ESTEPHANIO´S BAR – UMA HISTÓRIA

Contando, parece mentira.

Corria o ano de 1999 – e eu tinha acabado de reencontrar minha menina, como já tantas vezes lhes contei. Meu irmão, Fernando, e dois amigos à época – Paulo Barbosa e Marco Saldanha – decidiram comprar um bar (isso mesmo, um bar). Procura daqui, procura dali, deram de cara com o escondidíssimo Estephanio´s Bar, cujo nome era o nome do dono do ponto, naquele momento. Eu disse escondidíssimo e era escondido mesmo, o tal bar. Ficava na rua Visconde de Itamarati, entre a São Francisco Xavier e a avenida Maracanã, na Tijuca, e era minúsculo, ficava numa lojinha de rua com não mais do que quatro mesas e lugar pra meia-dúzia de pessoas, espremidas, no balcão, em pé. Negocia daqui, negocia dali, fecharam negócio, os três. Com menos de uma semana de funcionamento, pulou fora o Marco – não agüentou o tranco. Foi quando Fernando e Paulo me chamaram pra compôr – ah, as pompas de um advogado… – o quadro societário. Negocia daqui, negocia dali, ficaram os dois remanescentes com 45% cada um e eu com 10% das cotas. Eu, o único que não trabalharia no bar – foi o que acordamos -, teria uma função precípua: armar as rodas de samba que pretendíamos fazer ali, aos domingos. E, sendo possível, convocar gente pra fazer música, todos os dias, naquela minúscula calçada a que tínhamos direito (com direito a brigas constantes com o síndico do prédio, desde o primeiro dia).

Foram poucos meses naquele endereço. E por ali passaram – creiam, meus poucos mas fiéis leitores! -, para profundo orgulho nosso, e muitos deles diversas vezes (em ordem alfabética, para não ferir suscetibilidades), Aldir Blanc, Beth Carvalho, Delcio Carvalho, Dorina, Edmundo Souto,  João da Valsa, Moacyr Luz, Nelson Sargento, Pedro Amorim, Sombra, Sombrinha, Walter Alfaiate, Wilson Moreira… e fomos testemunhas de momentos que, se não foram filmados (como o troço pedia), foram fotografados e que estão muito bem guardados na memória e no coração de quem passou por ali. Houve noite em que Beth Carvalho tomou do violão e cantou pra gente ouvir (foi, salvo engano meu, a primeira vez que a Beth cantou Só dói quando eu Rio, de Moacyr Luz e Aldir Blanc, voz e violão, e bem lembro do assombro do Aldir ouvindo sua interpretação). Houve noite em que o síndico desceu, desesperado, já quase quatro da manhã, e foi convencido por Aldir Blanc a ficar entre nós, sem bronca, escolhendo o repertório.

Foi ali, e aqui falo de mim, por mim, que conheci aquela que hoje é minha irmã, minha companheira dos baixios e das festas da cumeeira, a Manguaça – e por conseqüência o André, seu irmão, e a Sonia, sua mãe. Foi pra lá que Dani levou aquela que era sua aluna à época, a Lu Guerreira, que por sua vez levou aquela que se tornaria, depois, gerente do bar, aquela que ao mesmo tempo em que nos ofereceu o fel, anos depois, deixou-nos como prêmio o João Vitor, apadrinhado pelo Fernando, meu irmão – ele que freqüentou o bar desde bebê, tornando-se nosso mascote.

Dali, quando o bar ficou pequeno demais – a rua ficava intransitável principalmente durante os finais de semana… – mudamos para a esquina da rua dos Artistas com a Ribeiro Guimarães, no primeiro trimestre do ano 2000. O Xodó da Bahia, depois de uma imensa obra (tocada pelo engenheiro Marcio Sertã, cliente de primeira hora do bar, cujo apelido passou a ser Sogrinho por conta da beleza da filha…), passou a ser o Estephanio´s Bar. E ali, meus poucos mas fiéis leitores, se já tínhamos feito história na Visconde de Itamarati, escrevemos, mesmo, uma das mais incríveis histórias da boêmia tijucana.

Não éramos donos atendendo a clientes: formamos, efetivamente, uma família, com todos os furdúncios de uma família biológica. Ali, durante pouco mais de seis anos, vimos, todos, namoros que viraram casamentos, casamentos desfeitos com requintes rodrigueanos de traições as mais canalhas, filhos nascerem, filhos crescerem, amizades começarem, amizades serem desfeitas com juras de morte, e demos forma a um dos mais bacanas blocos de carnaval da cidade, o Segura Pra Não Cair, que desfilou no primeiro ano homenageando Noel Rosa, no segundo com Beth Carvalho, no terceiro com Martinho da Vila, no quarto com Aldir Blanc e no quinto, e último (quando nos foi impossível segurar a onda de mais de 5 mil pessoas ao longo das ruas do entorno), com João Bosco. O bloco, que contou, durante os cinco desfiles, com o auxílio luxuoso da bateria da Unidos de Vila Isabel (com mestre Mug e mestre Mariozinho à frente), contou com a participação de todos os homenageados (incluindo Noel Rosa, que foi visto pairando sobre nós…) durante ensaios e desfiles.

Ali nasceu uma banda de rock (a EstephBand, hoje Suçuarana), ali o grupo O Roda, com Bianca Calcagni e Ana Costa à frente, fez roda de samba aos domingos durante anos (e pintaram no pedaço, além de todas as ilustres figuras que já tinham dado graça ao bar original, Carlinhos 7 Cordas, Darcy do Jongo [que esteve no Estephanio´s semanas antes de morrer…], o jornalista e escritor Fausto Wolff, o violonista Felipe Barros, o cantor e cavaquinista Gabriel Cavalcante, Jayme Vignoli, Marcelinho, o cantor e compositor Moyseis Marques, o saudoso Ovídio Brito, a cantora Simone, o violonista Tiago Prata, o cavaquinista Sivuquinha, o cantor e compositor Toninho Geraes, e muita gente que, com o tempo, eu vou tratando de incluir no rol).

Fernando e Paulo moravam a uma quadra do bar, na rua Dona Maria, e a casa ganhou ares de clube, sendo chamada de EstephHouse. Conta a lenda – real! – que durante mais de cinco anos a brasa da churrasqueira da casa jamais apagou. A casa, que tinha a peculiaridade de não ter chave, era aberta aos freqüentadores do bar, os mais chegados – e eram quase todos, os mais chegados.

À certa altura, a casa caiu. Por razões que evidentemente não vêm ao caso, desfez-se a sociedade. Morreu o bar (hoje, naquela esquina, há uma filial do Bar do Adão) e ficaram as histórias. Calhou de ser, o Paulo, fotógrafo amador – o que significa dizer que, durante todo esse tempo, ele fez milhares – milhares! – de fotografias, quase que diárias, de tudo o que se passava ali.

A morte da Dani – quem me lê, sabe – fez com que eu passasse a perseguir, quase que insanamente, todo e qualquer registro seu – fotográfico, principalmente. Razão pela qual pedi ao Paulo, quando disso me lembrei, todas as fotografias dos tempos de Estephanio´s. O que significa dizer que eu tenho, hoje, milhares de fotografias em papel (que serão digitalizadas) e em DVDs – centenas deles.

Aos poucos, estou disponibilizando todos esse material, que me é afetivamente muito importante, como sei que é e será importante para todos os que fizeram parte dessa história.

Aos poucos, aqui também, no Buteco, vou expôr parte desse material, contando as histórias que foram vividas naquela esquina, pra sempre eternizada na história da boêmia da zona norte, tão esquecida por aqueles que detêm as mídias formais nas mãos, e que só têm olhos pra zona sul da cidade. Como diz o samba de Moacyr e Aldir, “há quem não se importe mas a zona norte é feito cigana lendo a minha sorte… sempre que nos vemos ela diz o quanto eu sofri.”.

Até.

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18 Comentários

Arquivado em botequim, Rio de Janeiro

18 Respostas para “ESTEPHANIO´S BAR – UMA HISTÓRIA

  1. Edu! Puxa vida! Que saudade. Lembra quando eu, Fernando Toledo e vários outros organizamos uma roda pra manter o antigo Estephanio´s no lugar original?
    Lembro da linguiça flambada…
    do caldo de ervilha…
    das cachacinhas…
    das rodas, evidentemente… O Roda era maravilhoso!
    do astral sempre no alto.
    Que saudade!
    Será q teria alguma foto do protesto q fizemos, na praça?
    Bjão!

    • Claro que me lembro, Eugenia! A quantidade de fotos que recebi é assombrosa. Vai levar, seguramente, um bom tempo até que eu consiga ver e selecionar tudo. Acredito que haja, sim, registro desse protesto, que se estendeu até a Praça Varnhagen, não é desse que você está falando? Aguarde! Beijo.

  2. Betinha

    Também lembro do protesto na praça e dos garçons indo e voltando do bar com bandejas de chope.
    No primeiro bar também teve Walter Alfaiate!

  3. Bom demais Edu! Muitas saidades dos amigos e das historias. Abraços

  4. Quantas lembranças boas, quanta saudade!!!! Me lembro do Edmundo Souto tb. Beijo

  5. Didica

    Nossa, quanta gente rindo!

  6. Felipe Bezerra

    Uma pena, Edu, eu ter conhecido o Estephanio’s já perto de seu fim – naquela noite de setembro de 2007 (uma segunda-feira, se não estou enganado) em que você e a tua Dani comemoraram mais-um-ano-juntos com a oitava lentilha. Um momento que jamais me esquecerei. Forte abraço!

  7. Tata

    Edu… quantas lembrancas maravilhosas!!! No primeiro bar, tomei o que seria meu recorde de chopps: 21 e mais uma malzibier long neck com a minha companheira Leusca (para muitos Lele peitos), e depois passei super mal, claro! No segundo, me diverti muito, vi meus amigos, esperei a feira do dia seguinte, dancei forro e samba, pulei no bloco, conheci meu marido. Ganhamos ate homenagem, e ainda guardo com muito carinho a camisa branca de manga comprida com o logo do bar que o Dudu , na epoca com alguns meses de vida, ganhou de presente do bar… Posso dizer que nao sei como teria sido a minha vida sem aqueles anos muito bem vividos nos quais os fins de semana tinham o “Stefi” como parada obrigatoria!!!!! Saudades, Edu!!!! Beijo enorme

  8. Boas histórias desse bar. Assim como o Bezerra, pouco frequentei o Estephanio’s, só no finzinho.

  9. tartarugao

    Esta foto do aniversario e foda! Adorei o que escreveu meu amigo

  10. Não era das mais chegadas nem conheci o bar original, mas sou órfã do Estephanio’s. Estive nos dois últimos blocos, nas noites de quiz e algumas de música ao vivo. Vi a casa cair e segui o Fernando para um bar meio galpão que ele abriu na Felipe Camarão. Mas já não era, obviamente, a mesma coisa.
    Estive no Adão semana passada e, como sempre acontece quando passo por lá, não pude deixar de sentir um cadinho de melancolia.

  11. Pingback: O CASAMENTO DO DEDECO | BUTECO DO EDU

  12. Pingback: O BÊBADO E A EQUILIBRISTA | BUTECO DO EDU

  13. Meus Deus… nunca haverá bar como o Estephanio’s!!!! Sou uma das tantas órfãs frequentadoras assíduas. Cheguei a ir quase todos os dias numa mesma semana, era como se fosse a varanda da minha casa. Comemorei aniversários, fui aos sambas, à noite disso, daquilo (tinha uma coisa meio temática por dia…) e acompanhava a montagem da feira na Rua dos Artistas. Era aquele bar que vc podia chegar à hora que fosse que ele ESTAVA ABERTO! Conhecia todos os garçons pelo nome. Eles, por sua vez, também me conheciam e já traziam o petisco que mais gostávamos. Sou a favor de uma campanha “Volta, Estephanio’s!” .

  14. Flávia Corrêa

    Eu saía de Campos dos Goytacazes para ir ao Estephanio’s… fui apresentada ao Estephanio’s e ao Fernando por uma grande amiga, a Luciana, e a ela agradeço muito pelas várias noites repletas de alegria e muita diversão. E desde que o Estephanio’s fechou, minhas idas ao Rio de Janeiro nunca mais foram as mesmas. Beijo grande e com muitas saudade para você, Fernando e para todos os amigos que lá eu fiz. Concordo e apoio a campanha “Volta Estephanio’s”.

  15. João Vitor Sant'anna

    Cara, você é o melhor sem dúvida alguma, vou passar a ler todos os dias seu blog, grande abraço do mascote João Vitor!

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