Arquivo do mês: agosto 2011

AS MANHÃS SÃO ESPONTÂNEAS

Já há anos que eu acordo cedo, cedíssimo, e que o despertador, sempre pronto pra tocar às seis horas, é apenas uma música de fundo, incômoda, a me lembrar do horário – e os sinos da Igreja dos Capuchinhos vêm em seguida, produzindo a trilha sonora do homem que olha pela janela como quem espreita o infinito que a ausência de mar na Tijuca não realiza. Sou, aos 42 anos, novamente o menino que dorme sozinho no quarto à espera da manhã pra me dizer, siga! Sou, aos 42 anos, novamente o menino aprendendo a andar, tropeçando nas palavras, tentando balbuciar o inexprimível, como na manhã em que precisei recorrer a duas long-neck geladas pra tomar coragem junto com a cevada, o lúpulo e outros cereais, antes de dizer o que me parecia justamente inexprimível. Sou, de novo, o poltrão, o inseguro, o que tateia antes do segundo passo, e ao mesmo tempo sou o que permanentemente cai por conta da ansiedade do passo-a-mais. Sou o que se levanta à espera das mãos que hão de me conduzir, embora ofereça minhas mãos, permanentemente, como prova de amor. Olhar pela janela, a cada manhã, antes de bater a porta e sair em busca de caminhar a esmo, tem sido parte desse exercício de enxergar o mais-distante, o tal infinito que é infinitamente mais bonito diante do mar. Tem sido necessário para me fazer (re)dimensionar meu papel e minha missão, minha meta e meus objetivos, para entender meus desejos e compreender os festejos e essa emoção que me chega, dia após dia. É quando rezo – e eu rezo como quem fala, não sigo rito, não sigo nada que não seja o coração, esse meu velho coração tijucano, rubro-negro e suburbano, já tantas vezes em frangalhos e hoje cheio de esperança de viver de novo. Sou, de novo, o que-descobre. O que tem sede das novidades que estão aí para serem vividas. Sou, ainda, o mesmo homem de olhos úmidos incapaz de se manter indiferente às emoções que a vida nos reserva. Sou o homem pronto e disposto a viver o que já tinha como certo na conta do irrealizável, do não-vivido. Sou o homem com olhos de susto, com olhos de medo, com olhos que extravasam luz ao pensar no por-vir. Sou o homem de 69, aquele moleque de calças curtas e camisas listradas e este homem de hoje, o que tem mãos que tateiam o futuro como quem tateia e anseia pelo que nem eu mesmo, se me fosse dado o direito de moldá-lo, teria sido capaz de imaginar tão bonito.

Até.

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VELHAS RUAS

Vira e mexe me vem à cabeça o verso blanquiano “… velhas ruas, cansado da boemia, entre essas pedras, um dia, quero cair e morrer…”. Sou, como se vê, embora eu seja um sujeito em permanente estado de ânimo, um trágico (sempre fui um trágico). Desde que ouvi a tal canção pela primeira vez que eu não consigo andar em qualquer rua de paralelepípedo sem que me venha à mente:

– Quero cair e morrer…

É que ando, meus poucos mas fiéis leitores, e pra me valer um pouco mais da poesia do bardo, sentindo meu coração vacilando e saindo, às vezes, fora da velha cadência. É só um momento, bem sei. Mas eu, que faço disso aqui uma espécie de auto-divã no qual converso sozinho comigo mesmo (e tenho piedade aguda de minha pessoa, nessas horas…), não poderia deixar de lhes dizer isso.

Sou eu, aos 42 anos de idade, e logo eu, que tantos arremessos ao passado sofro ao longo do tempo, sentindo, mais que o peso da idade (sou uma múmia que caminha serelepe), o peso bruto da vida bruta e toda a sua bagagem composta de lembranças, de dores, de medos, de ansiedade, de insegurança, desse misto entre a pureza da criança e a crueza da vida adulta, entre as esperanças e as frustrações, entre a calmaria e a turbulência, entre a cumeeira e o baixio, de perdas, de muitos ganhos, de amores que vêm, de amores que vão, de muitas alegrias, de momentos que se cravam em nós como flecha, essa boniteza infinita que a vida dá a todos nós. É preciso, mais que nunca é preciso, saber lidar com isso. Não nos resta outra opção. A vida está aí, queiramos ou não.

E eis que é essa a visão que tenho, permanente, da trilha que sigo na vida. Sigo pela imaginária rua de paralelepípedos, sinto nos ombros, sem que isso me incomode, o peso fabuloso e desejável da vida, sempre com medo, com certo medo, de que eu de fato caia e morra, embora seja inevitável, é evidente, que esse dia um dia chegue. Minha rua de paralelepípedos tem, entretanto, e é isso que me sustenta, e é isso que me dá de novo o compasso que o coração pareceu perder, uma nesga permanente de intensa luz a me guiar os passos.

Ouçam aqui, que o troço é bonito de doer, e foi escrito para sua mãe, Helena, a quem tive o prazer de conhecer, Aldir Blanc cantando Velhas Ruas.

Até.

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UÍSQUE, 8 ANOS

Fui com ele ao shopping mais próximo, a bem da verdade, pra fazer passar o tempo. O Flamengo entraria em campo às quatro da tarde, eu estava mesmo querendo beber alguma coisa pra preparar o coração pras emoções do jogo – poderíamos assumir a liderança do campeonato, o que de fato acabou acontecendo -, tomamos a direção do Outback, no subsolo e, diante da previsível fila, nos restou o balcão do bar. Antes, faço a confissão, fui constrangedoramente convencido por ele a comprar um desses jogos eletrônicos modernosos, depois de um argumento que, vindo de criança, dificilmente não me derruba:

– Eu quero tanto…

DVD do tal jogo comprado, lá fomos nós, então, pro balcão do bar.

Primeira frase:

– O que você vai beber?

– Um chope – eu disse.

– Chope? – e fez uma cara de quem me condenava pela escolha.

Emendou:

– Pede uma cachaça, uma tequila, um uísque.

– Por que?

– Você está num bar! Chope, você bebe sempre.

– Vou beber chope. E você?

E ele pediu o cardápio à moça do balcão.

Leu com atenção e abriu olhos e boca ao mesmo tempo, uma máscara.

– O que foi? – eu perguntei diante do que me pareceu um susto.

Não era susto. Era excitação:

– Eu já tenho nove anos! Nove anos!

– Sim, e daí?

Apontou pro Red Label, no cardápio, e disse, seriíssimo:

– Já posso beber esse uísque. É pra quem tem mais de 8 anos, ó! – e me apontou a legenda “8 anos”.

A moça do balcão guinchou de rir, eu expliquei a ele o que significava aquilo, rindo, e a cara de decepção foi, faço nova confissão, capaz de me apertar o peito. Ele contentou-se com refrigerante e levou um tempo até aceitar a idéia de que precisa esperar um bocado de tempo, ainda, pra dividir bebida com quem quer que seja.

O menino vai demais com a minha cara, e esse que vos escreve é, hoje, um sujeito que anda de quatro diante dele. Eu, padrinho de mais de uma dezena de crianças, aprendi (ou isso é nato, não sei…) a lidar com elas. Eu, que não sou pai, talvez por isso leve mais a sério do que a média o fabuloso encargo de ser padrinho, o “pai pequeno” dos pequenos e pequenas que me foram confiados. Ele, o moleque a que me refiro, não me foi exatamente confiado. Não sou padrinho dele, é o que quero lhes dizer.

Mas ele vai demais com a minha cara, como já lhes disse, e eu vou demais com a cara dele.

Paguei a conta do bar e tomamos, de mãos dadas, o rumo de casa para ver o jogo. Deitei-me no sofá e ele, grudado em mim como uma iguana, disse:

– Posso ver o jogo em cima de você?

– Pode!

Primeiro tempo, zero a zero. Aos 30 minutos do segundo tempo, eu já nervoso, bola na trave, o tempo passando, ele me cutucou na cabeça:

– Fica calmo, Edu! O Flamengo vai fazer o gol aos 44 minutos!

Dito e feito.

São aquelas coisas que, sem modéstia, só acontecem comigo.

Ele, hoje, muito presente na minha vida, me trouxe sua caixa de lápis de cor e me mostra cores novas a cada dia. Também por isso, como tantas vezes tenho dito, só tenho razões pra agradecer, minuto após minuto, os desenhos que a vida reserva pra mim. Sempre que os caminhos me foram doídos, abri uma picada na mata e pude respirar de novo. Talvez seja, como disse meu mano Luiz Antonio Simas, dia desses, fruto do movimento de pilar o pilão que Oxalá faz, transformando dor em beleza.

Até.

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