de cinema (não o iraniano, claro) em seu velório.

Toda a família do bom Lauro – eu disse toda! -, composta por muitas dezenas de filhos, netos, bisnetos etc., é espírita (como minha avó materna, e como mamãe). Estavam pois, os espíritas, como se estivessem numa festa de aniversário: sorriam, abanavam-se com livros do Kardec, lembravam boas histórias, distribuíam frases de impacto como “vovô já deve estar todo serelepe ao lado da vovó…”, “ah, o papai fez a passagem com muita tranqüilidade…” e por aí. Eu e minha mãe, não. Chorávamos de causar constrangimento. Eu, confesso agora, chorava porque sabia que minha carreira de paciente chegava ao fim, e explico: o bom Lauro era, de fato, um santo. Eu cheguei a ver, e não foi uma, nem duas, nem três vezes, aquele halo luminoso sobre sua cabeça, durante as consultas. Nunca – eu disse nunca! – o bom Lauro pediu-me um exame. Nunca o bom Lauro me assombrou com o que quer que fosse. O bom Lauro era, pra mim, o anti-médico (sim, eu sofro da síndrome do jaleco branco). Chorava porque cresci ouvindo vovó dizer:

– Deva ao doutor Lauro a vida de sua mãe, meu filho. Salvou-a do tifo! Do tifo! – e quando vovó falava tifo, eu sentia arrepios horripilantes, um medo pretérito, anterior a mim.

Pois bem.

Sempre que vou ao consultório do Luiz, seu filho, passos os primeiros quinze minutos da consulta chorando. E dá-se sempre a mesma cena:

– O que houve, Eduardo?

– Nada. É saudade do seu pai.

Ele dá-me um tapinha na mão e seguimos.

Daí eu lhes contei do bom, velho e saudoso Lauro e lembrei-me de outro médico, que tratava de outro ramo da família, e quero lhes contar – foi do que me lembrei durante o arremesso da semana passada – sobre isso, sobre essa devoção, esse fanatismo, essa idolatria que liga famílias a médicos.

A tia Noêmia tinha também, no bolso do vestido, o seu médico, o seu doutor Lauro, o salvador – era a expressão que ela sempre usava: o Dr. Cambuquira. E o Dr. Cambuquira, assim como o bom, velho e saudoso Lauro, era médico das antigas. Andava sempre aprumado, bem arrumado, tinha sempre sua malinha a tiracolo, não usava estetoscópio pendurado no pescoço como os médicos de novela, tinha fala mansa e era (bem me lembro disso) cheirosíssimo (cheirava a talco, o Dr. Cambuquira). E tinha – eis o principal, e disso tinha um orgulho tremendo, a tia Noêmia – uma mania: andava com um termômetro espetado no bolso da camisa que era usado com inexplicável freqüência (nos outros, diga-se). Vejam só.

Havia um almoço na casa da tia Noêmia. E o Dr. Cambuquira era sempre o convidado de honra. Me lembro do vozerio das mulheres (avós, tias etc.) anunciando:

– Lá vem o Dr. Cambuquira! – e dava-se um pequeno tumulto na sala principal da casa, as mulheres disputando quem teria, primeiro, a temperatura medida pelo homem de cabelos brancos.

Uma das mulheres da família, entretanto, implicava com o médico: minha avó (Dr. Cambuquira nunca tirou a temperatura de minha avó).

Ela não admitia ouvir os elogios da tia Noêmia ao Dr. Cambuquira. Bastava ouvir um – e eram muitos, sempre – e vinha o rebate, ofendida:

– Ah, mas o doutor Lauro… Salvou a vida da Mariazinha, minha filha. Tifo, Noêmia, tifo! Gravíssimo! – e dizia o gravíssimo muito pausadamente, os olhos arregalados.

Tia Noêmia não deixava barato:

– E a escarlatina do Chico? Quem curou? Doutor Cambuquira!

Ficavam, as duas, nunca na frente de nenhum dos dois, diga-se, disputando a habilidade de seus médicos.

Vovó dizia:

– Doutor Lauro sossegou com o pigarro da mamãe!

– Ah, Mathilde, pigarro? O Doutor Cambuquira deu jeito na coqueluche do Eugênio!

Vovó não deixava barato:

– E a caxumba do Milton? Homeopatia. Dr. Lauro!

E disputavam, mesmo, doença a doença, cura a cura, quem era o melhor.

Acho, franca e sinceramente, que muito da minha tendência para a hipocondria vem daí.

Até.

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