DOIS MESES

Hoje, 09 de setembro de 2011, é impossível não lembrar que há dois meses, na noite de 09 de julho, perto da meia-noite, ela desapareceu – e vocês, meus poucos mas fiéis leitores, me perdoem por fazer disso aqui o meu divã íntimo, particular e privado. Cada um tem a própria receita pra combater a desgraça, e eu – já lhes disso isso centenas de vezes! – escrevo, precipuamente, pra mim mesmo. Sento-me, quase que diariamente, diante do monitor, e saio lanhando minha própria carne, fazendo verter meu próprio sangue, exibindo no varal imaginário minha alma. Faz-me um bem danado essa forma, que para muitos soa como excesso de exibição, de expurgar minhas dores, de exorcizar meus fantasmas, de fazer sarar as feridas.

Naquele momento, em que o atordoamento é inevitável, fui tomado pelo torpor do alívio e agi, e nem acho que equivocadamente, de maneira agudamente racional: mudei, por inteiro, a feição do apartamento em que vivemos por quase 12 anos, dei de me desfazer de todo e qualquer objeto que me remetesse, de pronto, à imagem dela, defumei a casa, guardei seus retratos espalhados pela casa, toquei a vida.

E foi voltando de carro de São Paulo, onde estou agora enquanto escrevo, que deu-se o baque em forma de uma placa, e explico: estava eu na altura de Barra Mansa quando avistei uma placa imensa dando conta de que eu estava a 1km da entrada de Volta Redonda, onde ela nasceu e onde foi enterrada. Vá tentar entender os mecanismos que nos comandam… Ao ler aquilo, parei no acostamento, bem perto do posto da Polícia Rodoviária, e caí num choro que fez com que um policial atravessasse a estrada em minha direção. Eu estava bem, disse a ele – preocupado com meu estado. Mas eu não estava.

De lá pra cá, e me parece evidente que isso tudo há de arrefecer com o passar do tempo, convivo com a mais bruta forma de saudade que jamais conheci. E conviver com essa saudade não é triste – é o que me repito quase a cada segundo. Já lhes disse, também, que o mais bonito sorriso do mundo, o mais impactante, é o dela (e uso o verbo no presente porque ele está aí, no imaginário de cada um dos que conviveram com ela, ou simplesmente dos que viram, ao menos uma vez, a Sorriso Maracanã fazendo jus ao apelido que lhe foi dado por meu mano Fernando Szegeri).

É ele, seu sorriso, que me vem à cabeça a cada minuto de saudade. E se as lágrimas me correm quase sempre quando a ela me remeto, por qualquer razão, e tem sido muitas as razões para tanto, há em mim, também, embora sem um milímetro daquele brilho, um sorriso escancarado no rosto e uma sensação, absurdamente confortadora, de que fui um privilegiado por tê-la a meu lado por tanto tempo. E por não ter deixado de dizer isso a ela um único dia.

A ela, Dani, a Sorriso Maracanã, clarão de lua, minha mais bonita saudade, meu beijo mais terno, meu abraço mais carinhoso. Ela que, tenho certeza absoluta, me lê, me vê e me compreende.

Até.

 

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30 Comentários

Arquivado em confissões, gente

30 Respostas para “DOIS MESES

  1. A única coisa que tenho a dizer é: entendo perfeitamente. :-/

  2. Ricardo

    Torço para que as memórias dela não te tragam mais tristezas e passem a te trazer paz e serenidade, certamente o tempo se encarregará dessa tarefa. abs

  3. Rodrigo

    Edu, não há felicidade que não finde, nem agonia que resista à eternidade…

    Força e abraço, companheiro!

  4. caíque

    um abraço fraterno prá você, Edu.

  5. Carol Santos

    Que Dani, do orún, acompanhada por Ósún e por todos ELES lhe deem a força necessária toda vez que esse desespero lhe tomar.

    Muito, mas muito axé pra você, Edu.

  6. Maria

    Parece incrível que tenham se passado 2 meses!
    Vc está certo.Conhecer e conviver com a Dani foi um presente e tanto!
    Um privilégio que devolvo em gratidão e muito amor!
    Beijo meu filho
    Maria

  7. Alex Justo

    Edu, obrigado por compartilhar suas palavras! Quem conviveu com Dani sabe exatamente a falta que ela faz… e é impossível não lembrar dela quase que diariamente. Beijo

  8. Olga

    Edu, sobre o seu post de hoje, como sua leitora, te digo que não tenho nada a desculpar e sim a agradecer pelos teus escritos tão doídos e tão profundos e tão bonitos, que não raro me fazem chorar. E sempre tenho a impressão que chorando a dor do outro, acabamos chorando por todas as nossas dores também. E isto é saudável. Nos alivia.

    “Cada um tem a própria receita pra combater a desgraça”, verdade. Cada um sabe o que lhe vai lá dentro. Embora julguemos, pois que somos humanos, não nos cabe julgar.

    Edu, tenho o hábito de rezar todos os dias. Tenho rezado pra que você fique bem. Admiro sua coragem e, principalmente, admiro essa sua imensa capacidade de amar. A sua menina foi embora cedo, mas partiu iluminada pela força do seu amor. Está em paz.

    Um forte abraço, vizinho!

  9. Seu Pai

    Du , não tenho hábito de escrever por aqui , mas não posso deixar de faze-lo hoje ; Dani a nora tão querida nos deixou tão cedo , mas certamente , hoje , livre das ” mazelas ” materiais está bem e com toda certeza guardada entre tantos irmãos espirituais , incluidos entre eles por Caboclo Tupinambá !! Êssa totoiê ..êssa ..êssa !! Salve !!!

  10. Adriana Frasson

    Edu,
    O melhor de tudo isso é que tivemos a oportunidade de conhecer a Dani.
    Quando morávamos em Londres e ela resolveu voltar para o Brasil, chorei muito, porque ter a Dani por perto era um presente de Deus, e depois que ela se foi, Londres ficou ainda mais cinza.
    Entendo sua saudade ….
    Não sei se esta dor um dia passa de verdade, mas a fé e a maneira como você encontrou para lidar com ela certamente te ajudará a continuar a sua missão aqui.
    Continue escrevendo, porque eu adoro ler seus posts!

  11. Dulce Oliva

    È triste porém lindo o seu sentimento por ela acredito em coisas perfeitas e sei com toda certeza que a morte não é o fim apenas uma pausa.

  12. Próspero

    Esse sorriso tão largo que aqui chegou a Portugal e ficou no imaginário colectivo. Bem haja a catarse!!! Respeitar, resolver e seguir em frente, mesmo que seja depois de uma parada para chorar. Um abraço Edu.

  13. Cris

    Como disse o Alex, não há como não pensa em Dani a cada dia. Hoje mesmo, no almoço.. sem me tocar da data…

  14. Fica um buraco enorme de saudade. Um vazio impossível de ser preenchido. Beijo Edu, com muito carinho.

  15. Maria Paula

    Faço das palavras do Cris e do Alex as minhas. Um pouquinho de Dani todos os dias… Em pequenos detalhes, em histórias que ela gostaria de ouvir.

  16. Juju

    Babi, Juro que ontem me contive…Tenho acompanhado quase diariamente o que escreve. Confesso que muito mais por ela que por você. Sem querer desmercer o autor ou o conjunto da obra, mas ler o que escreve é a maneira de me manter perto dela. Guardei suas palavras de conforto. Todas elas, inclusive quando me disse há uns quase 12 anos que se eu encontrasse um cara que tivesse por mim 1/10 do amor que sentia por ela, que eu me sentisse muito amada. Então hoje te digo com a inexperiência e o cagaço de uma mãe que está só começando que, se meu filho se tornar um homem íntegro e grande como você, me sentirei abraçada por Deus. Beijo no coração. Juju.

  17. marcos salles

    que coisa linda.

  18. À merda os juizes que se arvoram o direito de ter como “excesso de exibição” o que fazes aqui e que é um direito todo teu! Salve seu Tupinambá, que falou pouco e disse muito. E um beijo e uma reza pra Dani, encantada brasileira que reviverá sempre em cada sorriso alegre que nascer de tua boca. Um abraço, querido.

  19. Luciana Carvalho

    Eduardo,
    Conheci seu blog no dia do falecimento da Dani e deixei um comentário,fui colega dela no Rosário em VR.,desde então sempre estou lendo o que vc escreve.
    Saiba que os que amamos não morrem,apenas partem antes de nós.
    Dani está iluminando todos nós com aquele sorriso lindo,que ela tinha desde criança.
    Seja feliz.é isso que ela quer.
    Luciana.

  20. Antonio Carlos

    grande abraço

  21. Mariana

    É sempre emocionante passar pelo Buteco do Edu. Beijo.

  22. mirtes

    Edu, estou chorando desde o momento que li o se post, mesmo não conhecendo pessoalmente você e a Dani, eu senti muito.
    Querido, um abração
    Mirtes

  23. Alfredo

    Abração!

  24. Samia Helena

    Eduardo…perdi meu marido há quase oito anos….foi doloroso…em rápidos sete meses a doença o venceu…hoje casei-me novamente…sou feliz junto do meu novo companheiro…que amo como nunca fui capaz em toda minha vida…mas não há nenhum dia da minha que vida que eu não lembre ou fale algo do companheiro que se foi…é assim mesmo meu querido..dói..rasga..corta…mas conforta… mantem-nos vivos…
    E você..ah vc tem sofrido com tanta dignidade… de modo tão intenso…que chega a ser pedagógico e educativo te acompanhar nestes tempos…
    Obrigada!!!!!!!!!!!
    Um forte e carinhoso abraço

  25. Renata

    Que bela saudade, quanto carinho e amor! Vc faz bem em compartilhar conosco seus sentimentos. A gente agradece, pois tem a oportunidade de ler belos textos. Um beijo.

  26. Puxa, não te conheço, mas vc me comove tanto, tanto… Ler a sua saudade tem me feito chorar junto com vc.

  27. Pingback: QUEM TEM AMOR AUSENTE JÁ VIVEU A MINHA DOR | BUTECO DO EDU

  28. Juliana Tiraboschi

    Prezado EDU, minha saudade nao se compara a sua, pelas suas palavras me emociono em lembrancas e agradeco ao Divino por ter convivido com Seu Sorriso Maracana. nada se compara aquela Alma PUREZA de ser.
    Beijos.

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