SALVE, O RIO DE JANEIRO!

“Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”. Foi como acordei hoje, com gosto de sangue na boca, com dores de corte na carne, com uma saudade indizível e determinado a (re)começar, minha sina, eu acho, desde 1969, e lá se vão mais de 42 anos de tropeços e de um compromisso permanente no sentido de me manter bem, animado, aprumado, feliz na medida do possível, que aos 42 anos não tenho mais a tola ilusão de que a felicidade é constante – não é. O ânimo, sim, e não quero, e não posso, e não vou perdê-lo. Sou, afinal e sobretudo, um homem que faz planos e fazer planos é manter-se vivo, na mais ampla acepção da palavra, e meu plano de hoje incluía mudança abrupta nos rumos da minha condução de vida no que diz respeito, precipuamente, à saúde. Foram muitos anos fumando, foram muitos anos bebendo de forma desregrada, foram muitas noites em claro, foram muitos os atropelos, os sustos, as dores, foram incontáveis também os colos que me chegaram, os melhores sustos, as melhores surpresas, os melhores amores. Sempre soube subverter as chamadas curvas descendentes e reverter isso era, como já lhes disse, meu plano de hoje.

Eu já estava caminhando, todas as manhãs, aqui mesmo na Tijuca. Ninguém mais tijucano que eu, mas não é exatamente, a Tijuca, o cenário ideal para o exercício das manhãs. Fui dormir decidido a pegar o carro bem cedo e atravessar o Rebouças para caminhar na Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos mais bonitos – se não o mais bonito! – pedaços da cidade.

E fui, confesso, durante os quase 90 minutos que levei pra dar uma volta inteira no espelho d´água, um sujeito em estado de graça diante da beleza estupenda que há de sobra na Cidade Maravilhosa.

Às 6h11min da manhã, depois de exatos 10min entre a Tijuca e a Lagoa, eu já estava com o carro estacionado na altura da Fonte da Saudade, quando não me contive: tive de fazer a primeira fotografia do dia. O Morro Dois Irmãos, a Pedra da Gávea, e essa intensa luz absurda que “quase arromba a retina de quem vê”.

Mais à frente, já na altura da Curva do Calombo, pouco depois da baia de treinamento do remo do Botafogo, outra visão estonteante: os mesmos morros, agora refletidos nas águas da Lagoa me davam a certeza da minha escolha, tão simples, tão ao alcance das minhas mãos, tantas vezes adiada…

Caminhando ainda mais, cheguei na altura do Corte do Cantagalo, próximo ao pier de onde saem os tradicionais pedalinhos. O sol dava sinais de que subiria, em poucos minutos, por trás do Corte,  e já eram outras as cores dos morros, dos prédios, já era outra a cor do espelho d´água, e eu ali já suava de forma abjeta. Caminhar ali, naquele ritmo, sem os sinais de trânsito que eu enfrentava na Tijuca, sem a necessidade de atravessar as ruas, parando apenas para ganhar fôlego, fotografar e beber água de côco, foi um prêmio que me permitirei usufruir de hoje em diante.

Estava eu na altura do Caiçaras, próximo ao Canal do Jardim de Alah, caminhando em direção à Fonte da Saudade, de costas para o Corte, quando percebi uma boa quantidade de pessoas – muita gente caminha na Lagoa, por óbvio! – fotografando algo por trás de mim.

Virei-me e era o sol, gigantesco, sem nuvens à sua frente, subindo por trás do Corte do Cantagalo.

Quase uma hora após o início da caminhada, parei pra beber uma água de côco em frente à Hípica, pouco depois do Clube Naval, paguei 3 reais num côco geladíssimo, chorei um bocado – sou incorrigível, pioro a olhos vistos… – e senti o sopro da satisfação por estar vivendo, mais uma vez (foram tantos, e tantos, e tantos…) um recomeço.

Ri de mim mesmo quando perguntei a ela, mentalmente (para evitar que o vendedor de côco me pusesse, com razão, na conta dos loucos), se eu estava cumprindo minha palavra, caminhando àquela hora, na Lagoa, em busca do melhor pra mim.

Uma hora e 24 minutos depois, cheguei ao ponto de partida.

Suando em bicas.

Cansado, mas feliz.

E sentindo-me um privilegiado por viver aqui, na cidade mais bonita do mundo.

Até.

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6 Comentários

Arquivado em confissões, Rio de Janeiro

6 Respostas para “SALVE, O RIO DE JANEIRO!

  1. o Rio de janeiro é mesmo o lugar mais lindo do mundo. É um privilégio viver aqui!

  2. Betinha

    Digo para o Felipe e para a Isabel desde que nasceram: vocês têm muita sorte de terem nascido nessa cidade linda!!!

  3. Betinha

    E também agradeço pela sorte que tenho e tive, já que os rumos da minha vida nunca me desviaram por muito tempo deste abençoado pedaço do mundo.
    Beijos, querido!

  4. Samia Helena

    É tão bonito que qdo olho chego a pensar que não sou humana..que venho de outro lugar…ou é demasiadamente humano..estar entre tanta beleza..ah sorte..sorte demais de vcs..que só precisam de poucos minutos para desfreutar de tudo isso…como dizia o poeta..”é bonita..é bonita..e é bonita”…
    Bjs….

  5. Incrível a beleza dessa cidade. A cada domingo, quando saía cedíssimo da Lapa em direção à Urca para jogar o sagrado futebol, me deslumbrava a cada minuto. Fazia questão de ir de bicleta para ver, devagar, a cidade (e a paisagem) acordando…

  6. É por essas e outras que dentro de mim mora um banzo de mil exílios.

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