ARREMESSO AO PASSADO

Estou sozinho na areia, não tenho mais do que um ano de idade (ou terei um pouco mais do que isso).

Lembro-me, desse tempo, e são lembranças tão esparsas, tão fugidias, tão pouco nítidas, mas que se resumem, talvez, num único som. Íamos, eu, meus pais e muitas vezes meu avô paterno, Oizer, à praia da Urca, hoje pouco recomendável para o banho. Meu avô, e enquanto escrevo sinto formigar as mãos e estrilar meus ouvidos, tinha a mania de pegar cigarras entre as mãos – eram mãos enormes, vovô veio pro Brasil de Odessa, era um homem forte e que tinha, na estatura e na postura, a bravura dos sobreviventes.

Aquilo me fascinava e neste exato momento eu não consigo saber (ou lembrar) a razão exata daquele meu fascínio (mas era, definitivamente, um fascínio). Eu não sei se meu avô era um herói porque conseguia, com as mãos, deter um inseto que fazia tanto barulho e me assustava (e penso que as cigarras me assustavam porque eram muitas, na Urca, tão próximas de mim…) ou se era um herói apenas porque me dava intensa satisfação ver aquele velho de rosto vermelho e olhos azuis, sorriso emoldurado pelo bigode branco e pelos cabelos à moda de Albert Einstein – aqui, diversas fotos de meu avô -, fazendo tão pouco (e tanto) pra fazer sorrir o primeiro filho de seu filho mais novo. Porque as cigarras me davam medo mas me faziam sorrir.

Meu avô tinha outra mania (e ainda na Urca). Ele, que andava com um canivete sempre no bolso da calça, escrevia meu nome (e depois, mais tarde, o meu e de meus irmãos) no tronco das árvores da Urca inteira, da Praia Vermelha à praia da Urca propriamente dita, atrás do antigo cassino, dos também antigos estúdios da TV Tupi.

Hoje, quase 43 anos depois, estou como na areia em tenra idade: sozinho.

Ainda me assusta, até hoje, o canto das cigarras. Não penso, como pensam os moradores da cidade, que as cigarras cantando sinalizam um tempo quente, um calor por vir. As cigarras cantando me arremessam pro final da década de 60, início da de 70, e eu sinto saudade do meu avô (e ainda tenho medo delas, das cigarras) e saudade do tempo em que o banho na Urca era possível. Andei, dia desses, sozinho (como estou na areia, como estou agora), depois de sozinho beber cerveja na mureta da qual se vislumbra a Baía de Guanabara, por quase toda a orla da Urca em busca de meu nome, mais de quarenta anos depois, nos troncos daquelas árvores – qualquer uma. Não as reconheci, não vi meu nome talhado na madeira, porque se há, ainda, ali, meu nome, ele está seguramente retorcido e deformado nos troncos mais viçosos, tantas décadas passadas. Ou terá virado, meu nome talhado por meu avô, adubo perdido entre a terra se derrubadas as árvores que de certa forma me guardavam.

Como eu mesmo, que não sei ao certo no que me transformei – ainda.

Até.

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2 Comentários

Arquivado em confissões

2 Respostas para “ARREMESSO AO PASSADO

  1. ricardoasantos

    Belo texto.

  2. A palavra saudade é exclusividade da língua portuguesa – essa nossa língua, tão rica, morro de orgulho! Como não existe uma tradução exata, em nenhum outro idioma, que explique com exatidão esse sentimento tão gigantesco e peculiar, é bonito quando os sons, os cheiros, as texturas, as cores e as ações assumem esse papel. Para expressar a saudade com precisão cirúrgica, como você tanto gosta, é importante termos à mão tradutores universais – aqueles, capazes de transformar lembranças em poesia e chegar bem perto de todos os corações. Quando sentimos bem fundo a saudade, seu cheiro, seu gosto – sua música a nos embalar – não é preciso mais entendê-la – ela já nos transformou no próximo passo, um ansioso-esperançoso vir a ser.

    (não estanque no caminho, não saiba – continue se transformando até o fim, todos os minutos da sua vida).

    Lindo arremesso. Eu quero mais é “bungee jump”.

    Beijo, querido

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