UM DESAGRADÁVEL

Sou, quem me lê sabe, um discreto. Sou incapaz de expôr alguém, ou mesmo alguma situação, se sei que da tal exposição advirá o ridículo, o escárnio, o descrédito. Do contrário, aí sim, sou o anti-discreto (ou era, vejamos se consigo cumprir as determinações que eu mesmo me impus): se é para o bem coletivo, se é para propagar coisas boas e outros bichos, sou mesmo capaz de construir outdoors imaginários para fazer correr mundo, seja lá o que for. Um misto de vaidade e inconsequência, mas isso deixa para lá. Quero tratar hoje de minha capacidade de ser discreto.

Desfruto do convívio com uma determinada figura – não declararei seu nome nem a fórceps – que é, quase sempre, extrema e intensamente desagradável (não, não, vou tentar ser mais claro). O sujeito a que me refiro é um doce de pessoa, de uma fidelidade semelhante a dos vira-latas com seus donos. É, entretanto, quando vê passar um rabo-de-saia, um desagradável (agora sim).

Dir-se-ia, se fosse uma moça, que sofria de furor uterino, de crises constantes de umidade, esses troços. Como é um homem, não sei – confesso – que nome dar ao fenômeno, muito embora eu ponha seu comportamento na pura e simples conta da mais absoluta falta de educação. Vamos a alguns exemplos.

Roda de cinco, seis, diante do balcão de um determinado bar. Passa, na calçada, esbaforida, uma senhora. E essa senhora, apesar de gorda, gordíssima, usa um decote avançado. Eis o cavalo:

– Peitanca, hein, madame?!

De nada adiantam os pitos coletivos. Ele gane, urra ainda mais histérico, diante da senhora que passou e fingiu não ter ouvido o que ele considera um galanteio. E insiste, mais alto:

– Delícia, esses teus mocotós suspensos, viu?

O troço é sempre nesse nível (e daí para pior).

Vamos ao que quero finalmente lhes contar (por conta desse fato, recente, é que estou diante do monitor redigindo as pérolas desse sujeito).

Recebi, dia desses, um convite ligeiramente formal, para jantar na casa de uns amigos. Segundo o anfitrião, ao telefone, seríamos dez à mesa, não mais que isso. Foi quando ele fez a pergunta:

– Você não quer trazer o… ? – e quando ouvi o nome do protagonista de hoje, gelei. Disse que falaria com ele.

Falei, de fato. E ele, um faminto (é outra de suas características), topou no ato.

Na noite do jantar, passei de carro para buscá-lo. Fui, durante o trajeto, fazendo os mais paternais apelos: que se comportasse, que evitasse tecer comentários sobre os peitos, as bundas, as coxas das convidadas. Ele, honradíssimo com a lembrança de seu nome para o rega-bofe, fazia aquela patética jura com os indicadores cruzados sobre a boca. Prometia um comportamento diáfano, discrição absoluta. Até que chegamos.

Preciso fazer a confissão: durante toda a noite – durante o serviço dos tira-gostos, das bebidas – ele foi exemplar. Sabe-se lá a que custo, mas foi. Havia três mulheres entre os convidados que, não fossem meus apelos, já teriam sido alvos de seus cortejos nada ortodoxos. Até que veio o jantar. Fomos chamados à mesa. Sentamo-nos e veio à mesa o prato principal: língua. Até aí, vão tomando nota, nada demais.

Uma das moças – a mais linda, diga-se – fez boquinha de nojo e recusou:

– Não como língua…

O anfitrião, muito sem graça, pediu desculpas etc.

Ele, o desagradável, foi mais rápido que eu:

– Com licença… você como ovo?

– Ovo? Como, adoro! Por que?

Tentei fuzilá-lo com os olhos (não iria sair boa coisa…) mas ele cravava seus olhos nos olhos daquela beldade. Mastigando, ele disse:

– Engraçado… língua, que vem da boca, tu não come, tem nojo, vi tua cara de nojo. Ovo, que sai do cu, tu adora. Vai entender…

Até.

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11 Comentários

Arquivado em confissões, gente

11 Respostas para “UM DESAGRADÁVEL

  1. zé sergio

    Desconfio quem seja hehehe. É um cara antigão que, se fosse o técnico em 1958, escalaria como goleiro um negão batizado como José Valentim da Silva?

  2. Jussara

    É, mas a moça também foi mal educada.

  3. Chutou o pau da barraca e ainda fez banca.

  4. “furor uterino, de crises constantes de umidade” rsrsrsrs.
    Sei não… mas essa fixação por comentários com ovos eu já li em alguns blogs…
    Certa vez em um lançamento de um livro de samba uma moça comentou sobre o evento… – Como está cheio não é???? Um senhor que gosta de ovo cozido respondeu: – Tá um calor do caralho , isso sim !!!!!!

  5. Fernando Souza Jr.

    Edu, boa noite. Meu nome é Fernando, você não me conhece, sou de São Paulo e advogado como você. Sou leitor do blog há mais ou menos um ano e meio e seu seguidor no twitter. Nem sei como cheguei no boteco, mas agradeço toda vez que me deparo com um texto como esse. Sou grande admirador de suas crônicas faz vida, sobretudo aquelas com a Tijuca de cenário. Abraço.

  6. Bruno de Aquino Parreira Xavier

    Putz……Como diria um amiga minha….”o cara é um sem noção”.
    Agora mocotós suspensos é boa…KKKKKK
    Valeu EDU….Legal que vc não sumiu

  7. Antonio Carlos

    muito bom EDU……sem noção e da Tijuca rs abrs Acarlos

  8. Rodrigo

    MAGISTRAL! Edu, você é insuperável…

  9. Nem precisa dizer o nome do santo.

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