GARRAFAS AO MAR

Quando as palavras me faltam, são poucos os que falam por mim. Um deles é Vinícius de Moraes, eis que sou viniciano até a alma: “Amigos meus, está chegando a hora / Em que a tristeza aproveita pra entrar / E todos nós vamos ter que ir embora / Pra vida lá fora continuar / Tem sempre aquele / Que toma mais uma no bar / Tem sempre um outro / Que vai direitinho pro lar / Mas tem também / Uma sala que está vazia / Sem luz, sem amor, sombria / Prontinha pro show voltar / E em novo dia / A gente ver novamente / A sala se encher de gente / Pra gente comemorar”. Eis que venho, então, ao balcão virtual que mantenho aqui, para lhes dizer que é chegada a hora. Há, confesso, certa incoerência no gesto de vir lhes dizer isso, no gesto programado de vir lhes dizer isso – confissão feita durante alta madrugada e programada para ser publicada às seis da manhã de um sábado. Mas eu acredito, e isso talvez seja uma tolice sem tamanho, que devo uma satisfação a tanta gente que vem, todos os dias, ler as besteiras (quase sempre são besteiras…) que escrevo. É chegada a hora, meus poucos mas fiéis leitores. A partir de segunda-feira, dia mundial de fazer promessas e de dar por iniciado todo e qualquer processo de transformação, seja lá do quê for, dia 19 de setembro, e até segunda ordem, mantenho-me afastado daqui. É bem verdade que no dia 27 de setembro, uma terça-feira, dia de saudar Dois-Dois, os erês, Cosme, Damião e Doum, vou aos festejos – que eu não sou besta de deixar passar em branco o 27 de setembro. Mantenho-me afastado daqui e de todas as redes virtuais das quais faço parte e nas quais, faço outra confissão, enredei-me mais do que quis. Mantenho-me afastado daqui e, por ser chegada a hora, afastado, de certa forma, do mundo real no qual, faço outra confissão, me expus mais do que pude suportar.

Por isso, as garrafas ao mar e meu apelo: eu preciso renascer das cinzas, como a azul-e-branco de Vila Isabel. Eu preciso estar longe dos bares, não estar em todos os lugares onde sempre estive, por vezes fazendo o papel do multifacetado, quase com o dom da ubiqüidade. Preciso, por um tempo, não ser mais o anfitrião permanentemente disponível. Preciso não mais ter os braços abertos, vou precisar deles em torno de mim. Preciso de uma rotina franciscana, preciso ser como o funcionário público mais autômato, preciso de silêncios ensurdecedores a fim de que eu me ouça e reconquiste a palavra que sempre me escapou, fácil, da cerca dos dentes – e ela um dia foi minha escrava, hoje é minha senhora e sofro como o mais fustigado dos escravos. Bem sei, também, o quanto atraí milhares de olhos ávidos por minhas tragédias e minhas dores. Se não me faltaram os que me foram indispensáveis e capazes de me aplacar o sofrimento, sobraram, de outro lado, os invejosos, os sórdidos, os soturnos, os infelizes. Pois as trarei – as tragédias e as dores, que hão de cessar – comigo, junto de mim, sem mais protagonizar o tolo exercício de dividi-las. Preciso largar o cigarro (e sou capaz de ouvir daqui as gargalhadas da incredulidade coletiva), preciso não beber, preciso perder peso, preciso fazer baixar a interminável pilha dos livros a ler, escrever mais, cozinhar mais, preciso ir ao cinema, ir à praia, ir à montanha, ir pro mato, viver cada dia como se fosse uma Quarta-Feira de Cinzas – quando estamos sempre no limite do esgotamento após a imolação contínua do Carnaval.

É como estou, enfim:  no limite do esgotamento. E eis que recebi o chamado do invisível e vou atendê-lo. Aos que de fato se preocupam com este que lhes escreve, não se preocupem – de fato. Notem que as palavras de Vinícius, das quais me vali para abrir a confissão de hoje, anunciam a chegada da tristeza e nossa fuga, a minha, por óbvio, pra vida lá fora continuar. Não há tristeza – creiam nisso. Há, e é por isso que me é impossível não atender, dessa vez, o gravíssimo chamado que recebi, um profundo esgotamento, uma intensa fadiga, uma necessidade inadiável de renascer.

Até.

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22 Comentários

Arquivado em confissões

22 Respostas para “GARRAFAS AO MAR

  1. Vera Mello

    Querido Dudu,
    Sentirei falta de seu verbo fácil . Também ando em tempo de silêncio e você é um dos meus alto-falantes. No entanto, mesmo os guerreiros precisam de descanso. Descanse querido, descanse muito. Escrevi certa vez que esses não são momentos de silêncio, são momentos de ouvir nossas pausas. Ouça-as com carinho, cuidado e pelo tempo que for necessário. Você voltará renovado . Viviane Mosé tem um verso lindo que diz assim ” ando com um pote de água embaixo de cada olho, tenho que ir bem devagar, senão derrama”. Vá devagar, querido.
    Beijo carinhoso,
    Verinha Mello

  2. l.a. simas

    Conforme te cuides, assim viverás.

  3. Samia Helena

    Até logo…boa sorte…
    Abraço fraterno……………………………

  4. Cris

    Dizer o que mais se Vera Mello já disse o que eu pensei em dizer? Have a good time rest

  5. Bruno Ribeiro

    Assim seja, mano velho. O silêncio, muitas vezes, diz mais do que as palavras. PS: E lembre-se do ensinamento deixado pelo embaixador das favelas: malandro não para, dá um tempo.

  6. Perla

    Edu, sentirei falta d seus escritos. Muitos vezes chorei aqui calada sentadinha em uma das mesas imaginárias d seu buteco. Torcerei para vc renascer mais forte, que as feridas cicatrizem e que pese em sua vida as boas vibrações dos que te querem bem.
    Abraço
    Perla

  7. Antonio Carlos

    ntonio Carlosi fundo na sua irmão…..espero aqui sua volta abraços

  8. Alex Justo

    “Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso.”

    Clarice Lispector

  9. Maria Helena Ferrari

    Querido Edu, axé pra você. Fique com estas palavras de Drummond:

    Amar o perdido
    deixa confundido
    este coração.

    Nada pode o olvido
    contra o sem sentido
    apelo do Não.

    As coisas tangíveis
    tornam-se insensíveis
    à palma da mão

    Mas as coisas findas
    muito mais que lindas,
    essas ficarão.

  10. mirtes

    Um abraço carinhoso Edu.

    mirtes

  11. Luciana Camargo

    “A vida só pode ser compreendida, olhando-se para trás; mas só pode ser vivida, olhando-se para frente.”
    Soren Kierkergaard

    Edu,
    Que esse tempo que você precisa possa te renovar e a partir daí você consiga fazer um REcomeço cheio de alegrias…
    Vou sentir sua falta, adoro seus textos, mas entendo seu momento…Bjimm!!

  12. Bruno de Aquino Parreira Xavier

    Que seja um até breve…

  13. Renato Grassi

    Continuarei a ler e reler seus escritos já postados sentado na mesa desse buteco!!! Assim creio que possa lhe enviar boas vibrações nesse recomeço.
    Abração

  14. Cristina Floreste

    Até a volta! Bj e fique bem.

  15. Cláudio Menezes

    Faço parte dessa gente que vem aqui todos os dias ler as suas “besteiras”, como você diz – e que discordo radicalmente!
    Vai ser duro não ter mais esse balcão para encostar…
    …menos mal que não foi para dar lugar a um bar de grife…
    Bom recesso e breve regresso!

  16. Carlos Andreazza

    Certamente um – sábio – até breve.

  17. Se é para o seu bem, tudo bem. Mas que o meu twiter ficou meio sem graça, isso ficou.
    Tudo de bom pra você … e até breve!

  18. Dri

    Sempre li seu blog..te conheço sem te conhecer..que coisa estranha! Te desejo tudo de bom.. que vc consiga “reorganizar” sua vida , de maneira tranquila! E parabens por todos seus textos e a maneira tão verdadeira como sempre escreveu…até!!

  19. Alfredo

    Grande abraço, fique na paz e até breve, Camarada.

  20. Tá certo. Plantar de novo o arvoredo…

  21. ACarlos

    como vc está irmão…..que no dia deles,,,vc esteja bem abrs Acarlos

  22. Cristina Floreste

    Venho aqui … todo dia … na esperança de saber de você!!! Bj

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