Arquivo do mês: novembro 2011

O CARNAVAL POR VIR

Vocês que me lêem têm acompanhado o tanto de expurgo do que me vai na alma que tenho feito por aqui. E vai continuar sendo assim – sabe-se lá até quando. Pensei, dia desses (tenho pensado, e pensado muito), numa espécie de relação que possa existir entre a intensidade do amor vivido e a extensão do luto que se enfrenta por conta do desaparecimento da pessoa amada. Cheguei a diversas conclusões, e uma delas é a de que o luto é intensamente mais bem resolvido quando o amor que se perdeu, por conta da morte, foi intensa e plenamente vivido. E viver esse luto, resolvê-lo sem pressa, me tem sido de certo modo prazeroso por conta desse dividir de lembranças, de histórias, de fotografias, desse expurgo.

O tempo decorrido desde a morte da Sorriso Maracanã – lá se vão mais de 3 meses… – tem me apresentado a uma realidade que, se era evidente para mim (e para mim, e para mim, e só para mim), é também a de muita gente (eu quase disse “de toda gente”, mas temi ser presunçoso, embora seja verdade…). A Dani foi marcante, na mais ampla acepção da palavra, para quem cruzou com ela pelo caminho. Não há um só dia em que eu não ouça gente falando sobre isso: colegas seus de trabalho, amigos, amigas, funcionários da empresa na qual trabalhou por mais de dez anos, funcionários do prédio onde vivemos por tanto tempo, gente que a viu – pode lhes soar como exagero, não é… – uma, duas vezes. Não bastasse seu sorriso, o mais bonito que o mundo já viu (e o mundo foi mais bonito enquanto ele reluziu luminoso por aqui…), Dani tinha uma impressionante capacidade de compreender o outro, de representar a doçura em estado bruto da forma mais sutil possível, de fazer – sem com isso querer soar piegas… – diferença efetiva na vida das pessoas que tiveram a sorte, a profunda sorte, de com ela cruzar os olhos, de com ela conviver, e daí, meus poucos mas fiéis leitores, eu fui o mais afortunado, dividindo vida, cama, alma, sonhos, planos, alegrias e tristezas com ela.

Tem sido especialmente difícil fazer pela primeira vez, sozinho, o que tantas vezes fiz com ela. Foi assim minha primeira ida à praia, minha primeira ida à quadra do Salgueiro, minha primeira ida a tantos lugares… E vai ser assim – eu sei – no Natal, no réveillon… e acho que, principalmente, durante o Carnaval 2012. E explico.

O Carnaval era, pra nós, e desde o nosso primeiro Carnaval juntos, em 2000, a maior festa do mundo (mesmo!). Enquanto estivemos juntos, como se não bastassem os quatro dias de folia, o Carnaval começava muito antes… Íamos aos ensaios das escolas de samba, eu dei de me meter a disputar samba de bloco (ganhei, em 2000, no Nem Muda Nem Sai de Cima, durante seis anos seguidos no Barbas e ainda compus, sempre com parceiros, o samba do Azeitona Sem Caroço), e ainda criei, em 2001, ao lado de diversos amigos, o meu próprio bloco, o Segura Pra Não Cair. A Dani, minha menina, sempre a meu lado: quando havia a disputa dos sambas arregimentava os amigos, os colegas de trabalho, pra engrossar a torcida pelo samba; escolhia, comigo, nossas fantasias, quase sempre uma tendo muito a ver com a outra (lembro do ano em que saímos, eu de Fernando Szegeri e ela de Rosa, filhota dele e da Stefânia, nascida dias antes do Carnaval, o que os impediu de brincarem no Bola…). Mas nada se comparava ao Cordão da Bola Preta, ao sábado de Carnaval.

A sexta-feira que antecedia o grande dia era, lá em casa, praticamente um 31 de dezembro: comprávamos champagne, montávamos uma mesa bonita e à meia-noite brindávamos, juntos, o começo de mais um Carnaval (e foram 12 carnavais juntos!). Acordávamos no sábado bem cedo e colocávamos pra tocar – foram 12 anos assim! – o CD da Elizeth Cardoso com a Banda do Cordão da Bola Preta. Aos primeiros acordes do clássico “Quem não chora não mama! Segura, meu bem, a chupeta! Lugar quente é na cama ou então no Bola Preta!” o sangue fervia e partíamos, de ônibus (raramente de metrô), pra Cinelândia.

O vídeo abaixo, curto, 40 segundos apenas, é do Carnaval de 2007. Eu, Dani, Betinha e Fefê estamos na caçamba do carro dirigido pelo Flavinho, que nos resgatara ao final do desfile do Bola Preta a fim de que pudéssemos encarar a Festa das Burrinhas, promovida há muitos anos pelo Mello Menezes. E a Dani, cigarro numa mão, lata de cerveja na outra, pede, à certa altura:

– Canta, pituco! – e dá-lhe o Bola Preta!

O desfile do Bola Preta, em 2012, vai ser um grande teste pro meu combalido coração. No Carnaval deste ano, 2011, Dani já não estava bem, não tinha condições de ir ao Bola Preta comigo. Na quarta-feira que antecedeu o sábado de Carnaval, cheguei em casa do trabalho e ela me disse, sentada na cama, no nosso quarto:

– Eu não consigo ir ao Bola, esse ano. Vou amanhã cedo pra Cabo Frio com meu pai e com minha mãe. Mas você tem de ir, tá? É importante pra nós, é importante pra você. Desfila, bebe, dorme… no domingo de manhã você vai pra me encontrar… – e mostrou-me, toda contente, as três fantasias que havia separado pra mim.

Conversamos pacas, eu lutei contra a idéia de não ir com ela pra Cabo Frio, acabou que ela foi mesmo na manhã de quinta-feira e eu fiquei. Fiquei, meus poucos mas fiéis leitores, e minha sexta-feira foi triste – a anti-sexta-feira de todos os anos. E às cinco da manhã, de pé, diante das três fantasias, não tive a menor vontade de ir ao Bola Preta – o que sempre me pareceu inimaginável! – e parti, às pressas e aos prantos, pra Cabo Frio, ao encontro dela. Nada no mundo apagará de mim a luz de seu sorriso quando eu cheguei lá. Eram quase onze da manhã, a flagrei diante da TV:

– E eu aqui tentando te ver no Bola Preta! – deu-me o mais terno abraço do mundo, choramos feito duas crianças.

Deixei de ir ao Bola Preta sozinho para estar com ela.

2012 terá esse desafio: não tenho a opção de não ir para estar com ela.

Mas como “o Bola Preta sabe eternizar”, como reza a letra de Aldir Blanc para o Bola Preta do Jacob do Bandolim – que canto no vídeo abaixo ao lado de Tiago Prata (7 cordas), Gabriel Cavalcante (cavaquinho) e Leal (tamborim) – hei de viver a subversão absoluta que o Carnaval representa no sábado do Bola Preta, em fevereiro do ano que vem. E desfilar ao lado dela.

Até.

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AMANHÃ É DIA DE SIMAS

Como amanhã, 02 de novembro, é feriado – dia de pouca audiência nestas plagas, dia de flanar pela cidade – aproveito para fazer, hoje, minha humílima homenagem a esse grande brasileiro que é Luiz Antonio Simas – e peço licença para brevíssima digressão – que aniversaria amanhã.

Sempre me é comovente verificar, com meus próprios olhos, que meu primeiro contato com Luiz Antonio Simas deu-se no dia 18 de agosto de 2006, quando ele deixou o seguinte comentário neste texto aqui:

“Eduardo, sou um leitor assíduo do blog, morador do Maracanã, amigo do peito do grande Rodrigo Ferrari (da inestimável livraria Folha Seca) e admirador das suas campanhas cívicas – sim, cívicas – contra as sem-vergonhices do Jota e dos Leblons da vida. Mas sempre estive em silêncio obsequioso. Hoje, porém, vou me manifestar: sensacional! Como eleitor e admirador do velho, aplaudo de pé a cena! Quanto ao Roberto Talma…nunca me enganou! Francamente… abraço.”

Dias depois, o citado Rodrigo Ferrari, justamente na Folha Seca, tratou de nos apresentar pessoalmente. E ali, naquela tarde, eu o reconheci (já o conhecia, vá entender os mistérios da vida, como lhes contei aqui).

De lá pra cá, já lá se vão mais de cinco anos. Somos – digo sem medo do erro – amigos na mais ampla acepção da palavra, e eu tenho um tremendo orgulho de dizer isso. Professor de História (e eu tenho declarada inveja de seus alunos, ainda que eu me considere, a cada conversa, um aprendiz diante do mestre), conhecedor profundo dos mistérios do invisível, apaixonado – como eu – pelo Brasil e por sua gente, o Simas ocupa, por incontáveis razões, especial lugar na minha vida.

Seja porque somos vizinhos e fanáticos por nossa aldeia, o que nos propicia infinitas conversas pessoalmente, quase sempre diante de um balcão qualquer de qualquer uma das espeluncas que nos comovem, seja porque jamais me negou o apoio na condição de sacerdote que é, e que com uma seriedade rara de se ver ele exerce, seja porque foi em sua casa que tantas e tantas vezes ele me acolheu, na reta final da vida de minha menina (ele que mora na mesma rua do fatídico hospital…), sempre disposto a me secar as lágrimas (e muitas vezes dividi-las comigo) e me molhar o bico com o Red Label que guardava só pra mim… – “Edu, seu remedinho…” – a fim de que eu ajustasse meu pH antes de enfrentar a dureza daquelas visitas…

Luiz Antonio Simas, companheiro da Candinha e pai há pouco menos de um ano do Benjamin, é – em apertada síntese – um presente que ganhei na vida. Lembro – impossível não lembrar – do quanto minha menina vibrou com o nascimento do moleque, que deu-se justo num dia em que estiveram, os dois, almoçando em nossa casa (como lhes contei aqui, no texto Tocologia na Tijuca) – pra profunda alegria da Dani, que sempre que pôde esteve perto do pequeno Benjamin.

Dia desses o Simas pregou-me uma peça, me enviando por e-mail uma porção de fotografias da Sorriso Maracanã em sua casa, onde passou algumas tardes curtindo o primogênito: com ele no colo, trocando suas fraldas, dando banho etc

Hoje, comovidíssimo (eu sempre me comovo no dia do aniversário dos meus), devolvo ao Simas a gentileza, com a fotografia que segue abaixo. É tudo o que desejo a ele pela passagem de mais um dois de novembro: uma vida tão bonita, tão luminosa, tão generosa e tão espetacular quanto o sorriso que se insinua pelos caminhos que sigo, tão escancarado ao lado dele (Dani amava o careca!) naquele primeiro de janeiro de 2008. Ergo o copo cheio de espessa espuma pedindo a nosso pai Ogum – meu e dele! – muita saúde, muita paz e muito amor. Axé, meu irmão. Obrigado por tudo.

Até.

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