DIÁRIO DO LUTO

Li, em apenas dois dias, Diário do Luto, de Roland Barthes. O livro, recentemente lançado no Brasil pela Martins Fontes, e que reúne as mais de trezentas fichas manuscritas pelo próprio autor, durante mais de um ano a contar do dia da morte de sua mãe, foi, nas minhas mãos, uma espécie de espelho no qual me vi, em vários momentos, refletido. Barthes e a perda de própria mãe. Eu e o desaparecimento da Sorriso Maracanã. Uma aguda similitude entre nossas dores, as dores do mundo, as dores de quem perde alguém a quem se ama. Percebe-se, durante a leitura, que aquele escrever constante é uma tentativa de sobreviver – foi como li.

Falei sobreviver e lembrei-me do verso de Aldir Blanc para canção de Moacyr Luz, feita em homenagem a Maurício Tapajós: “Redimensionar a palavra saudade: é nela que tudo que amei sobrevive”.

Ontem, 09 de outubro, foi comemorado o Círio de Nazaré, a maior festa religiosa do Brasil, exemplo de fé que Belém do Pará dá ao mundo (sobre a festa, leiam texto de Luiz Antonio Simas, aqui). Tenho a sorte de morar no Rio de Janeiro, na Tijuca, na rua Haddock Lobo, que sedia a festa do Círio no Rio de Janeiro, quando nos tornamos, orgulhosamente, a embaixada informal de Belém (vejam aqui as fotografias que fiz ontem).

Eu nunca perdi a festa do Círio na Tijuca, nunca. E é preciso que eu lhes diga, para que meu discurso, hoje, ganhe contornos de coerência, que sempre baixei ali, no segundo domingo de outubro, em busca da festa propriamente dita: de comida, de bebida, de música. De uns anos pra cá, mais precisamente de 2008 pra cá, quando foi feito o diagnóstico do câncer que vitimou minha menina, a festa ganhou outras cores, outra cara, outra importância. Eu, que em matéria de religião sou brasileiro da sola dos pés ao mais alto fio de cabelo, passei a ir ao Círio para pedir a benção à Senhora de Nazaré (sou, nas procissões católicas, católico, apostólico, romano e o mais fiel dos fiéis). Mais do que ir pedir qualquer coisa (creiam, eu agradeço mais do que peço) à santa, eu ia participar do ritual, buscar me fortalecer, eu ia pra me emocionar mesmo. E a festa passou a ser, pra mim, ainda mais bonita, ainda mais importante, ainda mais imprescindível no meu calendário.

Ontem, pela primeira vez fui ao Círio sem ela. E sem ela é infinitamente mais profundo do que sua ausência na festa sugere. Comovi-me tremendamente, eu que cheguei bem cedo, junto com a multidão de fiéis no átrio da igreja dos Capuchinhos. Cantei junto com o povo. Chorei junto com o povo. E depois comi, e depois bebi, e depois festejei o fato de ter tido o privilégio de ser seu companheiro por quase doze anos. E tudo ganhou contornos ainda mais bonitos, e ainda mais emocionantes…

Dani fará (como disse meu mano Szegeri, sábado, ao abrir a roda dos Inimigos do Batente no Ó do Borogodó) 40 anos no sábado, dia 15 de outubro. Dedicarei, então, todos os textos dessa semana a ela, a dona do sorriso mais bonito que o mundo já viu. Ela, que permanece em mim como um “clarão de lua que se insinua pelos caminhos onde vou”, há de gostar da homenagem.

Até.

15 Comentários

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15 Respostas para “DIÁRIO DO LUTO

  1. Boa, a Dani merece, velhão. Como te disse um dia, ela é o único Maracanã ainda vivo que conheço. Esse sorriso nunca morrerá.

  2. Samia Helena

    O sorriso dela lembra o da Cássia Eller..tou certa??

  3. Joana Jardim

    Ah, que saudade dessa menina linda, sempre de braços abertos para dar aquele abraço do fundo do coração e com uma leveza de astral envolvente. Sempre me emocionava a união desse casal admirável. Muita força e alegrias sempre, Edu! Com certeza ela está lá em cima sorrindo para nós, meu querido! Um beijo saudoso, Joana (filha do Johnson, irmã do Rodrigo e Luciano. Será que lembra de mim?).

  4. Bruno de Aquino Parreira Xavier

    Caro Edu, impressão minha ou vc não gosta da Cásia Eller ?
    PS: Mais um belo texto. Que bom que vc não fechou o buteco.

  5. Mayenne Tannús

    Estarei no Real Chopp com Mayenne e Antônio e com certeza faremos um brinde muito especial.
    Abraços
    Ps: vamos colocar o feijão de molho quando ????

  6. Rodrigo Medina

    Lindo texto, Edu!
    Mas uma vez tu consegue emocionar-me. Já encomendei este livro, em breve lerei. Mas uma vez obrigado pela escrita, Dani, aonde quer que esteja, teu sorriso ilumina o mundo.Obrigado!!!!

  7. Bia

    Oi querido, estamos com um nó na garganta.
    Também sentimos saudades.
    Muitos beijos
    Bia e Luana

  8. Uma grande amiga minha vai se mudar pra Belém este ano. Em 2012, anote em sua agenda: o Círio de Nazaré será em Belém do Pará. Edu e seu Buteco estão oficialmente convidados pra festança e comilança, porque na casa da Luciana Pordeus come-se muito bem!

  9. Marly Miranda Bacha

    Oi Edu, você está sempre nos emocionando, quando fala da minha querida sobrinha Dani. abraços Marly

  10. Poxa Edu, que bonito !!! É que o sorriso dela é único né?
    Quando soube a primeira vez que a sua Dani estava doente , eu lutava contra um câncer muito agressivo da irmã do meu marido a Sandra (minha irmã), como acompanhava através do blog a belezura do amor de vocês e já havia perdido a irmã mais velha da Sandra apenas com trinta e quatro anos e dois filhos pequenos, estava extremamente sensível, até por que o acompanhamento do doente em hospitais de câncer é doloroso. Quando tive noticia do câncer da Dani, foi como se recebesse um soco no estômago e inclui a Dani , junto com a Sandra e Luiza (a irmã caçula que agora está na luta , com a retirada total dos seios) em minhas orações diárias, fiz uma missa em homenagem as quatro na Igreja de Santa Rita , ali da Marechal Floriano e orei muito por elas, em todas as minhas missas, em todos os meus terços, no caminho da Van e outros….
    Aí perdi a Sandra e de certa forma, mesmo não conhecendo a Dani para o câncer, tudo bem voltei lá na igreja de Santa Rita e orei por elas duas da mesma forma, agora luto pela Luíza !!!!!! Entendo e muito a sua dor !!!!!

    Forte abraço e muita força !!!!

  11. Beltrão

    Edu, tb estou com saúdades da Dani … amizade maravilhosa.
    Bjjs

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