GAUCHE

“Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida!”. Quem não conhece isso, trecho de conhecido poema de Carlos Drummond de Andrade? Em seu sensacional livro sobre o bairro de Vila Isabel, para a coleção Cantos do Rio, Aldir termina escrevendo: “Vai, Aldir, ser Blanc na vida, em nome da Vila!”. Vai daí que eu hoje acordei megalomaníaco. A Insônia, essa senhora egoísta que me fez companhia durante a noite, soprou em meu ouvido, alta madrugada, ao me ver chorar debruçado na janela:

– Vai, Edu, ser Goldenberg na vida.

Nada poético, reconheço. “Gauche” e “Blanc” melhor se encaixam na construção, o que me faz pensar que é preciso valer-se da língua francesa para dar graça ao troço. Mas não sou francês, meu sobrenome é judaico, sou brasileiro, tijucano, torcedor do Flamengo e do Salgueiro, e bem que gostei do sopro que ouvi à noite.

Vou, por isso, seguir minha sina. Vou seguir tropeçando e contabilizando as incontáveis cicatrizes que tenho, frutos de igualmente incontáveis tombos, todos eles incapazes de interromper minha saga particular, íntima e privada. Até quando?, me pergunto. Mas nem mesmo essa reflexão, raríssima, é capaz de me frear o ímpeto que nasceu junto comigo no longínquo abril de 69. Não me cobrem sanidade, eis que fui forjado pela mais absoluta falta de racionalidade. Não me cobrem equilíbrio, eis que vou do breu à luz, do calor insuportável das mãos unidas à geleira azul da solidão, em questão de segundos. Não me cobrem parcimônia, eis que só compreendo entrega quando intensa, profunda e cortante. Não me cobrem calma, quando o que eu quero é o carnaval. Não me cobrem paciência, eu só entendo tensão de músculos rasgados e doídos. Se amor só é bom se doer, a vida só é boa se sangrar. Não me cobrem cuidado, eu prefiro a decepção ao estado de alerta. Não me cobrem a sabedoria do velho marinheiro, sou mais chegado aos rompantes de Elegbara. Não me cobrem matar a sede com água mineral, prefiro saciá-la com oti. Não me peçam pra esperar o dia de amanhã ou pra celebrar a data que passou, eu sou capaz, sabe-se lá como, de dobrar o tempo e viver mais à frente o que já vivi, ou o que nunca vivi, e reviver o que só viverei daqui a muitos anos – ou nunca. Não me sugiram preces pra aplacar as saudades, eu prefiro cantar e fazer a cama da dor pra que ela se deite do meu lado. Não me cobrem coerência, eu sou dissidente de mim mesmo. Não me ditem as regras, eu as subverto todas. Não queiram de mim a maturidade dos 40 anos, permaneço de calças curtas e camisa listrada pronto pro próximo tropeço. E não me venham com a conversa de manter aceso em mim o menino que um dia eu fui, sinto-me velho como uma múmia e disposto a fazer coisas que nem quando menino eu fiz. Não me peçam a metade de nada, só sei oferecer o inteiro.

Quando nasceu o dia, hoje, quando o sol despontou sobre os edifícios (notem a falta de poesia e seu excesso, numa manhã tijucana), eu tinha a cara lavada, os olhos vermelhos, as mãos trêmulas, as pernas bambas, o coração acelerado em ligeiro descompasso, e estava dotado de uma coragem que, nem mesmo nos sonhos em que sou herói, eu nunca tive.

Talvez só mesmo meu mano Luiz Antonio Simas me compreenda: mas não por acaso, em todas as oportunidades que me foram dadas de estar diante de Ifá, Orunmilá me disse:

– Você é filho de Ogum, meu filho. Mas quem te sopra nos ouvidos, o tempo todo, é Exu.

Até.

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11 Comentários

Arquivado em confissões

11 Respostas para “GAUCHE

  1. Bruno Ribeiro

    Laroiê!

  2. Patu

    No momento em que pensamos que tudo acabou, é que a vida recomeça de verdade.
    Ogunhê!

  3. Vanessa Ornella

    E eu, filha de Oxum que sou, chorei te lendo.

  4. ontem a vó disse que a noite era de Exu

  5. Felipe Bezerra

    Lindo, lindo, lindo!

  6. Monica Machado

    Eita! Elegbara, ê, moforibale agô!

  7. Dulce Oliva

    ao menos acho q vc se entende e se encontra….adorei

  8. Luciana

    “Guarde consigo este espírito: o que você sente é seu e é em você mesmo que está. Vá em frente, que o que tiver que ser seu virá ao seu encontro. Faça a sua parte, que os céus fazem a outra.” Bjim!!!

  9. l.a. simas

    E vamos cantar…

  10. Perla

    Belo texto! Abraço

  11. Tenho um texto parecido no conteúdo, mas sem a belezae do seu estilo. Deve ser falta de talento ou talvez porque minhas cicatrizes são menores e menos profundas, mas a verdade é que li, reli, agora morro de inveja porque queria eu tê-lo escrito. Parabéns.

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