TIJUCA EM ESTADO BRUTO

(texto publicado em 12 de setembro de 2009 no Caderno Idéias do Jornal do Brasil)

Semana passada deu-se, no prédio em que moro, uma cena de antologia, e explico. Quero fazer uma pequena retificação eis que escrevo como quem respira, sem parar pra pensar muito, o que me faz, neste momento, ter de recomeçar para ser melhor compreendido. Cenas de antologia são como água da bica no edifício em que moro. Todos os dias há várias delas, e eu poderia dizer, sem medo do erro, que os jardins babilônicos do meu prédio e seus banquinhos de praça são uma fonte permanente de inspiração igualmente permanente. A paisagem, pra quem vê de longe, lembra Mont Blanc, na França. Um mar de cabeças brancas suaviza o clima na área de lazer do edifício, e dia desses (semana passada) resolvi fazer o que eu poderia chamar de teste. Sou, vinte e quatro horas por dia, um criador de situações que me ajudam a compreender com mais apuro a alma humana, esse manancial inesgotável de surpresas. Vou lhes contar tudo com a precisão que me acompanha desde o berço.

Há uma coisa na Tijuca que causa mais terror e mais frisson que – o quê?! – ameaça de bomba em prédio público: a fofoca sobre a vida dos vizinhos, a expectativa da notícia quente, a novidade em primeira mão, o furo! E eu, eis a verdade nua e crua, lancei uma espécie de bomba imaginária de efeito moral entre os velhinhos e velhinhas que povoavam a área de lazer do condomínio na manhã de quarta-feira.

Desci às seis da manhã com meu glorioso vira-lata pelo elevador de serviço. Sentados nos bancos dispostos em círculo, cenário de todas as manhãs, os velhinhos, as velhinhas, as bengalas, as cadeiras-de-roda, as tosses, os terços, os livrinhos da Bíblia, as mãos trêmulas, os chinelos de arminho, os roupões (há, em meu edifício, uma velha que faz natação num clube próximo, o Casa da Vila da Feira e Terras de Santa Maria, e que sai de casa de chinelo de arminho, roupão, touca de borracha azul e uma prancha), as redes de cabelo, os leques em profusão.

Recebi o bom dia coletivo de todos os dias, estaquei diante de todas, meu vira-lata sentou-se e eu disse, depois de pigarrear (o pigarro foi o artifício que usei para me aproximar mais da terceira idade):

– As senhoras estão sabendo?

E segui caminho.

Ouvi murmúrios, um burburinho impressionante, fingi que não ouvi os chamados e parti para o passeio. Dobrei à direita, entrei na Almirante Gavião, dei uma volta pela pracinha, segui pela contramão da Doutor Satamini, entrei à direita na rua Caruso, tomei um café servido pelo glorioso Geraldo no Bar do Marreco, comprei um maço de cigarro, recebi o efusivo bom-dia do seu Brasil, freqüentador mais que assíduo do pedaço, e tomei o rumo da volta, pela Haddock Lobo mesmo. Quando surgi diante do portão do edifício vi uma festa de mãos e dedos, leques abertos numa coreografia que denotava um certo desespero (lembrei-me das festas de abertura das Olimpíadas) e chamados que me pareceram uivos de hienas diante de uma carnificina. De sacanagem, fiz que não para o porteiro e segui em frente. Fui até o Estudantil, pedi uma água com gás, escutei as expectativas da assistência sobre o jogo daquela noite, fiz uma fezinha num caça-níquel e voltei depois de uns vinte minutos.

Quando cheguei diante do portão, dei com a mesma cena que me fez lembrar o cais do porto durante a partida de um navio de guerra. Lenços brancos acenando, leques abertos e atônitos, e eu quase tropecei quando entrei no prédio, derrapando nos globos oculares que os velhinhos e velhinhas lançavam em minha direção do fundo do jardim como se fossem as bolas de gude da minha infância. Novamente de propósito parei na cabine do porteiro. Acendi um cigarro, puxei conversa com meu xará e ele disse:

– O que aconteceu, Edu? Elas estão agitadíssimas…

– Nada, ué.

E segui em frente, passos lentíssimos.

Estaquei diante daquela clínica geriátrica portátil. Uma velha asmática arfava como um fole e disse a frase que segurou durante meu passeio graças a um dique fictício que eu construí quando não lhe dei chance de redarguir na hora certa:

– Sabendo do quê?

Sentei-me na pontinha de um dos bancos.

Olhei pro chão (puro teatro).

Esfreguei os olhos com a mão direita (a esquerda segurava a coleira do meu vira-lata).

Funguei (estava com coriza, e só na Tijuca as pessoas ainda têm coriza).

A velha ao meu lado bateu com o leque fechado no meu joelho:

– Desembucha, menino! Sabendo do quê?

Olhei nos olhos de cada uma das velhinhas presentes (só havia velhinhas nesse dia, nenhum homem).

Ainda olhando para o chão, fazendo cara de terror e de choro, eu disse:

– Nenhuma das senhoras sabe? Mesmo?

Senti o ventinho provocado pelos nãos concomitantes.

– Então…

A asmática bateu no peito e disse:

– Conta logo, conta logo! – e batia o pezinho no chão, numa excitação de cinema.

Elas tinham a expectativa do assassinato na véspera, do suicídio, do adultério flagrado, da traição mais rasteira às escâncaras, e levantei-me, devagar.

– As senhoras vão saber… mas não por mim, não me sinto à vontade… É muito grave, é muito grave, e é inevitável que as senhoras saibam.

Eu tinha os olhos saltados (eu ia dizer rútilos, mas seria uma imitação grosseira demais). Segui em direção ao elevador fingindo choque.

Deixei pra trás aflição, agonia, apostas as mais estapafúrdias. Escutei, da porta do elevador:

– Será aquelazinha do sétimo andar? Não me engana, não me engana!

Outra, inconformada:

– Que diacho, esse menino! O que é que tinha que contar pela metade!

– Metade? Não contou nem um por cento! Danado!

Subi. Tomei meu banho. Deixei o interfone tocar sem atendê-lo. Pus o terno, ajeitei a gravata, tomei do lenço, pus perfume, calcei meus sapatos e desci de escadas para pegar o carro, na garagem, sem passar pelas velhotas.

Nunca vou de carro para o trabalho, foi só mais um elemento sórdido do meu teatro íntimo.

Passei a dez por hora por elas, de vidros fechados, ar-condicionado ligado, o rádio altíssimo tocando João Bosco.

Acenei.

Vi rostos desfigurados, agonia espalhada pelo jardim e pelas pedras portuguesas do chão.

Parti sem abrir o vidro, e pelo espelho retrovisor percebi a decepção das senhorinhas.

Tijuca, em estado bruto!

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9 Comentários

Arquivado em confissões, gente

9 Respostas para “TIJUCA EM ESTADO BRUTO

  1. dunha

    crônica a la fernando sabino

  2. Bruno de Aquino Parreira Xavier

    eehehhehehehe tjica em estado bruto é um clássico já…..

  3. Patricia Lopes

    Eu adoooro essa história !!!

  4. Bruno

    Como é que esse cara escreve um troço desses assim, de soslaio, essa obra-prima da literatura nacional? Na boa, Edu… Tu és meu cronista favorito, de todos os tempos. Conterrâneo e contemporâneo, vida longa!

  5. olha hoje o bicho tava solto saiu 2 resultado na PT urso em 1º o outro resultado foi colocado na PTN 1633 cobra só que as 14 horas saiu os dois resultados será que estou ficando louco …..

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