A CASTRAÇÃO

Quero lhes contar uma coisa hoje, e seria interessante que vocês, que me lêem, já tivessem lido No Divã, publicado aqui, em primeiro de fevereiro de 2012, quando fiz, pela primeira vez, a confissão que me contradiz: estou submetido ao tratamento psicanalítico.

Só de dizer estou submetido ao tratamento psicanalítico sinto o corpo trespassado por um arrepio causado pela humilhação que eu mesmo causei a mim quando decidi sentar-me lá, diante da psicanalista. Sim, porque eu passei a vida inteira a fazer chistes com a figura do analista. E hoje – notem vocês – lá estou, a cada manhã de terça-feira, a cada manhã de quinta-feira, diante daquela pessoa que é paga (mal paga, falo disso mais adiante) para ouvir meus derramamentos.

Mas não é sobre minhas sessões que quero falar. Quero falar de uma raça (sei do uso inadequado da palavra) que me causa, essa sim, até hoje, ganas de homicídio. É importante que vocês leiam No Divã (aqui) justamente porque lá eu falo de uma cidadã que enquadra-se perfeitamente no conjunto de pessoas (a tal raça a que me referi) que me dão nojo: a Núbia.

Eu digo seu nome – Núbia – e me vem sua imagem maviosa (Núbia era uma uva!) a repetir, como uma cacatua:

– Você já tentou terapia?

Vamos ao que quero lhes dizer: há, por aí, um exército de analisados, homens e mulheres, que não têm, simplesmente não têm, outro assunto para tratar. Pode estar ruindo a Europa, pode estar morrendo o Chico Anysio, pode ser dia de Fla x Flu, pode vencer o Oscar um filme iraniano, o assunto dessa gente será, sempre, em torno da terapia. Vou lhes dar exemplos.

Sentei-me, dia desses, à mesa de um bar. A mesa foi enchendo, foi chegando gente, até que chegou uma fulana (nomes, hoje, não interessam). E a fulana me perguntou (isso foi há uns meses), assim que sentou-se, como eu estava passando. Fui sucinto:

– Levando.

E ela, sabedora de minha situação íntima, disse, incorporando a Núbia:

– Você já tentou terapia?

Para evitar estender-me no tema – eu não queria falar de mim – dei por encerrado:

– Já estou fazendo.

Pra quê, meus poucos mas fiéis leitores? Pra quê? Bastou esse simples já estou fazendo terapia para que os olhos da fulana brilhassem. Sua respiração tornou-se ávida e intensa (penso que ela chegou a babar). Cravou as unhas no meu antebraço e me disse, nariz com nariz:

– Conta! – bateu os pés no chão.

E repetiu:

– Conta, conta, conta!

Eu, com cara de poucos amigos, disse:

– Conta o quê?

E ela, revirando os olhos e falando com voz de bebê:

– Ah, conta, vai… como é com você?

Fiz cara de nojo, pedi outra cerveja e ela insistiu:

– Você gosta dele?

– É ela.

– Gosta dela?

– Gosto.

Ela bateu palminha, gargalhou e disse, com expressão de pós-doutorado:

– Então ainda não houve a transferência…

Levantei pra ir ao banheiro sem dar um pio.

Voltei e lá estava a neurótica a postos:

– E a castração? Como você lida com esse lance da castração? – falou assim, bem escorregadia.

Perdi a paciência:

– Que castração, porra?!

Ela, tentando me acalmar, fez festinha na minha mão esquerda, pousada sobre a mesa, acendeu um cigarro e disse depois de fazer círculos com a fumaça:

– Como é, pra você, pagar as sessões? Saca esse lance? Quando você paga, você se castra. É um pedaço seu que fica lá. Saca?

– Não.

– Não te dói, pagar pelas sessões?

– Não.

Ela ficou transtornada. Queria, porque queria, que eu sofresse – “É, pra mim, o pior momento!”, ela urrava espetando o dedo no meu rosto e chorando, de forma compulsiva – com o fato de pagar pelas sessões. Encerrei ali, diante daquela cena que me pareceu exagerada demais, e é sobre isso que quero lhes falar hoje.

Vejam bem. Eu, que já me humilho de vergonha de mim mesmo quando saio caminhando de casa em direção ao consultório (eu ia dizer casa – fica numa casa – mas acho que consultório é mais apropriado), sinto-me ainda mais humilhado e vergastado pela vergonha quando abro a carteira, ao final da sessão, e estendo as notas que somam o valor da consulta. Isso, para essa raça insuportável, é a desgraça. Eles querem, eles precisam, eles desejam que o pagar seja sinônimo de sofrimento por conta da aplicação do dinheiro na cura da alma (é como eu chamo, não me corrijam). Eu, notem a diferença (é o foco do que quero lhes contar), ao contrário, pago achando que pago pouco.

Digo de mim para mim ao final de cada sessão:

– Se eu fosse pagar o que essa camarada vale eu teria de vender meu apartamento!

E isso, esse simples sentimento que me invade às terças e quintas-feiras, é o que não toleram esses chatos.

Até.

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10 Comentários

Arquivado em confissões

10 Respostas para “A CASTRAÇÃO

  1. Aninha Santos

    É o que sempre digo, tem doido pra tudo! Nesses anos de terapia, análise e o escambau já vivi de tudo um pouco, inclusive, já sai de sessão convicta de que quem tinha de receber naquela tarde era eu…

  2. Edu,

    Passei várias vezes por esta pergunta, principalmente com a doença da minha filha: “você tá fazendo terapia?”. É como se fosse a máxima ajuda que amigos, desconhecidos, que sabem do meu “problema”, poderiam prestar. Tento ser educado, mas ultimamente respondo: “Sim, faço terapia, escrevi furiosamente no meu blog até quatro artigos que poucos vão ler, mas que me alivia a dor.”.

    Abraços,

    Arnobio Rocha

    • Pois então, Arnobio, mas o que tenho hoje, pra mim, é que a terapia tem, de fato, me ajudado muito a segurar minha onda. Não sei se chego a me arrepender pelo fato de não ter buscado ajuda antes – acho que não, porque todo o meu tempo livre eu dediquei a Dani e disso não posso me arrepender. Mas que é, de fato, muito bom, é. Insuportável é quem não tem outro assunto!

  3. Telma Christiane

    Edu, sabe de uma coisa? As pessoas estão fazendo um bicho de sete cabeças, essa mulher que conversou contigo é tresloucada, penso eu, nunca ouvi tamanha besteira a respeito do pagamento de uma consulta, até ri, mas isso já se tornou regra a cada leitura dos teus posts, estão cada dia melhores, será a terapia? Hahahahahahaha, não me xingue.
    Beijo!

  4. Entendi foi nada desse negócio de castração.

  5. Quando eu li “castração”, pensei logo no Pepperoni. Os analisados poderiam chamar isso de neurose obsessivo-compulsiva, e eu, diante de tamanho insulto, manda-los-ia àquele lugar. Porque se tem uma coisa que eu aprendi em décadas de análise é que a libertação reside no foda-se. (obs: essa tua neurótica é de colocar em vitrine!)

  6. Muito bom, mas sou bem menos educada do que você. Tem que ir e a gente vai porque tem dor. Discutir o tempo todo a terapia que trata dessa dor me parece outra doença, já bem mais para o pobre do psiquiatra ou, se possível, para a castração sim, mas literal da lingua desse povo dodói (dá pra ser, não?). Parabéns.

  7. Ary Gurgel

    Caro Edu: confesso que, quando muito jovem, fui um analisando que me sentia humilhado no ato de pagar a consulta. A psicanalista com ares de rainha da Dinamarca não abria mão do uso do divã – sobre isso um dia te contarei minha vingança -, o que me irritava sobremaneira. No final do ”tempo lógico”, minhas mãos tremiam ao assinar o cheque. E ela, de pé, impassível.
    Por isso, cultivo um desprezo amazônico pelos clientes que me respeitam demais. Um abraço.
    P.S: deixei meu parecer sobre o Ed Motta em ”O anti-brasileiro, o anti-carioca.

  8. Monica Machado

    Edu, seu gestos são tão largos… Aqui no seu boteco é cotidiano um tipo de martírio, de dor, de sofrimento, que só você mesmo para botar a gente assim (a gente que te lê) se martirizando, sofrendo e doendo também (não é sua dor, não; é a nossa mesmo). E o balcão é a pedra, não é? E o dono do facão, aqui, é você. E você é enorme. Só pensando assim é que entendo sua não castração; isso aí é pouco! Para você, coisa séria mesmo, só heroísmo, imolação, amor, saudade… Você entende as coisas sérias. Obrigada, e beijo.

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