OS PSICOTRÓPICOS

Já lhes contei, em mais de uma oportunidade, sobre os métodos dos quais meu pai se valeu durante minha infância e adolescência para manter-me afastado da maconha e de outras drogas ilícitas (aqui, em A Marcha da Maconha e aqui, em A pedagogia do meu pai). Teve, é preciso que seja feito o registro, êxito integral em sua empreitada. Nunca, nunca!, pus a boca naquela guimba nojenta, mesmo sofrendo, principalmente durante a adolescência, preconceitos brutais por parte da turma – a turma toda fazia fumaça. Pus, é verdade – sou preciso do início ao fim -, sim… algumas poucas vezes, já depois de velho, e tive sempre a pior das relações com o psicotrópico. Bastava um trago – que eles chamam de tapa ou pauzinho, vão vendo o nojo que é isso! – e eu dormia coisa de doze, quatorze, dezesseis horas. De certa forma eu invejava aquelas pessoas que, sob o efeito da aliamba, viam discos voadores, conversavam com objetos os mais variados, gargalhavam por qualquer razão ou assumiam personalidades absolutamente díspares das que apresentavam de cara limpa. Eu, quando experimentei o umbaru pela primeira vez, tive um surto psicótico tão intenso – seguido de profundo sono – que a cara que me estendeu o psicotrópico jurou, dezoito horas depois, que nunca mais sequer fumaria diante de mim.

Mas não é disso que quero lhes falar. Quero lhes falar do PSOL.

O PSOL tem, entre suas bandeiras, a organização da tal Marcha da Maconha. E dia desses, bebendo meu café diante do balcão do Café Gaúcho, avistei três jovens (que mais pareciam, pela aparência, mendigos arados há muitos dias) panfletando (e como conjuga, o PSOL, o verbo panfletar) em prol da tal marcha. Sabe-se lá por qual razão, vieram os três andrajos em minha direção. Estenderam-me um panfleto:

– Obrigado. – e virei de costas.

Uma mocinha (eram dois rapazes e uma moça) pôs as duas mãos sobre o balcão, ao meu lado, e eu tive um misto de piedade e nojo. Suas unhas pareciam garras, e era visível a lama, a crosta, a sujeira por baixo do que um dia foi unha. Disse-me:

– Tu não pode nem ler essa parada? É pra conscientizar a burguesia a respeito da liberação da maconha…

Pedi outro café e pus a mão no nariz em sinal de asco.

Disse um dos militantes:

– Deixa ele, gata. Tu não vê que é um caretão?

Cresci. Diante daquele elogio – sou um careta, sou uma múmia, sou o anti-militante-do-PSOL – sorri (sem, entretanto, destampar o nariz). Sorri e tomei o rumo do meu escritório, a poucos metros do Café Gaúcho.

Saíram, os três, e saíram gritando “Eu sou maconheiro com muito orgulho, com muito amor” (e se você acha que isso é impossível, que nenhum idiota diria isso em público, veja isso aqui).

O que sabem, esses meninos e meninas do PSOL, sobre o amor para declarar amor à condição miserável de maconheiro? Porque não são, esses militantes do PSOL, usuários da maconha (conheço vários, conheço muitos, e nenhum deles, do meu círculo, vale-se dessa denominação degradante e reles). Deu-me, aquela cena (plasticamente suja, sonoramente repugnante), novamente, um misto e piedade e nojo. Não, não. Não me deu nojo. Deu-me apenas pena. Uma pena infinita. Santa, eu diria. Quem são os pais – era o que eu me perguntava, lembrando da pedagogia de meu pai – daqueles meninos e meninas?

Até.

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9 Comentários

Arquivado em confissões, política

9 Respostas para “OS PSICOTRÓPICOS

  1. Adriano Baldaia

    Muito bom Edu!! Eu, como um pai que sou, me faço a mesma pergunta. Onde estarão ou o que pensarão os pais diante disso?

  2. Edu,

    Sou ainda mais careta, jamais pus qualquer tipo de cigarro na boca, pior que meu pai não foi o mote, simplesmente não tolero o cheiro da maconha.

    Arnóbio

  3. @JoaoCarlos_SEP

    Eu, um maconhista crônico, assino embaixo. Ter orgulho de ser maconheiro é uma babaquice típica de babaca que encontra abrigo ideológico no PSOL.

  4. Dias desses, desfilando em um bloco em Botafogo, dei de cara com um antigo conhecido do Santa Marta que não via há anos, pior do que já era quando jovem e viciado. Já beirando seus cinquenta anos, o velho idiota andava de lá pra cá falando: – Um “back”, maluco! Um “remedinho”… Olhei pra cara dele (e minha filha diz que minhas caras são legendas) e pensei: “Velho escroto, ridículo e babaca!”. Que fim de vida triste!

  5. Claudio

    Ainda bem que o pai do Edu não o amedrontou com relação ao álcool, pois a esta altura não só deixaríamos de ter um bom parceiro de copo como também ele estaria vendo o biriteiro (como somos) como uns bobalhões. Aliás, os gestos, as atitudes, a confraria em torno do copo em muito se assemelha aos usuários de maconha e, para quem a fuma e não bebe, também pode ter o biriteiro como um idiota.

  6. Perdi dois irmãos para as drogas, um morreu aos dezesseis anos devendo a traficante o outro hoje tem quarenta anos e é dependente de crack, jogou fora tudo que tinha em sua vida, como família, emprego e dignidade, tornou-se um mendigo literalmente do qual não conseguimos recuperá-lo. Os dois me recordo bem, sempre compararam a cerveja que eu bebia com a maconha que usavam, definitivamente como cervejeira, estou chegando a velhice com mais dignidade que os dois, é uma questão de ponto de vista , ou falta de sorte em minha família , quem sabe….

    • Claudio

      Desculpe-me, Monica, mas não entendo como ponto de vista e nem como falta de sorte. Também conheço gente que fuma maconha há mais de trinta anos e nunca deveu a traficante e também nunca enveredou pelo caminho das chamadas “drogas pesadas”. Por outro lado, perdi duas pessoas próximas que apesar de começar com a cerveja (a qual aprecio muito) morreram em decorrência do consumo exagerado de álcool, sendo que uma delas já estava consumindo bebida destilada (uísque) logo pela manhã. É por aí…

  7. O.K., Claudio, retiro o termo mal educado “escroto, ridículo e babaca!” que usei no comentário em respeito a preferências alheias, mas ainda assim, prefiro de fato que meus filhos não usem maconha, tenho muito medo, este medo aí a que o Eduardo se refere, ainda por cima por ser ilícito. Em relação ao uso de drogas como experimento na juventude eu encaro com temor , mas o uso por pessoas maduras e em alguns casos a apologia de fato me incomodam muito, mas isso é problema meu, desculpe-me!

    • Claudio

      Não há porque se desculpar. Também tenho meus temores em relação às drogas, um deles é o fato de que a bebida alcoólica também não é assim considerada e me incomoda a maciça propaganda desse produto.Se a questão for analisada pelo efeito que o uso provoca, o álcool sem dúvida é mais prejudicial do que a maconha e oriento meus filhos para que não usem ambos. Embora não seja (nunca fui) usuário de maconha a questão passa exatamente pela ilicitude, veja que se não fosse ilícito não teríamos apologia e sim propaganda, não teríamos traficantes e sim comerciantes oficiais e a conversa dos pais com os filhos a este respeito seria muito mais clara e eficaz; muito mais do que simplesmente atemorizar.

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