AS MANHÃS SÃO ESPONTÂNEAS

Já há anos que eu acordo cedo, cedíssimo, e que o despertador, sempre pronto pra tocar às seis horas, é apenas uma música de fundo, incômoda, a me lembrar do horário – e os sinos da Igreja dos Capuchinhos vêm em seguida, produzindo a trilha sonora do homem que olha pela janela como quem espreita o infinito que a ausência de mar na Tijuca não realiza. Sou, aos 42 anos, novamente o menino que dorme sozinho no quarto à espera da manhã pra me dizer, siga! Sou, aos 42 anos, novamente o menino aprendendo a andar, tropeçando nas palavras, tentando balbuciar o inexprimível, como na manhã em que precisei recorrer a duas long-neck geladas pra tomar coragem junto com a cevada, o lúpulo e outros cereais, antes de dizer o que me parecia justamente inexprimível. Sou, de novo, o poltrão, o inseguro, o que tateia antes do segundo passo, e ao mesmo tempo sou o que permanentemente cai por conta da ansiedade do passo-a-mais. Sou o que se levanta à espera das mãos que hão de me conduzir, embora ofereça minhas mãos, permanentemente, como prova de amor. Olhar pela janela, a cada manhã, antes de bater a porta e sair em busca de caminhar a esmo, tem sido parte desse exercício de enxergar o mais-distante, o tal infinito que é infinitamente mais bonito diante do mar. Tem sido necessário para me fazer (re)dimensionar meu papel e minha missão, minha meta e meus objetivos, para entender meus desejos e compreender os festejos e essa emoção que me chega, dia após dia. É quando rezo – e eu rezo como quem fala, não sigo rito, não sigo nada que não seja o coração, esse meu velho coração tijucano, rubro-negro e suburbano, já tantas vezes em frangalhos e hoje cheio de esperança de viver de novo. Sou, de novo, o que-descobre. O que tem sede das novidades que estão aí para serem vividas. Sou, ainda, o mesmo homem de olhos úmidos incapaz de se manter indiferente às emoções que a vida nos reserva. Sou o homem pronto e disposto a viver o que já tinha como certo na conta do irrealizável, do não-vivido. Sou o homem com olhos de susto, com olhos de medo, com olhos que extravasam luz ao pensar no por-vir. Sou o homem de 69, aquele moleque de calças curtas e camisas listradas e este homem de hoje, o que tem mãos que tateiam o futuro como quem tateia e anseia pelo que nem eu mesmo, se me fosse dado o direito de moldá-lo, teria sido capaz de imaginar tão bonito.

Até.

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7 Comentários

Arquivado em confissões

7 Respostas para “AS MANHÃS SÃO ESPONTÂNEAS

  1. Ronaldo

    Muito bonito! Me vi em algumas passagens….

  2. Yvy

    ‘as frases e as manhãs são espontâneas levantam no escuro e ninguém pode evitar …’ bela fonte de inspiração, Aldir dispensa adjetivos é mestre. E você absorveu as frases lindamente. Bela confissão!

  3. Dulce Oliva

    Me emocionei….

  4. Renata M. Domingos

    E o espetáculo da vida continua…belo texto!

  5. Hérica Rodrigues

    Parabéns. É assim que Deus quer te ver, e eu também. Força na alma, esperança e leveza no coração. Deus te abençoe, Edu Poeta. Bjs com carinho e muita prece.

  6. Dri

    …E ele expressa exatamente aquilo que sente..é raro em um mundo tão cheio de aparências…

  7. Estava há um tempo sem passar por aqui, mas vejo que você anda afiado, nos presenteando com belíssimos textos.
    Abraço!

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