CENAS TIJUCANAS

Corria sei lá que domingo, não lembro nem a fórceps. Sei que era dia de Flamengo – e também não consigo me lembrar do adversário… – e dia também de jogo do Vasco, o que significa dizer que o Bar do Marreco, meu camarote preferido em nove dentre dez jogos, estava fervilhando de gente. O Marreco, um desses donos de botequim que parece ter sido criado pelo ficcionista, anunciou, pouco antes do começo do Brasileirão 2011:

– Rapaziada, assinei hoje o Net Congo! – que “combo” é palavra desconhecida do caboclo.

Eu havia cumprido o ritual de todos os domingos: havia ido à feira bem cedo, ao Mundial, ao Aconchego Carioca, marquei de almoçar no Rex com Felipinho e Leo Boechat e chegamos no bar pra ver o jogo faltando – o quê?! – menos de dez minutos pro começo da partida. Vamos ao cenário.

O bar tem uma TV de 29 polegadas que fica bem diante do balcão. No fundo, uma pequena, de 21 polegadas, que passa sempre um jogo diferente. Como Flamengo é Flamengo, o jogo do mais-querido passaria na TV maior, o do Vasco na TV dos fundos. Havia umas quarenta pessoas espremidas no recinto. Hino nacional sendo cantado na TV. Eu disse ao Marreco, já debruçado no balcão:

– Marreco! Empresta uma tomada pra carregar meu celular!

Sabe-se lá se antevendo a tragédia, disse o Marreco pro Boechat:

– O cara parece que não paga a conta de luz… vem todos os dias carregar esse celular aqui… – e não me respondeu. Passou por mim como uma flecha.

Determinado a carregar o telefone, que se esvaía, debrucei-me sobre o balcão e me deparei com um comovente emaranhado de fios diante de mim. Ao mesmo tempo em que disse – “Vou carregar aqui!” – encaixei o macho da tomada do carregador na fêmea de um dos benjamins espetados na tomada da parede (eu disse “um dos benjamins” porque eram uns 3 ou 4, um encaixado no outro, verdadeira armadilha à espera da tragédia incendiária). Faltavam menos de dois minutos pro começo do jogo, os times já se encontravam posicionados, a tensão pairava sobre as cabeças da assistência. No que espetei o carregador, deu-se a explosão. Não fui arremassado pra calçada porque fui escorado pelo Boechat. Subitamente, breu absoluto no bar. Silêncio. Não se ouvia as TVs, que desligaram. Não se ouvia o ronco do motor das geladeiras. Não se ouvia um pio vindo da assistência, assombrada diante do estrondo. O Leo, com as mãos na cabeça, sussurrou no meu ouvido:

– Não fosse a sua moral aqui e você estaria sendo linchado…

De fato era essa, a cena: eu estava cravado por mais de oitenta olhos que espumavam de ódio (a primeira foto abaixo não engana, eu e minha cara de “fiz-merda”, com o carregador ainda na mão!), mas ninguém foi capaz da agressão verbal. O Marreco me olhou com olhos de piedade. O Borracha, eletricista, na segunda foto abaixo, de camisa listrada, pediu calma do alto de seus mais de dois metros e passou a dar instruções ao próprio Marreco, desolado do lado de dentro do balcão, e ao Jair (ambos na mesma segunda foto), freqüentador honorário (o Jair está com a camisa do Flamengo), que pôs a mão na massa de fios derretidos.

O Borracha fez o possível e, é fato, em menos de cinco minutos as TVs estavam funcionando – com um adendo gravíssimo, entretanto: foi preciso fazer uma gambiarra (mais uma, diga-se) que obrigou o Marreco a manter a geladeira desligada para manter ligadas as TVs. Aí sim a cuíca começou a roncar:

– Ô, Marreco! A cerveja vai ficar quente, imbecil? – são doces, os freqüentadores do Marreco.

A tarde ainda reservava surpresas. Com menos de 15 minutos de jogo, a TV menor, a que passava o jogo do Vasco, do nada, aparentemente sozinha, passou a transmitir o insuportável programa do Fausto Silva. Foi quando caiu por terra o mito do pay-per-view do Marreco. Diante do justificado protesto da torcida cruzmaltina, apontando para um fio que rasgava o teto do bar, o Marreco disse, de olhos baixos:

– Essa TV é gato puxado da casa do seu Brasil…

Foi vaiado.

Um vascaíno foi pra calçada e gritou, olhando pra cima:

– Ô, Brasil! Põe no jogo do Vasco, porra!

O bom Brasil o atendeu. Palmas nos fundos do bar.

Veio o intervalo. E um grito:

– Desliga a TV e liga a geladeira! A cerveja está esquentando!

E assim foi feito.

Jogo terminado – o Flamengo venceu, o que fez com que os contratempos fossem absolutamente relevados -, ainda desceu o seu Brasil com duas panelas gigantescas, uma com camarão frito e outra com arroz de frutos do mar.

A título de curiosidade: a tomada do microondas, a tal que eu explodi, continua lá, do mesmo jeito, à espera da próxima tragédia.

Isso é Tijuca, meus poucos mas fiéis leitores.

Tijuca em estado bruto.

Até.

16 Comentários

Arquivado em botequim, futebol, gente, Rio de Janeiro

16 Respostas para “CENAS TIJUCANAS

  1. Felipinho

    Lembrando que o Borracha é jogador de basquete aposentado. Grande dia.

    • Leo: acabo de lembrar que esse dia foi o mesmo dia em que aconteceu a festa do Zé de Abreu, o dia em que o Bruno Ribeiro estava no Rio… Você lembra a data certa? Lembra o adversário do Flamengo?

  2. Sensacional! Hahahaha e você precisa de uma bateria extra no celular, para parar de usar a tomada do bar do marreco. 🙂

  3. o bom nerd aconselha: uma bateria extra pro celular. precisa disso aqu: http://goo.gl/7cphK / mas arruma um ‘executivo de fronteira’ pra te trazer isso mais barato de fora.

  4. Hahahaha é nóis, jampa! E se descolar alguém pra trazer, quero uma também hahaha

  5. Cris

    Certamente nada mais tijucano que sua narrativa. Parece que vejo a cena se reproduzir, com outros personagens, umas poucas quadras acima… cada vez melhor, cara. Nem parece o “chato” do quiz.. srsrsrs

  6. Felipe Bezerra

    Das mais hilárias que li por aqui, nestes meus quase cinco anos de leitura – diária – deste balcão.

  7. Eu estava lá e confirmo a história. Só que cheguei cinco minutos depois de a energia ser reestabelecida no bar. Grande dia.

  8. Dulce Oliva

    Eu queria ver a sua cara na hora q fez a besteira!

  9. Por isso que me identifico com este blog, é assim , de verdade, com tv velha e gambiarra….Aliás eu sei fazer uma gambiarra que dá gosto, quase uma técnica. Igual a vida da gente… simples assim….

    Abração !

  10. Agora , na boa, pra que essa agonia de carregar p. de celular ????

  11. Esse aparelho lasquento mesmo !

  12. Hahahaha, ótimo texto. Achei por acaso.

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