O PRIMEIRO OLHAR

É evidente que eu não me lembro do slide do meu primeiro olhar nem dos primeiros olhos que cruzaram com os meus. Foram os de minha mãe, entretanto. Mamãe, que me esperou com medo e ansiedade – como lhes contei aqui – até hoje tem olhos de dar à luz quando me vê. Lembro-me, com impressionante nitidez, dos olhos e do olhar de minha bisavó diante de mim, atrás dos óculos – olhos de sabedoria e de um carinho infinito. Lembro-me dos olhos e do olhar de minha avó diante do primeiro neto. Lembro-me dos olhos e do olhar de cada uma das mulheres com quem cruzei pelo caminho. Olhos de cumplicidade, muitas vezes. Olhos de oceanos de medo e olhos de cais e de segurança. Olhos da babá. Olhos das empregadas de mamãe, olhos da mulher de mármore que me convocava, às vezes, pro quarto dos fundos. Os olhos das professoras, os olhos das passistas que meu pai me mostrou tantas vezes, em tantos carnavais, os olhos de minha comadre que foi minha mãe noutra altura, os olhos de minhas afilhadas e os olhos de suas mães, tão generosas, que me entregaram suas melhores porções. Todos refletidos nos meus olhos de menino, hoje com ptose – mas de menino, ainda. Meus olhos pequenos, permanentemente úmidos e prontos pra chorar. Os olhos da primeira namorada, os olhos da menina com quem descobri o amor, os olhos de susto e de surpresa. Os olhos, esses labirintos que, dizem, diminuindo a potência e os mistérios do olhar, são o espelho da alma. São mais que isso. São o infinito, os olhos. São os olhos que denunciam, são os olhos que entregam, são os olhos que põem por terra, muitas vezes, o dissimular dos gestos e das falas. Não me esqueço dos olhos, de todos os olhos. E não me esqueço, e isso é impressionante, de meu próprio olhar – quase sempre boiando e em busca da luz dos olhos alheios. Não me esqueço, sobretudo, dos olhos que meus olhos viram quando vi o desejo plantado nos olhos que cruzaram os meus. São meus olhos, repositório dos meus registros, permanentemente em busca dessa luz que me impulsiona, que me renova, que me mantém vivo, que olha pra trás com olhos de gratidão e que olha pra frente com olhos de esperança. São meus olhos, querendo balbuciar o inexprimível. São meus olhos, que não me traem. São meus olhos encharcados, como agora, em busca dos olhos que me acalentam. São meus olhos, melhores intérpretes de mim, meus tradutores, poço misterioso que guarda meus amores e minhas dores. São meus olhos suburbanos, tijucanos, minha retina que também não me trai. São meus olhos que me dizem, hoje, a cada manhã, pra que eu siga em frente, ainda que eu tropece, em busca dos olhos capazes de me apagar filmes geniais, rebobinar o século, meus velhos carnavais, minha melancolia. Buarquianamente. É o que tenho feito, cumpridor obediente que sou da sina que me foi entregue, como roteiro, no longínquo abril de 69. Foram necessários quase treze anos pra que esses olhos chegassem mais perto, e um pouco mais de vinte e oito, depois de sua chegada, pra que eu os descobrisse. Quando eu os vi, pela primeira vez, eu já sabia.

Até.

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12 Comentários

Arquivado em confissões, gente

12 Respostas para “O PRIMEIRO OLHAR

  1. Felipe Bezerra

    Nossa, Edu, teus últimos textos estão lindos e comoventes demais. De verdade! É impossível não se sensibilizar diante da leitura destas peças. Grande abraço!

  2. Patu

    Morrri! Que lindo!
    Patu

  3. Patrícia R.

    Realmente o olhar é a janela da alma. Como tal, nos desafia a observar a complexidade do outro e a questionar o que de fato temos a oferecer… A nos oferecer. Falar sobre o olhar é tb dizer sobre a forma como vemos as pessoas. Nem todos são gentis… Nem todos nos mostram a sua verdadeira lógica. E, para finalizar, olhar é tentar – muitas vezes – entender o caminho trilhado pelo o outro, esse que dedicamos nosso afeto e fé… Acho que para esses, somente a alma compreende.
    Grande texto.
    Grande abraço…
    Patrícia

  4. Renata Werneck

    Tão lindo, Edu.

  5. Que beleza, meu velho. Que beleza!

  6. Eduardo Carvalho

    Nossa senhoooora, Edu!!!
    bj

  7. Luciana

    Como não chorar?
    Nem precisa de comentários…. maravilhoso!!!!
    Um abraço.

  8. zé sergio

    Cacilda! Muito bom!

  9. Maria

    Lindo Edu!
    Seus textos são um belo exercício de maiêutica e uma bela maneira de aquietar o coração!Beijos meu filho!

  10. ACARLOS

    belissimo EDU…abraços
    ACARLOS

  11. Michele

    Me encanta cada leitura,é impossivel não me sensibilizar.
    Abraços…

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