EMBALA EU

Nunca tive medo do invisível. Deve ser porque eu fui anunciado por um caboclo da mata, Tupinambá, que no dia 26 de abril de 69 apareceu ao lado da cama de meus pais e disse a papai, que acordou:

– Curumim chega amanhã.

Já lhes contei a história. Mamãe, quando soube da tal aparição – troço inédito até aquele momento – disse a ele:

– Fui ao médico no começo da semana! É pra maio, é pra maio!

Papai, que trabalhava como plantonista da Refinaria Duque de Caxias, ainda teimou de não ir trabalhar. Foi convencido a ir. Ao chegar lá, encontrou o chefe, esbaforido, logo na entrada:

– Volta, meu filho! Estourou a bolsa da sua mulher!

Passei a infância dizendo a meus pais que eu brincava com pequenos índios no meu quarto. Eles, já escolados, não me desdiziam. Não me lembro disso, por óbvio, eu era um meninote, mas deve ser por isso que não tenho medo do invisível.

Deve ser também porque, em passado não tão remoto, encontrei-me com um determinado médico, já falecido (chamem vocês do que quiserem, espírito, fantasma…), fazendo de cavalo um amigo vivo, é evidente, que me pediu um favor: ele queria que eu localizasse seu trabalho final do curso de Medicina, no final do século XIX, na Biblioteca Nacional, na Cinelândia. Queria que eu desse seu nome completo às pesquisadoras, a época da conclusão do curso, fizesse uma pesquisa, encomendasse a microfilmagem do trabalho e remetesse o material para um certo museu. Fiz tudo isso. Nada foi encontrado. Voltei ao médico. Expliquei o imbróglio. E ele foi, digamos, mais direto. Pediu-me que anotasse o que ele iria dizer. Tomei nota de diversos indicativos: o tal trabalho estava no porão da Biblioteca Nacional, próximo da pilastra tal, na estante tal, na prateleira tal. Voltei às mocinhas que, foi impossível não perceber, me olharam com ar de piedade e me prometeram tentar localizar o trabalho.

Menos de uma semana depois, recebi um telefonema e fui convocado à Biblioteca. O trabalho havia sido encontrado. Exatamente naquele lugar.

– O senhor se importa de nos dizer como sabia a localização exata deste trabalho? – já microfilmado nas mãos de uma delas.

– Não. Não, se as senhoras não me julgarem louco.

– Como?

– O autor do trabalho me deu essas coordenadas.

Elas me julgaram louco. Mas o quê importa? Deve ser por isso, também, que não tenho medo do invisível.

Tenho medo, entretanto, tenho muito medo – me pergunto quem não tem… – de me machucar. Isso faz de mim, quase sempre, um obediente.

Pois dia desses, diante do invisível de novo, recebi um recado que me foi dado em tom grave: “O que está na sua boca é seu escravo; saiu, é seu senhor.”.

Eu, um obediente – repito – já tratei de rearranjar minhas posturas. Não tenho medo do invisível, é fato concreto. Tenho por ele, sei bem a quem procurar, é um danado de um respeito. E esse respeito, somado ao medo, esse sim, olímpico, de me machucar, me faz ser, hoje, um sujeito disposto a pisar devagar.

“Vira os olhos grandes de cima de mim pras ondas do mar”, é o que tenho pedido quando peço colo, cantando, e peço que me embalem (aqui), todas as manhãs. Peço que me me seja dada a benção, que eu esteja livre dos inimigos, peço proteção, peço que me sejam guiados os passos, quase sempre trôpegos, por onde eu caminhar.

Peço por mim. E por quem eu amo.

Até.

2 Comentários

Arquivado em confissões, Rio de Janeiro

2 Respostas para “EMBALA EU

  1. Flavia

    Seu recado será devidamente entregue ao doutor, amanhã.

  2. Mariana

    O bom dos textos do Edu é que provocam todo tipo de sensações e reações, gargalhadas, choro, saudade, alegria e…MEDO. É por isso que sempre passo nesse buteco.

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