ESSE É O SOM DA MINHA TERRA

Eis-me de novo, hoje, recorrendo aos versos daquele que considero o maior dentre nossos letristas (e vejam que somos uma nação farta nesse quesito!): Aldir Blanc. Aliás, breve pausa: dá-me um prazer tremendo espalhar as letras de Aldir por aí (leiam Aldir Blanc e o ECAD, aqui). Não é raro que alguém me escreva pra dizer – “oh, eu não sabia que essa letra era do Aldir…” – e está aí, nessa revelação, o nascedouro desse prazer. O letrista, o poeta, o “ourives do palavreado” (apud Dorival Caymmi, sobre Aldir), a antítese da estrela que sobe ao palco, que grava o disco, que faz shows pelo mundo afora, é, nesse ponto, um injustiçado. E que seja, então, o Buteco, humilde trincheira com o objetivo de expôr a genialidade do caboclo.

É que, como eu lhes disse ontem, aqui, vem chegando o Carnaval – faltam agora apenas cinco dias, pouco mais de cem horas – e a minha ansiedade vai tomando proporções incomensuráveis. Não vejo a hora de mergulhar como um louco na espiral curativa dos cordões e dos blocos, misturado à ralé, à gentalha, aos prisioneiros, aos exus catimbeiros a fim de que a forja colorida me remodele a alma que me vaza em forma de sangue há muito tempo – e que quase me cega.

Com vocês, meus poucos mas fiéis leitores, na voz da Clarisse, do disco Novos Traços, Cravo e Ferradura, de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc.

Primeiro foi um som leve
de peneira peneirando
o mar de idéias de um louco,
a água dentro do coco,
foi crescendo entre palmeiras
e tambores batucando.

Um balbucio, um rugido
um som de tragédia e circo,
um som de linha de pesca,
som de torno e maçarico.
Veio um som de escavadeira,
bate-estaca, britadeira,
um som que machuca e lanha,
um som de lata de banha.

Som de caco, som de tralha,
era um som de mutilados
quebrando gesso e muleta,
um som de festa e batalha.

Ah, era um som que me orgulhava,
som de ralé e gentalha,
era o som dos prisioneiros,
som dos exus catimbeiros,
ai!, era o som da canalha:
trovão, forja, baticum,
som de cravo e ferradura
Dez mil cavalos de Ogum!

Esse é o som da minha terra:
som de andaime despencando,
de encosta desmoronando,
de rios violentando
as margens do meu limite.

Samba, samba, samba,
pulsas em tudo que existe,
vazas se meu sangue escorre,
nasces de tudo o que morre.

Até.

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1 comentário

Arquivado em carnaval, confissões

Uma resposta para “ESSE É O SOM DA MINHA TERRA

  1. Daniel Banho

    “oh, eu não sabia que essa letra era do Aldir…”

    Me enquadro!

    Mais um hino pra conta do Aldir Blanc.

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