HOJE É DIA DE MEU PAI

Eis que faz anos, hoje, meu velho pai. Na foto que ilustra o texto de hoje, que vai em sua intenção, é claro, estamos eu eu ele, em 21 de março de 1970, mais precisamente no dia em que cortei, pela primeira vez, o meu cabelo (leiam aqui para saber como descobri o dia exato desta foto). Estamos na praça Afonso Pena, na Tijuca evidentemente, e vou lhes contar a razão pela qual esta foto me é especialmente cara e porque ela causa, em mim, um daqueles arremessos em direção ao passado de forma intensa e abrupta.

Estamos em março de 1970, há aproximadamente 42 anos.

Ali, os mesmos bancos verdes até hoje.

Ali, ainda o Salão América – onde cortei o cabelo pela primeira vez e onde faço, até hoje, a barba. Cortei o cabelo com o Raul, ele também ainda lá, e faço a barba com o seu Ernesto, ele também testemunha de meu primeiro corte.

Ali, ainda na esquina da Martins Pena com Campos Sales, o Bar América.

Ali, naquela praça, ainda meu avô Oizer e seus amigos judeus, falando em ídiche quando eu passava indo ou vindo da escola, e perto dali, na rua Afonso Pena, o asilo no qual morreu minha avó Elisa dentro de um quarto cheirando a laranja-lima.

Ali, a poucos metros dali, a sede do America, onde tantas vezes fui, moleque, pra piscina ou pra assistir partidas de autobol, sempre com meu velho pai e com meu irmão mais velho (mais novo que eu), o Fefê – com direito a lanchar na Geneal, na Barão de Itapagipe.

Ali, naquela praça, muitas das minhas lembranças da infância, o prédio da minha tia Linda e do tio Beneval ainda de pé, na rua Afonso Pena, e Vitória, a madrinha que nunca mais vi, e Mauro, o padrinho que nunca mais vi, o prédio onde moravam Nélson e Rose, Letícia e Miguel, na rua Martins Pena, apartamento de sala muito ampla com tábua corrida (e o Dodge Dart amarelo…), ali, naquela praça, a poucos metros de onde nasceu mamãe, na casa amarela ainda de pé, rua Gonçalves Crespo, também a poucos metros da vila onde viveram meus avós e minha bisavó, e minha tia Idinha, na rua Professor Gabizo, na Heitor Beltrão e na São Francisco Xavier, o prédio ainda de pé onde moravam Darcy e Vera com a vovó Gisélia, também na Martins Pena, o Salete na rua com o mesmo nome da praça, e que freqüento desde menino pelas mãos de meu pai, e são tantos os fantasmas, vivos e mortos, que rondam minh´alma quando passo pela praça que eu sou capaz de dizer, sem vergonha de imitar o pernambucano mais carioca da paróquia, que a Afonso Pena está enterrada em mim como um sapo de macumba.

Enterrada em mim como um sapo de macumba e eu sinto os cheiros dos apartamentos, o cheiro de mofo dos apartamentos, e o perfume das pessoas, e ouço as vozes das pessoas, e ouço o som do pneu do meu Velotrol rasgando no chão da praça, meu avô falando numa língua estranha, meu pai me levando pra cortar cabelo pela primeira vez, e é assim, tonto, bêbado de saudade de um tempo que não volta, que eu vou, todas as quintas-feiras, sentar-me na Ferrante do seu Ernesto pra, diante do espelho, me (re)conhecer.

Parabéns, meu pai. Saúde! Saravá! Santè!

Encerro exibindo um vídeo no qual aparecemos, eu e papai, já bem mais recente (04 de setembro de 2009), em pequena entrevista para matéria do Globo Esporte sobre autobol. Notem que meu pai diz, à certa altura, que nos levou “duas ou três vezes” para ver a farra. Minha memória o desmente – e parafraseando, de novo, o grande Nelson Rodrigues, se os fatos contrariam minha memória e minhas histórias, pior pros fatos.

Até.

3 Comentários

Arquivado em confissões, gente

3 Respostas para “HOJE É DIA DE MEU PAI

  1. Bruno Xavier

    Parabéns ao Seu Isaac!
    Agora, o juiz no autobol tinha que ter sete vidas ou, no mínimo, estar com o plano de saúde em dia. Pelo que eu vi o destemido ficava dentro do campo: sinistro.

  2. Ary Gurgel

    Caro Edu, vi muitos jogos de autobol nas Laranjeiras no início dos 70. Boas lembranças da infância….
    Quer dizer que depois do episódio do ”Faz um 12, Brizola”, a Globo ainda foi á sua casa entrevistá-lo? Depois dessa, estou convencido de que nem será necessário você fazer campanha pra presidente.
    Mas já pensou a sério na vereança? Meu voto é seu. Um abraço.

  3. Rodrigo

    “…Enterrada em mim como um sapo de macumba e eu sinto os cheiros dos apartamentos, o cheiro de mofo dos apartamentos, e o perfume das pessoas, e ouço as vozes das pessoas, e ouço o som do pneu do meu Velotrol rasgando no chão da praça, meu avô falando numa língua estranha, meu pai me levando pra cortar cabelo pela primeira vez, e é assim, tonto, bêbado de saudade de um tempo que não volta…”
    Meu Deus! Já senti isso muitas vezes e não conseguia explicar.
    Parabéns Edu! Você é nosso porta-voz.

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