NOS BRAÇOS DE ISABEL

Esse exercício que venho fazendo, há algumas semanas, de ver e rever fotografias em busca permanente da imagem da minha menina, tem me sido fonte permanente de intensas emoções. Ver e rever o quanto vivemos, o quanto fizemos, o tanto que fomos felizes, tem me feito um tremendo bem – como um tremendo bem me fez reunir-me com os mais queridos no sábado passado para comemorar os 40 anos da Dani, como lhes contei aqui.

Houve um momento, entretanto, no sábado, que a saudade foi mais aguda, que a dor – ainda que caracterizada por uma leve e rápida pontada no meu combalido coração – se fez presente por alguns momentos. E, sim, vou dividir o momento com vocês, e quero fazer, antes, brevíssima digressão.

Cheguei a lhes dizer, recentemente, que eu sumiria, por um tempo, daqui do blog. Cheguei a lhes dizer que eu seria mais econômico na exposição de minhas emoções, que eu seria mais recluso, menos vitrine de mim mesmo. Ocorre, meus poucos mas fiéis leitores, que eu sou um homem pela metade sem o exercício da escrita. E como o exercício da escrita, para mim, tem conotações de expurgo, de confissão, verdadeiro sacerdócio que não me permito não viver, eis-me de volta – e por inteiro. Voltemos.

Foi quando a Betinha contou-me, de olhos levemente marejados, episódio vivido com a Dani dois dias antes de seu desaparecimento. E faço nova pausa.

Muitas pessoas, o que é absolutamente compreensível, me perguntaram (de formas diferentes) a mesma coisa:

– A Dani sabia que a morte estava próxima?

A mim – eis mais uma confissão – sempre pareceu que sim. Mas Dani era (é) a própria vida. A certeza que ela tinha da proximidade da morte residia nas conversas em que isso surgia sempre de forma velada, sem que o nome – morte – fosse explicitamente falado.

E vocês entenderão, mais que nunca, porque é que a Isabel, filha mais nova dos meus queridos Betinha e Flavinho, é uma criança que me comove de maneira muito aguda. Tanto que eu não consigo, simplesmente não consigo, ter a pequena nos braços sem cantar pra ela: “Nos braços de Isabel eu sou mais homem, nos braços de Isabel eu sou um Deus…”. Entretanto, ela – a pequena Isabel (na fotografia, abaixo, no colo da Dani) – é que foi deusa sem saber, divindade mágica que coloriu o fim do caminho da minha garota.

Era 06 de julho de 2011, três dias antes do desaparecimento da Dani (notem que eu, que escrevo sem muito pensar, num derramamento quase-mediúnico), quando eu bati o telefone pra Betinha, da rua, do bar, pra onde fui comprar cigarros. Chorando pacas, eu disse:

– Dani está morrendo, Betinha… Venha vê-la, por favor… Ela não pediria isso jamais a você, nem eu mesmo pediria se não tivesse a certeza de que o fim está próximo, mas bem sei o quanto ela gostará de estar contigo… – e por aí.

Pedi – acho que pedi – que ela levasse a Isabel. Dani amava criança, era (é!) madrinha de muitas crianças, e elas, as crianças, também não resistiam ao sorriso, ao colo, ao dengo, à ternura que a Dani era. Não ter sido mãe (mas foi, sim, de certo modo, mãe sempre que foi madrinha!) foi uma das maiores peças que a vida pregou pra ela…

Pois Betinha e Flavinho – assim são os amigos – estiveram lá em casa na tarde do dia seguinte, 07 de julho. E com a Isabel.

Quando eu cheguei em casa, voltando do trabalho, nesse dia, os três já tinham ido embora, mas encontrei minha menina, já bastante combalida, absolutamente feliz. Contou-me da visita que ela julgava ter sido de surpresa, contou-me da Isabel, contou-me que Isabel ficou em seu colo por muito tempo, que dormiu em seu colo… E ela estava, de fato, muito contente com tudo aquilo.

Eis, então, o que eu só soube no sábado.

Lembramos daquela tarde e a Betinha me disse – e a Isabel estava lá, conosco, no Real Chopp – que não esqueceria, nunca, do que a Dani dissera à pequenina em seu colo. Fiz aquela cara de “o-quê?” e deu-se em mim um arremesso em direção à nossa casa, ao cenário, e pude ouvir a voz mais doce da mulher que me ensinou a sorrir conversando com a Isabel.

Dani, sentada na cama e com Isabel, com meses de vida, em seu colo, voltada pra ela, disse, olhos nos olhos:

– Isabel… você não vai lembrar da tia Dani, sabe? Mas você vai sempre lembrar, meu amor, da energia da tia Dani, das vibrações da tia Dani…

E eu preciso – por razões óbvias – parar por aqui.

Até.

10 Comentários

Arquivado em confissões

10 Respostas para “NOS BRAÇOS DE ISABEL

  1. Nadja Maria da Silva Grosso

    Que lindo, a vida da DANI parece um conto de Fadas, sorriso maravilhoso a passagem dela foi feita com muito amor. Por esta razão afirmo ela esta em PAZ e entre nós. Beijos no coração.

  2. não pare este exercício ,suas confissões nos permiti te conhecer um pouco mais, você tem mais de dez tagged sobre sua menina que virou estrela, assim dizia vovó quando alguém partia, transforme em livro e sugiro o título do seu post ‘E agora,meu Amor ?!?. abr.

  3. Vavo Krieck

    É incrível a abrangência que uma pessoa pode ter, e a Dani teve… de seus conhecidos, não há quem não abra um sorriso e sinta um calorzinho no peito quando mencionamos seu nome… ou ainda, que de uma maneira ou outra não teve sua vida tocada ou influenciada por ela. Assim era a Dani! Com suas perguntas afiadas e inesperadas, ou ainda quando vinha bomba, aporesentada com um “Meu amor…” Rs
    Ah, essa menina faz falta! Se faz!
    Beijo no coração!

    • Renata Potengi

      Assino embaixo, Vavo! Você disse tudo! Quem não foi tocado por ela? Quem não ouviu “meu amor…”?

      Edu, essas memórias são maravilhosas! Obrigada por compartilhar!

  4. Lucia

    Não te conheço, mas amo ler suas confissões,mexendo na internet, descobri por acaso seu blog, você parece ser uma pessoa muito boa, de um carisma e energia sem fim. Que Deus te abençoe sempre e derrame muitas bençãos sobre você.

  5. Perla

    Que bonito, Edu! Fiquei feliz com sua volta, e que bom que voltaste por inteiro.

  6. Paula

    Somos tantos, juntos com a Isabel, que lembraremos da energia, das vibraçoes e do amor que a Dani exalava com seu sorriso…nao tem como ser de outro jeito! E com toda certeza ela continua sorrindo ao seu lado, Edu. Um beijo carinhoso, Fo’

  7. Pingback: E QUE VENHA 2012 | BUTECO DO EDU

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