Arquivo do mês: setembro 2011

SETEMBRO DE 69, ARREMESSO AO PASSADO

Ontem fui jantar no Alto da Boa Vista, na casa de meus pais, e eis que mamãe, à certa altura, deu início a uma de suas atividades preferidas: sacou alguns álbuns de dentro dos armários e deu de me exibir fotografias antigas, sendo que a graça, ontem, foi ainda maior. As fotos eram, ao menos para mim, inéditas. Daí começou o desfile de nomes, o desfile de mortos e de mortas, o desfile dos egunguns, o desfile da ancestralidade, até que estacamos diante desta foto (abaixo), de setembro de 1969.

Tinha eu, apenas, cinco meses de idade. A janela ao fundo denuncia: estávamos, eu e mamãe – é dela o polegar à direita… – na vila onde moravam meus avós e minha bisavó, na Tijuca, evidentemente. E quando eu me deparo com uma dessas fotos, quem me lê sabe, dá-se a mágica em mim: um abrupto guincho, um súbito tranco e sou arremessado ao passado de forma intensa e febril.

Mas não é exatamente sobre o tal arremesso que quero lhes falar hoje. O assunto é outro, e foi provocado por uma mulher com quem tenho me encontrado domingo após domingo, em busca de aconchego. Explico.

Publiquei a tal foto numa dessas redes sociais. E a Katia, é a ela que me refiro, soltou a frase:

– Você já tinha esse olhar… Choquei.

Pronto. Bastou ler isso e teve início em mim o desenho de uma vertigem: batimentos inconsistentes, suadouro, um ligeiro traço de febre, e uma dúvida que mantém-se enterrada em mim até o momento.

Aos cinco meses de idade eu já tinha o olhar do homem de 42 anos ou aos 42 anos ainda sou o moleque inseguro, no colo da mãe, com olhos de um menino começando a conhecer o mundo?

Faço a blague mas sei a resposta: sou, aos 42 anos de idade, e constatar isso – e vejam que constato isso com incrível freqüência – sempre me comove e me revolta, me aborrece e me apascenta, me emociona e me conforma, me deprime e me encoraja, me faz compreender demais a vida como ela é. Serei sempre o sujeito-menino capaz de oferecer um sanduíche de queijo e presunto à mulher amada como quem oferece a mais valiosa das jóias. Serei sempre o garoto, tímido, tentando balbuciar o inexprimível, serei sempre o covarde-romântico incapaz de falar de mim sem a primeira dose, serei sempre esse alucinado em busca de subverter o tempo e pronto para chocar a assistência – como a Katia – ao constatar que sou assim, moleque aos 42 anos, velho desde que nasci.

Até.

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AS MULHERES SÃO TUDO, EU NÃO SOU NADA

“As mulheres são tudo, eu não sou nada. De madrugada, fico acordado pensando nelas, depois durmo pra sonhar com elas e acordo louco pra revê-las – vivo assim das primeiras andorinhas às últimas estrelas.”

Estes versos são de Aldir Blanc, a quem tantas vezes já me referi, aqui, como meu orixá vivo. Aniversariante de ontem, 02 de setembro, quando completou 65 anos, Aldir é meu amigo – tenho esse privilégio – há mais de 15 anos, quase há 20 anos. É meu amigo, é um tanto meu pai, um tanto meu irmão, é também meu conselheiro (e o fato de ser “meu conselheiro” causa arrepios no meu pai legítimo, o velho Isaac, que tem Aldir na conta dos malucos, a mesma qualificação que recebo de papai, quase sempre). Além disso, Aldir fala por mim – como fala pelo Brasil, ele que tanto entende a alma do brasileiro, do suburbano, do zona-norte. Fala por mim quando diz o que diz nos versos que abrem este texto, fala por mim quando diz “(…) falando de muita mulher, que sem elas a gente não vive (…)”, verso do samba Saindo à francesa, que compôs com Luiz Carlos da Vila e Moacyr Luz. Fala por mim quando diz “(…) depois café, cigarro e o beijo de uma mulata chamada Leonor ou Dagmar (…)”, verso de Rancho da Goiabada, composição dele e de João Bosco. Fala por mim quando escreve “(…) não há shampoo, não há creme que apague ou que desmarque da tua pele o meu beijo fedendo a conhaque(…)”… e por aí vai, que o repertório blanquiano é impressionante! E fiz esse intróito por que? Para lhes dizer meia-dúzia de palavras (sou um incorrigível… rasgo minha alma em público como quem prepara o espetáculo para a assistência). E porque, de fato, do alto de meus 42 anos, afirmo sem medo do erro que as mulheres são tudo e eu não sou nada. Afirmo, sem medo do erro, que de madrugada (como agora) eu fico acordado pensando nelas, depois durmo pra sonhar com elas e acordo louco pra revê-las. Como afirmo, também, que vivo assim das primeiras andorinhas às últimas estrelas. Grande, o Blanc!

De hoje a seis dias, no dia 09 de setembro, completar-se-ão dois meses desde o desaparecimento da Dani (aqui). Eu, que num primeiro momento vivi a sensação do alívio por conta do fim do sofrimento que assisti muito de perto, passei a vivenciar, de uns dias pra cá (mais precisamente do segundo domingo de agosto pra cá, vá saber o porquê desse timing), a brutalidade de sua ausência. Estou vivendo, como dizem os mais chegados, o tal do luto, que – dizem – é imprescindível para que eu prossiga o ciclo da minha vida. Dia desses me disse, uma mais-velha: “Você tem que se enxergar como o boi no matadouro. Sangre até a última gota. Ou isso não passa”. A princípio não gostei da comparação com um boi, pensei imediatamente na minha forma física. Depois, entendi. A saudade de alguém como ela, que viveu 12 anos ao meu lado, é como um baobá plantado no meio da minha sala, é impossível não percebê-lo. E das duas, uma: ou renasço à sombra do baobá ou viverei estacado diante do tronco assombroso que me assusta e me desestabiliza. Tenho desejado, como nunca, o colo de minha mãe. Mas estou velho demais – e ao escrever isso percebo a besteira que é essa sensação… – para pedir seu colo, o mesmo colo no qual me deitei, chorando, para contar a ela, recentemente, novidades que envolviam, é claro, uma mulher. Diante de minha angústia, naquele momento, sugeriu-me o Ifá: se tiveres coragem de deitar no colo de tua mãe, ainda que chorando, e contar a ela, seja o que for, esteja certo de que não há nada de errado. Tenho ligado, com alguma freqüência, para minha irmãzinha Stefânia, que já foi, à certa altura, minha mãe (sou normal?). Ligo em busca de uma absolvição tolíssima, mas lá está ela, sempre, disposta a me ouvir o choro e o pedido – também – de colo. Tenho sentido uma profunda saudade das minhas meninas, minhas afilhadas, presentes que minhas comadres – sem elas a gente não vive! – me entregaram, e fico pensando na Milena, pensando na Iara, pensando na Ana Clara, pensando na Dhaffiny, pensando na Rosa, pensando na Helena – mulheres em flor. Tenho feito confissões à noite pra minha avó Mathilde, que foi pro Orum em dezembro do ano passado, e às vezes ligo pra Guararema pra falar com a ialorixá que é dona de um dos colos mais ternos que jamais conheci. Tenho ouvido a voz da Tarcisa, a empregada de mármore da minha infância, a me chamar pro quarto dos fundos. Tenho recorrido à Glória, outra que me dá colo à distância, à Inês, que mesmo estando em NY não deixa de estar aqui, na Tijuca, sempre que pode, à sua moda. Tenho tido saudades inacreditáveis da comida da Grazi, a mais bonita cozinheira que o mundo já conheceu. Sempre que posso tenho pousado também nos braços da Sônia, diante dos olhos de compreensão da Marcela, irmã que a vida me deu, e vou em busca, quase sempre vã, do sorriso negro da Jô, que ilumina os olhos de quem o vê. E minha outra irmã, a Betinha, que jamais me nega as mãos cheias de carinho, os olhos cheios de perdão… E a Candinha, que depois de se tornar mãe, passou a me olhar com olhos de intensa piedade? Eu choro. E a Isabel, a pequena Isabel, que esteve no colo dela um dia antes de sua morte e que a fez sorrir demais? Mal sabe, a pequenina, o quanto eu a amo também por isso… ela que ainda engatinha… E a Leonor, que esteve comigo em Búzios, na semana passada, e que vale mais que toda a “escolta de malucas que me acompanhava aos bares”? Choro também por todos os sonhos que sonhei, eu que tenho acordado louco para revê-la, das primeiras andorinhas às últimas estrelas, pagando o preço por ser destemido e intenso, corajoso e inconseqüente, intenso e adolescente. E minhas comadres, Railídia, brasileira em estado bruto, a paraense mais luminosa do mundo, Stefânia, Mariana, a Lu, filha de Oyá, a Raquelzinha, a Ana, a Magali, a Renata, mulheres generosas que me deram, de certo modo, suas melhores porções. E aos domingos, há muitos meses, vou ao Aconchego Carioca em busca do aconchego do colo da Katia, e bebo com a Katia, e choro com a Katia, e rio com a Katia, e celebro a graça do encontro naquele pedaço, naquele jardim dessa cidade-mulher. Tenho dividido e repartido a alma com a Áurea, tenho ímpetos de me deitar no colo da Íris, de pedir a massa e o frango dos domingos à dona Rose, vá tentar entender o que se passa em mim!, e anseio por esbarrar com a Bia nos jardins de sua mãe, e tenho querido a Luana pra cuidar das minhas mãos, ela sempre tão doce me chamando de “tio”, e minhas sobrinhas me matam quando me olham com olhos-de-sobrinhas!, e minha cunhada argentina, a Lina, que tem os olhos mais tristes, como os de Florinda Bolkan, ela que tem sempre a palavra certa que só me acalenta depois de me machucar, e a Tetê, e a moça da rua do Lavradio, quando fui um vadio, que o tempo me trouxe de volta, e a Maria Paula, e a Débora, e a Terezinha, que me ofertaram a casa como quem oferta a própria alma, e as mulheres de meus amigos, e as minhas vizinhas, e dona Mari Lúcia que me apresenta como filho, e a Verinha, que canta pra mim, e as flores que ainda compro, mesmo sabendo que elas são incapazes de dobrar a aridez dos corações, e essa estúpida vontade de ser triste pra incorporar e expurgar a tristeza, e essa teimosia quase-infantil de cantar como Orunmilá me mandou cantar, para ser mais feliz, no ritmo do pilão de Babá, e chega – meus poucos, mas fiéis leitores… -, chega porque senão eu morro; de emoção, diga-se.

As mulheres são tudo, eu não sou nada.

Até.

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TIJUCA EM ESTADO BRUTO

(texto publicado em 12 de setembro de 2009 no Caderno Idéias do Jornal do Brasil)

Semana passada deu-se, no prédio em que moro, uma cena de antologia, e explico. Quero fazer uma pequena retificação eis que escrevo como quem respira, sem parar pra pensar muito, o que me faz, neste momento, ter de recomeçar para ser melhor compreendido. Cenas de antologia são como água da bica no edifício em que moro. Todos os dias há várias delas, e eu poderia dizer, sem medo do erro, que os jardins babilônicos do meu prédio e seus banquinhos de praça são uma fonte permanente de inspiração igualmente permanente. A paisagem, pra quem vê de longe, lembra Mont Blanc, na França. Um mar de cabeças brancas suaviza o clima na área de lazer do edifício, e dia desses (semana passada) resolvi fazer o que eu poderia chamar de teste. Sou, vinte e quatro horas por dia, um criador de situações que me ajudam a compreender com mais apuro a alma humana, esse manancial inesgotável de surpresas. Vou lhes contar tudo com a precisão que me acompanha desde o berço.

Há uma coisa na Tijuca que causa mais terror e mais frisson que – o quê?! – ameaça de bomba em prédio público: a fofoca sobre a vida dos vizinhos, a expectativa da notícia quente, a novidade em primeira mão, o furo! E eu, eis a verdade nua e crua, lancei uma espécie de bomba imaginária de efeito moral entre os velhinhos e velhinhas que povoavam a área de lazer do condomínio na manhã de quarta-feira.

Desci às seis da manhã com meu glorioso vira-lata pelo elevador de serviço. Sentados nos bancos dispostos em círculo, cenário de todas as manhãs, os velhinhos, as velhinhas, as bengalas, as cadeiras-de-roda, as tosses, os terços, os livrinhos da Bíblia, as mãos trêmulas, os chinelos de arminho, os roupões (há, em meu edifício, uma velha que faz natação num clube próximo, o Casa da Vila da Feira e Terras de Santa Maria, e que sai de casa de chinelo de arminho, roupão, touca de borracha azul e uma prancha), as redes de cabelo, os leques em profusão.

Recebi o bom dia coletivo de todos os dias, estaquei diante de todas, meu vira-lata sentou-se e eu disse, depois de pigarrear (o pigarro foi o artifício que usei para me aproximar mais da terceira idade):

– As senhoras estão sabendo?

E segui caminho.

Ouvi murmúrios, um burburinho impressionante, fingi que não ouvi os chamados e parti para o passeio. Dobrei à direita, entrei na Almirante Gavião, dei uma volta pela pracinha, segui pela contramão da Doutor Satamini, entrei à direita na rua Caruso, tomei um café servido pelo glorioso Geraldo no Bar do Marreco, comprei um maço de cigarro, recebi o efusivo bom-dia do seu Brasil, freqüentador mais que assíduo do pedaço, e tomei o rumo da volta, pela Haddock Lobo mesmo. Quando surgi diante do portão do edifício vi uma festa de mãos e dedos, leques abertos numa coreografia que denotava um certo desespero (lembrei-me das festas de abertura das Olimpíadas) e chamados que me pareceram uivos de hienas diante de uma carnificina. De sacanagem, fiz que não para o porteiro e segui em frente. Fui até o Estudantil, pedi uma água com gás, escutei as expectativas da assistência sobre o jogo daquela noite, fiz uma fezinha num caça-níquel e voltei depois de uns vinte minutos.

Quando cheguei diante do portão, dei com a mesma cena que me fez lembrar o cais do porto durante a partida de um navio de guerra. Lenços brancos acenando, leques abertos e atônitos, e eu quase tropecei quando entrei no prédio, derrapando nos globos oculares que os velhinhos e velhinhas lançavam em minha direção do fundo do jardim como se fossem as bolas de gude da minha infância. Novamente de propósito parei na cabine do porteiro. Acendi um cigarro, puxei conversa com meu xará e ele disse:

– O que aconteceu, Edu? Elas estão agitadíssimas…

– Nada, ué.

E segui em frente, passos lentíssimos.

Estaquei diante daquela clínica geriátrica portátil. Uma velha asmática arfava como um fole e disse a frase que segurou durante meu passeio graças a um dique fictício que eu construí quando não lhe dei chance de redarguir na hora certa:

– Sabendo do quê?

Sentei-me na pontinha de um dos bancos.

Olhei pro chão (puro teatro).

Esfreguei os olhos com a mão direita (a esquerda segurava a coleira do meu vira-lata).

Funguei (estava com coriza, e só na Tijuca as pessoas ainda têm coriza).

A velha ao meu lado bateu com o leque fechado no meu joelho:

– Desembucha, menino! Sabendo do quê?

Olhei nos olhos de cada uma das velhinhas presentes (só havia velhinhas nesse dia, nenhum homem).

Ainda olhando para o chão, fazendo cara de terror e de choro, eu disse:

– Nenhuma das senhoras sabe? Mesmo?

Senti o ventinho provocado pelos nãos concomitantes.

– Então…

A asmática bateu no peito e disse:

– Conta logo, conta logo! – e batia o pezinho no chão, numa excitação de cinema.

Elas tinham a expectativa do assassinato na véspera, do suicídio, do adultério flagrado, da traição mais rasteira às escâncaras, e levantei-me, devagar.

– As senhoras vão saber… mas não por mim, não me sinto à vontade… É muito grave, é muito grave, e é inevitável que as senhoras saibam.

Eu tinha os olhos saltados (eu ia dizer rútilos, mas seria uma imitação grosseira demais). Segui em direção ao elevador fingindo choque.

Deixei pra trás aflição, agonia, apostas as mais estapafúrdias. Escutei, da porta do elevador:

– Será aquelazinha do sétimo andar? Não me engana, não me engana!

Outra, inconformada:

– Que diacho, esse menino! O que é que tinha que contar pela metade!

– Metade? Não contou nem um por cento! Danado!

Subi. Tomei meu banho. Deixei o interfone tocar sem atendê-lo. Pus o terno, ajeitei a gravata, tomei do lenço, pus perfume, calcei meus sapatos e desci de escadas para pegar o carro, na garagem, sem passar pelas velhotas.

Nunca vou de carro para o trabalho, foi só mais um elemento sórdido do meu teatro íntimo.

Passei a dez por hora por elas, de vidros fechados, ar-condicionado ligado, o rádio altíssimo tocando João Bosco.

Acenei.

Vi rostos desfigurados, agonia espalhada pelo jardim e pelas pedras portuguesas do chão.

Parti sem abrir o vidro, e pelo espelho retrovisor percebi a decepção das senhorinhas.

Tijuca, em estado bruto!

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