PRA JORGE, EM VOZ ALTA

“Deus me perdoe essa intimidade: Jorge, me guarde no coração que a malvadeza desse mundo é grande em extensão e muita vez tem ar de anjo e garras de dragão…”. Eis-me aqui de novo, Jorge, me valendo da sabedoria de um irmão meu para me dirigir a você, que guarda minha casa. Ogum Onirê!

“O arquétipo de Ogum é o das pessoas violentas, briguentas e impulsivas, incapazes de perdoarem as ofensas de que foram vítimas. Das pessoas que perseguem energicamente seus objetivos e não se desencorajam facilmente. Daquelas que nos momentos difíceis triunfam onde qualquer outro teria abandonado o combate e perdido toda a esperança. Das que possuem humor mutável, passando de furiosos acessos de raiva ao mais tranquilo dos comportamentos. Finalmente, é o arquétipo das pessoas impetuosas e arrogantes, daquelas que se arriscam a melindrar os outros por uma certa falta de discrição quando lhe prestam serviços, mas que, devido à sinceridade e franqueza de suas intenções, tornam-se difíceis de serem odiadas”

Dê-me coragem, Jorge – a mesma coragem que nunca me faltou – e me guarde a fim de que eu triunfe a cada combate, que a vida é feita de permanentes combates e somos obrigados a combater desde os primeiros raios da manhã até o cair silencioso da noite mais profunda. Fica ao meu lado, São Jorge, com suas armas e seu perfil obstinado. Seca cada lágrima que me escorrer dos olhos, com a ponta da tua faca, que seja, a mesma ponta na qual toco minha língua a cada vez que te tomo como testemunha no correr da lida do dia-a-dia. Aprendi, Jorge, com outro filho teu, irmão meu, que foi você aquele que “ensinou aos orixás como moldar na forja os adornos mais bonitos e os utensílios que enfeitam as danças dos deuses entre os homens.”. Tenho precisado cantar, Jorge, mas a voz tem me faltado, a voz tem me falhado no engasgar de cada lágrima, que eu tenho chorado um bocado… “Desprovido de ambições materiais, recusou a coroa e entregou toda a riqueza que acumulara a uma simples vendedora de acaçá que lhe pedira esmola”, é como sempre segui, é como quero seguir, Jorge. “A arte da criação e o exercício da simplicidade generosa”, foi esse mesmo teu filho quem também me disse, “é, para os filhos de Ogum, o descanso na loucura e a única maneira de domar o inimigo que (me) espreita ao final de cada jornada”. Ainda não cansei, Jorge, de me ver refletido nos espelhos d´água e de me reconhecer, ali, como meu próprio algoz. Ou cansei, acho que cansei… Assuma minhas lutas, Jorge. Entrego a ti as minhas armas, e entre apenas nas necessárias batalhas em meu nome, porque é preciso que eu descanse. Guerreei, desde sempre, no lombo do teu cavalo. Ri, como um insano, desviando das balas que vinham na minha direção, confiei sempre, confio ainda, na proteção da tua armadura. Mas é chegada a hora do meu descanso. Minha trajetória de vida me lanhou o corpo de tal forma, Jorge, e olha que eu sempre acreditei que dá-se a cada um o frio conforme o cobertor…, que estou aqui, humílimo, e de público (exibir a carne e a alma em público sempre me foi exercício de fé), a te pedir conforto. Cantei diversas vezes, Jorge, quando a voz ainda não me era tão difícil, pedindo que fossem ouvidas minhas orações, que fossem aliviadas minhas dores e eu nunca deixei de ouvir o socar do pilão que moldava e recriava meu martírio para que me fosse entregue, de volta, e como recompensa, a boniteza que sustenta o homem. Mas estou sem voz. Tenho andado como um tonto pela casa, vivido falando sozinho com a pouca voz que me resta, e nada ouço de volta. Tateio a cama onde onde durmo e tudo o que sinto é a fronha molhada diante da ausência. Eu conto contigo contra os perigos, contra o quebranto de uma paixão. E como eu sempre fui apaixonado, Jorge, como jamais medi as conseqüências das minhas entregas, como sempre recusei os conselhos que me recomendavam cuidado, eis-me aqui a te pedir, diante do inevitável e diante da tua imagem plantada na sala de minha casa: cuida de mim. Não tenho muita esperança, Jorge, de que eu vá agora, a essa altura do campeonato, aprender o que mais de 42 anos não foram capazes de me fazer compreender. Nem enquanto eu fui sendo forjado, aos poucos, por alguns anos, por um sofrimento brutal, por chibatadas impiedosas que se tornaram mais doloridas por conta do sal que escorria de meus olhos, eu aprendi. Porque eu ia aos bares, eu buscava outros ares, eu tentei ser cego e surdo até que me chegou o derradeiro grito que me fez perder o norte – que eu jamais conheci. E não vai ser agora, Jorge, que eu vou deixar de lado a calça curta, a camisa de malha listrada, os chinelos de dedo, não vai ser agora que eu vou assumir os ares que não se moldam a mim. Mas vai ser agora, é preciso que seja agora, a hora do meu descanso. Estás rindo, não é, Jorge? Eu também – opera-se o milagre! Não é a primeira vez – reconheço. E não será a última – sabemos, os dois. Foi, acho que foi, a necessidade da catarse. É que foi difícil, está sendo difícil, seguir a trilha e a picada que me foi indicada e aberta. Dá-me uma carona na garupa do teu cavalo. Vou ser, não tem jeito, até o fim dos meus dias, o menino que acredita que conduz a rédea e que comanda o pelotão enquanto grita com os cabelos e o rosto sendo espancados pelo vento. Serão muitos, sempre, os que sentirão um prazer supremo diante de meus tombos. Serão muitos, também, de outro lado, os que estarão sempre a postos e dispostos para mim. O que eu não quero mais é me enxergar como algoz de mim mesmo no espelho d´água no final da vereda, vendo a imagem refletida pela intensa luz que não há de me faltar, ainda que a mata seja densa e a caminhada seja tensa. Creio, firmemente, que hei de ter, por merecimento, minha devida recompensa.

Até.

5 Comentários

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5 Respostas para “PRA JORGE, EM VOZ ALTA

  1. Vera Mello

    Meu querido Edu,
    Sua lança atravessou meu peito sem perdão e eu lhe agradeço muito por isso. Eu que ando também sem palavras, me vali de seu texto e fiz pequena postagem sobre ele , eu que tenho escrito pouco e, como já disse antes, tenho sangrado por imagens. Você pediu carona no cavalo de Jorge e na corrida ainda teve forças para me puxar pela mão. Grande guerreiro você é, querido. Obrigada pela “pegada” , você sabe que Aldir escreveu a trilha sonora de minha vida, sempre disse isso. Você está fazendo a releitura em prosa. Te amo por isso e por tudo que vivemos.
    Verinha Mello

  2. Luciana Camargo

    Lindo!!!!
    Uma verdadeira oração!!!

  3. Rodrigo Medina

    Obrigado, Edu!

    Sinceramente receba meu obrigado. Sei que a barra pra ti não anda boa, mas quero lhe dizer que você tem brindado seus leitores com belissimos que nos faz refletir e muito sobre a vida. Espero que este vendaval que paira sobre você pare, que Jorge, te abençoa para seguir em frente,, que o menino de calças curtas jamais saia de ti.

    Abraço,
    Rodrigo Medina

  4. luciettem.r.p.Araujo

    Edu,conheci voce atraves da Vera,e me emocionou:pela força força, vigor,poesia,nosa mãe que aplaca os males.Não desista Edu,seja com a força de jorge,seja com esta força brutal que emana de voce.Esta energia solar,universal.Sem ela não sobrevivemos.Anda Edu, seu caminho é longo e bonito,pois basta ler seu texto.Ele (voce)nos toma e tras uma enorme vontade de caminhar,apesar de qualquer coisa.voce é homem Edu,apesar da coragem de sre menino e chorar.eu gosto de voce e não o conheço.Não é estranho?mas é sua energia que o faz ser querido.Segue em frente,sem omitir nada,mesmo que no alto esteja o precipicio e no baixo o inferno.pega linha do meio,onde voce pode avistar o ceu e ver cataratas,nascentes a terra,onde voce vai pisar.Estou contigo,poque voce fez-me mais viva e corajosa,porque voce é isto,sua mensagem é esta.Jorge escutou seu chamado e,nos escutamos tambem.Fique bem,empaz,com muita luz.Abraço voce carinhosamente,Luciette(lucietteribeiro@hotmail,com)

  5. luciettem.r.p.Araujo

    Oi,Edu,traz é com z,e escrevi com s.Não sei porque.FICA BEM,Lu.

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