QUEM TEM AMOR AUSENTE JÁ VIVEU A MINHA DOR

Dezembro. Já é dezembro. E a cada dia que passa, por mais incrível que pareça, mais dela eu me lembro. O nove de julho insiste em ser real, em ter sido real – e naquele nove de julho eu deixei de ser o que sempre fui porque ela levou o que havia de melhor em mim. Num primeiro momento, e já lhes contei sobre isso aqui, “(…) fui tomado pelo torpor do alívio e agi, e nem acho que equivocadamente, de maneira agudamente racional: mudei, por inteiro, a feição do apartamento em que vivemos por quase 12 anos, dei de me desfazer de todo e qualquer objeto que me remetesse, de pronto, à imagem dela, defumei a casa, guardei seus retratos espalhados pela casa, toquei a vida.”.

Tudo em vão – e já acho que agi, sim, equivocadamente. Dei, de umas semanas pra cá, num ritmo insano, de agir como um arqueólogo de sua alma, da minha própria alma – que passou a ser mais bonita depois dela -, e passei a abrir gavetas, armários, livros, cadernos, em busca de suas fotografias, de sua letra, em busca de suas cartas, de seus bilhetes, de seus desenhos, como se suas letras e sua imagem gravada nas fotografias, tão lindas…, fossem capaz de me servir de cafuné, de uma festinha no rosto, de um lenitivo pra essa dor que não cessa. Ao contrário, é uma dor que dói mais, mais intensa, mais densa, na mesmíssima medida em que fica mais distante a data de seu desaparecimento.

Não têm me faltado os amigos, mas nem com eles eu tenho sabido lidar. Não me faltam meus pais, meus irmãos, mas nem com eles eu tenho sabido lidar. Não têm me faltado – as ironias da vida… – meus poucos mas fiéis leitores, mas nem com eles eu tenho sabido lidar. Não tem me faltado a bebida, mas nem com ela eu tenho sabido lidar. Não me falta nada, a bem da verdade. Mas me falta tudo, eis que não há mais a Dani por perto.

Não tenho dormido direito à noite, não tenho trabalhado com o afinco com que sempre trabalhei, não tenho vivido – tenho sobrevivido, eis a verdade.

Sigo num ritmo alucinado fugindo – isso, fugindo, fugindo, fugindo… – da casa vazia, da cama vazia, do gesto irracional de tatear, manhã após manhã, o travesseiro que não guarda mais ninguém.

Hoje pela manhã dei de cara com esse cartão, assinado por ela (eu a chamava, também, de Tomtom, e ela assinava Tom…), datado de 27 de abril de 2006, dia de meu aniversário, que veio junto com as orquídeas lindas que ela me deu, ainda na cama, na manhã daquela quinta-feira. No cartão, o manifesto de um desejo, tão lindo… e uma declaração – “te amo muito e pra sempre” – que a morte torna impossível.

“Pra sempre” nunca foi tão cortante, como agora.

“Pra sempre” foi o que eu respondi, na tarde do fatídico 09 de julho, quando de mãos dadas comigo, olhando nos meus olhos, com um misto de esperança e medo, ela me perguntou se eu ainda a amava.

Até.

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26 Comentários

Arquivado em confissões

26 Respostas para “QUEM TEM AMOR AUSENTE JÁ VIVEU A MINHA DOR

  1. “Eu sei”, “eu sei”, “eu sei”. Minha resposta, em voz alta, à cada declaração, cada confissão com a qual me identificava. É triste, mas há uma imprecisão: quem tem amor ausente não viveu a sua dor. Vive. Essa dor não passa, ou 3 anos não são suficientes para que ela seja conjugada no passado. Eu ainda sinto essa dor que aumenta a cada dia, eu ainda procuro alguém ao acordar (é a pior parte, não é?). E às vezes, quando ainda não abri os olhos, eu sinto ele ao meu lado de uma forma tão intensa… A percepção de que ele não está me machuca como um corte profundo. Gostaria de conseguir escrever, como você faz, as minhas confissões. Deve aliviar um pouco, mas eu não consigo. Está tudo preso aqui dentro… Negócio é aprender a viver bem, apesar da dor, pois não sei se pode haver esperanças de que ela vai passar. Acho que a dor vale a pena, pela felicidade e pelas boas mudanças que ele me trouxe. Imagino que você também pensa assim…

  2. luiza

    SEM PALAVRAS…..

  3. rita

    Também não sei o que dizer. Na verdade, acho que o Natal é a pior época com relação as pessoas que se foram. Meu pai, que era meu melhor amigo, se foi a 3 anos…e desde então eu temo a chegada do Natal…ele faz muita falta. Sei que não é a mesma coisa, mas dói muito. E eu vejo a dor da minha mãe. Desde que ele se foi, ele vem se entregando aos poucos. Só vai a academia e dormeeeeee. Não quis vir morar comigo, foge das pessoas, diz que sem ele não tem mais graça…eu a chamo de egoísta muitas vezes, afinal, tem 2 netos e uma filha! (eu) Mas já percebi que não é igual, amor de mãe, amor de parceiro de muitos anos. Ela diz que cada dia dói mais…pra mim dói, mas menos…enfim..força pra voçê..bj

  4. Diego Jörgensen

    Edu,

    Não sei o que dizer, pois minha idade – to chegando aos 25 – ainda limita a exata compreensão do que seja o amor. Minha maior dor foi ter levado um pé na bunda telefônico da mulher que eu amei. Hehehe.

    Mas saiba que estou rezando por você e pela Dani. Que Oxalá esteja com os dois, dando conforto, paz e felicidade, porque, por tudo o que tenho lido aqui, vocês merecem.

    Grande abraço.

  5. mirtes

    Edu, escrevo pouco, porque não sei o que dizer, mas penso em voce todos os dias e fico muito triste. Não tenho palavras. Mas aceite um abraço muito carinhoso, pois voce é uma pessoa especial.
    Mirtes

  6. Viviane Ponti

    É Edu, palavras não temos… mas as vezes o barco fica a deriva mesmo, angustia, dor, sofriemento, desespero… um dia, nao se sabe como nem quando, novos ventos sopram. Ninguem sabe deste tempo, ninguém é senhor dele. A nós, no sofrimento, seja por qual motivo for, nos cabe termos fé (nem sei bem o que é isso, mas acho que falo sobre uma forma de entrega e esperança e deixar a vida levar do jeito que for) e fazer oq eu voce já faz, viver o luto, Edu. Isso doi, a gente quer fazer de tudo para ver isso passar, dar um remedio, sei la… mas nada adianta ne? Somos todos impotentes diante da sua dor. A gente oferece colo, amor… conte com a gente e um dia, um dia, … tudo se alivia de alguma forma. Pode acreditar. A Dani nao vai passar nunca. Mas voce vai.
    Um beijo grande,
    Vivi

  7. Hérica Rodrigues

    Outro dia desses resolvi fazer um feijão caprichado, daqueles de lamber os beiços e comer ajoelhado. Minha relação com a cozinha vem de infância, da cozinha da minha avó. Fui colocando as carnes, o tempero, mexendo tudo na panela e pensando comigo, “Ah, esse ia deixar minha avó orgulhosa! Tá bem com cara de Dona Esperança!” E foi batendo um aperto no peito…aquela saudade sufocante que subiu pela garganta e jorrou em lágrimas silenciosas, enquanto eu, estranhamente, não conseguia tirar o sorriso do rosto ao lembrar dos meus dias aprendendo com a minha vó, dos afagos e dos risos. Ainda sinto ela aqui, tão perto, tão dentro de mim, que não me permito sentir tristeza por ela não estar fisicamente comigo há 20 anos. Sim, Edu, amor não morre, nunca. Nem é pra morrer. Aprendemos, sim, a viver com a saudade, e só. Não desespere, não force. Tudo tem seu momento. Beijos e muita força.

  8. Um poeta Espanhol, Pedro Salinas, escreveu:
    “Por que pergunto, sempre, onde estás?
    Se não estou cego,
    Se tu não estás ausente!?”

    “No tengo cárcel para ti en mi ser.
    Tu libertad te guarda para mí.
    La soltaré otra vez, y por el cielo,
    por el mar, por el tiempo,
    veré cómo se marcha hacia su sino.
    Si su sino soy yo, te está esperando.”

    Um pouco de poesia talvez possa
    ajudar na convivência inevitável com
    a dor:
    bit.ly/vFBMBH

    Força Guerreiro!!!

  9. Danilo Gallo

    Realmente é difícil colocar em palavras os sentimentos e sensações despertadas por teu texto. Que fiquem assim, lindas, tocantes, sentidas e… sem palavras. Parabéns e força.

    OBS: Não querendo dar cores e nomes, lembrei de Cartola, vou lá colocar um na Vitrola.

  10. Jacquelini Marinho

    Quando comecei ler o blog do Boteco, achei você direto, engraçado, sensivel e acima de tudo apaixonado portudo aquilo que lhe é caro. Achava doce a forma como você se referia a Dani(olha a intimidade), minha menina, lindo! Era dificil não imaginá-la ali te esperando de mais uma de sua aventuras pela alma humana, o cotidiano. As receitas, as rodadas nos butecos da Tijuca, as sua indignações, lembras da eventura no taxi, lembras da campanha pela doação de sangue, você chorou muito agradecendo a corrente pela internet, enfim foram tantas as histórias ao longo de quase um ano, tempo que chorei, dei altas gargalhadas, dia após post…mas quando veio o anuncio da partida dela, ficou o silêncio, um silêncio enorme aqui dentro sabe, e uma porrada também pois eu estava passando por uma momento extremamente delicado e a minha dor, ou a que eu pensava existir em nada se comparava a tua. Continuo aqui acompanhando a tua luta, a mais dificil, a luta pessoal e intranferível da solidão e do amor fisico ausente. Um abraço.

  11. Querido Edu, o poeta Manduka, meu mano que também já se foi, escreveu esses versos, que acho que fazem sentido:

    “Por isso somos quem somos
    Estrelas de um só momento
    Mas cujo brilho ameaça
    A ordem do firmamento”

    • Jurema Ponti

      Dudu,meu amado dudu: menino alegre, feliz, companheiro amigo… menino sensível, inteligente, amante das mesmas músicas que eu. Das mesmas divas ou de uma mesma diva… Jovem, lindo, lançando seu primeiro livro de poesias… de crônicas…
      Jovem crítico, apologista da Tijuca, politizado, dono de butequim tijucano… Adulto, respeitado, respeitável, intelectual, advogado, escritor, cronista maravilhoso, chorando numa festa de aniversário de Mariaz\inha (brunch) porque iá fazer sua primeira viagem para N.York! ( se bem me lembro). São essas as lembranças que tenho de você. E é por saber dessas poucas coisas de você que eu o amo e o admiro muito.Com o tempo, com o corre-corre da vida fomos nos afastando fisicamente e só conheci a Dani ( a Sorriso Maracanã) pelo acesso ao seu blog e pelas crônicas de seu livro. Já deu para saber do grande amor de vocês! Deu para sentir a sua dor! Dá para entender o seu sofrimento. Vá fundo, Edu! Não tem como escapar disso! Mas tenho uma palavra balsâmica: TEMPO, TEMPO, TEMPO… mas é preciso ter tempo. Há outras: ACEITAÇÃO, FÉ. Mas a minha eleita mesmo é TEMPO.
      “tempo, tempo, tempo, tempo, faço um acordo contigo…”
      “Deixa a vida me levar, vida leva eu…”
      “Para sempre é quase por um triz”?
      (Adorei o verso que Paulo Thiago escreveu acima. É isso aí)
      beijos, beijos, beijos, Ju Ponti

  12. Edu, estou aqui, aos prantos, chorando dolorosamente de emoção e comoção… O exagero do meu choro talvez seja justificado pela sensibilidade de toda grávida, mas com certeza, por também conter nestas minhas lágrimas, um misto de esperança na humanidade… Você desenha tão puramente a imagem da sua bela. Que sim, será pra sempre sua e você dela. Obrigada.

  13. Eduardo, uma perda assim as vezes necessita de uma ajuda específica que os queridos amigos e familiares não conseguem dar. Você sabe que sou de origem simples e encarava a depressão daquele jeito que o povo fala né… “Depressão se cura com tanque de roupas” “Isso é coisa de rico de gente fresca”… Até o dia em que bati de frente com ela por motivos diversos. Descobri na carne que alguns sintomas dos quais eu passava, extrapolavam o limite da tristeza e da emoção. Em um primeiro momento tratei com remédios e depois a corrida de rua me ajudou muito, hoje já consigo ficar apenas triste como uma pessoa normal. O dificil é identificar a linha tênue entre a tristeza e depressão. Reflita e comece a reagir. Lembra do que você falava sobre “Os olhos de ver” temos que olhar para todos os lados… Deixe para cultivar a saudade quando você estiver menos frágil, ela sempre existirá, mas só que com menos sofrimento… Um forte abraço, meu querido !

    Segue o que estou orando por você neste momento!

    ORAÇÃO DE SANTO EXPEDITO

    “Meu Santo Expedito das causas justas e urgentes interceda por mim junto ao Nosso Senhor Jesus Cristo, socorra-me nesta hora de aflição e desespero, meu Santo Expedito Vós que sois um Santo guerreiro, Vós que sois o Santo dos aflitos, Vós que sois o Santo dos desesperados, Vós que sois o Santo das causas urgentes, proteja-me. Ajuda-me, Dai-me força, coragem e serenidade. Meu Santo Expedito! Ajuda-me a superar estas horas difíceis, proteja de todos que possam me prejudicar, proteja minha família, atenda ao meu pedido com urgência. Devolva-me a paz e a tranqüilidade. Meu Santo Expedito! Serei grato pelo resto de minha vida e levarei seu nome a todos que têm fé.”

  14. Lilian

    Chorei com um amor tão lindo como esse

  15. Eu

    Belas e tristes palavras.
    Ela teve sorte e, ter você, assim como te-la te fez tão bem.
    Amor é sempre amor, só se mais dolorido as vezes.
    Jamais saberei lidar com a morte, nem tenho sentimentos para tentar sentir o que vc sente pq algumas coisas só quem vive sabe, mas espero que essa saudade nunca passe. nunca diminua, nuca mude… mas que a ausência pare de doer em breve.

  16. Sergio

    Edu, fiquei preocupado com vc ontem. Espero q estejas melhor. Mande noticias se puder e quiser. Um forte abraço

    • Sua preocupação contrasta com o não-atender das três ligações que fiz pra você, do Rio-Brasília, na frente da Flavinha, justamente para tranqüilizar você, que me pareceu de fato assustado. Estou bem, velho, seguindo. Ontem, e não há explicação pra essas coisas, doeu mais do que tem me doído. Obrigado, um abraço.

  17. Rodrigo Cortez

    Edu
    na próxima terça (13), Gonzaga, se vivo fosse, completaria 99 anos Dentre tantas pérolas que o velho compôse cantou, uma me deixa “assaz”, como você gosta de dizer, emocionado. Uma canção intitulada “A carta”. Pungente, dolente como ela só. Se tiveres oportunidade, ouça. A voz do velho parece ecoar pela casa, como um trovão ferido. O verso mais lindo da canção segue abaixo:

    “Partiste mas minh’alma seguirá teus passos.
    Onde estiveres, eu estarei contigo.
    Hás de guardar uma saudade minha,
    Tua lembrança seguirá comigo.”

  18. Regina Marcia DC Marques e Luizão

    Querido Edu, chorei copiosamente pela sua dor, que só Deus sabe como deve ser duro pra voce.Até hoje é para mim, com imensa saudade eu me lembro da nossa querida Dani, ‘ O SORRISO MARACANÔ, ela era isso, um só sorriso que preenchia todo espaço de onde ela estivesse. Sinto por ela, por voce, pela Iris e o Wlader, mas como foi dito acima só o tempo, amigo, muita aceitação e fé para levar a vida pra frente. Ela jamais gostaria de ver voce triste, sinta a alegria, ausente no momento, dela, mas que estará sempre em espirito com voce. Te amo. Regina.

  19. J. Fernandes

    Essa foi forte, muito forte. Falar o que!!! Dp disso, só o silêncio (e sua cumplicidade solitária)

  20. Patrícia Silva

    É essa força chamada saudade… A pessoa mora dentro da gente.

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