AS MULHERES SÃO TUDO, EU NÃO SOU NADA

“As mulheres são tudo, eu não sou nada. De madrugada, fico acordado pensando nelas, depois durmo pra sonhar com elas e acordo louco pra revê-las – vivo assim das primeiras andorinhas às últimas estrelas.”

Estes versos são de Aldir Blanc, a quem tantas vezes já me referi, aqui, como meu orixá vivo. Aniversariante de ontem, 02 de setembro, quando completou 65 anos, Aldir é meu amigo – tenho esse privilégio – há mais de 15 anos, quase há 20 anos. É meu amigo, é um tanto meu pai, um tanto meu irmão, é também meu conselheiro (e o fato de ser “meu conselheiro” causa arrepios no meu pai legítimo, o velho Isaac, que tem Aldir na conta dos malucos, a mesma qualificação que recebo de papai, quase sempre). Além disso, Aldir fala por mim – como fala pelo Brasil, ele que tanto entende a alma do brasileiro, do suburbano, do zona-norte. Fala por mim quando diz o que diz nos versos que abrem este texto, fala por mim quando diz “(…) falando de muita mulher, que sem elas a gente não vive (…)”, verso do samba Saindo à francesa, que compôs com Luiz Carlos da Vila e Moacyr Luz. Fala por mim quando diz “(…) depois café, cigarro e o beijo de uma mulata chamada Leonor ou Dagmar (…)”, verso de Rancho da Goiabada, composição dele e de João Bosco. Fala por mim quando escreve “(…) não há shampoo, não há creme que apague ou que desmarque da tua pele o meu beijo fedendo a conhaque(…)”… e por aí vai, que o repertório blanquiano é impressionante! E fiz esse intróito por que? Para lhes dizer meia-dúzia de palavras (sou um incorrigível… rasgo minha alma em público como quem prepara o espetáculo para a assistência). E porque, de fato, do alto de meus 42 anos, afirmo sem medo do erro que as mulheres são tudo e eu não sou nada. Afirmo, sem medo do erro, que de madrugada (como agora) eu fico acordado pensando nelas, depois durmo pra sonhar com elas e acordo louco pra revê-las. Como afirmo, também, que vivo assim das primeiras andorinhas às últimas estrelas. Grande, o Blanc!

De hoje a seis dias, no dia 09 de setembro, completar-se-ão dois meses desde o desaparecimento da Dani (aqui). Eu, que num primeiro momento vivi a sensação do alívio por conta do fim do sofrimento que assisti muito de perto, passei a vivenciar, de uns dias pra cá (mais precisamente do segundo domingo de agosto pra cá, vá saber o porquê desse timing), a brutalidade de sua ausência. Estou vivendo, como dizem os mais chegados, o tal do luto, que – dizem – é imprescindível para que eu prossiga o ciclo da minha vida. Dia desses me disse, uma mais-velha: “Você tem que se enxergar como o boi no matadouro. Sangre até a última gota. Ou isso não passa”. A princípio não gostei da comparação com um boi, pensei imediatamente na minha forma física. Depois, entendi. A saudade de alguém como ela, que viveu 12 anos ao meu lado, é como um baobá plantado no meio da minha sala, é impossível não percebê-lo. E das duas, uma: ou renasço à sombra do baobá ou viverei estacado diante do tronco assombroso que me assusta e me desestabiliza. Tenho desejado, como nunca, o colo de minha mãe. Mas estou velho demais – e ao escrever isso percebo a besteira que é essa sensação… – para pedir seu colo, o mesmo colo no qual me deitei, chorando, para contar a ela, recentemente, novidades que envolviam, é claro, uma mulher. Diante de minha angústia, naquele momento, sugeriu-me o Ifá: se tiveres coragem de deitar no colo de tua mãe, ainda que chorando, e contar a ela, seja o que for, esteja certo de que não há nada de errado. Tenho ligado, com alguma freqüência, para minha irmãzinha Stefânia, que já foi, à certa altura, minha mãe (sou normal?). Ligo em busca de uma absolvição tolíssima, mas lá está ela, sempre, disposta a me ouvir o choro e o pedido – também – de colo. Tenho sentido uma profunda saudade das minhas meninas, minhas afilhadas, presentes que minhas comadres – sem elas a gente não vive! – me entregaram, e fico pensando na Milena, pensando na Iara, pensando na Ana Clara, pensando na Dhaffiny, pensando na Rosa, pensando na Helena – mulheres em flor. Tenho feito confissões à noite pra minha avó Mathilde, que foi pro Orum em dezembro do ano passado, e às vezes ligo pra Guararema pra falar com a ialorixá que é dona de um dos colos mais ternos que jamais conheci. Tenho ouvido a voz da Tarcisa, a empregada de mármore da minha infância, a me chamar pro quarto dos fundos. Tenho recorrido à Glória, outra que me dá colo à distância, à Inês, que mesmo estando em NY não deixa de estar aqui, na Tijuca, sempre que pode, à sua moda. Tenho tido saudades inacreditáveis da comida da Grazi, a mais bonita cozinheira que o mundo já conheceu. Sempre que posso tenho pousado também nos braços da Sônia, diante dos olhos de compreensão da Marcela, irmã que a vida me deu, e vou em busca, quase sempre vã, do sorriso negro da Jô, que ilumina os olhos de quem o vê. E minha outra irmã, a Betinha, que jamais me nega as mãos cheias de carinho, os olhos cheios de perdão… E a Candinha, que depois de se tornar mãe, passou a me olhar com olhos de intensa piedade? Eu choro. E a Isabel, a pequena Isabel, que esteve no colo dela um dia antes de sua morte e que a fez sorrir demais? Mal sabe, a pequenina, o quanto eu a amo também por isso… ela que ainda engatinha… E a Leonor, que esteve comigo em Búzios, na semana passada, e que vale mais que toda a “escolta de malucas que me acompanhava aos bares”? Choro também por todos os sonhos que sonhei, eu que tenho acordado louco para revê-la, das primeiras andorinhas às últimas estrelas, pagando o preço por ser destemido e intenso, corajoso e inconseqüente, intenso e adolescente. E minhas comadres, Railídia, brasileira em estado bruto, a paraense mais luminosa do mundo, Stefânia, Mariana, a Lu, filha de Oyá, a Raquelzinha, a Ana, a Magali, a Renata, mulheres generosas que me deram, de certo modo, suas melhores porções. E aos domingos, há muitos meses, vou ao Aconchego Carioca em busca do aconchego do colo da Katia, e bebo com a Katia, e choro com a Katia, e rio com a Katia, e celebro a graça do encontro naquele pedaço, naquele jardim dessa cidade-mulher. Tenho dividido e repartido a alma com a Áurea, tenho ímpetos de me deitar no colo da Íris, de pedir a massa e o frango dos domingos à dona Rose, vá tentar entender o que se passa em mim!, e anseio por esbarrar com a Bia nos jardins de sua mãe, e tenho querido a Luana pra cuidar das minhas mãos, ela sempre tão doce me chamando de “tio”, e minhas sobrinhas me matam quando me olham com olhos-de-sobrinhas!, e minha cunhada argentina, a Lina, que tem os olhos mais tristes, como os de Florinda Bolkan, ela que tem sempre a palavra certa que só me acalenta depois de me machucar, e a Tetê, e a moça da rua do Lavradio, quando fui um vadio, que o tempo me trouxe de volta, e a Maria Paula, e a Débora, e a Terezinha, que me ofertaram a casa como quem oferta a própria alma, e as mulheres de meus amigos, e as minhas vizinhas, e dona Mari Lúcia que me apresenta como filho, e a Verinha, que canta pra mim, e as flores que ainda compro, mesmo sabendo que elas são incapazes de dobrar a aridez dos corações, e essa estúpida vontade de ser triste pra incorporar e expurgar a tristeza, e essa teimosia quase-infantil de cantar como Orunmilá me mandou cantar, para ser mais feliz, no ritmo do pilão de Babá, e chega – meus poucos, mas fiéis leitores… -, chega porque senão eu morro; de emoção, diga-se.

As mulheres são tudo, eu não sou nada.

Até.

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25 Comentários

Arquivado em confissões

25 Respostas para “AS MULHERES SÃO TUDO, EU NÃO SOU NADA

  1. Desde que acompanho – como fã e malungo da cavalaria azul de Gum – vossos escritos é esse, sem dúvidas, o melhor e mais bonito texto que li saído de vossa tijucana lavra. Simplesmente isso.

  2. Alfredo

    Rapaz, sem palavras.

  3. Bruno Ribeiro

    Sei que vivo de morrer/ Por ter outra ideia na cabeça/ De tanto brincar com a sorte/ Pode ser que a morte canse/ E me esqueça (Aldir Blanc)

  4. Gisela Camara

    Edu, fazia tempo que já não te lia. Tanto tempo que não sabia da Dani. Te mando um abraço forte e obrigada por compartilhar tuas emoções, que me emocionaram.

  5. Quando cheguei as trinta mulheres que você homenageia, tão carinhosamente, parei de contar e me dei conta que – elas são tudo hoje e sempre pra você – ,parabéns. abr.

  6. Pingback: As mulheres são tudo, eu não sou nada (via Buteco do Edu) | Beto Bertagna a 24 quadros

  7. marianna

    emocionante. belo. inspirador.

  8. Dulce Oliva

    me incluo no hall de seus leitores e mais uma vez me emocionei…junta tudo que escreve e por favor publique um livro seus textos são perfeitos!

  9. Luciana Camargo

    Emocionante!!! Edu, só você conhece a sua dor…..
    Vocês vão se amar eternamante, mas, infelizmente, não mais neste plano.
    Desejo serenidade prá vc! Bjim!

  10. Felipe Bezerra

    Faço minhas, e na íntegra, as palavras do mestre Simas!

  11. Samia Helena

    As mulheres leitoras de seu texto..esteja certo…sentiram-se homenageadas..pela caráter do gênero…expor-se plenamente como o faz é para poucos..vc é raro….

  12. Já convivo com essa ausência há quase 4 anos, Edu. E posso te dizer que a saudade aumenta de intensidade. Penso que a gente aos pucos até se acostume com ela, que por tanta intimidade conosco vai nos “doendo mais devagar”. O lado curioso e até mesmo interessante disso é que a vida vai aproximando, por afinidades, gente que está distante. Eu aqui em BH e vc aí na sua amada Tiijuca. Nem é preciso dizer que vc tem minha solidariedade eterna.

  13. Perla

    Mais um texto maravilhoso. Parabéns por saber traduzir tão bem em palavras as coisas sentidas. Abraço,
    Perla (do Pará, mas longe de casa)

  14. É a saudade em estado bruto, dói mesmo…

  15. Antonio Carlos

    Belisssimo… abrs ACarlos

  16. Vera Mello

    Meu amorzinho,
    Se aquela Verinha sou eu, lhe fico muito grata. Foi um dia complicado aquele, articulações daqui e dali… você deve imaginar a que me refiro. Como se não bastasse , a garganta está com um edema que tem me emudecido , hoje tenho sangrado por imagens. No entanto, pra você,
    cantarei sempre que minha voz lhe servir de unguento , de bálsamo ou
    simplesmente de companhia.
    Fique com meu beijo carinhoso e comovido.
    Verinha Mello.

  17. Bruno Ribeiro

    Que texto fantástico, Edu! Chorei. Eu sei que estamos longe mas, acredite, estamos perto. Eu penso em você todos os dias dirigindo à você meus melhores pensamentos. Um grande beijo.

  18. Mariane Candido

    Ops, é a Mari.

  19. Mariane Candido

    Fiz uma pequena confusão aqui, mas creio que entendeu. Já me perdi. Beijo.

  20. tete bezerra

    Faz tempo que sou sua leitora e mais,fã mesmo.Sigo vc no twitter e sempre me emociono com seus escritos.Moro em Natal,RN,cheguei ontem do Rio,estive na “capela”,na lapa e me lembrei de vc,um ano atrás estive la e vc estava,fui até sua mesa lhe cumprimentar,não sei se vc lembra.
    Vc resgata o melhor do Rio,danado que a gente ficar com vontade de beber nos botecos que vc cita.

  21. Danilo Gallo

    Texto lindo! Edu, a cada palavra tua fico mais teu fã. Que vontade que dá de sentar num butequim contigo e jogar conversa fora…

  22. ANA PAULA CAMPOS

    Dudu, você sempre me faz derramar lágrimas e mais lágrimas… Se precisar de um colo de prima… eis-me aqui!!! Beijos.

  23. Pingback: 2012/2013 | BUTECO DO EDU

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