BÚZIOS – ALDIR BLANC

A caminho de Búzios dentro de poucas horas, baixo a âncora até segunda-feira e deixo com vocês, meus poucos mas fiéis leitores, um de meus poemas preferidos de um de meus orixás vivos, Aldir Blanc, publicado em seu livro “Um cara bacana na 19a.”, editora Record, 1996. Um de meus preferidos, também, porque tive o privilégio de estar em Búzios, durante os tais três dias a que ele se refere no poema (os mesmos três dias que me aguardam por lá), em 1995, numa casa absolutamente indescritível na praia da Ferradura, alugada por nosso irmão em comum, o saudoso Marco Aurélio, que, como em milagre, transportou pra lá o escritório do Aldir, única exigência feita pelo Blanc para aceitar a proposta (irrecusável, diga-se). Eu, minha primeira mulher, Aldir e Mari, Mariana e Isabel (duas de suas filhas, a primeira minha comadre), Milena (minha afilhada), Pedro e Joana (dois de seus netos), Sérgio Touro e Gilda, Moacyr Luz com a mulher, e o Mello Menezes. Foram três dias, desses de ficção. A churrasqueira acesa durante as 72 horas, uma quantidade industrial de gelo, uísque, cerveja e caipirinha, e aquele mar que só vendo.

“Armação de Búzios, entendi:
se você tem encantos, use-os.
Os meus se foram há muito tempo atrás.
Como um prisioneiro em Alcatraz,
sentia o cheiro iodado do mar,
ouvia a urgência das gaivotas
mas eu não podia
ou melhor, eu não sabia
– o que é a pior forma de não poder.

Armação de Búzios,
que mulheres!
Não o vulgar banquete
pra quatrocentos talheres.
Mulheres não são comida.
As mulheres são a alma
de tudo, a nossa alma repartida,
a minha alma.
As mulheres são tudo, eu não sou nada.
De madrugada, fico acordado pensando nelas,
depois durmo pra sonhar com elas
e acordo louco pra revê-las
– vivo assim
das primeiras andorinhas
às últimas estrelas.
Na praia do Forno,
a moça de flor nos cabelos
beijou a amiga na boca
e descobri, calmíssimo,
sem extra-sístole no coração:
eu sou sapato, Armação!

Bebi com o Ivan no Capitão,
comi ostras no Fernandão…
Chega de ão, Armação.

Três dias em ti, me olhei no espelho
e deu-se o teu milagre:
tinha dentes deslumbrantes,
um topete à John Travolta,
suíças, um bugre negro
e uma escolta de malucas
que me acompanhava aos bares.

Armação de Búzios,
Deus guarde os teus mares
enquanto por terra caído
arrumo as malas
e volto a ser um velho
mas, justiça seja feita,
com uma certa pose,
a aura de um Don Juan que se aposenta
depois de ter traçado a indígena mais bela.

Armação de Búzios,
meu muito obrigado.
Volto pra Muda um tanto alquebrado:
cada um sabe onde seu orgulho mela
mas deixei em ti um orgulho renovado.
Depois da Ferradura,
vou pro caralho a vela.”

Até.

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1 comentário

Arquivado em poesia

Uma resposta para “BÚZIOS – ALDIR BLANC

  1. Parecem ter sido três dias memoráveis!

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