MAIS SOBRE O CINEMA IRANIANO

Vejam vocês que coisa impressionante. Escrevi ontem, sem qualquer pretensão – como faço quase sempre -, o texto A Separação, no qual conto o quão impactante foi minha experiência no cinema, no domingo passado (aqui), no bairro de Botafogo. Não bastasse o equívoco da minha escolha (um filme iraniano), tive de aturar não apenas uma família doente à minha frente na fila dos ingressos mas também um militante do PSOL sentado ao meu lado na sala de projeção. E não bastasse o fato de ser um militante do PSOL, era um militante do PSOL certo de sua capacidade analítica da sétima arte. Passou o filme todo (chato, modorrento, desinteressante…) chorando, gemendo elogios à luz, à lente do diretor, à força dramática dos atores e a outros bichos. Fato concreto é que o texto fez sucesso. Se são minguados os comentários ao texto – cinco até o momento – o mesmo não se pode dizer das visitas, que foi à casa das milhares. O texto correu a grande rede, verdadeiros titãs do twitter deram de espalhar o link e eu recebi adesões maciças contra o cinema iraniano.

Nenhuma das adesões, entretanto, foi mais incisiva que a de meu dileto amigo, por quem nutro obsequioso respeito, Julio Vellozo. Vou dividir com vocês, como sempre faço, o drama que liga Julio Vellozo ao lamentável cinema iraniano.

Contou-me o Julio que, em determinada ocasião, sabe-se lá porquê (nem ele lembra o nascedouro da infeliz idéia), ele foi a uma sala de cinema, em São Paulo, para assistir a um filme – claro! – iraniano. Pequena pausa.

Todo cinéfilo – que é quase sempre um pernóstico – tem mania de dizer, aos quatro ventos, que gostou dos piores filmes da paróquia. É uma espécie de senha que traz, nas entrelinhas, slogans que pretendem demonstrar (sem nenhum êxito, diga-se) sua superioridade. Daí o cinéfilo, que não se satisfaz em ir ao cinema, ver o filme e voltar pra casa, sai por aí, pelos bares, pelos restaurantes, pelas esquinas, dizendo com olhar de gênio:

– Interessante, mesmo, é o cinema persa.

E quando ele fala que interessante é o cinema persa há, na assistência, quase sempre, um olhar fanático de devoção. Claro. O cidadão comum, o cidadão normal, vai – vai que ele vá! – ao cinema pra assistir ao tal cinema persa. Passa o filme todo e ele, o comum, o normal, não entende nada, rigorosamente nada.  Então ele passa a ter, diante daquele que exalta o cinema persa, um olhar humílimo, um sentimento de baixa-estima agudíssimo, uma flagrante vergonha de si mesmo. Mas como diria minha bisavó, comigo não, violão! Sei bem da farsa dessa raça. Daí eu achar de um ridículo sem tamanho a coleção de frases feitas para impressionar os mais fracos. Voltemos ao drama do Julio Vellozo.

Foi, o pobre coitado, assistir a um filme chamado Gabbeh. E eu vou me valer de uma crítica que encontrei aqui para lhes dar uma noção da situação dramática que Julio Vellozo viveu no cinema. Vejam vocês se isso é factível. Diz a crítica:

“Gabbeh, um tipo de tapete persa, é também o nome da personagem feminina e fio condutor desta fábula do cinema iraniano. Atravessando as estepes e as estações, Gabbeh espera o consentimento de seu pai para se casar com um cavaleiro que a segue pela trilha de sua tribo nômade. Mas muitos obstáculos prolongam esta espera, como o casamento de seu tio e outros acontecimentos familiares. Da mesma forma que o tapete colorido (carregado de motivos da vida cotdiana de quem o tece), este filme é entrelaçado de arte e poesia, destacando-se especialmente pelas suas imagens, onde as cores compõem telas impressionistas.

O Julio foi mais sucinto em seu pungente depoimento:

“Um filme iraniano é mais chato que dançar com a própria irmã. O último que fui ver chamava-se Gabbeh e era sobre um tapete. Dormi com menos de 10 minutos de projeção.”

Está aí, pra mim, todo o resumo desse enfado que é Gabbeh (que eu não vi e não gostei). Um filme sobre um tapete, um tapete!

Eu não sei se eu consegui me fazer entender. Como é absolutamente inaceitável alguém fazer um filme sobre um tapete, e como é evidente que tal filme só poderia mesmo ser insuportável, o cinéfilo – justamente por conta disso tudo – passa a ganir, a latir, a gemer as qualidades da biografia do tapete.

É mais ou menos o que acontece com os críticos de arte. Críticos de arte não gostam de quadros, assim como cinéfilos não gostam de filmes. Críticos de arte gostam, mesmo, é daquilo que eles chamam de instalação, assim como os cinéfilos gostam daquilo que eles chamam de filmes herméticos. O crítico de arte torce o nariz para um quadro dentro de uma moldura. Mas o crítico de arte goza, gane, late, geme quando vê, por exemplo, um único e solitário penico, no meio de um salão imenso, cercado por centenas de rolos de papel higiênico. E se você, pobre mortal (homem comum, homem normal) diz “não gostei, achei estranho”, passa a ser alvo de um olhar de nojo, de um olhar pedante, de um olhar superior. Como se tapete rendesse filme, como se penico cercado por rolos de papel higiênico fosse arte.

Comigo não, violão!

Até.

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11 Comentários

Arquivado em cinema

11 Respostas para “MAIS SOBRE O CINEMA IRANIANO

  1. Julio Vellozo

    Pois é querido. Mas uma coisa foi boa, nada como dormir em um filme iraninano. Porque o principio do filme iraniano é a ausência de acontecimento. Nada acontece – ninguém nasce, ninguém morre, ninguém casa, ninguém grita, ninguém morre. De modo que é só aquele persa falado no mesmo tom, sem uma altercação que seja. Eu dormia gostosamente e só ouvia ao fundo:
    – Gabbeh, Gabbeh…
    Daí que um cinema confortável, luz apagada, com umas pessoas falando persa suavemente ao fundo, seja um sonífero imbatível.
    Eu que sou um insone crônico dormi o sono dos justos.

  2. Marcão

    Hahahahahahahahaha

  3. @JoaoCarlos_SEP

    Edu, sensacional. O desfecho não podia ser melhor.

    Qualquer pornochanchada tupiniquim dos anos 70 tem mais valor cinematográfico do que esse engodo iraniano.

    O Brasil inteiro, infelizmente, está infestado desses intelectualóides babacas. Mas o PSOL, as PUCS do país, a turminha cult do teatro e os cursos de cinema são, com certeza, as moradas oficiais da babaquice no Brasil.

    Essa gente vive de pose. E o conteúdo é – sempre – constrangedoramente raso. Convivi muito com esse zé povinho e atesto essa verdade presente no seu relato.

    Morte ao cult! Vida longa à Zeca Pagodinho!

    • jb

      caríssimo edu,

      é natural do homem médio(cre) se encantar com coisas ruins, porém estranhas.

      é daí que surgem malditos especialistas, que se aproveitam da suposta falta de parâmetro dos outros.

      e se o tal especialista for arrogante e picareta o suficiente, é bem provável que se torne crítico.

      da parte que me cabe, te digo que na gastronomia, o cenário é bem parecido, constrangedor mesmo.

      o sujeito come ingrediente que mal conhece, preparado com técnica “moderna”, e sai por aí, louco para “formar opinião” (esse termo que abomino).

      esquece que a comida até pode ser interessante ou estranha, mas acima de tudo deve ser gostosa.

      assim como o filme até pode ser esquisito, o que não é sinônimo de qualidade.

      puta abraço, do tamanho da lapa!

  4. Edu, esse é um dos seus melhores e mais perfeitos textos da sua lavra recente. Essa pseudo-intelectualidade nefelibata, esses eruditas de pano são uns grandes malas. Tirar a máscara dessa gente, da forma contundente como você fez, é um ato de utilidade pública.

  5. Só uma correção: “O Grande Lebowski” é sobre um tapete e é um puta filme da hora! (Tá bom! é de dois diretores que os “indies” adoram que são os Irmãos Coen, mas eu achei divertido)

  6. Opa, minha primeira visita aqui, algum titã do twitter me encaminhou. Adorei seu texto ágil e divertido.

  7. Fala Edu,
    Tenho comentado pouco, mas sempre passo por aqui, ou acabo lendo o texto no email mesmo, pelo celular, e aí não tenho muita paciência de comentar pelo tecladinho irritante do aparelho.

    Eu não entendo muito esse negócio de crítico de arte.

    Para mim, um filme, uma peça, uma quadro, uma fotografia, um verso, uma canção pode “tocar” uma pessoa e a outra não despertar o menor interesse. Isso depende se uma série de fatores, como experiências, vivências e histórias de cada um.

    Eu, por exemplo, não posso assistir nem desenho que aborda valores fortes de amizade que choro feito criança.

    De qualquer forma, minha digníssima esposa ouviu de uns amigos que não podemos deixar de assistir A Separação, que é uma revolução na direção do cinema mundial; então devemos ir neste final de semana.

    Depois te falo se o filme “me tocou” de alguma forma.

    Abraços

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