UM EMBATE MÉDICO

Volto hoje, depois de uns dias me dedicando ao cinema iraniano e ao bigode (ou ao não-bigode) do Milton Temer, a fazer confissões de família, fruto de meus incessantes arremessos em direção ao passado. Tive o tal arremesso na semana passada, quando precisei ir ao consultório médico do meu homeopata. Vou lhes contar como foi.

O consultório médico do meu homeopata fica na Tijuca, na fronteira com o Andaraí. E lá fui eu disposto a tratar da minha hemorróida (uma apenas, solitária e inédita). Pausa.

Relutei muito sobre lhes contava ou não sobre minha hemorróida. Resolvi contar. Até porque já estou bom. Voltemos.

Sempre que vou ao consultório do bom Luiz sofro trancos que chegam a doer de tão intensos. A razão? Simples. Dr. Luiz vem a ser filho do médico homeopata de toda minha família, e desde que mamãe tinha – o quê?! – 3, 4, 5 anos de idade. Lauro faleceu recentemente, já na casa dos 90 anos, e sempre fomos tão ligados ao bom médico, que eu e mamãe protagonizamos uma cena de cinema (não o iraniano, claro) em seu velório.

Toda a família do bom Lauro – eu disse toda! -, composta por muitas dezenas de filhos, netos, bisnetos etc., é espírita (como minha avó materna, e como mamãe). Estavam pois, os espíritas, como se estivessem numa festa de aniversário: sorriam, abanavam-se com livros do Kardec, lembravam boas histórias, distribuíam frases de impacto como “vovô já deve estar todo serelepe ao lado da vovó…”, “ah, o papai fez a passagem com muita tranqüilidade…” e por aí. Eu e minha mãe, não. Chorávamos de causar constrangimento. Eu, confesso agora, chorava porque sabia que minha carreira de paciente chegava ao fim, e explico: o bom Lauro era, de fato, um santo. Eu cheguei a ver, e não foi uma, nem duas, nem três vezes, aquele halo luminoso sobre sua cabeça, durante as consultas. Nunca – eu disse nunca! – o bom Lauro pediu-me um exame. Nunca o bom Lauro me assombrou com o que quer que fosse. O bom Lauro era, pra mim, o anti-médico (sim, eu sofro da síndrome do jaleco branco). Chorava porque cresci ouvindo vovó dizer:

– Deva ao doutor Lauro a vida de sua mãe, meu filho. Salvou-a do tifo! Do tifo! – e quando vovó falava tifo, eu sentia arrepios horripilantes, um medo pretérito, anterior a mim.

Pois bem.

Sempre que vou ao consultório do Luiz, seu filho, passos os primeiros quinze minutos da consulta chorando. E dá-se sempre a mesma cena:

– O que houve, Eduardo?

– Nada. É saudade do seu pai.

Ele dá-me um tapinha na mão e seguimos.

Daí eu lhes contei do bom, velho e saudoso Lauro e lembrei-me de outro médico, que tratava de outro ramo da família, e quero lhes contar – foi do que me lembrei durante o arremesso da semana passada – sobre isso, sobre essa devoção, esse fanatismo, essa idolatria que liga famílias a médicos.

A tia Noêmia tinha também, no bolso do vestido, o seu médico, o seu doutor Lauro, o salvador – era a expressão que ela sempre usava: o Dr. Cambuquira. E o Dr. Cambuquira, assim como o bom, velho e saudoso Lauro, era médico das antigas. Andava sempre aprumado, bem arrumado, tinha sempre sua malinha a tiracolo, não usava estetoscópio pendurado no pescoço como os médicos de novela, tinha fala mansa e era (bem me lembro disso) cheirosíssimo (cheirava a talco, o Dr. Cambuquira). E tinha – eis o principal, e disso tinha um orgulho tremendo, a tia Noêmia – uma mania: andava com um termômetro espetado no bolso da camisa que era usado com inexplicável freqüência (nos outros, diga-se). Vejam só.

Havia um almoço na casa da tia Noêmia. E o Dr. Cambuquira era sempre o convidado de honra. Me lembro do vozerio das mulheres (avós, tias etc.) anunciando:

– Lá vem o Dr. Cambuquira! – e dava-se um pequeno tumulto na sala principal da casa, as mulheres disputando quem teria, primeiro, a temperatura medida pelo homem de cabelos brancos.

Uma das mulheres da família, entretanto, implicava com o médico: minha avó (Dr. Cambuquira nunca tirou a temperatura de minha avó).

Ela não admitia ouvir os elogios da tia Noêmia ao Dr. Cambuquira. Bastava ouvir um – e eram muitos, sempre – e vinha o rebate, ofendida:

– Ah, mas o doutor Lauro… Salvou a vida da Mariazinha, minha filha. Tifo, Noêmia, tifo! Gravíssimo! – e dizia o gravíssimo muito pausadamente, os olhos arregalados.

Tia Noêmia não deixava barato:

– E a escarlatina do Chico? Quem curou? Doutor Cambuquira!

Ficavam, as duas, nunca na frente de nenhum dos dois, diga-se, disputando a habilidade de seus médicos.

Vovó dizia:

– Doutor Lauro sossegou com o pigarro da mamãe!

– Ah, Mathilde, pigarro? O Doutor Cambuquira deu jeito na coqueluche do Eugênio!

Vovó não deixava barato:

– E a caxumba do Milton? Homeopatia. Dr. Lauro!

E disputavam, mesmo, doença a doença, cura a cura, quem era o melhor.

Acho, franca e sinceramente, que muito da minha tendência para a hipocondria vem daí.

Até.

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3 Comentários

Arquivado em confissões

3 Respostas para “UM EMBATE MÉDICO

  1. Edu,

    Confesso ter horror a médicos, dentistas (aí casei com uma). Do segundo perdi o medo, do primeiro fujo sempre.

    Grande história,

    Arnobio

  2. Pingback: ARREMESSO VIOLENTÍSSIMO EM DIREÇÃO AO PASSADO | BUTECO DO EDU

  3. Pingback: ARREMESSO AO PASSADO EM DOSES HOMEOPÁTICAS | BUTECO DO EDU

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