SETEMBRO DE 69, ARREMESSO AO PASSADO

Ontem fui jantar no Alto da Boa Vista, na casa de meus pais, e eis que mamãe, à certa altura, deu início a uma de suas atividades preferidas: sacou alguns álbuns de dentro dos armários e deu de me exibir fotografias antigas, sendo que a graça, ontem, foi ainda maior. As fotos eram, ao menos para mim, inéditas. Daí começou o desfile de nomes, o desfile de mortos e de mortas, o desfile dos egunguns, o desfile da ancestralidade, até que estacamos diante desta foto (abaixo), de setembro de 1969.

Tinha eu, apenas, cinco meses de idade. A janela ao fundo denuncia: estávamos, eu e mamãe – é dela o polegar à direita… – na vila onde moravam meus avós e minha bisavó, na Tijuca, evidentemente. E quando eu me deparo com uma dessas fotos, quem me lê sabe, dá-se a mágica em mim: um abrupto guincho, um súbito tranco e sou arremessado ao passado de forma intensa e febril.

Mas não é exatamente sobre o tal arremesso que quero lhes falar hoje. O assunto é outro, e foi provocado por uma mulher com quem tenho me encontrado domingo após domingo, em busca de aconchego. Explico.

Publiquei a tal foto numa dessas redes sociais. E a Katia, é a ela que me refiro, soltou a frase:

– Você já tinha esse olhar… Choquei.

Pronto. Bastou ler isso e teve início em mim o desenho de uma vertigem: batimentos inconsistentes, suadouro, um ligeiro traço de febre, e uma dúvida que mantém-se enterrada em mim até o momento.

Aos cinco meses de idade eu já tinha o olhar do homem de 42 anos ou aos 42 anos ainda sou o moleque inseguro, no colo da mãe, com olhos de um menino começando a conhecer o mundo?

Faço a blague mas sei a resposta: sou, aos 42 anos de idade, e constatar isso – e vejam que constato isso com incrível freqüência – sempre me comove e me revolta, me aborrece e me apascenta, me emociona e me conforma, me deprime e me encoraja, me faz compreender demais a vida como ela é. Serei sempre o sujeito-menino capaz de oferecer um sanduíche de queijo e presunto à mulher amada como quem oferece a mais valiosa das jóias. Serei sempre o garoto, tímido, tentando balbuciar o inexprimível, serei sempre o covarde-romântico incapaz de falar de mim sem a primeira dose, serei sempre esse alucinado em busca de subverter o tempo e pronto para chocar a assistência – como a Katia – ao constatar que sou assim, moleque aos 42 anos, velho desde que nasci.

Até.

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3 Comentários

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3 Respostas para “SETEMBRO DE 69, ARREMESSO AO PASSADO

  1. marcia

    Primeiro que a Katia é uma mulher sensível e privilegiada por estar com você a cada domingo. E não, Edu, tu és o que a Katia descobriu em ti e o que a tua mãe segurou para poder quase dizer ou quase falar. Sua mãe sabia o Edu que teve, que tinha e a Katia sabe o que virá. Coragem, e sei que tens pois escreves lindo. Mas não sejas tímido, pois como diria nosso mestre Darcy, os tímidos sabem a razão da sua timidez. Não é o seu caso. Com muito afeto, Marcia.

  2. marcia

    e o olhar perplexo da sua geraçao. o mesmo da minha filha que nasceu em 71. vcs são os melhores e a katia sacou. no próximo churrasco aqui em casa , venha com ela e ela entenderá melhor este…. seu olhar inteligente
    festa .
    com amigos , bebela (filha ,marido e netos).todos brizolistas ou comunistas ou simpatizantes.tem tb ambientalistas. vou te chanar

  3. Pingback: 2012/2013 | BUTECO DO EDU

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