UÍSQUE, 8 ANOS

Fui com ele ao shopping mais próximo, a bem da verdade, pra fazer passar o tempo. O Flamengo entraria em campo às quatro da tarde, eu estava mesmo querendo beber alguma coisa pra preparar o coração pras emoções do jogo – poderíamos assumir a liderança do campeonato, o que de fato acabou acontecendo -, tomamos a direção do Outback, no subsolo e, diante da previsível fila, nos restou o balcão do bar. Antes, faço a confissão, fui constrangedoramente convencido por ele a comprar um desses jogos eletrônicos modernosos, depois de um argumento que, vindo de criança, dificilmente não me derruba:

– Eu quero tanto…

DVD do tal jogo comprado, lá fomos nós, então, pro balcão do bar.

Primeira frase:

– O que você vai beber?

– Um chope – eu disse.

– Chope? – e fez uma cara de quem me condenava pela escolha.

Emendou:

– Pede uma cachaça, uma tequila, um uísque.

– Por que?

– Você está num bar! Chope, você bebe sempre.

– Vou beber chope. E você?

E ele pediu o cardápio à moça do balcão.

Leu com atenção e abriu olhos e boca ao mesmo tempo, uma máscara.

– O que foi? – eu perguntei diante do que me pareceu um susto.

Não era susto. Era excitação:

– Eu já tenho nove anos! Nove anos!

– Sim, e daí?

Apontou pro Red Label, no cardápio, e disse, seriíssimo:

– Já posso beber esse uísque. É pra quem tem mais de 8 anos, ó! – e me apontou a legenda “8 anos”.

A moça do balcão guinchou de rir, eu expliquei a ele o que significava aquilo, rindo, e a cara de decepção foi, faço nova confissão, capaz de me apertar o peito. Ele contentou-se com refrigerante e levou um tempo até aceitar a idéia de que precisa esperar um bocado de tempo, ainda, pra dividir bebida com quem quer que seja.

O menino vai demais com a minha cara, e esse que vos escreve é, hoje, um sujeito que anda de quatro diante dele. Eu, padrinho de mais de uma dezena de crianças, aprendi (ou isso é nato, não sei…) a lidar com elas. Eu, que não sou pai, talvez por isso leve mais a sério do que a média o fabuloso encargo de ser padrinho, o “pai pequeno” dos pequenos e pequenas que me foram confiados. Ele, o moleque a que me refiro, não me foi exatamente confiado. Não sou padrinho dele, é o que quero lhes dizer.

Mas ele vai demais com a minha cara, como já lhes disse, e eu vou demais com a cara dele.

Paguei a conta do bar e tomamos, de mãos dadas, o rumo de casa para ver o jogo. Deitei-me no sofá e ele, grudado em mim como uma iguana, disse:

– Posso ver o jogo em cima de você?

– Pode!

Primeiro tempo, zero a zero. Aos 30 minutos do segundo tempo, eu já nervoso, bola na trave, o tempo passando, ele me cutucou na cabeça:

– Fica calmo, Edu! O Flamengo vai fazer o gol aos 44 minutos!

Dito e feito.

São aquelas coisas que, sem modéstia, só acontecem comigo.

Ele, hoje, muito presente na minha vida, me trouxe sua caixa de lápis de cor e me mostra cores novas a cada dia. Também por isso, como tantas vezes tenho dito, só tenho razões pra agradecer, minuto após minuto, os desenhos que a vida reserva pra mim. Sempre que os caminhos me foram doídos, abri uma picada na mata e pude respirar de novo. Talvez seja, como disse meu mano Luiz Antonio Simas, dia desses, fruto do movimento de pilar o pilão que Oxalá faz, transformando dor em beleza.

Até.

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13 Comentários

Arquivado em confissões, gente

13 Respostas para “UÍSQUE, 8 ANOS

  1. Salve Edu. Você já tem um colo para reclinar a cabeça. É isso aí!

    Mais um texto para minha coleção!

  2. Olha, eu ando chorando muito nesse blog. Tem que ver isso aí, Edu!

    Parece que a sua feliz vida nova já começou! \o/

    E eu tô MUITO feliz com isso, viu?
    Muitas cores pra vocês! ;))))

  3. Antonio Carlos

    a do 8 anos foi demais…..abraços EDU,,, ACarlos

  4. Cris

    Boas companhias atraem alto astral. Keep walking.

  5. Luciana Camargo

    Oi Edu,

    Lindo texto!!!
    Pode ter certeza que sempre aparecem anjos na nossa vida… e “esse” é um deles.
    Um abraço, Luciana. (BH)

  6. Andre

    É a cara do Luquinha…

  7. zé sergio

    O guri tem tudo para ser botafoguense: perspicácia, humor, cinismo e doçura. Falta apenas a autoflagelação, mas isso vem com o tempo. A vida vai ensinar os melhores caminhos ao moleque. Eu, por exemplo, aos nove anos, era vascaíno.

  8. Hérica Rodrigues

    Nada como a gente cuidar de alguém pra gente se sentir cuidado de volta. Bjs e tudo de bom!

  9. Vanessa Ornella

    Adorei o moleque, quero um desses pra mim! 🙂

  10. Renato Pacca

    Muito bom… Parabéns!

  11. Pingback: DO DOSADOR | BUTECO DO EDU

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