OS BOTEQUINS CARIOCAS

Dia desses eu estava ancorado no balcão do Rebouças, tremendo pé-sujo no Jardim Botânico, com meu compadre Leo Bochat. Contou-me o Leo o que me pareceu ser uma notícia alvissareira, embora nem ele mesmo soubesse confirmar a coisa: mas parece que o Poder Público, mais precisamente a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, está para organizar uma série de debates visando preservar, de verdade (e já explico o “de verdade”), essa verdadeira instituição brasileira, carioquíssima por natureza: o botequim. Eu disse “de verdade” porque essa mesma Prefeitura, há muitos anos, lançou o hoje controverso Guia Rio Botequim, legítimo quando nasceu e deformado ao longo dos anos. Explico, mais: com o passar do tempo, patrocinadores, investidores, homens de marketing (um dos maiores males do último século), em nome da preservação do botequim, passaram a destruir, sem dó nem piedade, o legítimo pé-sujo carioca em nome da modernidade e da adequação do espaço às exigências dos consumidores (que jamais freqüentaram botequins, diga-se de passagem). Arrisco dizer que tratar o botequim como espaço de consumo é o mesmo que tratar o futebol como entretenimento. Vai daí que começaram a pipocar discursos absolutamente impensáveis para o troço: um que se dizia amante dos botequins mais vagabundos passou a se preocupar mais com o limão do mictório do que com o limão da casa; outro, que se dizia um ferrenho bebedor de Brahma, de Antarctica, passou a exigir carta de cerveja nos butecos; outro, ainda, passou a exigir treinamento para os atendentes de balcão… e a coisa foi degringolando, o tal Guia Rio Botequim passou a ser um verdadeiro “vade-mécum de otário”, como diz meu mano Fernando Szegeri, e fomos vendo desaparecer, aos poucos, inúmeros botequins que eram verdadeiros patrimônios da cidade, a segunda casa do povo mais simples, mais humilde, que tem no botequim, como afirma o brasileiro máximo, Luiz Antonio Simas, seu espaço de discussão, de vivência, de convívio, de resistência.

O que parece ter movido o Poder Público para pretender organizar as tais discussões foi justamente esse susto, que pode ter sido tarde: não há mais a Casa Brasil, na Praça São Salvador, nem a Adeguinha, que ficava ao lado, ambas engolidas pela sanha do Belmonte, a grande rede que estuprou, primeiramente, no princípio de suas atividades nocivas e assassinas, o legítimo Belmonte, na Praia do Flamengo, para ali erguer a primeira de suas lojas (sim, são lojas), hoje espalhadas pela cidade, como metástase. Não há mais um sem fim de pés-sujos na Lapa, totalmente descaracterizada por mentiras em forma de bar, igualmente como metástase.

Resiste, entretanto, um ou outro estabelecimento. Resiste o Bar Brasil, na Mem de Sá, mas até quando? Resiste o Armazém Senado, mas até quando? Resiste o Bar Rebouças, mas até quando? Parece que nasceu daí a iniciativa da Prefeitura, que buscará meios efetivos para proteger esse grande patrimônio da cidade do Rio de Janeiro. E faço breve digressão, de novo, sobre esse portento que é o pé-sujo (há tempos não falo sobre o tema).

“Buteco é templo”, é frase lapidar e conhecida, de Aldir Blanc. É o “hospital das almas”, numa apaixonada e exagerada definição de Felipe Quintans, nosso Cereal. Essa instituição, carioca por natureza, está por aí, no Brasil inteiro, como porto seguro de gente que gosta de gente – não de pose. Estive em Campinas, por exemplo, no ano passado, e Bruno Ribeiro levou-me a seu pé-sujo preferido, e ali estava o Brasil em estado bruto, e ali senti-me em casa. Em São Paulo, há uns meses, Fernando Szegeri apresentou-me o bar da dona Lola (não sei o nome do bar, nem mesmo sei se há nome para o bar, e eis aí uma das características do genuíno pé-sujo), e ali também estava o Brasil a escorrer das paredes e do imenso balcão de mármore, cada vez mais uma raridade. Aqui no Rio, no meu pedaço, na minha Tijuca, são muitos os que resistem bravamente à modernidade – mas até quando?, eu me pergunto.

Só no meu pedaço, no meu entorno, há o Matosinho, o Rex, o Almara, o Gonzaguinha, o Trás-Os-Montes, o Marreco, o Estudantil, o Rio-Brasília, o Nova America, o Columbinha, o Céu na Terra, o Pink, o Buteco do America, o Bar do Chico. Espaço de convívio de gente comum, pais-de-santo, paus-de-arara, passistas, flagelados, pingentes, balconistas – salve, Aldir Blanc!, de novo e sempre -, manicures, motoristas e trocadores de ônibus, biscateiros, apontadores do jogo do bicho, andrajos, advogados, jornalistas, gente que não quer nada além de uma cerveja gelada, um tira-gosto honesto, de um balcão pra apoiar o cotovelo pra jogar conversa fora, ver o futebol e discutir política, mulher, religião e tantas outras questões capazes de, naquele ambiente, salvar o mundo.

Torço muito pra que dê certo a iniciativa da Prefeitura – a ser verdadeira a informação que me foi passada pelo Leo Boechat. O Rio de Janeiro, penhoradamente, agradece.

Até.  

9 Comentários

Arquivado em botequim, Rio de Janeiro

9 Respostas para “OS BOTEQUINS CARIOCAS

  1. Frequentei muito o Rebouças mas parei por conta do babaca do dono, o Seu Alberto. Ser grosso é uma coisa, agora ser grosso com freguês é inadimissivel. Mas sou amante dos botecos.

  2. Cris

    Sem um bom boteco a vida fica muito ais sem graça. Tomara que Leo Boechat esteja certíssimo.

  3. Morro de medo desses projetos de preservação, venham eles do poder público ou da iniciativa privada.

    Quem, afinal, terá a missão de preservar os nossos butecos? Que critérios empregará em sua cruzada pela preservação? Como se dará esse processo? Os butecos autênticos serão tombados? O que é “autêntico”?

    Temo que esse processo de preservação acabe por interferir ainda mais no buteco, tirando a criatividade e a espontaneidade que sempre fizeram parte desses ambientes. A graça do buteco não estaria na sua própria reinvenção?

  4. Denis Kuck

    Taí, pior que jornalistas, só os homens de marketing. Mas pior que todos eles, só mesmo os advogados…

  5. fabio basso

    Acho que você cometeu um engano: HOMENS de marketing não são o mal do século. O mal do século são os MENINOS de marketing.

  6. sergio

    Caro Edu, só resta saber se o Poder Público tenha a mesma visão de botequim que voce, se não!!!!

  7. Gustavo Mehl

    Ô Edu, desculpe, mas me surpreendeu seu otimismo, ou talvez sua ingenuidade… De minha parte, torço muito para que a informação não seja correta e que a prefeitura NUNCA se meta a empreender iniciativa nenhuma de “preservação” ou do raio que o parta pra “proteger” botequim, ou sei lá o quê. Que ela nunca se atreva a tocar em botequim, e que lave mil vezes a boca antes de falar uma única palavra sobre nossos botecos. Ainda mais ESTA prefeitura de NEGÓCIOS. Dali não dá pra esperar nada, sinceramente. Ciclo de debates? Ai… Sinto calafrios só de pensar… Fico com o comentário do Bruno Ribeiro.

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