ESSA GAGUEIRA INFANTIL

Sou viniciano até a alma. Impressionam-me, há anos – desde a primeira vez, quando li, ainda moleque – os versos “Resta essa imobilidade, essa economia de gestos / Essa inércia cada vez maior diante do Infinito / Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível / Essa irredutível recusa à poesia não vivida” do “O Haver”, poema-prece de Vinícius de Moraes que pode ser ouvido aqui, na voz do próprio com comovente violão e voz de Edu Lobo ao fundo. Impressiona-me, a bem da verdade, todo o poema-prece, ao qual já dei, ao longo da vida, as mais diversas interpretações, como deve ser, mesmo, com qualquer grande poema. Acho pouco provável – a obra é sempre maior que o homem que a produz – que o próprio Vinícius tivesse uma única explicação (como se fosse possível explicar o que inexplicável) para “O Haver”. O fato é que tenho lido e ouvido, muitas vezes, “O Haver”.

Passei ontem, depois de muitos anos, minha primeira sexta-feira absolutamente só, em casa. Vivi, de forma brutal, a tal “intimidade perfeita com o silêncio”. Fui respeitoso com a noite, falei (sozinho) baixo, tive medo e me mantive, durante horas, imóvel entre os móveis dispostos de forma inédita e no cenário novo que a Vida desenhou pra mim. Fui, como em tantas outras oportunidades ao longo de meus 42 anos de vida, um menino querendo balbuciar o inexprimível. Chovia, fazia barulho, restava-me, naquele momento, a comunhão com os sons da rua e eu experimentei, de certa forma, a angústia da simultaneidade do tempo.  Chorei diante da beleza – porque a Vida, meus poucos mas fiéis leitores, é de uma boniteza indizível… Sonhei. Busquei transfigurar a realidade, subvertê-la, e enxerguei, alta madrugada, “essa pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas dão o nome de esperança”. Serei – sei que serei – capaz de “caminhar dentro do labirinto”. Serei – sei que serei – capaz de levantar “depois de cada queda”. E terei – sei que terei – “essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo infantil de ter pequenas coragens”.

Quero da Vida – como se fosse permitido fazer pedidos que sempre soam tolos diante do grande segredo que a caracteriza – as coisas mais simples. Quero manter-me assim: com medo – o medo é fundamental, desde que não nos paralise! – e com coragem.

Quero seguir caminhando. Amando, precipuamente. Vivendo meus arremessos ao passado como uma homenagem a tudo o que já vivi. Tolo é o homem que maldiz seu passado, tolo é o homem que maldiz qualquer acontecimento vivido, tolo é o homem que nega as experiências enfrentadas, eis que somos, hoje e agora, resultado do acúmulo de tudo – rigorosamente tudo – o que vivemos.

Tolo, também, é o homem que se prende ao que foi vivido, fazendo do passado as grades que o impedem de seguir em frente.

Eu quero mais – como diz o samba, de novo e sempre ele! – é botar meu bloco na rua.

Amanhã, domingo, vou ao Bar do Chico, cenário de minhas domingueiras desde há séculos, celebrar a Vida, celebrar a arte de todos os meus encontros e erguer um brinde a tudo o que já vivenciei ao longo de minhas existências a fim de que eu possa celebrar, ao lado dos meus, a festa que é uma de minhas marcas.

Esse brasileiro máximo que atende pelo nome de Luiz Antonio Simas costuma dizer que “terreiros e botequins são espaços de ritualização da vida; vida sem rito é falsa feito cerveja sem álcool e preto velho sem cachimbo.”.

Vamos, pois, amanhã, a esse rito pagão que tanto me comove.

Chinelo nos dedos, maracujá à mesa, muita Brahma gelada enchendo os engradados, muitos amigos nessa comunhão pagã que me comove, e se alguém perguntar por mim… diz que fui por aí.

Até.

Anúncios

9 Comentários

Arquivado em confissões

9 Respostas para “ESSA GAGUEIRA INFANTIL

  1. Erguerei meu copo daqui. À nossa!

  2. Vera Mello

    A vida é realmente tão linda… e fica ainda mais linda vendo um amigo falar dela desse modo. Tenho compartilhado com você cada palavra por aqui , cada sentimento e nao conheço outro modo de viver em plenitude sem que façamos com a vida o que você vem fazendo. É preciso deixar que ela se valha de nossos sopros interiores, recolhendo e expandindo, recolhendo e expandindo, como o pulsar essencial… como nossa respiração… perdendo /acelerando o ritmo nos momentos de medo e coragem e recuperando o batimento harmonioso a cada instante de recuperaçao da harmonia interior. Não conheço outro modo de fazer tim-tim a tudo que vivemos. Brindemos pois!

    Depois da emoção daquela foto, tangencio a alma de nosso bardo de algibeira :
    – Vai meu amigo… ser Edu em nome da vida!
    Beijo carinhoso ,
    Verinha

  3. Apareça lá amanhã, Verinha, no Bar do Chico, esquina da Afonso Pena com Pardal Mallet… Devo pousar na área por volta das 11h30min!

  4. É isso meu amigo, nada melhor do que dar tempo ao próprio tempo que ele será generoso conosco. Como você disse, atrás das nuvens negras está a luz, e uma hora ela acaba aparecendo. Só que tem vezes que ela aparece tão forte que faz com que essas nuvens negras do passado pareçam brinquedo de criança, tornando a vida uma coisa de louco, fundamental pra ser vivida e brindada, como faremos amanhã. Bola pra frente, pois tem muita luz por aí. A propósito, essas havaianas são minhas preferidas. Beijo, velhão.

  5. ACarlos

    daqui…(Campinas)….amanhã…todas as Brahmas em sua homenagem… a vida é bela….abraços

  6. Eduardo Carvalho

    Edu:
    “O Sol
    Há de brilhar mais uma vez…”
    Já estou ansiosíssimo aqui salivando o maracujá que beberemos todos juntos daqui a pouco! Luísa já pergunta se o bar, papai, é aquele de mesas azuis na calçada onde fomos outro dia…
    Até já, meu amigo. Até sempre!

  7. Um brinde daqui de São Gonçalo e um imenso abraço, avante !!!!!

  8. Luciana

    Oi Edu,
    Desde o ano passado, quando me apresentaram o BUTECO DO EDU, nunca mais deixei de te acompanhar. Você tem sido uma lição de vida para muitas pessoas como é pra mim….
    Já ri e já chorei contigo….
    Acho lindo a forma como você fala de sua família e do jeito que você teve que encarar a perda…. sei que não deve ser fácil, mas o amor de vocês é eterno, porém não mais neste plano…..
    ” A morte é a vida que começa com uma despedida” (adoro essa frase).
    Mas lendo esse texto me vi na mesma situação há dois anos (porém com minha separação)…. e fui guerreira da mesma forma que está sendo, porque com o medo é que vem a coragem…. coragem essa que precisamos ter todos os dias, principalmente nos dias de solidão(ou não).
    Fico muito feliz por ter te encontrado, mesmo sendo através de uma tela de computador.
    Felicidades!!! Luciana BH
    PS.: Obrigada por aceitar meu convite de amizade no Facebook… rs.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s